Crônicas

Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)

Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a visão.

Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, embora não necessariamente torça para o Fluminense. O time tem sede no bairro de Laranjeiras, cortado por uma rua de mesmo nome, na Zona Sul – não confundir com a Rua Laranjeiras, na Pavuna. Há muitas árvores por lá, mas poucas que dão laranjas. Fica perto do Largo do Machado, que não é uma homenagem a Machado de Assis. O escritor é homenageado, isso sim, no Parque Machado de Assis, no Santo Cristo, apesar de ter vivido no Cosme Velho.

Da mesma forma, quem mora no bairro do Botafogo – ou na Rua Botafogo, em Parada de Lucas – não necessariamente torce para o Botafogo, assim como ninguém precisa ser flamenguista para morar no bairro do Flamengo, tampouco na Rua Flamengo, em Santíssimo. A sede do Flamengo fica na Gávea. A Pedra da Gávea, não. Essa fica em São Conrado.

Laranjeiras, Flamengo e Botafogo ficam perto da Baía de Guanabara. Guanabara, aliás, já foi estado. A cidade era o Estado da Guanabara. O resto, o Estado do Rio de Janeiro.

Mas pouco importa se você é tricolor, rubro-negro, alvinegro ou se tem a má sorte de torcer para o Vasco da Gama, cujo estádio, São Januário, não fica em São Januário, mas no bairro Vasco da Gama. Até o carioca que conhece a cidade como a palma da mão pode se atrapalhar com a barafunda de ruas batizadas com nomes de barões, condes, viscondes e marqueses, aos quais se soma uma tropa ainda mais numerosa de generais, marechais, coronéis e outras patentes.

Aposto dez reais que todo mundo por aqui já se atrapalhou pelo menos uma vez na vida. Por exemplo, confundiu a Rua Barão de Lucena com a Rua Barão de Capanema. Ou a Praça General Glicério, em Laranjeiras, com a Praça General Osório, em Ipanema. E não pense que acabou: há Rua Ipanema em Irajá e Rua Ipanema na Barra da Tijuca. Barra da Tijuca, aliás, que não é o bairro da Tijuca, nem a Floresta da Tijuca.

E a Linha Vermelha? É a que liga a Baixada Fluminense ao Rio, passa pelo Galeão e chega à região do Centro, certo? De carro, sim. De metrô, há também uma linha de cor vermelha, que sai da Tijuca e vai até a Barra de Guaratiba. Perdão, me enganei. Da Tijuca. Se por engano for parar São Cristóvão quando deveria ir para São Conrado, tenho uma má noticia: está longe pra c****! E não desça na Estação Uruguai se o seu destino é a Uruguaiana!

Jardim Botânico é bairro e jardim botânico. Lagoa é lagoa e bairro. Maracanã é bairro, estádio e estação de metrô. Tijuca é bairro e floresta. O Maciço é da Tijuca. A Barra também. O Largo é de muitos, como do Machado, da Glória e do Carioca. A Ilha pode ser de Paquetá, do Fundão, das Cobras ou até do Governador. Só não pense em procurá-lo por lá. Quem é e como chegou ao governo, é uma longa história.

Botafogo e Flamengo são times, bairros, praias e estações de metrô. E ainda existe a estação Acari/Fazenda Botafogo, em Acari. Fluminense é time, gentílico de quem nasce no estado do Rio e também nome de rua em Nova Iguaçu. E há ainda o Parque Fluminense, que é bairro em Duque de Caxias, não parque.

Se ficar confuso e for pedir informações, cuidado. “Parada” pode ser qualquer coisa: ponto de ônibus, drogas, uma festa muito louca ou uma crise existencial profunda. “Caraca” pode significar tanto “que beleza” quanto “que desgraça”. “Confia” pode ser justamente o momento em que você deveria começar a desconfiar.

Não demorei para perceber que, dependendo da situação, “bora marcar” pode perfeitamente significar “espero nunca mais ter que olhar para a sua cara.” E, atenção: se você é trabalhador e planeja ir ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, no fim de semana, planeje de novo. O samba acontece às segundas-feiras. E costuma lotar.

André Cunha

André Cunha nasceu em Brasília (DF) e, há três meses, escolheu o Rio de Janeiro como cidade de residência. Escritor e cronista, publicou o romance Quem falou?, indicado ao Prêmio Jabuti 2024 na categoria Romance Literário, e a coletânea Você tem um crush e outras crônicas, ambos pela editora Litteralux, além de outros livros. Também escreve na imprensa.

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