Coluna ‘ Crônicas’ de sexta-feira

  • Karim, a alegria da feira

    Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê.

    Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo mais do que qualquer outra coisa. Seu campo de visão é restrito por sua altura de menino de seis anos.

    O sono é mais forte que sua curiosidade. Por isso segue comportado, sem explorar o mundo multicolorido e polifônico que o envolve. Caminha devagar quase desequilibrado, encostando de vez em quando a mão na perna da calça da mãe. Até que escuta seu nome ser gritado. Vira o rosto devagar, com um sorriso tímido. A mulher que vende bananas abre os braços para ele. A mãe sorri e dá um toque de leve no seu ombro para que vá até ela.

    A mulher sorri de orelha à orelha e o põe no seu colo. Karim dá um risinho tímido enquanto ela o enche de beijos. Pega uma banana e dá ao menino que, antes de aceitar, lança um olhar de consulta à mãe que abana a cabeça em aprovação. Karim não come mas segura firme a banana.

    A mulher circula com ele por trás das outras barracas de frutas. O menino é popular. A mãe o acompanha com o olhar. Pega Ana, sua irmã, e a segura no colo mostrando onde vai o irmão. Ela mexe no hijab da mãe que com carinho afasta sua mãozinha gorda do seu véu.

    Karim circular sempre no colo da vendedora de bananas. Mais mulheres sorriem e fazem festa para ele. A mãe acompanha e espera pacientemente que ele termine seu tour de afagos. Ela tem mais oque fazer e não veio à feira a passeio. Mas interrompe tudo por esse momento feliz. Para ela, para o filho e para as trabalhadoras da feira que todo sábado esperam a chegada dele. Karim, a alegria da feira.

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

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