André Cunha

  • Famosos

    Morar no Rio de Janeiro exige algum preparo. Por exemplo, é preciso dominar os delicados protocolos de etiqueta envolvidos no avistamento de famosos. Do contrário, não é pequeno o risco de passar vergonha. Tipo:

    “Só tinha latão. Bora dividir?”

    “Bora!”

    “Você viu aquele famosão passando aqui?”

    “Hein?”

    “Aquele cara super famoso! Acabou de passar aqui, você não viu? Aquele que fez aquele filme, que fez par romântico com aquela famosona na novela. Maior sucesso.”

    “Desconheço… não passou no meu radar.”

    “Como assim, não passou no seu radar? O cara é ultra famoso. Famosíssimo. O suprassumo da celebridade internacional. Está direto no TV Fama. Outro dia estava dançando na Dança dos Famosos. É a fama em pessoa.”

    “Hmmm… você viu que interessante aquele reboco na parede? Parece um trabalho profissional. Esse material é gesso?”

    “Que papo é esse? Claro que você conhece o famosão. A gente viu outro dia um filme com ele. Fez aquele personagem… aquele… qual era? Só me fugiu o nome. Mas o cara é um colosso da indústria do entretenimento. Um titã do audiovisual. Faz filme, série, novela, o escambau. Acabou de passar exatamente aqui e você vem com esse papo de gesso e reboco? Fala sério.”

    “O acabamento parece muito bem-feito.”

    “Esquece a parede! Estou falando que o famosão acabou de passar aqui. O cara tem prestígio interplanetário. Se pousar uma nave extraterrestre agora no Aterro do Flamengo e descer um marciano, é capaz de pedir uma selfie com ele.”

    “E o editorial da Folha, você leu? Como avalia a crise no Supremo?”

    “Que mané Supremo! Esse cara sim é o Supremo Famoso! Galgou todos os degraus da fama, escalou a cordilheira da notoriedade, chegou aos píncaros da celebridade. Está no cume, no zênite, na estratosfera do estrelato.”

    “Ei… prestenção. Contato visual. Olha aqui. Agora acompanha o meu olhar.

    Devagar. Não vira a cabeça de uma vez, pelo amor de Deus. Olha por cima do meu ombro esquerdo. Tá vendo?”

    “O quê? Onde?”

    “Atrás de mim, à esquerda. A meio metro. É ele. Viu?”

    “Ahnnnn…”

    “Reconheceu?”

    “Ahnnnn…”

    “Então… disfarça…”

    “Que coisa!”

    “Sim, que coisa.”

    “Esse lugar encheu rápido, né?”

    “Encheu!”

  • Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)

    Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a visão.

    Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, embora não necessariamente torça para o Fluminense. O time tem sede no bairro de Laranjeiras, cortado por uma rua de mesmo nome, na Zona Sul – não confundir com a Rua Laranjeiras, na Pavuna. Há muitas árvores por lá, mas poucas que dão laranjas. Fica perto do Largo do Machado, que não é uma homenagem a Machado de Assis. O escritor é homenageado, isso sim, no Parque Machado de Assis, no Santo Cristo, apesar de ter vivido no Cosme Velho.

    Da mesma forma, quem mora no bairro do Botafogo – ou na Rua Botafogo, em Parada de Lucas – não necessariamente torce para o Botafogo, assim como ninguém precisa ser flamenguista para morar no bairro do Flamengo, tampouco na Rua Flamengo, em Santíssimo. A sede do Flamengo fica na Gávea. A Pedra da Gávea, não. Essa fica em São Conrado.

    Laranjeiras, Flamengo e Botafogo ficam perto da Baía de Guanabara. Guanabara, aliás, já foi estado. A cidade era o Estado da Guanabara. O resto, o Estado do Rio de Janeiro.

    Mas pouco importa se você é tricolor, rubro-negro, alvinegro ou se tem a má sorte de torcer para o Vasco da Gama, cujo estádio, São Januário, não fica em São Januário, mas no bairro Vasco da Gama. Até o carioca que conhece a cidade como a palma da mão pode se atrapalhar com a barafunda de ruas batizadas com nomes de barões, condes, viscondes e marqueses, aos quais se soma uma tropa ainda mais numerosa de generais, marechais, coronéis e outras patentes.

    Aposto dez reais que todo mundo por aqui já se atrapalhou pelo menos uma vez na vida. Por exemplo, confundiu a Rua Barão de Lucena com a Rua Barão de Capanema. Ou a Praça General Glicério, em Laranjeiras, com a Praça General Osório, em Ipanema. E não pense que acabou: há Rua Ipanema em Irajá e Rua Ipanema na Barra da Tijuca. Barra da Tijuca, aliás, que não é o bairro da Tijuca, nem a Floresta da Tijuca.

    E a Linha Vermelha? É a que liga a Baixada Fluminense ao Rio, passa pelo Galeão e chega à região do Centro, certo? De carro, sim. De metrô, há também uma linha de cor vermelha, que sai da Tijuca e vai até a Barra de Guaratiba. Perdão, me enganei. Da Tijuca. Se por engano for parar São Cristóvão quando deveria ir para São Conrado, tenho uma má noticia: está longe pra c****! E não desça na Estação Uruguai se o seu destino é a Uruguaiana!

    Jardim Botânico é bairro e jardim botânico. Lagoa é lagoa e bairro. Maracanã é bairro, estádio e estação de metrô. Tijuca é bairro e floresta. O Maciço é da Tijuca. A Barra também. O Largo é de muitos, como do Machado, da Glória e do Carioca. A Ilha pode ser de Paquetá, do Fundão, das Cobras ou até do Governador. Só não pense em procurá-lo por lá. Quem é e como chegou ao governo, é uma longa história.

    Botafogo e Flamengo são times, bairros, praias e estações de metrô. E ainda existe a estação Acari/Fazenda Botafogo, em Acari. Fluminense é time, gentílico de quem nasce no estado do Rio e também nome de rua em Nova Iguaçu. E há ainda o Parque Fluminense, que é bairro em Duque de Caxias, não parque.

    Se ficar confuso e for pedir informações, cuidado. “Parada” pode ser qualquer coisa: ponto de ônibus, drogas, uma festa muito louca ou uma crise existencial profunda. “Caraca” pode significar tanto “que beleza” quanto “que desgraça”. “Confia” pode ser justamente o momento em que você deveria começar a desconfiar.

    Não demorei para perceber que, dependendo da situação, “bora marcar” pode perfeitamente significar “espero nunca mais ter que olhar para a sua cara.” E, atenção: se você é trabalhador e planeja ir ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, no fim de semana, planeje de novo. O samba acontece às segundas-feiras. E costuma lotar.

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