
Os destaques da semana
1. Exercício literário: chamado a partir de post do instagram

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Estive. Dadas as indevidas proporções. Horas antagônicas, gotas de minutos que se desarmavam em câmera lenta. E eu, lá… L.A: Lugar Amargo. Estive, tempo-espaço-ação demasiadamente prolongado; fracionando demais, passei, compareci, permaneci, existi, permaneci, fiquei. Divagando. Desproporcionalmente, estive.
2. Das primeiras vezes

Kickboxing.
Fiz minha primeira aula, estreando em uma turma feminina de kickboxing, duas vezes na semana – mas, pela agenda excessivamente cheia de sempre, me delonguei por três oportunidades; na quarta, que de fato foi em plena quinta (feira), enxotei as desculpas e me deixei levar pelas pernas ao lugar que os dedos escolheram, ao zapear pelo aplicativo de benefícios corporativos em prol da saúde e mobilidade física.
Há tempos quero aprender uma luta, mais por defesa pessoal.
De pequena, meu pai queria que eu fosse escoteira. Minha mãe foi contra, “melhor ballet“.
Fui para o piano. Uma aula com uma senhora que batia a régua nos dedos ao sinal do mísero erro. Entrei para o coral infantil; abri uma apresentação, solando “Sou feliz, por isso estou aqui… também quero viajar nesse balãããáÃÃO….”
No coral, fiquei só para aquela apresentação; ao atingir a maior idade, entretanto, fui solista de uma Casa de Música na minha cidade, atriz de musicais e, antes, no teatro da Escola, cantei várias músicas, em diversas ocasiões. Sou, por extensão de voz, o que classificam por soprano.
Da ideia do ballet, fui para a ginástica rítmica, e, quando minha mãe não podia me levar à noite, saltei – com mais ímpeto do que graça -, por um semestre.
Antes, eu apenas posara com uma sapatilha de ponta para um fotógrafo do Sul, que transformou a mim e minha irmã – a então bailarina graciosa da família – em registros sépia, moldura e borda branca. Eu era desengonçadamente um patinho feio para a graciosidade corporal, até a GRD.
O piano não passou daquela única aula, mas minha irmã se formou, tendo feito, em sua primeira audição, aos oito anos, uma composição própria, surpresa, em minha homenagem. Sei reproduzi-la vocalmente até hoje.
E sei tocar Cai cai, balão, que aprendi de ouvido. Sabia Titanic também, de metida à autodidata com os dedos íntegros.
Fui assaltada com faca uma vez, há oito anos.
Subia pelos batentes das portas da nossa casa, até quase a adolescência. Sempre tive um quê de rebeldia incrustada. Mas inrusti tanto, que parei com as estripulias, concentrando todas as minhas forças nas artes e em ser uma criança exemplar.
Foi um percurso genuinamente bom.
Mas eu devia ter sido escoteira. Como eu gostaria de não privar meus futuros filhos de qualquer oportunidade de se expressarem e não adquirirem medos tolos, como o que eu tenho, de sapos! – culpa, também da minha mãe (foi mal, mãe, também te amo, mas è tutto vero).
Mas, kickboxing:
Professor campeão de tantas disputas – uma das paredes repleta de certificados emoldurados, medalhas, troféus. Um tatame preto – que aprendi que se deve reverenciar, girando o tronco a 90°, ao sair e ao adentrá-lo. Uma luva emprestada, bandanas de três a cinco metros enroladas nos pares de mãos das meninas.
Dentre elas, uma amiga minha desde os dois anos de idade. Grata surpresa.
Vinte minutos de aquecimento, entre alongamentos, polichinelos e abdominais. Duas mãos protegendo as bochechas. Jab, direto, desvia, cruzado, gancho, desvia.
Suor, respiração mantida graças aos aprendizados do pilates, chutes e…
Me encontrei.
Não fui escoteira, e já sou bem grandinha para ser. Mas kickboxeteira nas horas vagas, ah, meus amigos…
Nasci para isso!
3. Globo da Morte e o Edu

Eduardo Moscóvis veio a Nova Friburgo através da programação do Parque de Ideias, em parceria com a Usina Cultural Energisa. Ingressos distribuídos um dia antes, teatro Municipal lotado em plena quarta-feira, às vinte horas.
Eu tenho fotos com o Edu Moscovis, de quando fui visitar o Projac, há 21 anos. Ele era Rafael, em Alma Gêmea. Pensei em buscar a foto no álbum tipo pasta-catálogo 10×15, com capa da Kodak, mas seria tietagem demais. Me contive.
A peça foi quase inteiramente passada com meia luz da plateia acesa. Antônio, meu nome é Antônio.
Assim, sentado em uma cadeira, com oito luminárias pantográficas apontadas para si e um copo de água que foi bebido ensaiadamente para durar o tempo exato do monólogo, o grande ator brasileiro fez com que o público, desconcertado com o fato de também sermos foco, sequer olhasse para a cadeira do lado, ou mexesse na bolsa para pegar o celular.
“É expressamente proibido filmar ou fotografar esse espetáculo”.
Texto e performances de aplaudir de pé, verdadeiramente.
Antônio | Antônios. Antônimos, pensei.
Manga, que é fruta e também parte da roupa, ele trouxe. Lacunas. Repetiu algumas vezes, para descrever o quanto ele não sabia sobre outros personagens que o solilóquio revelava.
Cachorro. Ser manso. Adepto da não-violência.
A um puro ato humano – pois nada mais humano do que a desumanidade -, todo um caráter de Antônio tornou-se antônimo. Assassinou um Antônio, que não ele, e ele, também.
Toda a cena se passa, provavelmente, entre a mente que reconta a sua história para si e a confissão na sala de interrogatório de uma delegacia. E, no confessar que o lugar se materializa: todas as luzes da plateia se apagam.
Aqui, instantaneamente, os olhos fixos de muitos procuram seus celulares: vários pontinhos de luz aparecem salpicados entre o mar de vultos na escuridão incipiente.
A luz volta a acender, sobre nossas cabeças. A água do copo está no fim. Ele tem sede. A boca está seca.
O encerramento não é anunciado.
Ele fica lá, parado.
Até que alguém puxa os aplausos.
Que noite de embrulhar o estômago. Que noite para ter mais uma vez a certeza de que só a arte salva.
4. Dia de Bruna

Terça foi aniversário da minha irmã, como sempre o é, aos décimos terceiros dias do mês de outubro. Zeca não estava bem da respiração desde segunda. Contrariada por ter de encarar uma viagem de quase 400km, ida e volta,com o calor a agravar seu já debilitado sistema respiratório, fomos para o Rio. Zeca continuou a respirar com muito esforço.
Pouco mais de duas horas na casa da minha irmã, eu irritada, preocupada e sem apetite para almoçar com ela. Retornei com o meu filhote, ar condicionado no máximo, ele no meu colo. Eu, que capotei num sono leve, olhos atentos a qualquer som nasal mais forte ou mexida do corpinho diminuto do meu spitz alemão.
Não recebi meu primeiro pedaço de bolo.
No dia seguinte, minha mãe retornando, lá estava ele, envolto em papel-alumínio e numa sacolinha plástica translúcida, fechada em si por um nó. Pode dar tudo errado entre nós duas. Mas se o primeiro pedaço de bolo não existir… aí, a certeza de tudo estar perdido.
5. Criança da casa = Zeca (e eu, sempre)

12 de outubro sempre será o dia de comer besteiras, de ganhar presentes descontraídos e de fazer o lúdico adentrar o cotidiano. Acordei na minha mãe, Zeca ao meu lado, e preparamos a mesa do café. Eu já abria o antigo móvel de mogno em busca de algo para decorar a mesa, além de retirar das caixas e malas ainda meio não desfeitas da última mudança, no corredor, faquinhas de bambu, bandeijinhas do mesmo material e o jogo americano, para dois, de rattan com couro.
Capturei seis fitas VHS de desenhos animados que fazem parte da biblioteca da minha vida – e que não podemos reproduzir pela falta do aparelho – para compor a mesa. Louças brancas para os dias festivos, taças de sorvete em inox, pratos decorados com um mix de frutas
cortadas, orégano, tapioca flocada e algumas folhas de manjericão. Zeca me olha, como sempre que estamos preparando a mesa, com aquela pergunta no olhar “e para mim?”
Pego um piso querido, com tema de bicicleta, e o coloco próximo à mesa, no chão; busco os recipientes de inox Zeca e o suporte de altura. Recolho alguns dos brinquedos espalhados pela casa, e os organizo sobre o tapete; o cachorrinho que costurei para o aniversário dele. Falta algo. Recorro à sacola de itens para doar: uma lagosta de pelúcia “nova”, com a qual Summer não brincava e minha irmã resolveu passar para cá, já com as ressalvas: “Dê para outro cachorrinho, o Zeca vai estragar em dois tempos“.
Mas, vejamos e sejamos justos: é dia das crianças. A criança da casa merece um presente!
Lagosta também sobre o tapete, água de coco no pote de água, a grama de milho de pipoca para pets comprada na Leroy Merlin, banana cortadinha, mamão, biscoitinhos de banana. Um Zeca que avança com a linguinha inquieta. Eu que, perplexa, consigo adestrá-lo à espera.
Tudo vai ludicamente bem no dia 12 de outubro.
6. Sextou!

Amanhece chovendo, inicia-se a tarde chovendo e à hora do rush… chove!
Sextou na serra, eu de vestido bege, quase extensão do desbotado da pele de quem morou no Rio de Janeiro por quatro intensos meses e pouco viu os raios solares. No tecido, um estampado em croqui do Parque Lage, meu lugar querido de aprendizado artístico – e da confecção de amigos boêmios, hoje pouco revisitados, um ou outro habitando o além-mar. Ponho um colete jeans escuro e cropped por cima, o contraste minimiza a palidez.
Por falar em amizades feitas através do aprendizado artístico, eu estava organizando um café (ou açaí) com uma dessas pessoas de múltiplas afinidades que a arte, vez ou outra, alinhava a nossa vida. Esta, um curso de moda pelo Parque de Ideias me trouxe no ano passado.
Organizando é o verbo justo no tempo justo: era às 16h. Passei para as 16h30. Melhor às 17h, pode ser?
Eu e minha agenda doida, sempre sobrepondo trabalho e vida.
Cheguei 17h10. Chovia. Optamos por um chopp, já que era sexta.
Quais lugares nos fazem sentir confortáveis? , eu pergunto?
Naquela mesa de bar, de costas para a profusão de trânsito e transeuntes, sou chamada, no meio de histórias de vida entrecortadas por tantos assuntos, a olhar para o céu, às minhas costas. “Adoro o céu dessa hora“, ele diz. “Golden hour, né.. eu também“. Ali, no virar de pescoço, para contemplar o céu, tive mais uma vez certeza de que o lugar que me faz sentir confortável é o movimento de olhares que confluem para coisas que agradam a quem está trocando trivialidades.
E pensei na minha obra de arte Siamo Luce: um manequim envolto em fita LED endereçável, em pé em uma das janelas do segundo pavimento da Usina Cultural Energisa, segurando 600 metros de cabo PP, fracionados em 50 lâmpadas, cada uma acesa a um clique de interruptor autônomo, instalado numa caixa na quina do sobrado. Uma esquina estreita, uma caixa com 50 interruptores. Um convite para interrompermos nossas rotinas de olhar cabisbaixo e olharmos para cima.
O movimento é um dos mais enlevantes.
Enxergar o céu é um respiro; é ver a vida, a lua, as nuvens, raios de sol sobre o prisma de se estar vivo.
Dali, os tons brancos e alaranjados tornaram-se uma paleta decrescente de azuis; fez-se à noite.
E o chopp se transformou em um até breve, em caminhar uma quadra na companhia de mais quatro pernas e quatro rodas e adentrar um dos melhores restaurantes árabes que já fui na vida.
Meu casal de amigos favoritos, com sua primogênita linda, que dormia o sono dos puros de olhar. Os que viram os pescoços e percebem toda a profusão de vida, sem olhar para baixo pela pressão da gravidade de se tornar adulto.
Ela acorda quando estamos no fim do último pão árabe, já pedido extra.
Olhos verdes-vida em meio as cores exuberantes daquele pequeno Oriente Médio.
E minha sexta foi regada à presença, e especialíssima; estive com dois do meu seleto universo de amigos leitores!
7. Porque hoje é sábado

De cansaco, meu corpo entende; evidência da foto enviada pela amiga de infância, em que seguro sua filha. Ela sorri. Eu tambem. Tenho bolsas escuras sob os olhos, achei que a maquiagem tivesse suavizado. Chego a casa, a alergia nas pálpebras me assola. Pílula tranparente com cor amarela. Durmo. Até o nascer da noite. Acordo exausta com o fim da luz do dia. Almoço. Café e… cama.























