Crônicas

  • O Filósofo da Vila Kennedy

    Duas moças vestidas de recepcionista chegam e pegam a mesa que fica bem na porta do bar do Taiguara. Sentando-se ali, talvez queiram, não posso dizer, conferir quem entra e quem sai. Pedem uma cerveja e dois copos. É fim de tarde de uma sexta-feira, é fim de expediente, todo mundo ali precisa despressurizar. Trocam meia dúzia de palavras, se tanto, e antes que o garçom traga o pedido, mergulham no mundo paralelo dos celulares. Com os olhos agarrados às telas, é como se estivessem sozinhas. No planeta em que estão neste momento, não há a presença da outra no lado oposto da mesa, muito menos quem passa pela porta a caminho da rua, ou quem vem da rua rumo ao fundo do bar.

    “Para que saem juntas? Para ficar isoladas com companhia? Um pouco difícil de compreender, ao menos para mim”.

    Sentado comigo à mesa, está Helinho Bagulhinho, o filósofo da Vila Kennedy, em Bangu, Rio de Janeiro, onde moramos, onde fomos criados.

    “Se é para ficarem no celular, sem olharem na cara da amiga, para que vieram juntas?”, e minha insistência na pergunta é muito mais uma crítica retórica do que propriamente um questionamento.

    Helinho Bagulhinho pigarreia, prepara-se para falar com autoridade. Ele sempre faz questão de mostrar autoridade em tudo.

    “Solidão a dois, meu caro, não é invenção, descoberta da modernidade. Tenho dito que o homem é um ser social, mas pode ser insocial dentro do convívio. Gerações inteiras de famílias se arrastaram trocando apenas as palavras estritamente necessárias, e quando precisavam falar mais do que costumavam, geralmente havia confusão. Meus avós eram assim. Eram quase um desconhecido do outro. Falavam tão pouco entre eles, que não me espantaria se tiverem morrido esquecidos de como o outro se chamava. Qual a diferença dessa para a solidão a dois moderna, seja marido e mulher, irmãos, colegas? É que agora taca-se um aparelho na frente, enfia-se a cara na tela e fica mais fácil se manter no isolamento presencial. A solidão a dois dos meus avós era analógica. A dessas duas – e apontou a moças – é digital, hightech”.

    Entenderam por que o chamavam de filósofo?

    Era um homem de dissertação fácil, fácil e de amplo leque, sobre todos os assuntos, fosse o combustível usado pela Nasa, fosse o ponto do lagarto redondo na panela. Era autor de frases de efeito, quase ditos populares, embora em alguns casos sua autoria fosse discutível. ‘Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas’ era um exemplo clássico. Ele garantia que era dele, mas eu escutava aquilo dos meus pais desde moleque. Éramos da mesma idade. Eu deixava pra lá, era divertido e não fazia mal a ninguém que ele inventasse.

    Helinho Bagulhinho tinha um primo, o Ademilson, que se arvorava em frequentar as boates de Ipanema e Leblon. Dizia que Bangu só tinha inferninho que até o diabo pensava se entraria ou não. Então, se enfiava no ônibus, descia a Avenida Brasil, chegava à Central e de lá encarava outra Mercedez Benz coletiva até a zona sul. Um dia, apareceu dizendo que descolara um convite “pra festa do ano no Rio”. Seria numa mansão no Alto Gávea. Ninguém sabia explicar como ele descolara o convite pro rega-bofe, mas no dia ele estava lá, descendo a rua a caminho do ponto, porque táxi não se aventurava por ali com o dia escurecendo. “Tira pelo menos a etiqueta da C&A da gola da camisa”, e Bagulhinho deu-lhe uma trava quando o primo saía de casa.

    Ademilson disse com o ar de uma expectativa deslumbrada que a festança iria até seis da manhã. Estava em casa bem antes disso, pouco depois de uma da madrugada, e só não chegou antes porque àquela hora ônibus para Bangu “tem menos do que filé mignon na minha casa” (by Helinho Bagulinho). Deve ter levado mais tempo na viagem do que na festa. No domingo, no boteco do Taiguara, nossa igreja, ele confessou que “fiquei com medo de perder o último ônibus da Central pra cá”. “Mas e aí? Qual foi a dessa festa? Você conseguiu mesmo entrar?”, Bagulinho quis saber, eu do lado, só ouvindo. Ademilson disse que conseguiu entrar, os seguranças olharam assim meio torto, mas liberaram. Pegou uma taça de espumante, porque não tinha cerveja. “Aquele povo é de outro planeta”, considerou, chegando à conclusão de que até para respirar os bacanudos fazem diferente. Bagulhinho olhava com um sorriso de quem queria rir, mas que ainda não era a hora. Ademilson contou que ficou longe do movimento, quase escondido “naquela sala maior que as casas de nós três juntas”. “Ficou mais de canto do que bandeira de escanteio”, e Bagulhinho mandou a pérola, e um riso cínico tornava ainda mais engraçado o que dizia. Eu ri. Ademilson não riu nem reclamou; cabisbaixo, ainda alegou “Eu tentei tirar uma onda”. “Tentou ser um cara lascado que mora no fim do mundo enfronhado no Grand monde”, Bagulhinho sintetizou, e ainda arrematou a conversa, naquela tarde em que estava inspirado: “Peixe de rio não entra no mar”, e fez pro primo uma cara de “vê se aprende, mané”.

    Por que seu apelido era bagulhinho? Os outros perguntavam. Eu, que o conhecia há anos, sabia a explicação de trás para frente. “É por que eu tenho uma relação de encontro íntimo comigo a partir da fumaça”, respondia, sonso. “Mas é qualquer fumaça?”, às vezes perguntavam para lhe darem uma espetada. Claro que não era, “de caminhão, por exemplo, é que não é”, e sorria um sorriso calmo e mole, quase cínico, deixando o motivo do apelido subentendido no ar.

    Eu havia ficado desempregado pela quarta vez. Estava no Taiguara às custas da minha mulher. Me deu dinheiro para três cervejas, tudo para se livrar de mim por algumas horas e descansar de me ouvir reclamando da vida. Ao passo que eu colecionava pé na bunda nos empregos, Helinho Bagulinho jamais ficara desempregado, simplesmente porque nunca trabalhara. Enquanto ansioso eu contava tempo para me aposentar, ele estava aposentado desde a idade em que um sujeito começa a procurar emprego. Não contava tempo de aposentadoria. Sua aposentadoria permanente é que contava seu tempo de desocupado. Enquanto o país fervia discutindo escala de serviço e de folga, para Bagulinho tanto fazia a escala 6 X 1 ou a 5 X 2. A sua escala sempre fora a 0 X 7. “Que diabos tu faz da vida, bagulho?”, um dia não resisti e perguntei, noite alta, quinze cervejas ou mais na mesa, o Taiguara querendo fechar. Ele sorriu o mesmo sorriso calmo e mole, agora ainda mais, por causa daquele dedo de bebedeira. Eu sabia de quatro ou cinco lojas em Parada de Lucas, herança da madrinha. Ele nem aparecia por lá, mas a renda certamente era o que sustentava a fumaça. Então contou ser fiscal da natureza e observador da mecânica da relação dos seres humanos entre eles e com o ambiente.

    Só fui entender o que isso significava quando em uma tarde de sábado, no Taiguara, obviamente, encostou uma Mercedez Benz de verdade, um modelo que fazia jus à marca. Dela desceu um casal que parecia casal milionário de novela das oito. Talvez se um disco voador pousasse ali, não teria causado tanto impacto. Arrancaram todos os olhares do bar e arredores. Passaram pelo Taiguara e se dirigiram a uma portinhola uns dez metros depois. “É a casa da Zefa”, Bagulinho explicou. Eu Sabia. Zefa era costureira antiga por ali. A madame pegou um embrulho e agradeceu, enquanto o marido abria a carteira, de uma marca que certamente era a Mercedez das carteiras, e entregava na mão de dona Zefa um punhado de notas, notas altas, sem dúvida. Eu levaria dez anos juntando dinheiro, e não teria uma carteira recheada daquele jeito.

    Voltaram, passaram por nós novamente, e agora nos cumprimentaram com sorrisos largos, abertos, e que até lhes fizeram simpáticos. Entraram na nave espacial e zarparam. Bagulinho deu um gole na cerveja, limpou os lábios e sentenciou: “Rir com dente é mole; eu quero ver é rir sem dente”.

    Ele estava certo, era isso mesmo.

  • F5

    — E se o sapatinho não couber?

    — Como assim? Não é seu?

    — É.

    — Então?

    — O meu pé mudou.

    — Mudou?

    — Não sou mais a mesma.

    — Hã.

    — Meus pés às vezes incham.

    — rsrs

    — E o vestido? Você pode usar o vestido!

    — Será?1q

    — Claro!

    — ihh! Engordei…

    — A tiara! Use a tiara!

    — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal.

    — Caramba!

    — O que eu faço?

    — Não sei. Não tem mais nada igual?

    — Igual?

    — Igual ao que você era naquele tempo.

    — Tem!

    — O quê?

    — A vontade de ser feliz permanece.

    — Só isso?

    — A crença no amor também.

    — E?

    — O sonho continua aqui. Só.

    — Só?!

    — A vida! A vida continua.

    — Com os pés inchados é possível?

    — É possível.

    — Sei onde tem sapatinhos ortopédicos de cristal.

    — E o vestido?

    — Plus size.

    — E os cabelos?

    — Lace!

    — E o príncipe?

    — Tinder.

    — Match?

    — Match!

    — Vamos ao baile?

    — Vou pedir o Uber confort.

  • A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

    Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

    Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

    Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

    Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

    A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

    Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

    Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
    por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

    Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

    Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

    O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

    A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

    Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

    Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

    Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

    Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

    A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

    Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

    — A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

    Inseparáveis como as horas e o tempo.

    Sensação, coração e pensamento.

    A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

    A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

    O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
    ruas.

    A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

    O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

    O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

    O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

    Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

    A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
    juntava lugares e nomes e sentimentos.

    Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

    Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

    O menino é assim mesmo!

    Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

    Laço, entrelaço, uma mão.

    Caminho, descaminho, construção.

  • PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo na capa.
    P V D.
    Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.
    Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo.

    Se era PVD por que não decorei?
    Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer.

    Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.
    Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta?

    Tipo:
    ✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta muito: anote para quem..
    ✔ Não vá ao supermercado com fome.
    ✔ “Vou só dar uma olhadinha no celular” não leva cinco minutos.
    ✔ Se o sapato machucou na loja, não ficará confortável na festa.
    ✔ “Vamos marcar” não é um convite.
    ✔ Não responda e-mail com raiva. Muito menos WhatsApp.
    ✔ Quando alguém disser “é só atualizar”, faça backup.
    ✔ Se você guardou uma coisa “para uma ocasião especial”, talvez a ocasião especial seja hoje.
    ✔ Não deixe para dizer depois aquilo que importa.
    ✔ Não espere que o outro adivinhe.
    ✔ Algumas pessoas não vão mudar só porque você explicou melhor.
    ✔ Nem toda discussão precisa de vencedor. Algumas precisam apenas terminar.
    ✔ O tempo que você está esperando “sobrar” não sobra.
    ✔ Você não precisa ter a última palavra.
    ✔ E nunca diga: “Comigo isso não acontece”. PVD

    Fechei mentalmente meu novo caderninho.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo.

    P V D.
    Para Você Decorar.

    Sorri.
    Setenta anos depois, finalmente entendi o problema.

    Eu sempre decorei.
    Só nunca obedeci.
  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

  • O dia em que as tatuagens saíram de moda

    Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

    Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

    A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

    Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

    De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

    Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

    As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, áreas genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

    A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

    Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

    Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

    A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

    O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

    Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. “Quero ser único”, diz alguém… enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

    As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

    Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

    Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

    E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

    Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

    Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

  • Famosos

    Morar no Rio de Janeiro exige algum preparo. Por exemplo, é preciso dominar os delicados protocolos de etiqueta envolvidos no avistamento de famosos. Do contrário, não é pequeno o risco de passar vergonha. Tipo:

    “Só tinha latão. Bora dividir?”

    “Bora!”

    “Você viu aquele famosão passando aqui?”

    “Hein?”

    “Aquele cara super famoso! Acabou de passar aqui, você não viu? Aquele que fez aquele filme, que fez par romântico com aquela famosona na novela. Maior sucesso.”

    “Desconheço… não passou no meu radar.”

    “Como assim, não passou no seu radar? O cara é ultra famoso. Famosíssimo. O suprassumo da celebridade internacional. Está direto no TV Fama. Outro dia estava dançando na Dança dos Famosos. É a fama em pessoa.”

    “Hmmm… você viu que interessante aquele reboco na parede? Parece um trabalho profissional. Esse material é gesso?”

    “Que papo é esse? Claro que você conhece o famosão. A gente viu outro dia um filme com ele. Fez aquele personagem… aquele… qual era? Só me fugiu o nome. Mas o cara é um colosso da indústria do entretenimento. Um titã do audiovisual. Faz filme, série, novela, o escambau. Acabou de passar exatamente aqui e você vem com esse papo de gesso e reboco? Fala sério.”

    “O acabamento parece muito bem-feito.”

    “Esquece a parede! Estou falando que o famosão acabou de passar aqui. O cara tem prestígio interplanetário. Se pousar uma nave extraterrestre agora no Aterro do Flamengo e descer um marciano, é capaz de pedir uma selfie com ele.”

    “E o editorial da Folha, você leu? Como avalia a crise no Supremo?”

    “Que mané Supremo! Esse cara sim é o Supremo Famoso! Galgou todos os degraus da fama, escalou a cordilheira da notoriedade, chegou aos píncaros da celebridade. Está no cume, no zênite, na estratosfera do estrelato.”

    “Ei… prestenção. Contato visual. Olha aqui. Agora acompanha o meu olhar.

    Devagar. Não vira a cabeça de uma vez, pelo amor de Deus. Olha por cima do meu ombro esquerdo. Tá vendo?”

    “O quê? Onde?”

    “Atrás de mim, à esquerda. A meio metro. É ele. Viu?”

    “Ahnnnn…”

    “Reconheceu?”

    “Ahnnnn…”

    “Então… disfarça…”

    “Que coisa!”

    “Sim, que coisa.”

    “Esse lugar encheu rápido, né?”

    “Encheu!”

  • Lua no mapa astral

    Uma prima travou uma conversa bem humorada comigo quando soube que não acredito em horóscopo. Ela me lembrou que existem essas forças do universo, superiores a todos nós e que para os astrólogos de alguma maneira exercem alguma influência sobre nossas vidas.

    Minha prima não passa nem perto de acreditar nisso mas não é mulher de perder a piada. De qualquer maneira a conversa acendeu em mim a questão a respeito do mapa astral. Calma, não mudei de ideia sobre minha descrença no tema. Ao contrário, minha reflexão é mais lenha na fogueira a favor do ceticismo.

    Se não, vejamos.

    O mapa astral é esse registro do posicionamento das estrelas, planetas e da Lua no momento do seu nascimento. Em resumo é mais ou menos isso. De saída me pergunto: e quando a humanidade estiver em Marte, como é que vai ser?

    Sim porque existem planos de colonização do nosso vizinho vermelho e o mapa astral é gerado a partir de um ponto de observação. Olhar o céu da Terra é uma coisa, levantar os olhos para o firmamento a partir de Marte é outra conversa.

    Como serão as constelações que serão vistas? Quais nomes terão? Além disso, é bom lembrar que o ano em Marte tem 687 dias. Pois é, quase o dobro da Terra.

    Portanto, crentes no zodíaco preparem-se que teremos a chegada de novos signos e constelações.

    Imaginem o diálogo no futuro. Um casal se conhece e ela pergunta a ele: qual seu signo? E ele responde sou Baleia com a Terra em Pavão. E ela responde: sou Virgem com a Lua em Leão, será que somos compatíveis?

    E por falar em Lua já surge outra complicação. Marte tem duas. Na hora de fazer o mapa astral precisa localiza-las.

    E os raciocínios que virão por conta dos nomes delas? Para quem não tem intimidade com astronomia – não confundir com astrologia – as luas de Marte se chamam Fobos e Deimos.

    Traduzindo: Medo e Pânico. Pensa nos significados interpretativos que elas possibilitarão.

    Mas podia ser pior. Imagina que se ao invés de Marte o homem se estabelecesse em Júpiter.

    Ok, não há essa possibilidade porque o maioral do sistema Solar é gasoso. Mas se fosse possível seria o pesadelo da astrologia.

    Por que? Ora, Júpiter tem 79 luas. Imagina por isso tudo no mapa astral?

  • Fazer tudo

    Eram catorze itens, dos quais eu já estava atrasado em três deles na minha lista, mesmo antes de escovar os dentes. Foi então que me lembrei de Sêneca, o velho romano que, há dois mil anos, já sabia que a nossa maior ilusão é achar que vamos viver para sempre. Sêneca não tinha WhatsApp, não precisava acumular pontos em programa de milhagem, não sofreu de ansiedade para escolher um filme no streaming. Mas, curiosamente, sabia tudo sobre a agitação inútil que nos consome. E deixou algumas regras básicas que o fez sobreviver com excelência aos dias que deus lhe prometeu.

    Em primeiro lugar nos disse que o tempo não é dinheiro, porque esse se recupera, mas o tempo não. Sêneca ria com aquela tristeza de quem via senadores correndo atrás de status, dos que chamavam a si mesmos de “ocupados”. “Nada é tão pobre quanto uma vida repleta de afazeres”, escreveu. Pobre não é adjetivo financeiro, é existencial. Em segundo escreveu que você deseje o que você já tem. Parece coach de Instagram, mas é mais radical. Sêneca sugeria fazer um inventário diário das coisas que vão bem. Não para celebrar com champanhe, mas para perceber que a maioria das nossas angústias vem de querer o que o vizinho tem. O vizinho romano queria uma vila em Nápoles e o vizinho de hoje quer um carro elétrico. O mecanismo é o mesmo. Em terceiro lugar ensaie a pobreza. De vez em quando, vista a roupa mais simples, coma o prato mais básico, durma no chão. Não por masoquismo, mas por liberdade. Quem sobreviveu a uma noite no chão não entra em pânico se perder a bagagem no aeroporto. Sêneca, que foi rico, sabia que o problema da riqueza é nos convencer de que precisamos dela, mas não precisamos. Em quarto lugar adie a raiva. O estoico recomendava um truque ridiculamente eficaz, antes de responder uma ofensa, espere um pouco. Quinze segundos, um minuto. A raiva é como vinho barato: no primeiro gole parece terrível, mas se você espera, passa. Se não passar, pelo menos você responde com mais criatividade.

    Quinto, lembre-se da morte todos os dias. “Não é que tenhamos pouco tempo”, diz ele, “é que perdemos muito.” Pensar na morte não é morbidez. É o único antídoto contra a vida protelada, contra o “um dia eu faço”, contra o “quando eu me aposentar”. Sêneca escreveu isso enquanto era tutor de Nero, sabendo que poderia ser executado a qualquer momento. Escreveu na corda bamba. E foi executado. Viver é como atuar, construir uma escultura, ou, em outras palavras, é o que você remove de si, para revelar. A verdade do que está fazendo é sua performance em exposição. E nada mais do que fazemos, é sermos um ator de nossas vidas que nos custam nosso mais precioso valor, o tempo. Um bom desempenho quando merece ser considerado grande ou importante, é sempre inteiramente composto pelo próprio ator. Sigo olhando minha lista de catorze itens. Ainda estou atrasado em três. Mas talvez, como dizia o velho romano, o que realmente importa não está na lista. Está neste instante entre uma tarefa e outra. Na pausa. Na respiração. Na desistência tranquila de fazer tudo.

  • Os pragmáticos

    Os pragmáticos saíram às ruas proclamando seus interesses. Eles não acreditavam no amor e diziam, gritavam a nós, que amar era um pecado capital. E aqueles que formassem resistência seriam punidos com a mais severa das penas: padeceriam de amor pelo resto da vida. Viveriam com suas mentes doentes, pois de amor não se morre, mas se chega quase lá.

    Eu não pude deixar de me tornar resistência. Todos os dias, eles chegavam em nossas ruas, despertavam-nos dos mais belos sonhos, e nós íamos para a rua, num combate poético, onde proclamávamos os poemas mais lindos de toda a humanidade. Queríamos convencê-los de que amar jamais seria um pecado.

    Durante a resistência, conheci um dos pragmáticos. Comigo não seria diferente: me apaixonei por ele, um dos líderes. Eu percebia seu olhar indo ao encontro do meu. E eu jurava que ele sentia o mesmo. Uma noite, ele me capturou e, por seguidas vezes, nos amamos escondidos na calada da noite, onde só o silêncio testemunhava nosso sentimento. Passamos anos fingindo que aquilo não acontecia. Durante o dia, eu era resistência; ele, apesar de amar, tomava seu posto de líder e continuava a punir aqueles a padecer de amor.

    Depois de alguns anos, eu implorei que ele saísse das forças e vivesse comigo o bel-prazer do amor. Ele se negava. Jamais permitiria perder seu posto. Ele não sabia viver de outro jeito. Lamentei o quanto pude, pois era essa a vida que eu não queria, mas que desejava que um dia se tornasse realidade.

    Chegou, em uma quinta-feira, a notícia de que ele seria comandante das forças em outro lugar. Eu me desesperei. Eu sabia que era o começo do fim. Ele escolheu ir.

    Nos permitimos, por alguns meses, amarmos ainda na calada da noite. Mas era impossível viver com essa distância e com o medo de sermos descobertos. Ele, talvez, nunca tenha se entregado por inteiro.

    Um dia, cheguei para um de nossos encontros e lá eu estava, com minhas malas ainda na porta, quando ele disse: “nós acabamos por aqui”. Eu não precisei de condenação das forças. A dor de perdê-lo era maior do que tudo. Eu conhecia perfeitamente o processo de amar, mas o desamar era dilacerante. Não só padeci, como vivi por anos esperando-o. Quando saía alguma notícia sua, eu era a primeira a correr e comprar os jornais. Ele, como sempre, estava com aquela postura de líder sem arrependimentos. Eu olhava, olhava e olhava e nem por um segundo conseguia me ressentir; só sentia aquele amor, ainda latente em meu peito, querendo-o mais.

    No fim, os pragmáticos ganharam a guerra. Eu já era incapaz de amar um outro alguém. E, desde então, segui contando as noites com a esperança de que um dia ele voltasse. No fim, percebi que era possível morrer de amor sem que o coração parasse de bater. E foi aí que eu descobri: eu me suicidei da maneira mais bela, me apaixonei por alguém que não podia ter.

  • Os famosos doces de Pelotas

    Dizem os entendidos no assunto que não conseguimos recordar lembranças de nossa primeira infância por conta de uma tal amnésia infantil. Por razões que escapam de minha leiga compreensão, nossas recordações mais antigas não passam, muitas vezes, de fragmentos dispersos entre sensações, odores, sons e gostos desconexos.

    Mas daqueles doces eu me lembro muito bem… Talvez por eu ter, àquela época, cerca de 11 anos e estar, portanto, numa idade um pouquinho mais madura. Talvez por aqueles quitutes serem tão deliciosos e inesquecivelmente apetitosos. O fato é que aquelas guloseimas faziam a alegria não apenas minha, como de toda a criançada do bairro. Sabíamos todos nós que, a cada primeira semana de mês, a ruidosa e empoeirada caminhonete do vendedor de doces de Pelotas despontava na esquina da João Manoel com a Pinheiro Machado. Era o momento em que nossas famílias aproveitavam para abastecer suas despensas com um pouco daquelas delícias feitas em tão longínquos endereços.

    Se não me engano, Jorge era seu nome. Digo isso com pouca certeza, pois obviamente o foco de minha atenção não era o vendedor em si, tampouco o desenrolar da negociação pecuniária entre ele e minha mãe. Aquelas caixinhas retangulares recheadas de doces hipnotizavam minha mente, despertavam meu olfato, avivavam meu olhar e excitavam meu paladar. Quindins, pasteis de Santa Clara, camafeus, papos de anjo, olhos de sogra, queijadinhas. E, para os menos tradicionais, um pouco avessos à herança culinária lusitana, havia aqueles deleitosos bombons de morango. Todos eles cuidadosamente dispostos dentro de duas grandes sacolas escuras de viagem.

    — Que pena! Desta vez, ficaremos sem quindim — comentava, tristemente, minha mãe.

    — Tenho mais na caminhonete! Vou lá buscar para a senhora — retrucava o diligente vendedor.

    E como se não bastasse a fartura de guloseimas já expostas em nossa sala, Jorge voltava com mais caixinhas de quindim e com alguma novidade para nós. Como todos seus fregueses, tínhamos nossas preferências que não podiam faltar, mas, evidentemente, estávamos sempre abertos a experimentações degustativas. Jorge sabia o poder que detinha sobre seus clientes com aqueles manjares. A maestria com que os manejava perante nossos olhos fundia a delicadeza dos movimentos de uma bailarina com a precisão dos de um marceneiro. Para mim, a magia daquele cenário era feita, inicialmente, das cores vivas daquelas iguarias com o complemento posterior do sabor de cada uma delas.

    Feitas as escolhas, minha função naquele ato estava cumprida. Começavam, então, as negociações entre Jorge e minha mãe. Como num ritual minuciosamente encenado e repetido uma vez por mês, Jorge alisava seu bigode e retirava de uma das sacolas uma calculadora e um bloco de notas. Pelo que podia entender, ali estavam contabilizadas as suas vendas da semana ou do mês. Impossível relembrar os detalhes das tratativas, pois naquele momento eu já me deliciava com algum dos doces recém comprados. O almoço acabara de ser digerido, e Jorge sabia que aquela era a melhor hora para tentar a gula de seus fregueses.

    Eu não sei dizer por quanto tempo tivemos aqueles doces de Pelotas mensalmente dispostos em nossa cozinha. A percepção sobre o tempo muda conforme a fase da vida. Com 11 anos, minha impressão era de que o tempo custava muito para passar. Tantas eram as novidades a serem descobertas com aquela idade, que um ano só comportava uma miríade de acontecimentos. Vai ver aqueles doces surgiram em minha infância para que eu dispusesse de tempo suficiente para bem apreciá-los. Se fosse mais velho, a rotina de horários e de compromissos reduziria a relevância daqueles doces em minha vida.

    Quanto a Jorge, o vendedor de doces de Pelotas, o certo é que um dia ele não veio mais a nossa casa. Não sei se minha mãe resolveu parar de comprar seus doces, se Jorge nos trocou por fregueses mais endinheirados ou se ele simplesmente mudou de ramo. Só sei que um dia o presente virou passado e aqueles doces transformaram-se em lembrança. Uma feliz e tão saborosa lembrança.

  • Ninguém dirige melhor que o Carlito

    O Carlito é motorista de tudo, tem CNH categoria C, coisa de que muito se orgulha, e que o permite dirigir qualquer veículo: até colhedeira de soja, até empilhadeira de aeroporto, ele diz.    

    No primeiro emprego dirigia um treminhão, que jurava chamar-se assim porque era esse o preço do veículo: treminhão de real! Acreditava ainda que se o patrão tinha esse dinheiro pra pagar pelo caminhão era porque era mais que rico, havia de ser miliardário. E dessa premissa chegava à correta mas arriscada conclusão: se o patrão tem tanto, não tá certo pagar pra mim a merreca esturricada, mais seca que bucha do mato, que ele chama de salário.  

     A lamúria pegou a rádio peão e não demorou um dia pra que chegasse aos ouvidos do patrão. E demorou menos ainda pra que fosse o Carlito demitido pelo próprio, por atrevimento, por insolência e por pregar ideias transgressivas no recinto da empresa. Mais a mais, também salientou o empresário, não sou miliardário, sou só um pouco rico. E se fosse, que que tem?, méritos meus; aliás, do meu pai, aliás do meu avô, aliás méritos da estirpe enfim.    

    O segundo emprego, este como motorista de ambulância, era um emprego público, pagava bem menos que o último, mas o Carlito gostava. Gostava porque não tinha que viajar e porque achava divertido apertar aquele botãozinho vermelho ali e ouvir a sirene gritando uóóóóóó! Quando ela falha, dizia ele, ponho a cabeça pra fora e faço eu mesmo as vezes de sirene: uóóóóóóó´! uóóóóóóó!   

      A ambulância, essa que ele dirigia, ouviu dizer, fora conquista do vereador Capitão Trancoso, homem sobretudo generoso, sobretudo de virtudes civis e militares irreprocháveis, desses pra quem bandido e presunto deveriam ser a mesma coisa. “Hôme assim queu admiro!”, dizia o motorista.  

      Ambulância, segundo outra premissa do Carlito, leva pessoas doente acidentada pro hospital; ambulância pode salvar vida, muitas vida. E concluía: sou eu quem transporta, logo, sou eu, vamos dizer assim, quem salva essas vida!   

     Só tinha vantagens, esse emprego.  

    Marcava numa cadernetinha a quantidade de pessoas, almas, como ele chamava, que teria salvo nos 3 meses de nova profissão: 243 almas!, até aqui.  E se perguntava: será que eu num serei anjo?   

      Dirigia imaginando quanto custaria uma ambulância, $200, $300 mil? Vai ver, mas o valor da vida é que conta, e não tem preço. Quanto custa uma vida?  Uns treminhão? …. que nada, muito mais que treminhão!    

    Ah, eu sô mesmo um anjo!, exclamava de si para si.

       Mas um dia, voltando de devolver um paciente, quando saía do elevado João Goulart e fazia a curva pra subir a Consolação, foi colhido por uma picape Ranger 3.0, 250 cv , tração 4×4.    

    Nem ouviu a cacetada.  

     Bateu a cabeça no vidro e desmaiou.

      Foi atendido por outra ambulância e colocado numa maca.    

    Acordou no hospital. Olhou pro enfermeiro e desatou duas perguntas: Quem que me trouxe aqui, o Adelino? Chama ele.  

      Veio o Adelino, ele fez um gesto pedindo que abaixasse e sussurrou: Adelino, você que é um anjo!    

    A outra: Quanto custa uma ambulância nova?  

     Acho que uns $500 mil, chutou o enfermeiro.     

    Tô ferrado, disse o Carlito, e desmaiou de novo.  

     Convalesceu por uma noite, teve alta pela manhã.  

      Convocado no RH, foi demitido outra vez.  

     Pelo laudo conclusivo da diretoria do hospital, era ele o culpado pela batida.  

     Segundo testemunhas, na hora do acidente o Carlito estava com a cabeça pra fora da ambulância. E fazia assim: uóóóóóó! uóóóóóó!  

     P.S. Hoje o Carlito pejotizou-se, dirige um Peugeot de aplicativo. Pode fazer a trapalhada que for, “agora sou patrão de mim, ninguém me pode demitir, a não ser se for eu mesmo”.

  • O agridoce amanhã

    I’ve been livin’ for the moment /But I just can’t have my way / And I’m afraid to go to sleep / ‘Cause tomorrow is today – “Tomorrow is today”, Billy Joel

    Há um livro e um filme chamados “O doce amanhã”. Escrito por Russell Banks, trata-se de uma cidade que lida com o luto após todas as crianças serem mortas devido a um acidente de ônibus.

    Vale a recomendação. Eu me recordei disso enquanto escrevo essa crônica inspirada por um poema de Eleazar Carrias. Com a autorização do autor, transcrevo abaixo o texto:

    Não na Palestina

    Acordo
    com o cheiro do café,
    me arrasto até a cozinha,
    mas, no centro da mesa,
    é uma esfera dourada
    refletindo a luz da manhã
    que desperta o meu desejo.

    Bom dia, meu amor,
    e pego a faca
    entre o pão caseiro
    e uma caneca fumegante.
    Parece que vai ser
    um dia bom.

    Corto a laranja ao meio,
    no exato momento
    em que uma criança
    tem um braço decepado
    e o olho direito
    de uma senhora, viúva,
    é estourado
    por um estilhaço de metal.

    Mas eu não sei disso.

    O sangue doce da fruta
    na minha boca
    e a visão do marido
    bebendo o café
    quase sem pressa
    confirmam:
    o dia vai ser bom.

    Por que o dia vai ser bom? Porque será um dia como qualquer outro. Com sorte, sem alguma surpresa desagradável pessoal. É um poema forte e sucinto, como um soco na cara, que confirma que para a vida seguir, precisamos aceitar que para muitos não será assim. Não é necessariamente sobre ser egoísta, mas desenvolver capacidades para lidar com a dor.

    No mesmo dia em que li o poema, também me deparei com uma crônica publicada pelo autor Alexandre Brandão em seu blogue “No osso”. Nela, ele discorre sobre a banalidade da violência em referência ao assassinato de um homem que foi linchado por ser confundido com um ladrão. A vítima, Cláudio Rafael Landeiro, costumava pegar a bicicleta emprestada da irmã para passear. Até o encontro fatídico, provavelmente era mais um dia em que, para se distrair, circularia pelas ruas.

    Convivemos com a morte diariamente como chupamos uma laranja, tomamos café e pedalamos. Nós nos importunamos dentro do que é sociável, mas evitamos que esses pensamentos criem raízes. Porque encarar nossa impotência diante da injustiça, pior, da morte, é terrível. Como os mortos pelo genocídio em Gaza ou o ciclista, não temos controle sobre como terminaremos. O máximo que conseguimos é contar os momentos agradáveis e usufruí-los, pois não sabemos o que virá depois. Ainda assim, criamos expectativas, como que implorando para que nada de ruim nos ocorra. “O dia vai ser bom”, encerra o poema. Se não será sua vez, é a de outro. Para alguém, nesse momento, o dia é inevitável e terrível.

    A vida é curta e preciosa. Para lidar com o agridoce amanhã, é necessário reconhecer o prazer e a beleza dos instantes. Por esse motivo, a indignação quando alguém tem retirada a habilidade de sorver as sensações por aqueles que deveriam saber a importância que é estar aqui. Uma pessoa que não aprecia a vida deve ser considerada um ser humano? É tentador taxá-la de “monstro”, mas é uma falsidade e uma forma de mascarar que a multiplicidade da humanidade envolve maldade e crueldade. Assim como nos emocionamos diante uma caneca quente de café, também somos alertados por aquilo que não se encaixa em nossos critérios. Isso pode ser propulsor para injustiça. E ainda há a convicção dos linchadores, que agiram em nome de uma moral. Não há diferença nos que condenam violência com violência daqueles que a praticaram. São os dois lados do vampiro que mostra seus caninos.

    A empatia e a calma, como a que exercemos enquanto cortamos uma laranja, são a única maneira de sobrevivermos. Eu não tenho medo de IA, temo os vizinhos. Se seguirmos nossos impulsos sem freios, não cortaremos a laranja, mas nossos próprios dedos. Ser humano é sobre sentir e pensar. Ambas precisam estar combinadas, caso contrário desperdiçamos o dom que é aproveitar a vida, em seu paradoxo de tempo infinito e limitado.

  • A inveja de cada dia nos dai hoje

    Herdeiros. Gente que tem casa própria. Gente com família presente e, sobretudo, acolhedora e que sempre a respeitaram. Gente que se formou antes dos 25. Gente que come de tudo e não engorda. Gente que pode viajar, mesmo que seja uma vez ao ano. Gente que tem carreira acadêmica, doutorado aos 30. Gente que sabe falar outros idiomas bem e não tem medo ou vergonha de errar.

    Veja bem: inveja não é ódio. É aquilo que eu gostaria de ter e não tenho; é algo para o qual posso, eventualmente, correr atrás. A inveja é só um sentimento, e a gente pode refletir sobre ele e tentar fazer acontecer. Não é esse monstro moral que todo mundo pinta. É super comum, todo ser humano sente. A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde – e, cá entre nós, isso tem muito mais a ver com o jeito que o capitalismo organiza a nossa sociedade do que com algum defeito de caráter meu ou seu.

    A sociologia traduz isso bem: o que descrevo não é falha de caráter de ninguém, mas a frustração que surge quando a vida bate de frente com a tal da meritocracia. O sistema vende todos os dias, a ideia de que basta suar a camisa que a gente chega lá. Mas, quando o ponto de partida é a escassez pura – tipo contar moedas no fim do mês para não passar fome –, a distância até a casa própria, o diploma aos 25, o doutorado ou a viagem de férias deixa de ser questão de esforço e passa a ser o que é: puro privilégio de berço (este que vem do esforço de muitas pessoas).

    Quando olho para essa lista e sinto inveja, falo de coisas que sempre quis e sobre as quais, muitas vezes, não faço a menor ideia de por onde começar e nem sei se um dia terei. A inveja, como qualquer outro afeto, vem de fábrica no brinquedo que é o Homo sapiens. Na psicologia, mais voltado para a psicanálise, explica que a inveja (quando a gente não deixa ela nos paralisar) funciona como uma bússola. Ela mostra o que a gente quer e que o outro tem, transformando a dor em vontade de ir atrás. O problema é que a nossa cultura moralista adora mandar a gente varrer isso para debaixo do tapete, transformando a dor da desigualdade em culpa pessoal (“nossa, que feio eu sentir isso” ou “eu não deveria sentir isso”).

    Aliás, escrevendo isso, me pego pensando: será que gente rica sente inveja? Do que eles teriam falta se já têm o mundo material nas mãos? Casa, carro, grana sobrando, família estruturada, estudo garantido, empresas e investimentos, viagem o tempo todo, o luxo de sentar num restaurante bom enquanto tem muita gente sem ter o que comer. Enfim, acho que só saberei se algum rico me contar, porque não ando com nenhum. E, quer saber? É irrelevante para minha caminhada, isso não vai pagar os meus boletos no fim do dia.

    Existe um esforço enorme da sociedade para fazer a gente ter vergonha desse sentimento. “Como assim você vai admitir que tem inveja?” Parece que quem sente inveja carrega uma praga na ponta dos dedos. Olha, até deve ter quem jogue praga, mas a maioria de nós não. A maioria só quer olhar bem de perto para ter essa fome de ter o que o outro tem e tentar dar isso para si mesma. Mesmo que demore uma vida inteira. Mesmo que o mundo tente nos convencer do contrário. Mesmo que a gente precise lutar e virar o jogo só para ter o direito ao básico.

  • Taciturna

    A escuridão a excitava. Gostava das sombras e de imaginar monstros sob a silhueta da lua.

    Não tinha medo. Nunca teve. Conversava por horas com figuras imaginárias, criadas pelo jogo de luzes e sombras no jardim.

    Se havia névoa, melhor! Tudo parecia mais misterioso. Seu coração, então, disparava.

    Era tanto para imaginar!

    Cresceu assim: apegada à solidão. Amiga das fases lunares. Brincando de esconde-esconde com a neblina. Contando segredos às formas sombrias.

    Um ser estranho, canhoto, enigmático.

    Mudou-se. Na cidade, perdeu o luar. As sombras eram traiçoeiras. Como imaginar agora? Onde se esconder?

    Virou poetisa. Submergiu no mundo das palavras. Oculta-se em metáforas, joga com antíteses, cria raras rimas.

    O coração, de novo, dispara: ritmadamente!

    Um ser estranho, canhoto, enigmático…

  • Manta, pipoca e duas em uma

    Me dói.

    Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.

    Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.

    Não estou.

    Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.

    Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.

    Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.

    E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.

    — Sai.

    Nada.

    — Eu sei que tem alguém aí.

    Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.

    Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.

    Depois vêm dois olhos enormes.

    Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.

    Reconheço imediatamente.

    A menina sou eu-de-antes.

    A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:

    — Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?

    Olho para ela.

    — Estou com febre.

    — Eu vi.

    — Tenho muito trabalho.

    — Também vi.

    — E estou triste.

    Ela mastiga uma pipoca.

    — Isso eu senti da cozinha.

    Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.

    Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.

    Aquela ali é meio burra, olhe bem.

    A outra está mentindo; como mente mal, coitada.

    A terceira deveria fugir.

    Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.

    — Você tem oito anos — digo.

    Ela me olha.

    — E você tem quantos e continua caindo nessa?

    Não respondo.

    É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.

    Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.

    Como não percebi antes?

    Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.

    — Lembra da cabana da Barbie?

    Ela levanta a cabeça de imediato.

    — Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.

    Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?

    — Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.

    — Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?

    Rimos.

    — Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.

    Minha Pequena discorda.

    — Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.

    Fico quieta.

    Olho ao redor.

    A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.

    As coisas temporariamente permanentes.

    As coisas permanentemente temporárias.

    — Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.

    — Nós nos tornamos, ela corrige.

    Isso. Nós.

    — Você pensa demais, diz.

    —Nós pensamos. Sempre foi assim.

    Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.

    — Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.

    Rio.

    E estamos no Rio, penso. Ainda.

    Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
    Desmontar.
    Dobrar.
    Guardar.
    Levar junto.
    Montar de novo.

    Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.

    Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.

    Uma menina.
    Uma mulher.
    Um pote de pipoca.
    E uma próxima viagem batendo à porta.

    Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.

    E cabe na mala.

  • Vai que…

    Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo.

    Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos.

    Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas.

    Colocou uma lixeira ao lado da gaveta.

    (otimista.)

    Puxou o trinco.

    Ela, desacostumada a se expor dessa maneira, relutou – depois de uns minutos de embate capitulou.

    Soltou um guincho e, com um tranco digno de um carro velho, cuspiu dois cabos USB embolados.

    — Cabos USB, conectava o que, mesmo?

    — Na dúvida, melhor guardar.

    — Vai que volta

    Embaixo deles encontrou o Blackberry.

    Sorriu.

    — Esse nunca me pediu atualização.

    — Vai que o teclado QWERTY volta…

    — Melhor guardar.

    Mais para o fundo encontrou um cadeado de mala.

    Sem chave.

    — Onde será que anotei o segredo?

    — Vai que está naquele papelzinho de senhas

    — Melhor guardar

    Do lado esquerdo, ocupando um grande espaço da gaveta estavam três adaptadores. Saída de dois buracos redondos e um reto – inútil!

    — Será?

    — Vai que resolvem mudar o padrão de novo.

    — Melhor guardar.

    Lá no fundinho achou uma bateria 9v.

    Vazando.

    — Quem jogou aí?

    — Vai que mela a gaveta.

    Não teve recurso.

    Foi para a lixeira.

    Depois de reorganizar tudo…

    Tenta fechar a gaveta.

    Ela mal fecha.

    Empurrou.

    Empurrou de novo.

    Toc.

    Fechou.

    Severo sorriu.

    A gaveta também.

  • Os influenciadores

    Quem influencia você?

    Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam!

    Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema!

    Este o grande drama da sociedade em frangalhos da pós-modernidade. Indivíduos que não possuem estudo, tempo, maturação, experiências e lastro para falarem sobre algo, falam assim mesmo. E se dão a importância de autoridades no assunto (seja qual for).

    E tudo piora quando, mesmo à luz da ciência, de dados, de comprovação e pesquisa, os ditos influenciadores contestam, negam, se rebelam!

    Não há argumento! Não há lógica! Apenas esperneio e performance! Negacionismo!

    Os influenciadores vendem fórmulas de sucesso para todas as áreas da vida! Ensinam como viver, mas não vivem a vida real!

    Os influenciadores ostentam carrões, mansões, bebidas, luxo, sexo, lugares paradisíacos e um sem-número de ilusões!

    Os influenciadores vendem jogos como doces armadilhas! Tudo parece fácil, simples e direto! Você que não segue se sente um idiota de não ter visto, ouvido e aplicado antes o passo a passo iluminado!

    Quem influencia você?

    Quem influencia tem experiência sobre o assunto para falar sobre isso? Estudou, leu, pesquisou, escreveu, ponderou, anotou, perdeu noites de sono, enfim, viveu o chamado processo?

    Se quem influencia não viveu processo algum, não respeita o tempo de maturação das coisas e das ideias.

    Se não respeita o tempo de maturação, simplesmente, não tem autoridade para falar sobre nada!

    O que é um influenciador então?

    Guardadas as devidas e honrosas exceções, os influenciadores são os idiotas que não têm vergonha de sua ignorância e querem espalhá-la aos quatro cantos!

    Que saudade de Drummond, Chico, Milton Nascimento.

    Que saudade de Chaplin, Clarice, Cecília…

  • Benedita em Buenos Aires

    Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso.

    A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando.

    Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besouros numa caixa e morria de medo de bichos de pelúcia. Todos na família achavam esquisito a preferência da menina por verduras. Benedita não podia ver uma alface.

    Nunca foi de frequentar a sinagoga, preferia consultar o I Ching à Torá e dizia falar com espíritos, a quem chamava de amigos transparentes.

    Detestava televisão e era fã de filmes do cinema mudo. Quando podia, ia ao teatro, notadamente monólogos. Dizia ter a habilidade de penetrar na mente dos atores e mudar suas falas. Nada ficou provado.

    Estudou coreano e lia no original livros de Han Kang e Kim Un-su. Odiava futebol, mas tinha o costume de ir aos estádios para poder cantar com as torcidas. Seu time preferido era o Arsenal de Sarandi. Ninguém nunca soube o porquê.

    Tangos e milongas não lhe diziam nada, exceto “Adiós Nonino” de Piazzolla, que ela dizia lembrar o avô, falecido algumas horas depois de ela nascer.

    Benedita tinha simpatia pelas canções afro-americanas e ouvia Billie Holiday nem tanto pela voz e mais pela trajetória de vida da cantora. Seu beatle preferido era Ringo. Tinha também uma queda inexplicável por Pino Donaggio. Nas artes plásticas, se identificava mais com o barroco e tinha as paredes do quarto decoradas com pôsteres e reproduções de Diego Velázquez. Algumas vezes usava um laço azul na cabeça e brincos iguais aos da “Menina do Brinco de Pérola”, quadro de Johannes Vermeer. Benedita era mesmo parecida com ela.

    No verão usava meia-calça térmica e dispensava roupas de baixo. Adorava vento e andar de patinete. Pintava o cabelo louro de vermelho-sangue nas pontas, detestava sapatos e vivia de sandálias de dedo japonesas. Durante o inverno, pouco saía de casa, passando o tempo em frente à lareira, hipnotizada pelo fogo.

    Benedita não comia qualquer produto de origem animal e arrumava confusão com quem portasse roupas de couro.

    No amor, foi um desastre. Casou-se com um cidadão russo migrado para a Argentina desde o início da guerra na Ucrânia.  Falando línguas diferentes, pouco se comunicavam. Não tiveram filhos. O casamento durou pouco, ela ficou viúva quando ele se engasgou com um pedaço de moela de galinha e morreu asfixiado. Ainda pôde ouvir, em russo, as últimas palavras dele, possivelmente “socorro”.

    Benedita terminou seus dias num lar para idosos. No dia em que morreu, choveu granizo em Buenos Aires.

  • O limbo da dúvida

    Nada mais shakespeareano que estar diante de uma encruzilhada. Ter que decidir para onde ir, o que fazer. Sem verborragia, sem teorias ou viagens intelectuais.

    Tudo resumido na questão mais famosa da humanidade: ser ou não ser.

    Escolher o caminho que leva a ser, evitando onde não seremos.

    Aparentemente simples mas verdadeiramente muito complexo.

    Não somos e queremos ser ou somos mas queremos ser diferentes? Onde seremos e onde não seremos? No lugar onde não somos será que não há nada em que seríamos se o aceitássemos?

    Ir por um lado e não pelo outro implica em abrir mão de futuros incertos mas não necessariamente ruins. Apenas diferentes.

    Mas como saber em qual deles está o melhor futuro se nunca foram percorridos? Se a respeito deles nada se sabe, qual optar? As dúvidas se amontoam à nossa frente e variam a medida que o tempo de indecisão cresce.

    Buscar o novo é realmente essencial? Não seria melhor ficar onde está e conviver com os demônios já conhecidos? Porém permanecer onde está não seria continuar não sendo?

    Escolher o caminho é abrir-se para o novo mas implica, eventualmente, em renunciar a algo. Deixar para traz uma parte nossa, mesmo que seja algo caro a nós. Abrir mão de nossas certezas presentes, boas ou ruins.

    Não há dicas, não há spoilers. Não há como antecipar. Nem garantias que o caminho é firme. Nem companhia.

    Toda decisão de encruzilhada é solitária. Para percorrer o caminho escolhido levamos pouca coisa, para o passo ser leve.

    Nossa bagagem de viajante traz a visão que temos das coisas, a coragem adquirida com a vida e os medos que ainda não nos livramos.

    Mas nem sempre é suficiente para garantir a escolha certa.

    Robert Frost, no belo poema “O Caminho não escolhido”, apresenta sua solução poética:

    Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo,

    E, lamentando não poder seguir os dois,

    E sendo apenas um viajante, muito tempo eu fiquei parado

    E olhei um deles o mais distante que pude

    Até que se perdia na mata;

    Então eu tomei o outro, como sendo o mais merecedor,

    E tendo talvez melhor direito,

    Porque estava gramado e queria ser usado;

    Embora os que por lá passaram

    Os tenham realmente percorrido de igual forma,

    E ambos ficaram essa manhã

    Com folhas que passo nenhum pisou.

    Oh, guardei o primeiro para outro dia!

    Embora sabendo como um caminho leva para longe,

    Duvidasse que algum dia voltasse novamente.

    Direi isto suspirando

    Em algum lugar, daqui a muito tempo:

    Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo, e eu…

    Eu escolhi o menos percorrido

    E isso fez toda a diferença.

    Na paisagem silenciosa do bosque amarelo de Frost a dúvida sopra suavemente vindo dos dois caminhos. O poeta seguiu seu rumo mas deixou dúvidas para o leitor atento:

    Menos percorrido por quem?

    Menos percorrido por que menos atraente?

    Menos percorrido por que mais seguro?

    Ou menos percorrido por que mais audacioso?

    Caminhar na corda-bamba das indefinições. Não saber se ainda é ou se já foi. 

    O limbo da dúvida é o pior dos mundos.

  • A riqueza fez suas vítimas!

    Quantos anos são necessários para reconstruir um belo e charmoso instante, que nos fez bem há muito tempo? 

    É uma tentativa lúdica Impossível de ser documentada, porque somente o tempo decanta o passado, glorioso e fértil, e que esteve às margens de nossas ideias e esperanças. 

    Muitos desses eventos se tornaram a natureza de novos rumos prósperos e saborosos, outros nem tanto, pois muitas cortinas se fecharam com tristeza e medo, de que retornassem a dor e o desassossego.

    Na quarta-feira dia 10 de maio de 2023, fez noventa anos da trágica e marcante queima de livros da nascente Alemanha nazista; (bücherverbrennung é a expressão idiomática que batiza essa ação insana).

     Foram destruídos milhares de títulos que desagradavam ao poder recém-instalado no país, que era a vanguarda da ciência e da filosofia na Europa. 

    Foi um sinal ardente do que vinha pela frente. 

    Não cremos que tal evento se repita sob nossos olhos, que andam esbugalhados de tanta atenção ultimamente. Por isso seguir atento aos eventos socialmente danosos, em todos as nuvens da informação, deveria ser a permanente tentativa de muitos, em vigília pela verdade e garantia intensa, da cultura e do conhecimento. 

    Histórias, poesias, contos, ciência e religião, são nossas referências como gente, e o que não conhecemos porque foi destruído, nos faz seguir com o tapete vermelho sem base, e sequer refletir de onde e como chegamos até aqui.

    Homens como o escritor David Grann, não deixaram de contar uma verdade. Ele descreveu o que aconteceu no período chamado Reino do Terror, em seu livro “killers of the flower moom”, algo como assassinos da flor-da-lua, onde narrou a história sobre uma série de assassinatos brutais aos membros da tribo indígena Osage, originários de uma região rica em petróleo no estado do Oklahoma nos EUA, na década de 1920. 

    Muitos membros da tribo tornaram-se milionários por causa da exploração de petróleo na região onde viviam, e os assassinos estavam interessados em obter acesso às riquezas dos Osage e suas terras. 

    Os crimes eram complexos e envolviam uma rede de conspiradores, incluindo pessoas de dentro e fora da tribo. 

    As investigações iniciais foram prejudicadas por corrupção local e dificuldades em obter justiça para as vítimas.

    A realidade exposta dá luz a verdade, mas a riqueza faz suas vítimas, a honestidade e as vidas perdidas, que ao final das contas valeram menos que a justiça e o ouro negro.

  • A loja

    “Ainda existe a Lobrás?”

    “O que é Lobrás?”. O outro, mais novo, não sabia do que se tratava.

    “Lojas Brasileiras”

    “Existem as Americanas, ainda, apesar dos balanços Mandrake”.

    “Eram concorrentes”.

    Aí o mais novo se ligou no que se tratava.

    “Ah, agora eu meu lembro. Eu era bem pequeno, passava de ônibus aqui com a minha mãe e via o letreiro da janela”.

    E foi exatamente por causa disso que a memória do mais velho foi buscar lá no fundo a lembrança de uma marca há anos falida.

    “Ficava exatamente aqui nessa galeria, eu também passava de ônibus por aqui”, e apontou, braço estendido, para a entrada do centro comercial. Estavam na Conde de Bomfim, quase na esquina com a Rua Uruguai. “Eu gostava de vir aqui com a minha mãe. Enquanto ela fazia compras, eu subia até o Maeda para ficar vendo as corridas de autorama”.

    O outro sorriu. Apesar dos anos que os separavam, chegou a pegar a pista, também ficava olhando os pequenos carrinhos correndo, com inveja dos donos, moleques iguais a ele.

    “Você teve autorama?”

    “Nunca”

    “Nem eu, nem aquele vagabundo com a cara do Emerson”.

    Sorrindo, o mais velho contemplava o lugar em que ficava a Lobrás, e era como se estivesse contemplando a própria lembrança, porque na verdade olhava sem ver. Suas vistas se desocupavam do presente e se enchiam da infância e da adolescência.

    “Aqui era legal por causa da pista de autorama, mas eu gostava também de ir nas Lojas Americanas, minha mãe me dava um pedaço de pizza com laranjada. Não era suco; era suco misturado na água. Era muito bom”, e pode sentir, revisitando o paladar, o sabor do molho de tomate e o da muçarela e o gosto do refresco.

    “Quando eu era menor, ela comprava também aqueles carrinhos de plástico, bem vagabundos. Eram tão vagabundos, que na outra semana já não prestavam para brincar”.

    “Eu tive um que o plástico era tão fino que uma dia esqueci no quintal, debaixo do sol, e o carrinho ficou todo molenga, quase derreteu todo”.

    Sorriram juntos da graça que alguns acontecimentos não perderam e jamais perderiam.

    “Lá em Brasília agora tem uma tal de Casas Brasileiras. Acho que abriu não tem tanto tempo, não tinha quando eu fui morar lá. Tem aqui no Rio?”

    “Não sei, se tem, eu nunca vi”, parado, o outro voltou o rosto para o chão, como se assim pudesse responder se havia ou não na cidade a tal loja.

    “São as mesmas cores que eram da Lobrás, as cores da bandeira, óbvio. Acho que vende o mesmo tipo de coisa. Não sei”.

    Mas ele sabia que vendia papel celofane, o que a loja da infância também vendia. E foi nesse momento, que um filete de reminiscência trouxe à tona um ar saudoso que ainda não se declarara em seu rosto. Seu sorriso, que era céu claro, nublou-se em décimos de instante, e em um estalar de dedos, seus olhos deixaram ir embora a vivacidade. Sabia que a tal Casas Brasileiras, de Brasília, vendia papel celofane porque em uma tarde de sábado, seis anos antes, Sabrina desceu apressada do bloco em que morava, com os cabelos ondulados sacudindo ao ritmar de seus passos inquietos e um vestido verde de flores alaranjadas escondendo pouco abaixo dos joelhos. Sabrina tinha um ar retrô de moça que viveu a juventude na virada dos anos setenta para os oitenta, e sempre que aparecia nos pilotis do prédio, era como se os maquinistas do passado puxassem uma antiga alavanca e o comboio desviasse para trilhos antigos.

    Tomando-o pelo pulso, correu com ele à loja da comercial da 708 norte. Eram quase quatro da tarde e os funcionários já encaixavam as estruturas verticais de metal para cerrar as portas. Ela entrou e saiu feito um relâmpago da loja, carregando dois rolos de papel celofane. “É para embrulhar o bolo”, explicou, o bolo da festa surpresa da Luciana, que fazia geografia com Sabrina na UNB.

    Ela o chamou para a festa, os dois torcendo para que acontecesse o que cada um queria, mas que não tinham certeza ainda se o outro queria realmente o mesmo. Quando viram e sentiram, os quereres eram siameses. Ficaram juntos, começaram a namorar e um amor imenso inundou suas vidas durante dois anos.

    Até que Sabrina se formou.

    E ganhou uma bolsa de pesquisa na França.

    E viajou para ficar três anos.

    E já se passaram seis, que pelo jeito chegarão a nove e logo serão doze, até que tudo se transforme em nunca mais.

    Nunca mais Brasil, nunca mais Brasília, nunca mais ele.

    Fica parado em frente à loja de sua meninice. Sem esforço, enxerga a mãe e suas sacolas, com o braço estendido segurando sua mão. Compondo a periferia da visão, estão o autorama, o carrinho de plástico vagabundo, a pizza e a laranjada. E sem que espere, surge Sabrina, com seus cabelos, vestido colorido e adereços que se coadunam com a imagem da mãe saindo com ele da loja que não existe mais. O imenso amor que resiste à distância e à falta de expectativa de que ela volte desenha em seus olhos abertos o movimento contente de Sabrina trazendo dois rolos de papel laminado e um sorriso apressado de que a vida é linda e pede a urgência da juventude.

    Ele dá dois passos à frente e gira o pescoço na direção contrária, de modo que o outro não o veja chorar.

  • Poema #85: A verdade sobre a mentira

    Tenho dito mentiras
    sem tomar consciência
    de sua contextura falsa.

    Não tenho desmentido o que digo
    pois tenho a concepção de que minto
    sobretudo para mim mesmo.

    Sendo assim as minhas mentiras
    não podem acarretar
    na perda de qualquer afeição.

    E já que é precisamente sobre a falsidade
    que se alicerça o convívio entre os homens,
    as palavras de mentira ou verdade que eu disser
    nada significam de permanente num relacionamento.

    Mas não posso deixar de convir
    que assim fazendo, a cada dia
    eu amanheço mais distante de mim.

    O Acaso das Manhãs

  • Sincronia

    As mãos ágeis dão forma a mais uma encomenda. Tecem em lã o desejo de alguém, na velocidade do som. A mulher de um metro e meio, se tanto, observa os carros passando a vinte quilômetros por hora e a vizinha no tanque.

    Conversam. Enredam dúvidas e certezas; criam histórias da vida alheia, sem nenhum pudor. Parecem amigas e são, até que deem as costas uma à outra.

    O ruído do motor na tarde. As mulheres que chegam e saem. O molde sobre a mesa. A almofada de alfinetes…

    A mulher grita com os filhos no quintal, abre a Manequim, faz sugestões…

    Anota as medidas de mais uma freguesa, ouve histórias. Discreta, silencia. O breve olhar diz: “Criança não participa da conversa dos adultos.”

    A mão na máquina, o pé no motor, a casa, os filhos. A vida sutilmente alinhavada.

    Sangue de vísceras sob as unhas e a pele encardida pela fumaça transformam-na em objeto do medo pueril.

    “Solteirona, feia, esquisita…”

    Vende chouriço e morcela. Dona Zinha da morcela.

    — Vou te dar pra D. Zinha! — amedrontam.

    Contrariando, seu riso agudo é fácil. Ri, porque é feliz.

    Ri, porque é bastante a vida que tem.

    Feminina, enfeita a casa com cheiros doces, memórias afetivas, com alegria subversiva; com amor.

    Briguenta, exigente, corajosa: mãe.

    Sedutora, bonita: mulher.

    Constrói a vida que deseja nos espaços que tem.

    Espera, esperneia, discorda… Harmoniza.

    Luta, porque é;

    Luta, para ser.

  • Íris

    “Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…”

    Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!”  (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de início e fim de ciclo de si mesma. Tinha a sensação de completar mais um aniversário dentro do mesmo período de rivoluzione del pianeta Terra. Revolução. Achava a palavra em italiano muito mais bonita do que a portuguesa translação. Aprendera com uma de suas pessoas-milho, um italiano de Rocchetta Nervina, cidade cujo nome composto sempre fazia Íris mover as mãos à moda italiana. Nunca dera um Google para saber onde ficava no mapa da bota. O nome bastava, era cenográfico, naturalmente. Parecia um vilarejo onde Deus, o mesmo da frase parcialmente sob a hera do muro da rua nove com a rua dois, tinha deixado o GPS sem sinal. Em Rocchetta Nervina, Íris tinha não um palpite, mas uma certeza particular: até a esperança, sentimento malandramente carioca, chegaria com dois dias de atraso.

    Nada italiana, nem por relações ancestrais sanguíneas, Íris trabalhava com marketing. Era muito boa em encontrar frases impactantes para produtos, ideias, empresas, clientes que nem sempre sabiam muito bem o que queriam dizer. Era a voz que precisavam, sem precisar emprestar o tom da sua. Passava os dias convencendo marcas de que promessa alguma sobrevivia a uma experiência ruim e, fora do expediente, demonstrava talento impressionante para acreditar exatamente no contrário.

    Vivia em mudança, era nômade havia exatos 365 dias. A empresa internacional para a qual trabalhava dera a ela um cargo de retirante premium no Brasil: cidade, projeto, mala, apartamento temporário, próxima cidade. Chamava tudo de mudança, nunca de viagem. Viagem pressupunha volta. E, sem volta, ficavam também suas relações, mesmo que pipocassem pessoas pelo caminho. Íris, pipocólatra assumida, sabia muito bem que pipocas não permanecem: estouram, fazem festa, aquecem o coração e, passado o entusiasmo, deixam pouquíssima sustância. Sua vida era uma panela inteira embebida em óleo, repleta de pessoas-milho que o acaso catava, aquecia e fazia estourar nesses movimentos migratórios sem fim aparente. Tinha as que viravam pipoca, aquelas outras que permaneciam milho e quase quebravam um dente. Ainda havia as mais perigosas que, por algum defeito de fabricação sentimental, Íris confundia com alimento para a vida inteira.

    Numa segunda-feira, em uma padaria perto da casa da vez, pediu um chá de capim-limão. O quadradinho preso à linha dizia:

    “Sorria sempre.”

    Íris sorriu, mas por desprezo profissional.

    — Preguiçoso, genérico, aprovado pelo cliente na primeira rodada — pensou.

    Depois riu sozinha. Foi quando ele entrou.

    Tinha alguma coisa de personagem que perdera o próprio século, um “quê” de um Botticelli que pegara o ônibus errado e, por orgulho, decidira seguir a pé até o século XXI. Vestia alguma coisa escura — dark, pensou Íris, sem saber por quê — e não era bonito segundo os termos e condições vigentes da beleza. Talvez um algoritmo passasse direto. Mas Íris não era máquina ou algoritmo.

    Ele falou com a moça do caixa. Foi o raio da voz, que não era particularmente grave, nem cinematográfica. Era pior. Parecia conhecer o caminho. Não até ela — seria cedo demais para tamanha presunção —, mas até algum lugar interno seu que Íris ainda não sabia nomear. A tal voz fez surgir na memória uma velha canção italiana. Duas estrelas. A noite. O tempo. O tipo de canção que fazia parecer muito razoável supor que o universo tivesse interesse específico na vida amorosa de duas pessoas.

    “Excelente conceito”, pensou. Universo, desejo, eternidade. Público-alvo: qualquer pessoa emocionalmente vulnerável depois das oito da noite. Ainda sorria quando ele olhou para ela.

    Ele não sorriu.

    Mas os olhos castanhos sem íris sabiam olhar.

    E Íris, que fazia profissão de interpretar mensagens e hobby de interpretá-las mal, considerou aquilo um sinal: ela se especializara em identificar uma promessa mal posicionada a quilômetros. A menos que viesse acompanhada de olhos como aqueles. Ou de uma fala qualquer, dita naquele tom de voz que parecia acertá-la diretamente na boca do estômago.

    Era uma pancada.

    Mas tinha um organismo surpreendentemente competente para transformar impactos: dali em diante, ouvidos, cérebro, coração e alvéolos pulmonares davam conta do recado. Sempre. E ainda trabalhavam em equipe na manhã seguinte, quando algum objeto doméstico surgia disposto a confirmar a tese da véspera.

    Dessa vez, foi a caixa de leite vegetal. No topo: “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris parou.

    Profissionalmente, reconheceu uma excelente chamada. Emocionalmente, já se contaminara. Paixão era mesmo aquilo: risco. Não um rabisco, mas vertigem. Queda, aceleração, uma espécie de irresponsabilidade temporária dos órgãos internos.

    Não tinha, necessariamente, relação alguma com amor. Amor era outra campanha. E, suspeitava agora, exigia entrega. Sua, claro, mas não só. Também daqueles outros olhos que precisavam saber olhar de volta, mutuamente, e não só de forma profunda.

    Na terça-feira, passou outra vez pela rua nove com a rua dois. A hera parecia ter avançado alguns centímetros sobre a frase de Deus.

    Na quarta, uma folha caiu em seu ombro.

    Na quinta, um pedaço pequeno de reboco acertou sua bolsa.

    Na sexta, absolutamente nada aconteceu.

    Íris achou isso suspeito.

    Depois vieram outros dias. Mensagens nos pacotinhos de açúcar. Vozes de transeuntes. Promessas em sua própria cabeça. Silêncios.

    Voltou à padaria, todos os dias. Testou ir em horários diferentes. Uma frase se movia dentro dela, ciclicamente, como ponteiros de um relógio analógico:

     “Espero que ele chegue. Espero. Ele chegará. Espero que ele chegue”.

    Esperava, desconstruindo os anos de estudo, pelas coincidências. Esperava a mesma voz atravessar outra vez algum lugar e encontrar o caminho. Esperava como quem trabalhava numa campanha que já havia ultrapassado o orçamento, mas ainda jurava que a próxima peça resolveria tudo.

    Até que procurou aquela velha canção italiana, leu a tradução pelo Google. A música era original de 1977. Sete e sete. Brincadeira antiga de azar, como costumava procurar a dupla de números em placas de carros, quando adolescente. Sem perceber, já de então treinava o universo para lhe responder alguma coisa. Olhando atenta para a letra completa da música, descobriu que sempre a havia entendido pela metade.

    Falava de estrelas, sim. De duas. Falava de encontro, de sombra, de corpos refletidos nas ondas.

    Mas, na meiuca das estrofes, sem qualquer constrangimento cósmico, despedia-se. Addio, ragazza, ciao. O “ciao” que brincava de cumprimentar com oi e com até loguinho. Ou “até nunca mais, ragazza”.

    Íris encarou a tela.

    — Era isso? Todo aquele céu para terminar em tchau?

    Achou uma falta de responsabilidade afetiva astronômica mobilizar duas estrelas para dizer adeus. E depois dizem que italiano é romântico! Romantismo, que nada. Era uma língua educada pela ironia bem-feita. Pensou no italiano-milho de Rocchetta Nervina, percebeu que talvez algumas pessoas não mentissem, exatamente. Apenas interrompiam a música antes do verso que as denunciaria.

    No domingo seguinte, voltou à esquina da rua nove com a rua dois.

    A hera já cobria metade da frase. Lia-se somente “Deus”, “cenário”, “você”.

    Passara semanas recolhendo mensagens em caixas de leite, sachês de açúcar, quadradinhos de chá, músicas italianas, olhos alheios e promessas mal-acabadas. Foi quando, no seu percurso diário pelas tais ruas numéricas, uma caixa caiu do alto e acertou sua cabeça.

    — Ah, ótimo. Agora até a botânica me agride.

    Era um baralho. Íris olhou para a hera.

    — Taróloga também?

    Sentou-se na calçada e abriu a caixa.

    Vieram primeiro seis de espadas | sete de espadas | sete de ouros.

    6♠:Travessia; afastar-se de águas turbulentas 7♠: Estratégia, evasão, aquilo que talvez não tivesse sido dito inteiro.

    E depois a pergunta inconveniente do 7♦: onde ainda valia a pena investir tempo, cuidado e energia?

    Íris estreitou os olhos para a planta.

    — Excelente diagnóstico. Péssima gestão de relacionamento com o cliente.

    Olhou o fundo do baralho. Dois de copas.

    2♥: Conexão, encontro, reciprocidade.

    — Ah, claro. O amor sempre entra no briefing.

    Puxou mais três: Seis de copas | cinco de espadas | dez de copas.

    6♥: aquilo que romantizava. A memória doce, o passado ganhando iluminação melhor do que tivera enquanto acontecia.

    5♠: os fatos. Um conflito em que continuar tentando vencer poderia significar sair perdendo de qualquer maneira.

    10♥: para onde sua energia queria ir. Inteireza. Afeto compartilhado. Uma vida que não precisasse ser persuadida a acontecer.

    Íris ficou em silêncio.

    —  Um lindo abuso de marketing! – concluiu.

    Ela, que se julgava racionalmente fora do público-alvo – sempre se julgava – era a profissional questionando a segmentação e a emocional compradora da campanha de marketing com o ♥ batendo forte.

    Olhou para o muro, com a hermenêutica dentro de si. A hera não respondeu.

    Na manhã seguinte, a caixa de leite vegetal ainda dizia:

    “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris leu outra vez.

    Sorriu. O risco nunca tinha sido esse. Apaixonar-se era apenas parte da revolução, seu movimento próprio de translação com o mundo.

    O risco real era confundir órbita com espera. Guardou o leite na geladeira, pegou a bolsa e saiu.

    Ao passar pela rua nove com a rua dois, não pediu sinal algum.

    A hera, pela primeira vez, também ficou quieta.

    Íris seguiu.

    Ainda esperançosa. Só não pensava mais: espero que ele chegue. Mudou de padaria.

    Tinha a próxima grande jogada de marketing na ponta da língua.

  • Xeque-Mata

    Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo.

    — Peão quatro do rei.

    Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação.

    — Cavalo três do bispo do rei.

    Rafaela começa a descobrir que Eduarda responde de imediato ao jogo. Certamente para se exibir. Pudera, sem ir à praia, devia ficar em casa estudando, lendo os manuais de xadrez, estudando aberturas clássicas, confronto dos mestres… Eduarda acha que Rafaela poderia jogar bem melhor, se não bebesse tanto durante a partida.

    — Bispo seis da torre da dama.

    Eduarda tem um pescoço liso, com destaque para uma veia fina e a impressão de que nascera para alvo de vampiros. Para Rafaela, Eduarda faz gênero. Jogar xadrez é como dama, sudoku ou gamão. É só um jogo. Serve mais uma dose de uísque com gelo e saboreia. Já Eduarda, mais elitista e menos etílica, classifica o xadrez como um desafio de estratégia e tática. Necessariamente sóbria.

    — Peão cinco da dama.

    Rafaela opta por tomar a iniciativa. Não tem nada a perder arriscando. Eduarda se defende e prepara um contra-ataque. Rafaela sente-se provocada e agora se concentra nas artimanhas do jogo. Eduarda sorri, demonstrando uma calma irritante. Meio arrogante.

    — Torre dois da torre.

    Nesse momento, Rafaela planeja um ataque com a dama. Eduarda pressente. É melhor pensar numa defesa segura.

    — Dama sete do bispo do rei.

    Gradualmente, Eduarda avança. Visa o xeque mortal, com paciência.

    — Cavalo come bispo.

    Rafaela pega mais umas pedras de gelo e completa seu uísque. Acha um caminho. Como não havia pensado nisso. Suas chances
    aumentam, ela calcula, e recomeça a gostar do jogo. Eduarda hesita e demora a responder.

    — Dama come peão do cavalo.

    O jogo parece caminhar para o empate. Qualquer movimento arriscado pode significar a derrota. Eduarda não tira a mão do queixo e olha fixamente para as peças. No fundo, considera uma humilhação perder para Rafaela. Inveja o jeito da oponente encarar a vida, uma forma sedutoramente irresponsável. Queria ser assim, levar as coisas menos a sério.

    — Roque pequeno.

    Eduarda posiciona o bispo e o cavalo do rei atuantes no centro, mantendo o semblante provocador e a segurança de quem tem agora o controle da situação. Rafaela confia na sua intuição e se esforça em encontrar saídas diante do ataque fulminante (ou galopante) do cavalo que…

    — Cavalo seis do bispo… e xeque.

    Rafaela ainda vislumbra uma saída. Meio suicida. A melhor defesa é atacar. O jogo fica tenso. As investidas vão se sucedendo e Eduarda consegue neutralizar as mais importantes. Após uma troca forçada de peças, nenhuma grande vantagem para ambos os lados.

    — Peão come pão.

    Rafaela propõe empate. Eduarda recusa. Rafaela ri, amarelo…

    — Peão come cavalo.

    Eduarda, enquanto aguarda a vez de jogar, desabotoa a blusa e começa a passar a mão pelos seios, alegando calor. Rafaela reclama que ela está tirando a sua concentração. Eduarda sorri.

    — Torre quatro do cavalo.

    Eduarda responde com um avanço de peões. Enquanto aguarda a resposta de Rafaela, olha para ela: é uma morena bonita, de lábios, carnudos, corpo de atleta e os olhos pretos que pedem por carinho. Pena ser doidivanas.

    — Bispo defende a torre.

    Rafaela não consegue tirar os olhos dos seios de Eduarda. Ameaça parar de jogar. Aquilo não está nas regras e nem tem cabimento. Eduarda não dá bola. Rafaela tenta se concentrar.

    — Dama cinco do rei.

    Rafaela cada vez mais encurralada, com seu rei sem muitas opções para escapar, reúne as últimas forças para tentar uma saída.

    — Peão sete da dama.

    Eduarda sabe que o xeque-mate é iminente. Vai coroar seu peão da torre. Sugere que a adversária admita e abaixe o rei branco. De repente, Rafaela dá um pontapé no tabuleiro, derruba as peças, pula em cima de Eduarda, a agarra e beija com raiva. Eduarda, depois de esboçar uma pálida reação, acaba cedendo e retribui o beijo. As duas, deitadas sobre as peças e o uísque com gelo entornado, se enroscam agora. O jogo havia terminado. Começavam se apaixonar e nem se davam conta.

  • Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra?

    Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador.

    E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima.

    Isso sem falar na meia que desaparece na máquina e reaparece meses depois, sem par e sem explicações — como quem não deve satisfação a ninguém.

    Agora, o que realmente me tira do sério é a fila do lado andar mais rápido. Seja no supermercado ou no pedágio. Quando decido trocar, a antiga, vingativa, flui imediatamente, e eu fico lá atrás, acompanhada apenas do remorso.

    Tento entender a lógica dessas rebeldias do mundo e começo a desconfiar de que não sejam falhas. Talvez sejam combinados secretos entre as coisas, uma forma discreta de me fazer companhia.

    Penso nisso quando saio pela esquerda em vez da direita, quando chego para embarcar no voo das oito da manhã com passagem para as oito da noite, ou quando chamo a namorada atual do amigo pelo nome da anterior.

    No fundo, gosto de acreditar que as coisas erram por solidariedade. Um gesto silencioso para quem, como eu, também falha, esquece, tropeça — e tenta de novo.

  • A Bola de Neve e seus encantos

    — Mãe, abre o portão.

    É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras.

    — Ué, você mudou os móveis?

    — Como?

    — A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha.

    Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia.

    — Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume.

    — Mas aí tem tomada elétrica?

    — Coloquei uma extensão.

    — Jesus! Mãe, até isso?

    Desenvolvi tantas qualidades nesta fase da vida…

    Uma delas é não retrucar na sequência de uma fala preocupada.

    Ainda mais quando é quase uma cópia das que ela ouvia quando criança.

    Entro com algo leve. Pergunto se o sapato é novo, ou o brinco, qualquer coisa que mude a energia.

    É tiro certo!

    Mas, voltando à sala, nada é novo. Nós, eu e a minha “jardineira fiel”, brincamos de decoradoras.

    Agora, com o advento da Inteligência Artificial, não há mais razão para uma sala permanecer inerte através dos anos.

    Sendo assim, não precisei andar por lojas, nem comprei nada novo. Apenas “repaginei” a minha casa.

    Ficou muito linda. Entrou um frescor, me renovou, me alegrou.

    É claro que foi a Terê que me ajudou. Ela também tem o espírito assim, meio nômade. Tanto que eu a conheço desde quando nem tinha filhos. Agora já tem netos.

    Assim como a minha casa, ela não gosta de ficar sempre ali, daquele mesmo jeito.

    Já me acostumei. Ela vai. Mas volta.

    Faz dois anos que voltou.

    De onde?

    De outras salas, outras patroas, outras vivências.

    Minha filha tomou o café, deu uma volta pela sala e parou em frente ao móvel onde havia um antigo globo de neve, com a miniatura de um trenó e Papai Noel.

    — E este enfeite? A senhora já tinha?

    — Sim! Tenho há quase cinquenta anos. Era da sua avó.

    — Hum…

    Senti que sua dureza ao me julgar, amolecia…

    Ela se afasta.

    Ofereço um pedaço de bolo, pergunto do Alfredo, das crianças. Quero a normalidade, o trivial.

    A conversa então flui, a tarde passa e nos despedimos até a próxima quinta-feira.

    Felizes e gratas .

    Mudamos os móveis, trocamos as coisas de lugar, criamos hábitos novos e conservamos outros por décadas. Terê vai e volta. Bárbara chega às quintas. Eu tomo meu café sempre no mesmo horário.

    Manias. Costumes. Rotinas.

    E, entre uma coisa e outra, nós três desenvolvemos uma habilidade que talvez só o tempo ensine: para ser feliz, é recomendável fazer “cara de paisagem,” em determinadas situações.

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