Autores
-
jul- 2026 -4 julho
VENDE-SE
Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um s
Leia mais » -
4 julho
Quando Jesus encontrou os Orixás
Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar. Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais. Ao chegar a uma velha encruzi
Leia mais » -
3 julho
AUTO JUDICIAL
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as e
Leia mais » -
2 julho
Tudo o que cabe num instante
Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses
Leia mais » -
2 julho
No fim das contas
Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século. Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de posi
Leia mais » -
1 julho
Não sou desse mundo
Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre d
Leia mais » -
1 julho
A reciclagem
Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a
Leia mais » -
1 julho
A Vida e as suas Escolhas
E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas expe
Leia mais » -
jun- 2026 -30 junho
A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar
É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas. Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei
Leia mais » -
30 junho
Apenas uma bolinha
Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”. Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que
Leia mais » -
29 junho
Poema #75: 459 A
Abandono totalnuma casa de 29 m²com vista de fundopara um bambuzal.O piso era claroantes de eu pisá-lo,mas depois a vidaconverteu-se emdesordem e acordeideitado de costasnum corredordo lado de fora,com a chave na mãoesquerda coberta desangue e a fúria cegade quem não se lembrade nada. Uma Escada que Deságua no Silêncio
Leia mais » -
29 junho
Poema #07: Parado há duas horas
Estou parado há duas horas.Já fui de um lado a outroFui de esquina a esquinaPercorri cada quadrado de chão. É que me cansaram as pernasEntão deixei-me aqui.Por um lado parece-me um tanto sagrado,De outro, nefasto e ridículo. É que andei tanto que já não tenho por onde ir.Cumprimenta-me o passo do outroQue por um lado atravessa a ruaDo outro, acena e desviaOu o de mais longe, que caminhaE eu, que já não soube de onde vinhaSó, via. O movimento do mundo me de
Leia mais » -
29 junho
Caso verdade
Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente, já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lix
Leia mais » -
28 junho
Quem escolhe o vencedor?
Quem inventou a Dança das Cadeiras provavelmente nunca imaginou que estava ensinando biologia. A brincadeira é simples: coloca-se uma cadeira a menos que o número de participantes. A música começa, todo mundo circula e, quando ela para, vence quem conseguir sentar. O azarado fica de pé e está fora da disputa. Sem perceber, aprendemos ali uma lição que parece acompanhar a vida adulta: vence quem chega primeiro. Crescemos acreditando nessa lógica. No vestibu
Leia mais » -
28 junho
Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro
— Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara. Joaquim não ergueu os olhos do caderno. — Isso soa como frase de alguém cansada. — É exatamente isso. — Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria. Ela riu. — Ainda me surpre
Leia mais » -
28 junho
Fantasias
— O que foi dessa vez, Noêmia? — Sei lá. Não está funcionando. — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né? — Calculo. — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme? — Então… — Então, o quê? — Mangueira enorme, uma piada… — Sem ironias, Noêmia. — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor. — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim d
Leia mais » -
28 junho
O Rei, o poeta, a mulher e o mar
Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo. O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuv
Leia mais » -
28 junho
Quem foi Maria?
Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado. Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer
Leia mais » -
27 junho
A alegria das pequenezas
— Olha o que eu achei! — O que é isso? — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar. — Levar? Para onde? — Para onde eu quiser! — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer? — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim. — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse? — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio co
Leia mais » -
27 junho
Qual seu sonho hoje?
Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos. O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário
Leia mais » -
27 junho
Vinte Meia Um
O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar
Leia mais » -
26 junho
Zé das Estrelas
E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas. Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava fut
Leia mais » -
25 junho
Um trabalho de verão
Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre u
Leia mais » -
25 junho
Regulação emocional
Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo. Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as
Leia mais » -
25 junho
O segredo da boa colheita
Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca
Leia mais » -
24 junho
O entregador
O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência. O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coita
Leia mais » -
24 junho
Adalberto, O Invejoso
Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civiliza
Leia mais » -
24 junho
Serena
Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde
Leia mais » -
23 junho
Desertos
Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia
Leia mais » -
22 junho
Poema #74: ( )
Suspenso na tardecomo uma lâmpada queimadanum porão deserto,figura o lado esquerdode um parêntesis aberto. Seu estado resultado itinerário de sombrasem que um homem se perdena solidão de seus próprios passos,esquecidos sequer sem deixar uma marca. Sua abertura demonstraa imperiosidade do erroque determina sempreque as flores se abram para cumprirseu papel de beleza e de decomposição. O parêntesis aberto no escuronão é senão a necessidadede se sair do estág
Leia mais »





























