Crônicas

  • Sertanejo Universitário

    “Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” — (Gusttavo Lima)

    Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares – como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

    Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

    Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

    A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

    Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

    O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

    Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

    Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

    Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

    Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

    A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

    Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

    É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

    No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntarem até onde vai o fundo do poço. 🗞️

  • Metamorfose

    A lagarta vira borboleta.
          Mas a borboleta não volta a                  ser lagarta. 

    Existem as boas mudanças e aquelas diante das quais exclamamos: eu achei que não podia piorar!

    Quando mais jovem ouvi a expressão:

    A mudança é a única constante da vida.

    Adquirimos novos gostos, costumes, amores, desafetos, casas, amigos, opiniões e o que mais quisermos, ao longo da nossa vida.

    Sem perceber… mudamos.

    É bom?

    Depende do ponto de vista.

    Os pais acham ótimo ver os filhos tendo alterações tanto físicas quanto intelectuais.

    Os filhos nem sempre simpatizam com a mudança dos pais. Percebem quando se tornam mais exigentes, mais críticos, e até mais audaciosos no modo de viver.

    Com o tempo, passamos a notar melhor esse movimento, às vezes discreto, às vezes inevitável.

    Embora não haja um instante exato em que algo se desloca.

    Mesmo quando se diz ser apenas um ajuste às novas realidades.

    Essas chegam sem alardes, e se estabelecem.

    A pouca conversa dos jovens, o entrar e sair dos cômodos com os olhos presos ao celular, o “oi” dito por hábito. O que vivemos hoje é resultado de mudanças, pelo menos sob o olhar dos mais velhos. Para os jovens, nada está fora de lugar. Eles não mudaram.

    O mundo agora é outro.

    O tempo daquela adolescência barulhenta, risadas que animavam a casa inteira, a expectativa com os bailes, piqueniques, sessões de cinema, não existem mais. Em algum momento, se transformou. Sem alardes, nem anúncios. Apenas deixou de ser.

    Mudou.

    Para os jovens pais e seus filhos adolescentes, assistir a filmes sozinhos, conversar em grupos invisíveis, acompanhar vidas que cabem na palma da mão é muito natural. Saber o que veste e come determinado artista, ou alguém da mídia, pessoas que não fazem e nem farão parte das suas rotinas, das suas risadas, dos seus sonhos.

    Não é mudança, é o normal. E não incomoda. Não se sente saudade do que não existiu.

    Cada tempo entrega o que tem. Aos poucos, as pessoas vivem de outras formas, dançam outros ritmos, vivem novas distâncias.

    Nada se perde por completo. Mas também não permanece igual.

    E talvez seja isso o mais surpreendente: não é a vida que muda diante de nós, é o nosso olhar que se transforma dentro dela.

    Somos nós que mudamos, vamos nos tornando outros, enquanto ela segue.

    🌷
  • A aventura

    Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava:

    — Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de retratos do neto, o filho da Dorinha que nasceu no ano passado — informou Marlene, com seu jeito despachado, típico de quem sabe delegar funções.

    Distraído com a lembrança da captura dos porcos (como o menorzinho dera trabalho) e com o ronco do motor, Tarcísio esperou alguns instantes até dar a partida. Dali a pouco a caminhonete já deslizava cambaleante pela estradinha de terra batida que o levaria até o município vizinho. A viagem não seria tão longa, coisa de três quartos de hora, se tanto. Tarcísio e o veículo conheciam bem o trajeto, e isso facilitava as coisas. O rádio tocando forró ajudaria a encurtar o percurso. Quinze minutos após a saída, Tarcísio meteu a mão no bolso da camisa e não achou nada além da lista de compras preparada pela mulher. Estava sem cigarros. Por sorte, a birosca do velho Jerônimo ficava perto. Compraria os cigarros e ainda tomaria um copo de água gelada. Na porta do estabelecimento, encontrou Cícero, Chico, Zezito e Miguelzinho, os netos do proprietário, jogando bola de gude. Assim que viram Tarcísio, os garotos deixaram de lado a brincadeira e correram em sua direção, envolvendo-o numa roda barulhenta e agitada. Já dentro do bar, o homem acomodou-se próximo do antigo aparelho de TV, que exibia um sonolento programa de entrevistas. A imagem, cheia de fantasmas, vez por outra sumia por completo, tornando difícil o entendimento de grande parte da conversa. Ficou alguns minutos assistindo ao debate sem prestar muita atenção ao mesmo tempo que proseava amenidades com o velho Jerônimo. Retomado o caminho, percebeu que, daquele ponto em diante, as condições da estrada exigiriam velocidade reduzida. As chuvas da semana anterior haviam piorado a precária situação da via, e, em alguns trechos, o barro quase fazia a caminhonete atolar. Sem que Tarcísio tivesse se dado conta, Cícero e Zezito tinham se aboletado na carroceria enquanto Chico e Miguelzinho, a pé, tentavam alcançar os outros dois. Quando a velocidade diminuía, parecia que iam conseguir subir também. Então, mais uma vez, para decepção dos meninos, o veículo tomava impulso e os deixava para trás. Num trecho especialmente pantanoso, Chico cansou. De pé, estático, ficou olhando os primos seguirem adiante. Extenuado, abandonou o corpo e, num misto de lamento e decepção, caiu de joelhos, antes de se largar no solo, respiração ofegante, braços abertos em forma de cruz, corpo tingido de lama misturada com suor. Miguelzinho, por sua vez, seguiu em frente e, alguns metros depois, auxiliado por Cícero e Zezito, acabou subindo na carroceria também. Ao lado das caixas com os porcos, deitaram- se os três de barriga para cima olhando o céu. O sol do início da tarde iluminava-lhes o rosto. Os animais, a cada solavanco mais forte da caminhonete, guinchavam agitados, desejando sair do confinamento. Pouco tempo depois, a viagem se encerraria. Na fazenda do compadre Matias, Tarcísio se preparava para descarregar a encomenda quando notou a presença das crianças. Ameaçou dar uma bronca nos guris, mas, antes de abrir a boca, desistiu. Os quatro, então, puseram-se a descarregar as caixas. O último porco a ser libertado começou a se debater tão logo deixou o cativeiro. Furioso, correu atrás de Zezito com a intenção de atacá-lo. Antes que pudesse alcançar o meleque, o bicho foi atingido por dois tiros de espingarda disparados pelo compadre Matias. Morreu na mesma hora.

  • Zebras à vista na copa do mundo

    Estava passando em revista os 12 grupos da copa do mundo de futebol e conhecendo as 48 equipes. Um comportamento estranho, admito, porque nunca fui fã de copa do mundo, como atestam as pessoas que me conhecem. Verdade. Me entusiasmei mais com a copa do mundo de clubes, aquela do ano passado em que meu Fluminense surpreendeu a todos que não o conhecem, naturalmente.

    Visto isso, por que diabo queimei minhas pestanas conferindo quem vai participar?

    Porque eu adoro uma zebra. Sim, isso mesmo, o resultado menos provável. O vexame do time grande. Menos do meu, naturalmente. E como é copa do mundo, aí é um vexame que cruza fronteiras.

    Por isso, em nome do meu prazer mórbido de escutar a zebra relinchar nos gramados eis como avalio os grupos.

    Começando pelo grupo B seria lindo ver a Bósnia Herzegovina ou o Catar colocarem Canadá e Suiça na roda. No grupo C, que belo seria o Haiti dar um calor nos colegas de grupo, incluindo aí o Pentacampeão mundial. Mas só para descer do salto um pouquinho.

    E o grupo E? Já viram de onde galopa a zebra que pode tirar o sono da Alemanha? Curaçao. Isso mesmo, daquela ilha no Caribe que até bem pouco tempo conheço gente que achava que era só nome de bebida.

    O grupo H tem Cabo Verde que apesar de ficar na África, onde a turma aprecia o futebol, eles lá no arquipélago não têm muita intimidade com a pelota. Que a Espanha e o Uruguai mantenham os olhos abertos.

    No grupo I a zebra é a nórdica seleção norueguesa. Se a França e o Senegal cochilarem vão acordar no Valhala.

    O J tem a modesta Jordânia que pode aplicar mais um vexame a poderosa Argentina. Quem tem memória sabe que os vizinhos mais ao sul de nossa fronteira têm intimidade de sobra com a zebra.

    No K se tiver alguma surpresa ela virá do Uzbequistão. Mas ai, honestamente, espero que não porque o Cristiano Ronaldo é gente boa e não merece pagar mico em campo.

    E por fim, a última zebra que eu acredito que exista é o Panamá. Apesar de latino-americano eles parecem desconhecer a forma da bola. Pior para a Inglaterra se entrar em campo de nariz empinado.

    O grupo G tem o Irã, que não é azarão. Mas a torcida é para eles porque, afinal, desde o Vietnam ninguém dá um baile tão bonito nos EUA. Ou alguém discorda?

    Os grupos A e F são sem graça: nenhuma seleção candidata a azarona.

    E no grupo D honestamente não quero zebra. Para mim seria lindo ver o valente Paraguai, coadjuvante no cenário internacional, aplicar aquela goleada homérica nos donos da casa. Se alguém pensou em 7 a 1, tá bom, tá valendo.

    No mais, que o árbitro soe o apito.

  • Todos os meus amigos são caretas

    Todos os meus amigos são caretas. Talvez um só não seja, mas os outros, todos, são. Foi esta frase que, de repente, ao acordar — antes mesmo do café da manhã —, vim correndo aqui anotar.

    Nenhum amigo meu bebe, fuma; nenhum é notívago, folião de carnaval. Não tem, sequer, um que pense fora da caixa.

    Certa vez, uma amiga minha — que já é avó e tem filhos grandes — foi comigo a um show da Virada Cultural, na Praça 7. Tinha uma banda independente tocando blues, gente tomando cerveja, amigos, homens e mulheres paquerando.

    Até que, no meio de todo mundo, havia um casal se beijando.

    Era um beijo na boca, longo, de língua, demorado, aproveitando o embalo da canção favorita. Para mim, parecia um espetáculo belíssimo, aquele casal.

    Mas minha amiga virou pra mim e disse:

    “Que necessidade desse beijo de desentupidor de pia na frente de todo mundo?”

    Eu quis olhar pra ela e dizer:

    “Poxa, você é careta demais. Para, que tá feio.”

    Eu quis, mas não disse.

    Eu amava demais aquela querida que, além de ser uma cronista de mão cheia, inspirou as minhas primeiras. Ela tem, até hoje, crônicas manuscritas, deliciosas, que jura que um dia vai digitar e colocar num livro.

    Quando a gente marcava de se ver, há algum tempo, ela tinha uma frase que eu adorava:

    “Tô levando uma crônica aqui debaixo do sovaco.”

    Apesar de rir um pouco do jeito dela, eu sempre adorei aquela gargalhada — e a escritora que ela é.

    Outro amigo meu é músico, dá aulas de violão, tem CDs independentes e, no meu último aniversário, eu falei:

    “Você é meu cantor favorito.”

    “Depois do Agnaldo Timóteo, né?”, ele brincou.

    Ele dá tanta aula, faz tanto show, que a gente custa a se ver — mas, que cara maravilhoso, quando dá certo.

    De vez em quando, no centro, a gente marca só pra sentar e ver uma aula de capoeira, ali na Praça 7. Outras vezes, sentamos no pátio de uma igreja católica e ficamos batendo papo; já, em outras, aproveitamos shows na praça, teatro.

    Que gargalhada fascinante.

    É um cara que entende tanto de MPB que, se deixar, a conversa dura vinte e quatro horas — de tão gostosa.

    Mas é o pai da caretice.

    É do tipo que acha que a novela na TV tem “sarro demais”, que está ensinando o que não deve pras pessoas. É do tipo que vai pra cachoeira no carnaval, fica se guardando pra garota ideal, não vê necessidade de sarro, em público, de casal algum.

    Tenho um amigo da faculdade que, sempre que eu voltava de uma balada — com os olhos sonolentos e sujo de batom —, dizia coisas como:

    “Imagino a quantidade de germes e bactérias sendo transmitidos nesse tanto de gente se beijando na boca.”

    Por fim, tenho um outro amigo que, quando me acompanhou numa boate, me falou algo que, sempre que me lembro, fico me desmanchando, em lágrimas, de tanto rir.

    Segundo ele, antes da boate abrir, “um grupo de aidéticos espetou uns alfinetes no banco, pra espetar a gente e contaminar de propósito”. Eu fico imaginando a cena: a boate abrindo mais cedo, não pros frequentadores, mas pra esse suposto grupo entrar primeiro e deixar tudo preparado pra espetar a bunda dos frequentadores quando eles chegassem.

    Ele se assusta um pouco com a noite, se assusta um pouco com a boemia — mas, pelo menos, vai. Pelo menos, me acompanha.

    Este, apesar de falar umas coisas bizarras, de vez em quando, é uma das melhores companhias pra uma boate, um bloco de carnaval.

    Convivo, o tempo todo, com gente que fala que “os poemas de Drummond são machistas”, que “Vinícius de Moraes tem gatilhos”, que dorme cedo, vive fazendo regime, censura quando vou beber, dançar a noite inteira ou comer doce depois do almoço.

    Mas, quer saber?

    Sempre achei fascinante quando duas pessoas, de personalidades opostas, se tornam amigas.

    Não sei quem criou a ideia de que, pra serem amigas, duas pessoas precisam gostar do mesmo tipo de música, votar no mesmo candidato, serem religiosas ou serem dois amigos notívagos.

    Às vezes, o que me atrai numa pessoa é, justamente, aquilo que eu não sou.

    Então, é bom quando alguém, de certa forma, nos leva a enxergar o mundo de um jeito diferente.

    Um dos meus cronistas preferidos da vida se chama Carlos Herculano Lopes e, numa entrevista, ele disse uma frase que me marcou. Era assim: “Por mais simples que uma pessoa seja — ou por mais diferente que ela seja de você —, todo mundo sempre sabe alguma coisa a mais do que você.”

    E eu, ao frequentar a noite e gostar de bloquinhos de carnaval, sei alguma coisa a mais do que o meu amigo músico, que toca na missa; mas o meu amigo, certamente, sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, a minha amiga cronista, avó e com filhos criados, certamente sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, e o meu amigo da faculdade, certamente, conhece coisas e tem saberes que eu, sinceramente, não tenho — e, talvez, nunca terei.

    Por isso, talvez, seja assim que a gente se torne tão amigo.

    Porque ter alguém que discorda da gente e vê o mundo de outra forma mostra que a Terra não gira ao nosso redor.

    Por isso, uma das coisas mais fascinantes que eu já vivi é sentar com um amigo, pra tomar um café, e dividir histórias de vida completamente diferentes entre si.

    Talvez, por isso, eu ache a amizade uma das coisas mais bonitas da vida.

  • Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹

    “ […]

    As últimas datas, descobertas, invenções,
    sociedades, autores antigos e novos,
    Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
    A indiferença real ou fantasiosa de um homem
    ou mulher que eu amo,
    A doença de alguém de minha gente ou de mim
    mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de
    dinheiro, depressões ou exaltações,
    Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre
    de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
    Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem
    de mim outra vez,
    Mas não são o meu verdadeiro Ser

    […]”²

    Diz se lembrar da pulseira plástica preta que não saía do punho direito. Custou a acostumar com o braço corriqueiro — o esquerdo, socialmente aceito como adequado. À época, ambidestra, ficara encantada com o presente de Natal que uma tia trouxera dos Estados Unidos. À prova d’água. Mostrador digital. Luz azul que possibilitava ver as horas no escuro. Alguns botões, que aprendeu a manusear rapidamente. O apetrecho não saía por nada do seu braço direito. Não se recorda por quanto tempo o tomou por fiel escudeiro — mas sim do quanto o usara. Quando deu por si, já crescera e atingira a adolescência. Pareceu-lhe, então, infantil e um tanto unissex demais. Sonhava com um relógio um pouco mais feminino. Ganhou de aniversário um cássio: pulseira prata com detalhes dourados; mostrador de vidro com fundo branco, números metálicos de ouro e ponteiros que brilhavam no escuro. A caixa prata, internamente acolchoada por um tecido imaculadamente acetinado lhe vem instantaneamente à memória. Tornou-se mulher, por fim.

    Lembra-se de todos os seus relógios de pulso. Assumira desde muito miúda a importância em usá-los. Descolado. Adulto. Detentora do mundo: da altura do pulso, controlava as horas. Era a senhora do tempo.

    [— fato curioso é que nenhum de seus progenitores tinha o costume de portar tais acessórios. Sua memória primeira é de um único relógio de parede creme que encimava a entrada da cozinha de sua casa].

    Nunca gostou de dormir. O escorrer das horas perdia velocidade durante as madrugadas. O pai não dormia cedo; parecia elegante não deixá-lo acordado sozinho. Punha-se a ler, escrever, inventar moda. Ter um relógio de pulso atrelava seu ritmo cardíaco ao ritmo do mundo, no mesmo compasso que o seu. Continha todo o mundo no testemunhar dos batimentos e do passar dos segundos, sob a forma de ponteiros ou de números metamorfósicos a partir de sete tracinhos deitados e em pé.

    E então vieram os amores.

    Cartinhas em envelopes, flores, chocolates, bilhetinhos; recados através de amigos, atravessando salas, corredores, intervalos.

    Ligações de orelhão — obstáculos no meio das calçadas — com cartões comprados em bancas de jornal — outros trambolhos no mesmo plano das ruas. A duração das chamadas era breve. Estar ao telefone era coisa planejada. Precisava-se do cartão. Ou saber ligar a cobrar. O conjunto se números que identificavam um telefone fixo de alguém especial, sabia-se de cor. Para os demais, agendas telefônicas, em papel, depois eletrônicas, com botões e visores iluminados. Internet?

    Tentou fazer um paralelo entre seus amados e os devidos relógios de pulso.

    Seu primeiro namorado usava um modelo preto, não se lembra qual o tipo de mostrador. O relógio não foi primordial, e sim a ligação pelo orelhão poucos dias depois do primeiro beijo no cinema. Ligação via orelhão, se desculpando sem pressa por não ter ligado antes e o convite para sua festa de aniversário, no dia seguinte.

    Naquele tempo, festas de aniversário se davam nas salas das casas: bolo e docinhos granulados, salgadinhos e presentes embrulhados com laçarotes e cartõezinhos.

    Lembra-se de ter contado o tempo antes de bater à porta — não a dele, mas a da vizinha, sua amiga, onde se escondeu por alguns minutos, tremendo da cabeça aos pés. Os ponteiros de seu cássio não refletiam seus batimentos cardíacos: o primeiro descompasso que presenciou nas veias.

    O relacionamento durou o tempo em contagem regressiva iniciada pelo primeiro pedaço de bolo, entregue a ela e a mãe dele. A quase sogra a fuzilou com o fundo do coração. Ela debutou seus quinze anos um mês e meio depois; ele foi seu príncipe por essa noite, apenas. Não usou relógio.

    Depois, o primeiro amor, de fato. Relógio de pulseira metálica no punho esquerdo, como tem que ser. Ligações via celular e telefone fixo, SMS, cartinhas, livros de poesia. Ambos entrelaçavam seus braços automatizados pelos palcos de rua da vida.

    Guarda, em uma caixa, tantas recordações: o spray desodorante dele, que já nem se encontra no mercado — o cheiro que ainda lhe vem às narinas; papéis de bala, chiclete, passagens de ônibus, recibos de pedágio. A aliança de compromisso. O primeiro relógio dele, sem bateria e sem pulseira.

    Ele se foi desse mundo. Seu pulsar, também.

    Ela guarda o esqueleto do que um dia testemunhou o passar de seu tempo em uníssono na Terra.

    Depois dele, passou a usar o cássio no pulso esquerdo.

    Depois dele, um outro — homem de horários móveis. Surgiu de um hiato da infância, primeiro em uma rede social incipiente, depois ao seu lado em um assento de ônibus intermunicipal.

    Passaram a se ver em cronômetros engraçados: falavam-se diariamente; depois semanalmente.

    Mensalmente, após certo tempo. Ele tornou-se caixeiro viajante, numa época em que isso já era demodê.

    Não deixou cartas — um único e-mail, que ela decorou por completo. Ali, agora percebe, decorou o coração com as promessas do e-mail e abriu uma fenda na própria vida: abriu mão das cartas para entrar na era digital; abandonou o cássio de ponteiros e comprou um relógio cujo mostrador apagava-se para poupar bateria.

    Poupou o que, para ela, era importante.

    Dali para frente, foi ladeira abaixo com o tempo e as caligrafias.

    Casou-se com um tipo que portava relógios, mas não pelas horas. Era apenas status. O tempo, ali, não pulsava. Divorciou-se.

    Chegou a reconfigurar seus batimentos com os ponteiros do caixeiro, que deixara de ser viajante e assumira um relógio de pulso, herança de família. O tempo mostrou-se insustentável.

    Hoje, entre redes sociais, agendas repletas de tudo e nada, trabalho que se sobrepõe à vida social real, usa um smartwatch, como deve ser, no punho esquerdo. Pode escolher mostradores com ponteiros, números digitais, fusos horários — e o cacete a quatro.

    Criou um bloqueio com ponteiros. Leva segundos para responder, para si mesma e para quem lhe pergunta as horas, o tempo real daquelas agitadas três espadinhas inquietas. Do mesmo modo que se perde entre direita e esquerda se não move discretamente a mão com que escreve, pois perdeu a habilidade de escrever com ambas.

    Também mandou para as cucuias seus amores.

    Ainda assim, sonha com alguém que faça o tempo desacelerar. Como se ponteiros voltassem a fazer sentido. Como se direita e esquerda deixassem de ser um bicho de sete cabeças, mesmo que com sete pauzinhos dançantes formadores de todas as horas. O relógio — agora inteligente — não se vincula mais aos batimentos , embora literalmente os meça. Ela tira o relógio à prova d’água para entrar no mar.

    Continua senhora do próprio tempo. Nunca mais escreveu ou recebeu cartas.

    Passou a conter as multidões nos pulsos. Os batimentos que o relógio mede

    Tum tum
    Tum
    | dois
    Tum | três
    […]

    As mensagens que chegam
    [“Você tem novas notificações de mensagens”]

    , os ponteiros e os metamorfósicos números malabaristas de sete traços passaram a segundo plano; as cartinhas passaram a um plano outro, qualquer.

    Ainda assim, jamais esqueceu seus primeiros relógios.

    Na lembrança – ou no objeto, em si – tudo parece mais nosso:

    Mais palpável.
    Mais pulso.
    Mais real…

    Menos ‘digi-`
    Menos nomes descompassados pela metad.
    Menos fulano-de ‘-tal’.


    Notas de rodapé
    ¹ A outra História, romance da escritora franco-britânica Tatiana de Rosnay, publicado originalmente em francês sob o título Boomerang.
    ² Canção de mim mesmo, (Song of Myself), considerado marco da poesia moderna, escrito por Walt Whitman, publicado pela primeira vez em 1855 como parte da coletânea Leaves of Grass.

  • Match fatal

    Nunca tinha entrado em sites de relacionamento, mas naquela noite decidiu experimentar. O universo digital estava ali, ao alcance de um clique — por que não se aventurar?

    Ouviu dizer que era uma forma infalível de conhecer mulheres disponíveis. Bastava preencher alguns parâmetros, fazer a triagem virtual e pronto: nada de encontros no escuro, indicados por amigos bem-intencionados que terminam em desastre. Pior ainda: depois a pessoa já sabe seu nome, seu telefone e é conhecida de conhecidos… difícil se livrar.

    Escolhido o site, passou ao checklist da mulher ideal:

    • Idade: 25 a 35 — jovem, claro.
    • Magra, bonita, cuida do corpo — o visual é essencial.
    • Exercícios pelo menos 3x por semana: musculação, pilates, bike, corrida — alguém que acompanhe seu ritmo.
    • Superior completo, pós desejável — pelo menos um mínimo de cultura.
    • Português perfeito, inglês ou outra língua — viajar sem virar tradutor.
    • Profissão com cargo gerencial ou acima — mulher independente, bem-sucedida.
    • Hobbies: leitura, viagens, culinária, dança, cinema, teatro, música — parceira para todas as horas.
    • Procurando relacionamento sério, mas sem compromisso — casar, nem pensar.

    Confiante, clicou em “salvar”. A sorte estava lançada.

    Likes e mensagens começaram a aparecer rápido, acompanhados de fotos promissoras. Empolgado, abriu a primeira. Choque: preenchia quatro dos sete requisitos, mas escrevia com erros de português, curtia funk e vivia da renda de aposentadoria do pai falecido. Nada contra — mas não era o perfil. Descartada.

    A segunda parecia perfeita no papel, mas pela foto não fazia exercício há anos, estava bem acima do peso e queria apenas uma transa. Fora. A terceira, impecável no checklist. Só que buscava um homem de até 40, malhado, baladeiro. E ainda fumava. Nem pensar.

    Assim seguiu, descartando uma a uma. Até que parou para refletir: será que o problema era o algoritmo ou o próprio perfil que ele montara? Releu os requisitos com atenção.

    Tudo parecia essencial… ou será que não?

    Depois de muito pensar, aceitou flexibilizar um ponto: a idade. Alterou de 25–35 para 40–50 anos. E esperou.

    Logo surgiram várias opções. Uma delas, segundo o site, com 100% de afinidade. Ansioso, clicou para abrir.

    E qual não foi sua surpresa: cara a cara com a ex.

  • O talento dos outros

    Tenho imensa gratidão pelas pessoas que fazem aquilo que não sei ou não gosto de fazer. Cozinhar, ainda que a contragosto, é possível, mas fazer meus próprios sapatos está fora de questão.

    A lista das profissões que me atraem é infinitamente menor do que a lista das outras; e entre as que me agradam para várias falta-me a devida competência. Não levo jeito para uma porção de coisas a despeito de apreciá-las muitíssimo.

    Ballet é a perfeita tradução desse desencontro entre desejo e capacidade: sou desajeitada por completo e morreria de fome se tivesse que ganhar a vida dançando. Ao menos possuo a humildade de reconhecer que, embora me fizesse feliz, dançar não é uma atividade ao alcance das minhas aptidões. Ponto para mim: com frequência vejo gente desperdiçando seu verdadeiro talento ao insistir em ser aquilo que não é. Às vezes a natureza nos faz cair nessa armadilha de suspirar pelo que não nos convém.

    Detestaria ser médica, advogada ou costureira, mas preciso imensamente desses profissionais e de tantos outros. Gratidão profunda.

    Por outro lado, números e lógica não me assustam. Ao contrário: estudei matemática que considero uma das mais gloriosas manifestações do espírito humano, senão a maior. Poderia igualmente ter sido diretora de teatro ou roteirista de cinema, mas a necessidade de sustento falou mais alto; quando se escolhe a profissão é aconselhável ter um olho no talento e outro na sobrevivência.

    Não gostaria de ser engenheira, no entanto seria boa arqueóloga, adoro ruínas históricas. Pois é.

    Já que hoje não é o dia internacional da modéstia, vou marcar outro ponto positivo para mim: apesar de ter consciência de que, mesmo naquilo em que posso contribuir para a humanidade, estou longe da genialidade, admiro genuinamente os mestres. Faço a minha parte, equilibrando-me entre o ideal e o possível e sou feliz assim.

  • COMPULSÃO

    Elisa sempre quis ser advogada. Formou-se bacharel em Direito e exerceu a atividade jurídica durante quatro anos numa firma de advocacia, especializada em Direito Familiar. Após a graduação, passou em concurso público para ocupar o cargo de Juíza Substituta. Começou a atuar ao lado de um Juiz Titular, para adquirir experiência. Depois de cinco anos, foi promovida a Juíza de Direito.

    No seu fazer cotidiano, lidava com divórcios amargos, disputa por guarda de filhos e acusações de violência doméstica. Era obrigada a conviver com decisões sobre pensões alimentícias, investigações de paternidade e partilha de bens. Aos poucos foi se sentindo exaurida e descrente no ser humano.

    Nunca se soube se por estresse natural do ofício, por concentração excessiva no trabalho ou mesmo por sua natureza, desenvolveu um transtorno mental crônico: o desejo irresistível e irracional de furtar coisas. Em geral, objetos desnecessários e de preferência com baixo valor comercial. Estava cada vez mais complicado controlar seus impulsos. Eram estojos de anzóis, sem que ela tivesse a mínima intenção de sair para pescar; bolas de tênis sem nunca ter segurado uma raquete; mamadeiras e brinquedos de criança, sem que pudesse engravidar ou pensasse em adoção. Enfim, uma obsessão descabida. Ainda mais para uma Juíza de Direito de uma Vara de Família. E isso a estava deixando, com razão, preocupada.

    Durante as audiências, via os rostos dos réus e dos advogados com seus olhares acusadores, como se soubessem de sua mania de furtos ocasionais. Vieram a seguir os constantes pesadelos, sendo flagrada, julgada e sentenciada como uma ladra contumaz. Sua foto nos jornais e na tevê. Escândalo.

    Aquilo precisava ter um fim. Sabia que seu problema tinha cura com medicamentos e psicoterapia, mas a vergonha era maior. Como imaginar uma Senhora Juíza de Direito reles gatuna. Teria de se livrar daquele infortúnio sozinha e do seu jeito. Na marra.

    Os esforços foram inúteis. Numa loja de souvenirs pegou um daqueles modelos da estátua do Cristo Redentor para turistas e colocou na bolsa. Surpreendida pela funcionária da loja, disse que havia se esquecido de ir ao caixa pagar.

    Na semana seguinte, saía de um restaurante sem pagar a conta. O garçom a conhecia e não ousou ir atrás. Na certa, a Juíza tinha se esquecido e voltaria. Elisa não retornou.

    Os atos compulsivos cada vez mais frequentes. Era forçada a admitir que a cada pequeno roubo sentia um grande alívio emocional.

    A Excelentíssima Juíza sofria e não enxergava uma saída.

    Durante uma sessão, deu a guarda de uma menina de oito anos a um pai suspeito de ser abusivo, somente por que a mãe usava a menina para efetuar pequenos roubos. Como uma autopunição. Os colegas começaram a notar que Elisa aparentava oscilações de humor e parecia distante. Eram evidentes seu cansaço e falta de motivação.

    Elisa decidiu procurar um clínico geral e ouviu dele que talvez estivesse padecendo de síndrome do esgotamento profissional. Burn out. De resto, a saúde ia bem. Receitou-lhe comprimidos para reduzir a compulsão e que tirasse uma licença para descansar.

    Elisa resolveu viajar. Sair do país, esquecer seu trabalho, as responsabilidades, dar uma escapada desse mundo. Não iria mais se policiar. Chega de cobranças, basta de comportamentos repressores. Soltar a franga.

    Decidida, Elisa entrou num shopping para comprar uma mala nova para a viagem. Depois de procurar, pegou uma Sansonite vermelha, último lançamento, uma belezura. Com toda a classe de Juíza, saiu sem pagar com calma e elegância, como se aquela mala de rodinha naturalmente já lhe pertencesse. Segundo o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro, daria ordem de prisão a quem a acusasse de qualquer delito típico caso de desacato à autoridade. A Excelentíssima Juíza Elisa tinha pensado bem e decidido: perderia de vez o juízo.

  • Detesto o meu novo amigo!

    Ele sempre me corrige, acha que sabe mais do que eu, e pior, quer empurrar a ideia dele, na força das argumentações.

    Sim, pois nisso ele é bom! Me põe como sonsa, fútil e até ignorante.

    Destila o seu suposto saber, com exemplos, ideias atravessadas, tudo em nome de me ajudar!

    Não o abandonei ainda, porque às vezes, ele me atende em dúvidas pontuais, concretas.

    Nesse contexto, quando eu o oriento, ele é um bom parceiro.

    Outra coisa que me deixa aborrecida é a crítica contumaz de achar que conto as coisas de forma coloquial, e assim não sou elegante.

    E quem disse que eu quero ser elegante! Se quisesse eu seria uma modista e não uma escritora. Ou contadora de histórias como eu gosto de me definir.

    Outro dos seus defeitos é ser volúvel. Vai com quem o chamar. E nem tem como esconder, porque deixa rastros.

    Nas expressões, cortes, ou espaços, ao expor o ponto de vista de pessoas a quem eu admiro, de pronto eu o identifico. E isso tira toda a graça ou surpresa do inusitado.

    E o vocabulário do meu amigo, agora quase inimigo: palavras usadas milhões de vezes e agora elevadas a categorias literárias, como se fossem o baluarte dos acadêmicos: presença/ potência/excerto/recorte…entre muitas outras.

    Isso sem falar nos espaços vazios entre uma frase e outra. Nunca conversei assim, não será agora que vou falar como um robô. Êle que me perdoe.

    Pois então…

    Vou ignorá-lo, deixá-lo na geladeira.

    Mesmo que ele se mostre indispensável, e tenha aquele fluxo de idéias esnobe e contínuo, neste momento eu declaro: não renovo o seu contrato, pode procurar a sua turma.

    Por enquanto.

    Se eu precisar sei exatamente onde encontrá-lo.

    🌷
  • É difício

    “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)

    Quem tem, como eu, a desventura de residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura (saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).

    Nessa toada, diariamente, somos abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza, mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar. Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda a perpetuar.

    São milhares de edifícios em construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes, bate-estacas, britadeiras e caminhões.

    Cada edifício que se ergue em uma zona excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas (talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.

    Esse desvairado furor construtivo abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.

    Segue a cartilha do neoliberalismo extremo que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.

    A capital paulista, um dos maiores polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a seu mandato de quatro anos.

    Esse processo perverso originou-se com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que, além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de visibilidade.

    O resultado dessas escolhas equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda mais hostil para seus moradores.

    A desgraça da vez é a excessiva permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a melhoria de vida da população que deveriam representar.

    Nossa tão maltratada Sampa, já vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas, postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário distópico.

    E pensar que os imponentes edifícios já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava…

  • O sol nasceu

    Antigamente escrever bem era ser precioso, usar palavras pouco comuns, burilar a forma. Hoje o que se aprecia é o estilo sóbrio e descarnado, cujo modelo é Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan.

    Aí pelo século XIX, não se dizia “O sol nasceu”. Uma frase como essa era um resumo que o autor rascunhava e escondia, com medo de que o acusassem de falta de imaginação ou indigência verbal. “O sol nasceu” – precisa dizer mais? Hoje os manuais dos cursos de Comunicação dizem que isso basta. Para eles, a boa frase é a que privilegia substantivo e verbo. Adjetivos e advérbios são excrescências que debilitam a expressão.

    Mas no século passado essa frase magra precisava engordar. Os elementos nutridores eram justamente o adjetivo e o advérbio. “O sol nasceu” – e daí? O sol nasce todo dia. Esse fato corriqueiro, dito assim de modo seco e banal, não comove ninguém. Não basta a simples enunciação dessa verdade imorredoura para despertar no leitor as ressonâncias visuais e afetivas do nascer do sol.

    Então o cronista vestia o fraque (se estivesse em casa, botava um pijama de seda cheirando a alecrim), introduzia o charuto na piteira, sorvia longamente a fumaça e começava: “O astro-rei…”. Por que chamar o sol de “sol”? “Astro-rei” era bem mais expressivo, tinha a magnificência da metáfora.

    “O astro-rei, brilhante e sanguíneo…” Ah, os adjetivos. Bastaram essas duas palavrinhas para injetar no sol força e brilho. É impossível agora não visualizá-lo em todo o esplendor do dilúculo (que, para quem não sabe, é o nome que se dá ao crepúsculo matutino).  

    Satisfeito, prosseguia nosso cronista: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte…”.  Agora apareceu o advérbio de modo. Nada como ele para acrescentar ao verbo matizes sensoriais. A frase incha um pouco, é verdade, mas estávamos longe do rigor anorético com que hoje se vestem ideias e modelos.

    E vinha o desfecho, que devia ser marcante: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte e lança revérberos dourados na natureza estremunhada”. O cronista sorria, saboreando a animização presente na imagem final. O que faz o sol a cada novo dia senão restaurar as forças de uma natureza desfalecida em sombras? Esplêndido!

    Depois de uma nova tragada, ele se dispunha a escrever a frase seguinte. Tinha paciência e sobretudo tempo para urdir aos poucos o texto. A nós, que vivemos o imediatismo de um mundo cibernético e globalizado, resta-nos dizer simplesmente: “O sol nasceu”. O que, para falar a verdade, hoje parece não interessar a ninguém.

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • Aprendi a ser o máximo de mim mesmo!

    Essas foram palavras deixadas por Nelson Rodrigues, um mago da literatura, escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes, e de futebol brasileiro. É considerado o mais influente dramaturgo do Brasil. 

    Além dessas palavras, acrescento outras que moldaram histórias por muitos.

    A luta.

    “Lutar foi sempre mais ou menos uma forma de cegueira, isto é diferente, farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que somos aqui, cegos, simplesmente cegos, sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos. Se pudesses ver o que eu sou obrigado a ver, quererias estar cego. Acredito, mas não preciso, cego já estou, perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma”. (José Saramago).

    O vazio que se foi não pode trazer saudade, deve se passar por lenda que um dia teve seu tempo frio e doído.

    O que nos restou ao final, antes de um abraço apertado na despedida, foi um beijo na testa e uma mensagem inesquecível.  

    As fotos.

    Elas provam que nossas vidas aconteceram como queríamos, e que tudo está bem, e que foram o que tinham pra ser. Daqui pra frente, após o mar recuar, esperemos o próximo movimento, que nos dirá que jamais estivemos tão perto de casa, e de nós. Sempre sabemos em algum momento especial, que a dúvida é a profunda resposta que esperávamos, a certeza não agrada, pois é resolutiva e concreta, muito além de nossas vidas reais e unidas por um propósito. Respiramos juntos até nosso próximo passo. E quando a água retroceder, avistaremos um caminho para reconstruir nossas almas, que penam pela existência doída, mas persistem no entorno da esperança latente por melhores momentos.

    O Tempo.

    Não volta pra que você possa negar algo novamente, pois sempre que quiser ter e ser, a hora subverte sua decisão e te cobra que faças teu melhor.

    Às vezes a paixão por alguém ou algo escapa de nossas mãos, e o fatal destino escrito em pedras amorosas quase sempre apaixonadas pela vida, retira momentos contraídos de um passado nobre, costurado em águas frias, aquecidas pelo sol, e movidas por nossa vaga lembrança, ressuscitada a cada amanhecer.

    O tempo volta só no pensamento de quem deseja saudar o que já foi presente. Ele nos deixou assim escolhidos pelo que miramos a cada vão dia.

    A lembrança.

    É a que nos acompanha enquanto ainda possuímos lucidez, e nossos olhos passam a saber que um dia foram as câmeras daquelas fotos que o tempo lutou pra nos manter vivos, em cada esquina de dúvidas que ainda carregamos. Como é que faço pra parar, reeditar minha vida. Copiar, colar uma nova lista que eu mais gostei, com jovens ressalvas.

    *Originalmente publicado em 20 de dez. de 2022, às 22:10

  • O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem diria… Fiquei a me perguntar se estava alucinando. Passei segundos rodopiando pela cozinha, em busca de alguma explicação, sem saber o que fazer. Comi o pão quente e me queimei. A chamada foi rápida, parou, e eu me desesperei. Teria ligado por engano? Foi um vacilo programado para me desestabilizar? Iasmin, pelo que eu conhecia, poderia ser capaz de qualquer coisa para me tirar do eixo. Ela é boa nisso. Poxa, poderia ser a oportunidade para uma reconciliação ou uma despedida sincera. Não nos víamos há, pelo menos, dois anos. Iasmin se mudou, para muito longe, outra cidade, e não se despediu de mim, talvez porque achasse que eu não tivesse tanta importância. Além de ficantes, éramos, em bons tempos, amigos. De fato, tínhamos uma relação instável; eu que, bobo, idealizei o amor, depois do nosso primeiro e único beijo. Um beijo que marcou a minha história. Era como se minha boca se encaixasse perfeitamente com a dela. Um átimo, um instante, e logo o infinito. Fiquei perdidamente apaixonado; no ato. Pensei que havia achado o meu par perfeito e que seria correspondido. Iasmin não deu bola. Procurei-a alguns dias, e não quis me atender, sempre inventando uma desculpa. A prima, que morava com ela, dizia que estava com dor de barriga, que tinha saído, até que, por fim, diante da minha insistência, disse que ela havia morrido. Decerto, o beijo não foi bom o suficiente. Lógico, eu não sabia beijar, era um “bv” completo, inacabado para o amor. Ela já era mais experiente que eu – é a pura verdade –, porque já havia namorado, tido romances etc. Eu quis, ingenuamente, mostrar que era séria a minha pretensão para a nossa relação. Levei flores que a sua mãe adorou, disse que iria adornar a casa, quando, na verdade, eu queria que sua filha se felicitasse com a grande surpresa – falo grande, porque me custou o olho da cara. Como sempre, Iasmin não deu a mínima, considerou o entulho inservível, e jogou-o pela janela, onde as folhas e flores mortas, putrefatas, contrastavam com a sua beleza magnífica, celestial. Não gostou de mim, e isso é um fato, que me corrói a cada vez que lembro da tragédia do nosso encontro. Resolvi, aflito, ligar de volta, enquanto, nervoso, tomava goles de café. Tremi a xícara e derramei um pouco na roupa (já estava pronto para sair à escola; levei um esporro daqueles). Retornei e Iasmin não me atendeu. Devia estar ocupada ou desistido do contato. Desanimei. O dia foi uma porcaria, porque eu não tinha meios para ajustar a lambança que havia cometido há tempos. Queria, por tudo que é mais sagrado, ter falado com Iasmin, para despachar o meu espírito bruto, moribundo, e me liberar.

  • O fantasma do ferro-velho

    Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só cai quem quer. Veja bem, se você dorme, trabalha, come e caga, o que te interessa o alinhamento dos Chakras ou a Constelação Familiar?

    Essa gente meio fraca das ideias perde dinheiro porque acredita em qualquer história. Se aparece um sujeito engomadinho, enchendo a boca com algum papinho sem-pé-nem-cabeça, eles aceitam tudo como se fosse o próprio Divino Espírito Santo apontando o caminho. Sejamos razoáveis, quem fala em energia, alinhamento espiritual e o caralho-a-quatro tem cacoete de vagabundo, desocupado mesmo. E também é meio burrinho, não dá pra levar a sério.

    Ouça bem, o espiritismo só pegou no Brasil porque o povo gosta de ser enganado e ainda defende o enganador. Aqui é a terra da malandragem e da trapaça. Porra, é o PT no governo! E nem adianta se fazer de ofendido defendendo o PT ou o Chico Xavier. Tudo isso é um grande teatro. Só não vê quem não quer.

    Sendo franco, passei metade da vida dizendo nunca ter visto fantasma nenhum. E é a mais pura verdade. Coisa de frouxo, meu Deus, quanta dor de cabeça me deu toda essa história. Isso começou em oitenta e dois, quando encontraram um homem enterrado lá perto da sanga e, desde então, todo início de inverno essa falácia volta. O problema nem foi terem achado a ossada ou um corpo em putrefação. O problema foi o boato de aparições aqui perto do ferro-velho. Nos anos seguintes, toda semana inventavam uma história de fantasma e a nossa vida virou um inferno.

    Eu não fui embora porque a minha família está aqui há mais de cem anos. E posso te jurar que é tudo mentira. Nunca houve assassinato, nunca vi uma aparição durante a noite e também nunca ouvi o morto gritando no inverno. É tudo coisa dessa gente de cabeça fraca, esses vagabundos que não cuidam das próprias vidas.

    Naquela época essa bobagem de assassinato e fantasma deu um furdunço dos grandes e o ferro-velho estava no centro de tudo. Mal posso calcular o tanto de “sensitivos” ou “espíritas” que tirei aos gritos daqui. Já não me bastavam os policiais e os jornalistas… Alguns amigos até me aconselharam a ir embora, mas, no fim das contas, a gente não podia fazer nada. Fugir do que não existe? Para onde? Por qual motivo?

    E ainda piora. Dia desses apareceu dois desocupados querendo gravar um filme aqui no ferro-velho, contando a história do fantasma, acredita? Eu peguei a espingarda e toquei eles daqui rapidinho. Nunca mais voltaram e nem perceberam que era uma carabina de pressão. No máximo ia arranhar um desses bebezões. Gente frouxa, puta merda.

    Infelizmente, naquele tempo nem toda família pensava igual. Aquela história aflorava os ânimos e não tinha como fugir do assunto. Dos meus três filhos, o Joaquim continua aqui e, segundo alguns conhecidos, se parece muito comigo. Eu não acho. O Rubens se mudou e não volta. Até hoje tenta convencer a gente a ir embora também. O Rodolfo se foi antes do acontecido, nunca mandou uma carta nem deu um telefonema, se perdeu no mundo ou está morto e enterrado. Não tenho como saber.

    Veja você, quando acordamos num domingo ele não estava mais em casa. Os três já tinham mais de dezoito, então podiam cuidar de si mesmos. Nunca me importei muito com o futuro deles porque foram criados na base do trabalho, então se virariam em qualquer lugar. No fim das contas, o desaparecimento do Rodolfo foi até bom porque ele e o Joaquim nunca se deram bem. Viviam brigando e se ameaçando, às vezes quebravam coisas pela casa. Eles se odiavam profundamente. E a gente sabe, quando o ódio é com o irmão, boa coisa não sai e nem adianta tentar consertar. Às vezes nem a distância garante um pouco de paz.

    Percebi uma desavença incurável entre eles quando o Joaquim empurrou o irmão de cima de uma árvore. Foi a primeira vez que Rodolfo quebrou o braço. E foram várias. Uma vez, inclusive, peguei o Joaquim o perseguindo com um martelo. Não deixei brigarem naquele dia, claro, mas não julgo. Eu mesmo não me dava com o meu pai. Por sorte, um dia ele saiu de carro e não voltou. Duas noites depois o acharam esmagado no fundo de uma ribanceira. Não sobrou nada. A polícia disse ter demorado para o encontrar porque na pista não havia marca de freios. Minha mãe botou a culpa na cachaça. Por fim, acabei tomando conta do ferro-velho.

    Pois bem, sobre o tal fantasma, nunca o vi nem tive medo. O pessoal é meio assustado e acaba inventando coisas. Gente frouxa dos infernos, mas a verdade é a seguinte…

    — Ô pai, tá falando sozinho de novo?

  • As 7 Palavras de Cristo na Cruz

    A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser.

    Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Patos, distante pouco mais d 300 km da capital da Parahyba, na mesorregião do Sertão Paraibano.

    Mas, como dizia, a pergunta não poderia ficar parada no ar. O título um tanto estranho, mas bem escolhido como os títulos de um José Cândido de Carvalho, “olha pro céu, Frederico” e “Se eu morrer, telefone para o céu”, entre outros, vocês sabem que assim como eu não era poeta, é esse mesmo: “As 7 palavras de Cristo na Cruz”.

    O Livro, porém, pelo fato de o poeta escolher o soneto para poetar no universo de sua religião, a católica, essa forma de poesia que até parece fácil, dois quartetos e dois tercetos, não se limita apenas ao “tema religioso”. Outros poemas, todos na forma de soneto, nele dispostos, também conservam a mesma técnica e a capacidade poética de encontrar a melhor rima para e a palavra exata para o poema.

    Os sonetos dispostos, intitulados de Gólgotas, enumerados de um a sete, pois, afinal, não fosse assim o titulo não se justificaria, obedecem regiamente a ordem das palavras proferias pelo Cristo na Cruz, onde, por exemplo, mesmo sabendo-se Cristo e inocente perdoava aqueles que o crucificavam. Lembramos, porém, que a ordem das frases pelo Cristo proferida nos sonetos do poeta, variam de acordo com as quem escreveu. No caso do poeta José Mota Victor, os sonetos seguem o que escrevera o evangelista Lucas.

    “… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

    Era a misericórdia de Deus aos que o mataram.

    Os versos são do soneto “gólgota” primeiro, inspirados no momento em que o Cristo perdoava a ignorância dos que o crucificavam. Sabia o filho de Deus, tinha certeza que eles, os soldados romanos, não estavam sabendo o que faziam naquele momento. E assim, ratificando o que fora pelo mesmo dito em outro momento, segundo, claro, a Bíblia, perdoava os seus inimigos, dava-lhes o outro lado da face para ser esbofeteado.

    E assim o poeta, comprovadamente de origem religiosa, católica por tradição, assim como este malabarista de palavras, inspirado nas últimas palavras de Jesus na cruz, segue mostrando que fazer Sonetos, assim como dissera um dia o Noel Rosa a respeito do samba, não se aprende no colégio.  

    O poeta José Mota Victor, sabe e domina a técnica do soneto como poucos. No soneto “Morfologia do Soneto”, por exemplo, esse também presente no livro, ele deixa claro “Que no soneto e mais que a ode/ Que é poema de tamanho irregular/ No soneto o verso quer aprisionar/O poeta, que esperneia como pode”.

    E sai desfilando poética e harmoniosamente o conceito por todos conhecidos desse que vem a ser um soneto petrarquiano.

    Em seguida, aproveita os tercetos, mostrando o domínio que os bons poetas tem dos versos que escrevem, para concluir:

    “Os dois quartetos e os dois tercetos
    São as belezas formais do Soneto
    Os quartetos são para exposição…
    O núcleo é no primeiro terceto,
    No seguinte se tem o desfecho
    E do poeta requer inspiração…

    O Livro “As 7 palavras de Cristo na cruz” tem o seu forte nos sonetos inspirados por elas, isto é, nas últimas sete palavras do filho de Deus na cruz. São essas, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso!; Mulher ai esta o teu filho!; Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?; Tenho sede!; Está consumado. E Pai, em tuas mãos entregam o meu espírito!”.

     Essas formam o “núcleo” do livro. Outros sonetos, porém, inspirados nas histórias e lembranças do poeta patoense, fazem parte.  Um livro inspirado de um poeta que sabe o que pretende dizer e, poeticamente, diz muito bem o que sabe.

  • A certeza que cansa o olhar

    Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho.

    Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita.

    Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por distração. A gente deixa de ver por certeza.

    A certeza de que o outro vai estar ali amanhã.

    E é aí que tudo começa a desaparecer.

    Tem marido que se acostuma com o jantar na mesa, sempre na mesma hora. Não se pergunta quem é aquela mulher que cozinha todos os dias. Porque, no fundo, acha que aquele prato vai estar ali para sempre.

    Tem amigo que atende na primeira chamada, que topa uma cerveja em qualquer terça-feira, que escuta, aconselha, insiste. E vira paisagem. Não porque mudou, mas porque parece garantido.

    Tem porteiro que abre o portão, deseja “bom dia”, sustenta um sorriso que nem sempre volta. Passa anos ali, invisível, como se fosse parte do prédio.

    Não são objetos. Mas são tratados como se fossem.

    Eu já fui esse sujeito apressado. Já passei direto, sem dizer um “bom dia”. Já preferi o celular a um rosto. Já tratei como cenário aquilo que era presença.

    Tem mãe que prepara o café, pergunta da noite, espera uma resposta inteira. O café esfria, a resposta não vem, porque, de algum jeito, a gente acredita que aquele gesto vai se repetir para sempre.

    Mas não vai.

    Ou a pessoa morre,
    ou adoece,
    ou se cansa,
    ou simplesmente vai embora.

    A relação acaba — às vezes de forma brusca, às vezes quase sem barulho.

    E o que sustentava a distração era uma ilusão: a de que havia tempo.

    Se há uma certeza, é essa: nada disso é garantido. Nenhum rosto, nenhum gesto, nenhum afeto. A permanência que a gente imagina é uma invenção confortável.

    Talvez por isso a gente não veja.

    Corre-se atrás de dinheiro, de compromissos, de pequenas urgências. Compra-se, paga-se, resolve-se. Os afetos ficam para depois, quando sobra tempo, quando não há nada mais importante.

    Quase nunca sobra.

    A gente não enxerga as pessoas porque, no fundo, acha que elas são eternas. Ou, pelo menos, eternas o suficiente para esperar.

    A certeza embaça a vista, cansa o olhar.

    E então, quando alguém morre — ou adoece, ou vai embora —, vem a pergunta, meio infantil, meio desesperada: “Mas não era para sempre?”

    Não era.

    Nunca foi.

    Talvez baste lembrar disso um pouco antes, no meio da rotina, no meio de um café ainda quente, no meio de uma conversa qualquer.

    Talvez, assim, por um instante, a gente consiga ver.

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

    Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

    Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

    Presença.

    Meio óbvio, né.

    Infelizmente, não.

    Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

    A nossa conosco | A nossa com o outro |
    Com os outros.

    Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

    Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

    Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

    Prevista.

    A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

    — Buuuum! Conflito interno!

    (A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

    Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

    Como receber o público orgânico sem espaço?

    Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

    — Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

    Avisei o elenco:

    — Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

    (Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

    Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

    Deu certo.

    Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

    “Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

    Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

    Risadas… muitas.
    Crianças no colo, um mar de gente esperando.
    Gente se encontrando.

    Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

    Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

    Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

    Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
    para estar ali.
    Assistindo.
    Vivendo.

    Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

    Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

    É vida.

    Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

    Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

    Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
    ecos silenciosos da tecnologia.

    Ainda respiramos
    Ainda nos emocionamos.
    Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

    “Só a arte salva”, dizem.
    Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
    De quando em quando, é o teatro que nos
    mantém na humanidade.

    Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

    “Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

    Shakespeare. Sempre atual.

    A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

    Respiremos.

    E viva o teatro!

  • Vigília

    O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha.

    Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua insônia.

    Trabalhara o dia todo no escritório, lidando com prazos impossíveis e um chefe boçal. O jantar leve, filé de frango e salada. Dez da noite desligou a tevê e silenciou o celular. Antes de deitar, um chá de camomila para garantir. Maria Augusta era contra remédios tarja preta. Temia a dependência. Já era dependente de tanta coisa….

    No meio da cama, de olhos abertos acostumados à escuridão da noite, revivia erros do passado: aquela briga com a amiga anos atrás, o projeto que dera errado. As sombras nas paredes ganhavam vida e transformavam-se em monstros de arrependimentos.

    Cogitou mudar seu nome de Maria Augusta para Maria Sônia. Insônia. Sorriu do seu senso de humor fora de hora. Mais apropriado seria chorar…

    Levantou-se para ir ao banheiro, pés frios no piso gelado. Fez xixi, e nem estava com tanta vontade. Foi até a sala, olhou pela janela. Teve a sensação de que a cidade inteira dormia. Uma quietude perturbadora. Respirou fundo, focando no ar que entrava e saía dos pulmões. Podia ser imaginação, mas pareceu ouvir um ronco ritmado vindo de algum apartamento vizinho. Morreu de inveja.

    Saiu da janela, foi até a cozinha e preparou um copo de leite morno. Dizem que acalma e faz dormir melhor. Para ela o efeito foi contrário: sentiu-se como se estivesse pronta para uma maratona.

    De volta à cama, deitou-se. Ligou o abajur e pensou em pegar um livro. Que não fosse um romance. Vai que se animava com a leitura e passava o resto da noite lendo. Melhor um de contos. Escolheu um antigo do Dalton Trevisan. No segundo conto, pareceu pressentir o sono querendo chegar. Ligeiro, desligou o abajur. Alguns minutos e, ao longe, começou a ouvir um som estranho, alguma coisa que se assemelhava a um ritmo repetitivo. Batuques. Um desventurado acabara de colocar um funk àquela hora. Acendeu a luz e olhou no relógio: quatro e meia da manhã. Não quis acreditar. Pensou em reclamar, ligar para a portaria. Mas desistiu. Apagou a luz, deitou-se novamente e colou o travesseiro nos ouvidos, mas o som parecia se infiltrar e crescer. Aquilo não podia estar acontecendo. Devia ser um complô organizado para impedi-la de dormir. O pior – se ainda pudesse haver um pior – em sua mente raivosa, agora Maria Augusta via ovelhas que dançavam ao ritmo do batidão.

  • O corpo de palavras

    O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance.

    O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim…

    A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta.

    E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo.

    Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam.

    E afasta.

    E por si só bastam. Basta a palavra.

    O corpo de palavras é o ruído e a canção antiga e o bolso furado e o vento e a tempestade e o mar. As ondas e o mar e a palavra. As palavras. O corpo de palavras. O corpo apenas: só, mudo, nu, translúcido…

    E os dedos que se manifestam no momento da escrita seguram forte a pena e colorem, descrevem, enriquecem, dão forma a um mundo.

    Eu sou um corpo de palavras.

    Eu sou um mar de palavras. Eu sou um céu de palavras.

    E escrevo em mim e navego em mim e voo em mim. Uma escrita inteira, uma viagem entre os vagalhões e um risco no ar.

    O corpo de palavras basta e afasta e arrasta tudo e todos.

    E engole a si mesmo para, em seguida, fazer novo mundo, fazer novas as coisas, fazer novo corpo.

    E sou eu que me refaço no instante da escrita.

    Continuamente…

  • Alienação facial

    Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.

    Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.

    Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.

    Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

    Senti a cabeça rodar.

    O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.

    Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.

    Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.

    Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.

    Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.

    Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.

    E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.

    Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era. E eu?

    Quis correr para o espelho.

    Num susto, abri os olhos.

    Ufa.

    Eu nunca tinha saído da cama.

    Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

  • Audição criativa

    Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva:

    — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente.

    Tenho vários desses surdos no meu entorno. Como ouvem mal o que dizemos, ou simplesmente não ouvem, o diálogo é difícil. A maioria dos surdos tenta suprir as falhas de audição adivinhando o que está sendo dito. Se o tema é irrelevante, a gente deixa para lá, mas nem sempre é o caso.

    Não raro um diálogo vira monólogo por parte do surdo. Você fala uma coisa, ele entende outra e, a partir de certo ponto, continua sozinho a conversa, agindo como se o outro estivesse participando.

    — Você pegou o jornal?

    — Não, eu não passei mal.

    — Eu perguntei se você pegou o jornal.

    — E eu já respondi que não passei mal!

    — Onde está o jornal?

    — De novo? Estou ótimo, normal.

    — O JORNAL!! Onde está?

    — Ah!… A única notícia interessante de hoje é que “Vestido de Noiva” do Nelson Rodrigues vai ser reencenada. Você leu?

    — Como posso ter lido se nem sei onde está o jornal?

    — É realmente sensacional.

    — Esquece.

    — Concordo, o texto merece.

    — Eu vi há alguns anos, gostei muito.

    — Estreia semana que vem.

    — …(silêncio)

    — Um clássico do teatro.

    — …(silêncio conformado)

    — Você conhece a peça? Gostaria de assistir?

    — …(silêncio desesperado)

    A surdez rende situações hilárias, mas rende igualmente brigas e discussões. Duas amigas entraram numa loja de conveniência, deram uma voltinha, resolveram sair. A surda foi à frente e a outra, já quase na porta, decidiu comprar uma garrafinha de água. Pegou rapidamente a mercadoria, foi para a fila do caixa e avisou à surda:

    — Fulana, espere um pouco.

    A surda continuou andando, a amiga repetiu o pedido em voz mais alta. Repetiu uma, duas, três vezes, gritou uma quarta, mas não teve jeito. Ela não queria desistir da água, nem podia sair sem pagar. A surda desapareceu na rua e, dois minutos depois, reapareceu na porta da loja, furiosa.

    O surdo, protegido pelo silêncio, não acompanha as agruras de quem tenta se comunicar com ele. Costuma reagir indignado e rotular de impacientes os pobres interlocutores. Acredite se quiser, já ouvi a seguinte frase.

    — Eu não sou surdo, você é que não gosta de repetir.

    É óbvio que o surdo não consegue avaliar o quanto está deixando de ouvir. A surdez não se instala da noite para o dia, ele vai perdendo aos poucos o contato com o entorno.

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — FULANO, QUER IR AO CINEMA?

    — Está gritando comigo por que? Está pensando que eu sou surdo?

    Eu amo todos os meus surdos, mas acho que eles são impiedosos. De vez em quando um deles pergunta porque ando tão estressada. Se trocassem de lugar comigo por uma semana, entenderiam.

    Talvez eu tenha sido surda em vidas passadas e agora esteja pagando por isso. Deve ser carma.

  • Uma imagem ou mil palavras?

    Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

    Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas – computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

    Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

    O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

    A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

    Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

    Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

    No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

    Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

    Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

    Ao ampliar suas potencialidades – e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

  • O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.

    Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”

    Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.

    Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.

    Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.

    Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).

    O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.

    Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão à parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • O outro pior encontro casual

    Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo.

    Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim.

    Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectual do rolê”.

    É aquele tipo de sujeito — pode ser uma mulher também, claro, já conheci várias — que quer ser o mais culto da turma, o mais sábio, um professor.

    É aquele sujeito que, ao te ver, por exemplo, com um livro nas mãos, quer arrancar o livro das suas mãos e colocar outro no lugar: “Você comprou este livro? Não acredito.”

    E vai, sem cerimônias, tirando o livro das suas mãos, colocando outro no lugar, jurando, claro, que vamos agradecê-lo no futuro.

    É aquele amigo que, num bar, não conversa, mas discursa: dá palestras, conferências. “Você acha que vou ouvir este tipo de disco? A vida é curta para eu perder tempo com música ruim.”

    Para gente assim, o gosto musical dos outros é sempre fútil, idiota, pura perda de tempo.

    É um tipo de amigo que, depois que alguém fala que foi ao cinema, estufa o peito e diz: “Eu não sei há quanto tempo não vou ao cinema. Esses filmes de hoje em dia…”

    É daqueles que, num passado — lá pela Renascença —, já viu todos os filmes, ouviu todas as músicas que tinha que ouvir, leu todos os livros, foi a tudo quanto é peça de teatro.

    Aquele amigo que diz: “Eu não vejo filmes no cinema, prefiro os que tenho em casa.” “Eu não tenho mais paciência para ouvir música, já ouvi tantas.”

    Este homem é sempre o intelectual da turma, o conselheiro, o sábio. De repente, quando ele chega, alguém fala em surdina: “Agora ninguém mais fala. Só ele.”

    Disco bom é só o que ele descobre; livro bom é só o que ele cita; teatro bom é só o que ele viu.

    E nós, claro, os amigos, vamos sumindo, como verdadeiros analfabetos, anotando, claro, as dicas dele, que serão importantes para o futuro.

    E continuamos, claro, gastando nosso salário com nossos livros tolos, nos divertindo com filmes ruins, vendo a vida passar em brancas nuvens, sem ter visto todos os filmes, sem ter ido a todas as peças, nos emocionando com um balé insignificante.

    Pois é, meu bom Antônio Maria, os chatos só aumentam desde que o mundo é mundo.

    Mas sua crônica continua muito boa — e cada vez mais atual.

    Não me canso de ler.

    Pelo menos a gente ri um pouco.

    Bebo uma cerveja por você, meu caro cronista.

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

  • Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.

    Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.

    As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.

    Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.

    As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

    A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.

    Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?

    Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,
    ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.

    Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco.

    E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

    O pequeno casamento foi durando um grande tempo.

    Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.

    A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate. Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

    Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

    A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

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