Crônicas

  • Tem dias e mais dias

    Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida.

    Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez.

    Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia.

    Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse.

    Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas.

    Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir.

    Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção.

    Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas.

    Tem dias que até faço piada na rua.

    Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de feras e voz alheia, prestidigitadores que fazem a culpa se tornar inocência em menos de um piscar de olhos. E os palhaços? Esses somo nós.

  • Avidez e honra no tempo!

    Em épocas muito passadas, os abastados entediados, não aproveitavam suas vidas ocas, por que não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. A massa de gente, seguia rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de alguns séculos atrás, tornaram-se quase pó, mesmo tendo já sido uma deslumbrante idade de ouro. Nosso tempo se caracteriza por uma presunção estranha de ser mais que qualquer outro passado. Apesar das ofertas de compras e novas tecnologias, disponíveis a carteira de qualquer humanoide a solta no planeta azul. 

    Mas a performance  intelectual média, se aproximou de uma decadência rasa, passível de ser omitida pela envergadura descomunal do ter, em detrimento ao ser. Na verdade vivemos num tempo muito capaz de realizar, mas não se sabe o que, pois domina tantas coisas que se torna incapaz de ser dono de si mesmo, e se perde em sua própria abundância. Isso tudo é um pouco do mesmo pensamento escrito no livro “A Rebelião das Massas”, escrito pelo genial José Ortega Y Gasset, considerado de grande importância para o século XX, como foi Carl Marx para o século XIX.

    Os indivíduos fragilizam suas ideias proliferadas pela oferta no menu de escolhas diárias, e se tornam fracos pilares de si e de suas bases intelectuais, sempre á mercê de uma nova teoria que desfaz em breve o que era verdade concreta até então. 

    Nos tornamos criaturas bem mais frágeis que um ventifact, que é uma rocha desgastada, perfurada, gravada, sulcada por areia ou cristais de gelo, movidos pelo vento, por milhares de anos. Sofrem o mesmo grande ataque que recebemos nas ofertas mundanas de nosso viver atual, mas a nós fragiliza, nos deixa atrás do que surpreendentemente surge em instantes, nos envelhecendo e desligando do que é novo e aceito como melhor. 

    A liberdade nos coloca em contato com o desejo, e cria um medo de ser assumido pela incerteza da não aceitação e a provável infelicidade no final.

    As Ventifact são feições geomórficas encontradas em ambientes áridos onde há pouca vegetação para interferir no transporte de partículas eólicas, onde há ventos fortes com frequência e onde há um suprimento constante, esmagador, de areia. 

    Assim como nós, parece impossível essa rocha se manter de pé, mas a natureza tem seus mistérios e surpresas. Quem poderia retirar o suco dessa rocha que nasce dura para sorver em nosso sangue suas benesses. Ela que mesmo perdendo sua estrutura original, se torna outra pedra sem perder a beleza. A nós, cabe a inveja dessa manutenção da avidez e honra no tempo, esse mágico que sempre nos tira um pouco.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • Oi, Mazzilli

    Certas coisas na vida não vêm de graça. Se você, por exemplo, tem o hábito de ir ao cinema toda semana, de se alimentar de filmes velhos e novos, tenho certeza de que alguém o levou ao cinema pela primeira vez. Um tio, um pai apaixonado por filmes, uma mãe, um professor, uma avó. Se você é do tipo leitor apaixonado, daqueles que leem por prazer até as placas das ruas, alguém na sua casa é assim. Ou, então, alguém o levou ao museu, ao teatro, lhe mostrou um disco. Paixão assim passa de pessoa para pessoa. E, se, como eu, você não teve uma família rica, a história fica ainda mais interessante.

    Quando eu era um menino, descobrindo a MPB, ainda não era o tempo dos streamings. Para saciar esse vício, eu pedia que gravassem discos para mim. Marcava com um amigo para almoçar, ou tomar um café, e lá estava ele, com aqueles CDs virgens que a gente comprava nas Lojas Americanas. Voltava para casa com músicas gravadas — jazz, MPB, coisas que eu ainda nem sabia direito de onde vinham.

    Eu era pobre, mas ia me virando com a ajuda daquele amigo.

    Às vezes, num fim de semana qualquer, ele marcava comigo na porta do cinema. A gente via um filme. Depois, ele me convidava para jantar. Pegávamos o carro, íamos para a Savassi, conversávamos sobre o filme e, quando eu voltava para casa, meus bolsos estavam cheios de guardanapos, todos rabiscados, com referências para eu procurar depois.

    Era um tempo em que eu ainda tinha telefone fixo em casa. Minha mãe dizia, da cozinha ou da sala:

    — O Mazzilli ligou.

    Eu retornava. A gente combinava um filme, uma pizza, e o ritual recomeçava.

    Foi ele quem me falou, pela primeira vez, de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Foi ele, também, quem me apresentou o cinema de Billy Wilder. E foi ele quem me fez ouvir discos que eu jamais teria dinheiro para comprar.

    Conheci o Mazzilli em 2007, numa exposição chamada “O tempo redescoberto”, na Biblioteca Pública. Dali em diante, a gente passou a se encontrar com frequência — para ir ao cinema, almoçar, tomar um café, conversar.

    Ele era um psiquiatra que se descobriu artista plástico. Eu era um menino pobre, da periferia de Belo Horizonte, que tinha lido Capitães da Areia, de Jorge Amado, e sonhava estudar Letras.

    Domingos Mazzilli Jr., o Mazzilli. Nunca vi ninguém gostar de gente como ele gostava. Gostava de conhecer gente simples, como eu era, e apresentar discos, filmes, livros. Dizia que cultura devia estar na cesta básica das pessoas. Cultura também é coisa do menino da periferia, do motorista de ônibus, da empregada doméstica.

    Quando ele fez a exposição na Biblioteca Pública, no dia do coquetel, você via professores de universidade misturados com leitores que estavam apenas passando por ali — e até moradores de rua. Assim era o Mazzilli.

    A vida foi passando. Eu me formei em Letras, aprendi inglês sozinho, virei cronista. Meus amores vieram, e foram. De certa forma, tudo isso teve um pouco do dedo dele.

    Foi ele, por exemplo, quem me levou ao Sementes de Poesia, da nossa amiga Regina Mello, nas manhãs de domingo. Um sarau que eu amei muito.

    Na segunda-feira passada, lendo uma postagem no Facebook da Regina, fiquei sabendo que o Mazzilli tinha morrido. Um AVC.

    Ele foi a ponte entre mim e muitos discos, filmes e livros que eu amo. Mas foi também o confidente dos meus primeiros amores, o leitor dos meus primeiros textos.

    A última gargalhada que dei na vida foi com ele.

    Mazzilli morava em Macacos, distrito de Nova Lima, perto de Belo Horizonte. Era natural de Muzambinho. Para mim, parecia um irmão mais velho ensinando o mais novo a andar de bicicleta.

    Eu descobria a arte.

    E aprendi uma coisa, dessas que ficam para sempre: sem amigos — e sem arte — a vida é impossível.

  • Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão.

    Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro.

    Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la.

    O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés.

    Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável.

    Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting.

    O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo.

    Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos e essa distorção deliberada da realidade que corrói lentamente o amor-próprio, a autoconfiança e a sanidade psicológica — bases mínimas para uma vida digna.

    A violência nem sempre termina em morte física. Muitas vezes ela opera lentamente, em silêncio, antes de chegar ao seu desfecho mais brutal.

    E talvez seja por isso que o Dia Internacional da Mulher ainda seja menos uma data de comemoração e mais um momento de alerta.

    Segundo estimativas globais da ONU Mulheres, 85.000 mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023. Desses homicídios, cerca de 60% — 51.000 casos — foram cometidos por parceiros íntimos ou outros membros da família.

    Isso significa que 140 mulheres e meninas são mortas todos os dias por pessoas do próprio convívio. Em média, uma mulher ou menina assassinada a cada dez minutos.

    No Brasil, os dados mais recentes indicam que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o equivalente a cerca de quatro assassinatos por dia. Levantamentos divulgados em 2026 apontam que o número pode ter chegado a 1.568 casos em 2025, o maior já registrado desde que o crime foi tipificado no país, em 2015.

    Diante desses números, talvez a pergunta inevitável neste Dia Internacional da Mulher seja: o que exatamente estamos celebrando?

  • Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica.

    Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso.

    Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas.

    Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi o tal do corona, com quem já estou perdendo a paciência, que nos trouxe esse sacrifício extra.

    Aguentem firme, orelhinhas! Vai passar.

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

  • Marta ainda não está morta

    Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro.

    Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar, uma geleia. Sem contar a labirintite.

    Curiosamente ainda lembrava de passagens da sua infância: a primeira viagem, o primeiro milho cozido na espiga, o primeiro beijo roubado, tudo bem claro em sua mente.

    No entanto, não estava bem certa de quantos bisnetos tinha. E os netos? Sabia de um que nunca tinha visto. Podia ser alguma doença congênita, quem sabe até estivesse morto. Talvez a quisessem poupar.

    Exatamente isso que a incomodava: sempre a suspeita de comiseração familiar, como se todos, em conluio, planejassem esconder dela o que julgavam coisas ruins ou notícias tristes. Não seria ela capaz de entender, aceitar ou suportar as rudezas da vida?

    Agora, largada na cama, assistia de perto à menina, cuidadora contratada para ela. Sentia-se péssima naquela situação de dependência, necessitada de babá, um retrocesso ingrato, humilhação que ela pensava não merecer.

    O que Marta mais temia não era acordar e descobrir-se sem vida; nem eram as dúvidas sobre reencarnação, ou se o fim viesse a significar mesmo o fim de tudo. Detestava admitir e a ninguém confessava, mas tinha era pavor de morrer.

    E toda manhã, ao acordar, o mesmo ritual de verificar a respiração e constatar que vinha lá um novo e longo dia, cansativo e fastidioso.

    Os filhos raramente a visitavam. Justificavam afazeres e problemas diversos, e ela sentia-se mesmo um estorvo. Sem contar que os amigos andavam sumidos ou eram quase todos já falecidos. A monotonia carcomia pelas beiradas.

    Sua cuidadora, menina paciente e emburrada, dizia-se enfermeira. Parecia um daqueles robôs, sempre atrás dela para remédios e advertências. Levava-se a sério e achava a vida um desenrolamento de responsabilidades. Uma chata.

    As horas para Marta custavam a passar. Arrastadas. Um de seus prazeres, o café da manhã: fatia de mamão com açúcar, banana amassada com grãos, café com leite desnatado e o pão com manteiga ou requeijão. Era sagrado.

    Não comia muito no almoço, qualquer coisa servia desde que não faltasse arroz. Dormia uma hora à tarde e depois lia alguma coisa no jornal ou via televisão. Marta era assídua de novelas. À noite, na maioria das vezes, sopa. Exceção feita à de cebola. Detestava cebolas, forçavam lágrimas e Marta sempre odiou chorar.

    Matava seu tempo também no celular que recentemente aprendera a usar. Apenas o básico. Ligava especialmente para filha mais velha, a fim de saber as novidades. Somente as boas ou inúteis, porque as reais não lhe eram permitidas. Marta era cardíaca, tinha obstrução nas artérias e hipertensão controlada à base de comprimidos.

    Ainda fazia uso de fitoterápicos para dormir, que quase nada adiantavam. Dormia pouquíssimo. Ironia de vida que costumava repetir nas conversas “quando era jovem e amava a vida, sentia um sono irresistível, agora que odiava viver, dormia cada vez menos”.

    Seu pulmão era outro ponto fraco. Tossia sem parar. Logo ela que nunca havia posto um cigarro na boca. Tinha um único vício e que lhe deixara o fígado baleado: era chegada a umas cachacinhas. Ainda hoje, se
    dessem uma trégua ou nas comemorações em família, tomava uma taça de vinho ou encarava um a latinha de cerveja gelada. Só para amenizar o travo das saudades.

    E de que tinha saudades? Atualmente de nada. Talvez de manter-se animada para seguir vivendo. E o que a mantinha viva, respirando, tossindo, com as dores nas articulações, sem a cachaça e o joelho esquerdo destroçado? Simplesmente o medo paralisante de morrer.

    Marta ficava a imaginar sua morte, ela se despreendendo do corpo e escutando as pessoas “Dona Marta está morta! Partiu dessa pra outra! Descansou, enfim”. Quem fosse a seu enterro, e seriam poucos, que a
    velassem com respeito. Ao menos, evitassem as piadas e disfarçassem o incômodo de estarem ali.

    Estranhamente, naquela noite, ao se preparar para dormir, pressentiu no ar algo diferente. A hora da partida se acercava. Era quase palpável, Marta sabia. Deitou-se, então, com o melhor pijama, lingerie nova, até perfumou-se. Devia ser dessa vez.

    Demorou uma eternidade para dormir, ainda sem saber para aonde iria, se para o nada ou noutra vida, uma empersária milionária, uma atriz de televisão, uma flor num vaso ou um batráquio. Até imaginou-se reencarnando numa lagartixa. Acabou adormecendo, de tosse e cansaço.

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • Genival Lacerda

    Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, “quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”. 

    Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de cordel, a capoeira e o acarajé, havendo inclusive uma iniciativa junto ao IPHAN para torná-lo patrimônio imaterial do Brasil.

    Através de sua vertente ‘forró universitário’, conquistou a juventude dos grandes centros do Sudeste, com conjuntos de sucesso baseados no eixo SP/RJ como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, Circuladô de Fulô, Trio Virgulino, Trio Forrozão, Forroçacana. A despeito das reservas dos puristas, esse movimento musical urbano, que teve seu auge nos anos 90, nunca deixou de se conectar aos grandes nomes tradicionais do forró e afins (xote, baião, xaxado, arrasta-pé).

    Percebendo esse potencial, a indústria cultural criou mais recentemente uma versão estilizada, o ‘forró eletrônico’ ou ‘tecnobrega’ (apelidada por Chico César de ‘forró de plástico’). Grupos como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta, Aviões do Forró e Os Magníficos (curiosamente, todos sediados no Nordeste) arrastavam multidões a seus shows pirotécnicos cujas performances glamourizadas pouco lembram a coreografia singela do “forró pé de serra” de Luiz Gonzaga. A soberana sanfona foi destronada e substituída pelo órgão eletrônico e às imprescindíveis picardias foram adicionadas fúteis temáticas românticas.

    Nesse universo, o som de Genival Lacerda soava extemporâneo, assim como suas apresentações, onde estavam presentes o indefectível chapéu coco, a roupa multicolorida e a maneira singular de se requebrar desengonçado no palco, carregando o barrigão saliente. Suas letras eram carregadas de deboche e ressaltavam a malícia e o duplo sentido. Devido a isso, alguns tachavam sua música de porno-xote, pecha que o artista, ofendido, rejeitava, alegando, por exemplo, jamais ter lançado mão de palavrões.

    Conforme explica o músico Silvério Pessoa (da banda Cascabulho), “Genival fez parte de um clã que está em extinção, o forró ligeiro quebrado, dividido, lúdico.” Tendo como suporte o trio básico acordeon/zabumba/triângulo que caracteriza o forró de raiz, bebeu direto das fontes originais que moldaram seus álbuns iniciais quando ainda não dava tanto espaço para as brejeirices que viriam a marcar a segunda metade da sua carreira.

    Enfim, um genuíno representante da primeira geração do forró que inclui nomes emblemáticos como Ary Lobo, Gordurinha, Marinês, Clemilda, Anastácia, Trio Nordestino e sobretudo os gigantes Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em sua discografia, constam aliás um tributo a Jackson do Pandeiro (que era aliás seu concunhado) e outro em que revisa a obra de Luiz Gonzaga (participação de Fagner, Elba Ramalho e Chico César).

    Embora tenha gravado mais de 70 álbuns, consagrou-se mesmo com a música SEVERINA XIQUE XIQUE (co-autoria com João Gonçalves) de 1975 com o famoso refrão “ele tá de olho na butique dela” que se tornou sua marca registrada e estendeu seu prestígio para todo o país. A canção ganhou releitura de uma pá de artistas de renome: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nando Reis, Zeca Baleiro, MPB-4, Pato Fu.

    A faixa puxou as vendas do álbum AQUI TEM CATIMBERÊ, selo Copacabana. Curioso que essa gravadora, sediada em São Paulo, embora tivesse em seu elenco muitos intérpretes populares, não era especializada em música nordestina e resistiu em bancar o projeto de Genival, cujo lançamento acabaria por lhe render 800 mil cópias vendidas.

    O álbum NÃO DESPREZE O SEU COROA (1979) denota outro ponto alto na carreira do artista paraibano. Com arranjos de Sivuca e a presença de Dominguinhos, esse disco traz os hits ROCK DO JEGUE (referenciado em uma faixa do único disco dos Mamonas Assassinas) e RADINHO DE PILHA (regravada pelo grupo Camisa de Vênus).

    Descontando suas capas de gosto duvidoso em que aparece ao lado de mulheres de biquíni, e as letras com tom machista (“tem mulher que só aprende quando o coro desce” in RADINHO DE PILHA), que retratam os preconceitos e os valores de grande parte do seu público, Genival é um exímio cronista de costumes que carrega o espírito original do forró voltado ao indivíduo das classes menos favorecidas e aos contratempos dos imigrantes, amenizados com humor.

    Como diz Marcelo D2: “(ele) faz lembrar a alegria do Brasil, me conecta com meus antepassados e traz uma sensação boa de felicidade. Descanse em paz”.

  • Conversar ou “zapear”?

    Alguém ainda tem comadres?

    Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias.

    Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! 

    Mas o principal atributo delas era conversar.

    Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mães sentavam-se à sombra das árvores ou nas varandas para nos cuidar e ter um “dedo de prosa” com suas comadres. Esse momento do dia as fazia espairecer, esquecer as dificuldades que houvesse e, renovadas, crianças e adultos, preparavam-se para o dia seguinte. Falavam muito, é verdade, mas também escutavam. Havia tempo, havia presença.

    Tempo que já não temos. Ou nem precisamos. Crianças brincam e jogam dentro de seus quartos, umas com as outras, em jogos virtuais. Que não as atrapalhemos, elas estão “brincando”.

    Adultos? Encontram-se, com certeza, mas nos ambientes de trabalho, em restaurantes ou em compromissos sociais. Conversam, sim. Digitam, enviam, respondem. Tudo rápido, tudo imediato. A comunicação é instantânea, os assuntos são variados, as opiniões são dadas sem nenhum constrangimento. Para isso estão as redes sociais, os grupos de amigos e os da família.

    Estamos sem tempo… Falamos muito. Escutamos pouco.

    No entanto, o colóquio, a conversa, o olhar nos olhos, o cuidado ao falar, tudo isso vai ficando mais escasso. A interação deixou de ser genuína, afetuosa, despretensiosa, leve. A presença tornou-se rara, embora estejamos permanentemente conectados.

    É muito estranho isso. Comunicamo-nos veementemente pelo WhatsApp, mas não temos o que conversar se estivermos presencialmente, pois a impessoalidade e a indiferença dominam o cenário atual.

    Qual será o futuro da humanidade? Onde ficará a solidariedade, o estender a mão, os olhos nos olhos, a atenção real, o jogar conversa fora das antigas comadres?

    E o sorriso feliz da criança ao receber o presente de aniversário da madrinha, afoita para desmanchar o laço e arregalar os olhos de surpresa? Como se hoje o presente viesse por “pix”?

    Deixo aqui essa reflexão e não me estendo mais, porque a amiga está me chamando no WhatsApp.

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Solidão nos olhos

    Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.

    Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.

    Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.

    Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.

    Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.

    Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.

    Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.

    A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.

    Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.

    Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.

    Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.

    Nada alivia a distância.

    A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.

  • Futuro do pretérito!

    As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos.

    Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza.

    Eventualmente não são pessoas do mau que nos cercam, como não o foram aqueles estrangeiros a cavalo, agentes do faraó do Egito, Alexandre.

    Por insistência deste, aqueles homens atravessaram fronteiras e grandes distâncias, correndo riscos de ataques dos punhais de ladrões, ou contágio com doenças doloridas e mortais, na busca por objetos secretos mais bem guardados pela corte egípcia. Os camponeses os observavam com desconfiança e medo, porque a experiência lhes ensinara que somente gente perigosa viajava, ou seja, soldados, mercenários e traficantes de escravos. Naquele caso, em meio a tanta dúvida e maledicência, os homens de confiança do rei tinham outra missão, muito mais nobre para a época, eles procuravam livros por ordem de sua majestade. Esses usavam a enorme vantagem de seu poder absoluto para enriquecer sua coleção. O que não podiam comprar, confiscavam. Se fosse preciso fatiar pescoços dariam tal ordem justificando que o esplendor do país era mais importante que os pequenos escrúpulos. Na época daquele grande projeto alexandrino, não existia nada parecido com o comércio internacional de livros. O Senhor das Duas Terras, um dos homens mais poderosos da época, daria a vida (a dos outros é claro; com os Reis sempre foi assim) para reunir todos os livros do mundo em sua Grande Biblioteca de Alexandria. Ele perseguia o sonho de construir uma biblioteca absoluta e perfeita, a coleção que conteria todas as obras de todos os autores desde o princípio dos tempos.

    Esses objetos especiais nos levam ao ponto de partida e ao coração agitado pelo evento da primeira leitura, como definiu Marguerite Duras, passando o infinito ao futuro do pretérito e depois ao subjuntivo, como se sentisse o solo rachando sob seus pés.

    Nada mais humano do que flutuar pensamentos de divagam em nossas redes neurais mais agitadas. O que nos vale ter em mãos é a sensação de que se no ano passado morremos, no atual estamos bem vivos.

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • Beijos

    Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

    Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

    Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

    Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

    Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

    Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

    Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

  • De quando não havia internet

    Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet!

    O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto!

    Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceira guerra mundial!

    Antes, a gente esperava e tinha que esperar de qualquer jeito! Exercitávamos a paciência! Escrever uma carta e esperar semanas ou meses pela resposta! Esperar aquela revista incrível chegar nas bancas para ler as novidades! Acompanhar o ritual da compra do jornal do final de semana e ler os vários cadernos sossegadamente! Pacientemente!

    Tudo hoje é urgente! Você marca uma coisa e depois de uns dez minutos, desmarca e torna a marcar e, por fim, o encontro, a reunião e a ida ao cinema acabam não acontecendo.

    Antes, se marcássemos alguma coisa, palavra dada, a presença era certa, a menos que, a terceira guerra mundial tivesse começado literalmente e impedisse alguém de ir ao local combinado! Simples assim!

    Tudo hoje é urgente! Falar com pressa! Amar com pressa! Assistir alguma coisa, com os olhos na tela do celular, com muita pressa!

    Antes, ficávamos sentados com os amigos em uma calçada conversando e rindo horas e horas sobre os mais variados assuntos!

    Tudo hoje é urgente! O tempo é dividido e subdividido para que todos os segundos sejam ocupados com alguma coisa! Na maioria das vezes, esse precioso tempo é gasto com horas e horas rolando a bendita tela do celular!

    Antes, ficávamos horas sem fazer nada! E isso era bom! Na verdade, era ótimo! Sabe a ideia do ócio criativo?

    Voltando ao telefone… Ah! Que saudade do chamado orelhão! Sim, orelhão! Uma cabine pública em que qualquer pessoa com as desejadas fichas poderia falar com outra! Colocava-se uma ficha atrás da outra para conseguir falar! Cada ficha representava um pouquinho de tempo (eu não vou lembrar agora exatamente quanto tempo, o que sei é que se fosse uma conversa mais longa, você deveria comprar muitas, muitas fichas…)

    E o ritual da música? Pegar um álbum (o chamado LP – Long Play) e curtir a capa, o encarte com as letras, as fotos… Ouvir o lado A, geralmente mais comercial, e ouvir o lado B, geralmente mais conceitual… Aguardar o próximo álbum sair em alguns meses ou anos! Esperar!

    E aqui fica mais evidente a crítica a estes tempos, a falta de espera! A impaciência, a correria e a urgência destruíram o importante e necessário processo das coisas e das gentes!

    O humano precisa esperar!

    É o tempo pra maturar os sentimentos, os olhares, os gostos, as conquistas e os fracassos, os compassos e as histórias.

    A nossa história é toda ela feita de esperas!

    Quando não respeitamos o tempo de tudo, somos atropelados!

    Tudo hoje é frenético, performance, lacração, engajamento…

    Antes, era a própria vida nas suas insinuações e contradições!

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

  • Agora eu era herói

    Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

    Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas ‘de bem’, as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

    Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus criticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

    Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais. Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

    Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade. 

    A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

     No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

    Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos,  para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

    Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

    Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

    Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição. 

    A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente. 

    No plano internacional,  um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório. 

    A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintas. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

    Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão  aliás, minha caneta justiceira. 

    Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

    No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. “É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?” pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar  tudo isso… e muito mais.

    Na minha inocente onipotência, não  compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

    À  medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

    Hoje,  quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.  

  • 10 para 14

    Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14.

    10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.)

    14 anos… Que aventura!

    Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça.

    Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop.

    Se xingam. Se amam. Se riem. Se conversam. Se encantam. Se fofocam. Se protegem.

    Andam de mãos dadas na rua.

    Olham cada uma para um lado. Mas atravessam na faixa.

    Sonham acordadas. Voam pela Liberdade. Se enroscam nos meandros da galeria Sogo.

    Conhecem tudo como a palma das mãos.

    São curiosas. São entediadas. São impacientes. São presentes. Mesmo de fone de ouvido.

    Questionam. Respondem. Afirmam. Teorizam. Reafirmam. Defendem. Atacam.

    Concluem.

    Sempre tem razão mas amam saber mais.

    Têm certeza que são, que estão e que serão.

    E nisso tudo eu, o espectador privilegiado, sorrio e aperto os olhos espremendo uma lágrima pequena em nome da mais pura contemplação.

  • Mais lúdicos e sutis!

    Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. 

    Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. 

    Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. 

    A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo, caso tivesse como pagar quatro centavos por noite, e ganhavam cobertores feitos de plástico. 

    Se o cidadão tivesse em seu bolso, somente dois centavos, a única opção seria sentar em um banquinho e pendurar-se com os braços, em uma longa corda, que impediria de cair caso adormecesse. 

    A mesma corda segurava outros pobretões esfomeados que tinham tão pouca saúde, quanto dinheiro em seus casacos rasgados.

    De qual lamúria ou incômodo você se compara com aqueles que tentavam sobreviver em tempos onde pouco se tinha, inclusive esperanças?

    Vivemos embriagados com ofertas consumistas e estéticas da última moda, com intenso apego ao valor monetário das vidas que cruzam nas redes sociais ou com os carrões coloridos que se mostram nas esquinas mais limpas, parecendo desfile de Carnaval fora de época.

    A geração da ressaca de dois centavos, assistiu a palavra tornar-se associada ao álcool no século passado. 

    Ela apareceu pela primeira vez no vocabulário inglês no século XIX como uma expressão para descrever negócios inacabados de reuniões, mas foi somente em 1904 que a palavra começou a surgir em referência ao álcool. 

    Na realidade, o significado relacionado ao álcool é um desdobramento de seu conceito anterior, para se referir a negócios ruins ou às consequências de outros eventos.

    Há uma expressão em inglês que diz o seguinte: “he could sleep on a clothesline”, que significa que uma pessoa pode dormir em qualquer lugar. 

    Podendo ser daqueles lugares para passar a noite que a expressão se originou.

    Diferente daquele povo, ao despertar todos os dias, poderíamos ter a mesma sensação de um garoto cigano que vive num vilarejo das colinas da Transilvânia. 

    Que assiste cavalos e carroças descerem a estrada, vacas voltando devagar para o vilarejo no cair da noite, e durante o dia perseguir patos e filhotes.

    Histórias como essas de momentos sanguíneos, merecem consternação, assim como os mais lúdicos e sutis, que nos servem para exercitar a vida entre um respirar e outro.

  • Valeu, Mestre Ciça!

    João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.

    O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.

    No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.

    Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.

    No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.

    Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.

    Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.

    Eu mesmo, sou um deles.

    O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.

    Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.

    Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!

  • In-cels ou In-hells?

    Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

    A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

    Nada disso.

    As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

    — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

    — Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

    Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

    A mesa quase tremeu.

    — Chad?

    Risadas curtas.

    — Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

    A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

    Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

    Desapontamento em trincheira.

    O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

    Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

    O copo bateu no mármore com um som seco.

    Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

    Não era “no céu”.

    Era um outro lugar.

    E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

  • CRISES

    As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.

    O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza. 

    Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.

    As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.     

    Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?

    Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.

    Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.  

  • Rugas virtuais

    Nunca me preocupei com a velhice, embora não acredite naquele papo de melhor idade, isso eu sei que é balela. Como eu poderia viver a melhor fase da minha vida sem enxergar um palmo à frente do meu nariz e ainda por cima na companhia de anti-inflamatórios e médicos de todas as especialidades?

    Não que seja horrível envelhecer, mas a crença na velhice como o melhor dos tempos é a reencarnação do coelhinho da Páscoa. Sei que é preciso alguma ilusão para aguentarmos o tranco de lidar com o ganho de peso, o ressecamento da pele e aquela sensação térmica exclusiva e independente do resto do mundo. Mas chamar de melhor idade, convenhamos, é uma apelação insustentável.

    Os homens não passam por essas agruras. Para eles o envelhecer oferece um certo charme, um quê a mais de sedução. Sim, o tempo é tendencioso.

    Quanto a mim, também uso minhas gambiarras emocionais para lidar com as transformações impostas pelo vivido. Por um lado, é muito irritante ter um código de barras no centro do pescoço. Por outro, hoje sou vacinada contra uns tipos que antes me adoeciam de paixão. Nessa perspectiva, o resultado da conta existencial se mostra positivo.

    Além disso, sempre botei fé na crença de que cada um tem a idade que deseja ter. Que delícia a promessa de viver meus vinte anos eternamente, sem dar importância às celulites, à flacidez dos braços, às linhas de expressão ou, por que não dizer, o caderno de caligrafia ao redor dos olhos. Sentir a juventude nos poros da alma.

    O paraíso seria assim, não fosse o fato de que nesses tempos modernos a velhice se impõe através de rugas virtuais fincadas na autoestima.

    Você pode ter corpo de quinze, mente de vinte, uma vida saudável, alimentação balanceada, rotina de exercícios físicos, mas, se não tiver investido na linguagem computacional, você está velho ou nos termos atuais off.

    Ouço as músicas da moda, estou em todas as redes sociais, faço dancinhas para viralizar, mas não sei usar filtros, aplicar efeitos, fazer downloads, salvar no drive, escanear documento no celular ou resolver problemas da impressora.

    Você pode ser jovem em tudo, mas é ancião de acesso.

    É como querer comer quebra-queixo com prótese dentária, abrir pote de geleia com tendinite no pulso ou pagar boleto sem óculos para perto. Aliás, o tamanho dos números nos códigos de barra é o primeiro sinal de que as portas do futuro são estreitas e sem acessibilidade.

    Não tem disfarce que esconda essa falta de colágeno binário. A tela do computador e do celular funcionam como um espelho moderno e cruel a berrar que eu estou fora.

    Quem disse que aceito essa realidade? Eu resisto. Luto contra as evidências da minha velhice digital. Baixo aplicativos como quem usa hidratante anti-idade, só não consigo o efeito rejuvenescedor esperado. Esqueço as senhas, envio e-mail sem o anexo, me enrolo com os links de acesso. Por fim, me dou por vencida e chamo o jovem da casa para resolver o conflito. Bastam quinze segundos e dois toques, tudo resolvido.

    Para manter a honra, mostro interesse em aprender o processo. Minutos depois não lembro mais onde clicar, já não sei o que fazer. Travo. A cada tropeço nasce uma nova ruga virtual. Uma linha de expressão, escrita em negrito, fonte Times New Roman, tamanho 28: você está oldline ─ deixem-me criar uma nova categoria em inglês para os anciãos do acesso e para ter o gostinho de estar na crista da onda.

    A sorte é que a memória falha e o idoso é teimoso.

    Pensando bem, envelhecer talvez seja uma pirraça. Das boas.

  • A madrinha

    Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.

    Em vez de empatia despertava irritação, talvez.

    Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém.

    Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por acaso o viu. Bastaram poucos segundos para sentir-se curiosa em saber quem era aquele rapaz, qual a situação que o levou a mendigar uma moeda, um trocado.

    Não que ela não soubesse. Sabia sim, sua cidade já há algum tempo tornara-se o destino de pessoas e até famílias sem teto.

    Havia muitos pedintes que ficavam nas esquinas das ruas olhando a vida passar. A vida da qual não faziam parte.

    — Como é o seu nome? perguntou

    — Ramón

    — Toma Ramon, disse e lhe passou um sanduíche enrolado em papel alumínio.

    Minha mãe ainda acha que sou criança! Ela ri e arranca com o carro. Não eram mais estranhos, embora não fossem amigos. Criou-se um vínculo sem nome, entre eles.

    Gabriela criou um enredo onde faltavam todos os porquês, e não se conformava por não completar a história sobre o estranho.

    Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, de dias de uso. No cartaz em suas mãos estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.

    Gabriela elucubrava, não por interesse pessoal nele, mas por um início de consciência que estava adquirindo em sua recém iniciada vida acadêmica. Dia após dia, ao fechar o sinal, ela parava justamente no local onde ele fazia “o seu trabalho.” Trocavam um “bom dia”, “hoje está quente”, e seguiam em seus mundos.

    Como em um flashback, ela o imaginava em seu país de origem conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente e talvez o futuro.

    O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia. Até o outro dia.

    O trajeto para a faculdade, o sinal de trânsito, o estrangeiro e seu cartaz e a imaginação da garota.

    Gabriela passou a pensar em si mesma e em como a vida era estranha. Lembrou-se do seu sonho de adolescente e de como ela não foi capaz de o sustentar quando se viu frente a frente com a real possibilidade de estudar fora. Sua família, seus amigos, seu país. Não! Ela não se sentiu preparada e desistiu.

    Ao ver o estrangeiro, intimamente ela se justificava.

    “Como ele pode deixar o seu país? O país é mais do que só uma palavra. O país são os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a minha avó e a minha tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos ao amanhecer, são tantas coisas…”

    Passaram-se os meses, o semestre do curso quase acabando, Gabriela acalmou seu coração e seguiu sua vida.

    No início do semestre seguinte, ao passar pela avenida onde Gabriela faria um estágio, eis que ela vê Ramon.

    Mudou de esquina. Foi para uma avenida arborizada. Continuava lá, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas que lhe davam, até que o sinal abrisse e ele voltasse para o canteiro.

    Ele vem rápido para perto de uma árvore do canteiro central e entre um sinal fechar e abrir, abaixa-se para tomar um gole de água oferecida por uma jovem grávida a quem ele sorri e dá um beijo.

    Gabriela olhou pelo retrovisor e viu que eles se olharam e sorriram um para o outro.

    Gabriela também sorriu.

    Que país, que nada, pensou ela.

    Amanhã mesmo vou falar com quem for preciso. Eles não vão ter meu afilhado na rua, não mesmo!

  • Onde foi que erramos?

    Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.

    O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo. 

    Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.

    A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.

    Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.

    Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.

    Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.

    Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.

    Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.

    Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.

    Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.

    Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!

    Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond,  Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.

    Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.

    Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.

    Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.

  • Ah! Se eu pudesse

    Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe?

    Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza.

    O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a cabo desci o cursor até “música”. A maior parte do acervo não me interessava mas achei uma aba – acho que o termo serve também – com sucessos do Menescal. Legal da parte da operadora destacar um cara bacana como ele.

    Entrei, cliquei, deixei o som rolar e me virei para tocar uns trabalhos ligados ao doutorado, que não vou contar quais são porque é provável que minha orientadora leia esse texto. Dito isso, lá estava eu lendo e escrevendo, com musica de qualidade ao fundo.

    De repente, não mais que de repente, entra pelos meus ouvidos a agradável canção “Diz que fui por aí”. Estava preparado para escutar Nara Leão quando a voz que veio não era a dela. Fiquei parado um instante tentando reconhecer quem cantava mas sem sucesso. Dei uma espiada e li “Luisa Sonza”.

    Não acreditei. Mas essa moça canta, canta, canta o que mesmo? Bom, canta algumas coisas que eu nunca escutei. Mas hoje, e agora, ela cantava bossa nova.

    E canta bem. Faz aquela vozinha meio rouca, meio baixa, que combina com as letras. Aquela voz de travesseiro, que é novidade para uns mas para outros, como eu, faz abrir sorrisos. Parei o que estava fazendo – por bem pouco tempo, juro!!! – para ver qual seria a canção seguinte. E veio “Ah! Se eu pudesse”.

    Que delícia. Música que agrada aos ouvidos não é só pela qualidade estética dela, que sou incapaz de avaliar porque me faltam conhecimentos. Mas, para mim, pela capacidade de acionar alguma lembrança.

    Lembranças suaves, lembranças boas. Com pessoas do passado, que fiz sorrir e que me fizeram sonhar.

    Dois minutos e trinta e seis segundos de puro enlevo. Ai, acabou. Eu desliguei o som, voltei ao estudo e fiquei com os ecos da voz dela nos meus ouvidos me sugerindo ver o mar “dizendo aquilo tudo quase sem falar”.

    Suspiro e recomendo.

  • CONFITEOR

    Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado.

    Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto do meio em que vive? Se eu vivesse no meio de assassinos, ladrões, drogados, teria que ser necessariamente um drogado, ladrão, assassino? É só a questão de estar ali, na hora certa. Ou na hora errada. Pode ser que o grande culpado seja o tempo.

    Existe predestinação? Se Deus é eterno, se para Deus o tempo não existe, não é preciso predestinação. Deus apenas sabe, tudo acontece no presente para Deus.

    Hoje estão descobrindo que o tempo não existe, que é invenção dos homens, convenção. Grande novidade. E a ordem do universo não é mais do que o caos. Nós nunca nos lembramos do caos que vivemos, que sensações, que ideias, que catástrofes, que emaranhado mental viveu a nossa pobre cabeça em determinado período. Tentamos entender o homem, o homem tenta entender a si mesmo. Não há nada a ser entendido. O caos não se entende. O caos do universo ou o caos da cabeça de um homem. Dizer-lhe que tudo que acontece é a vontade de Deus e que tem que corresponder a essa vontade? Na mente de Deus fui predestinado para ser santo: tenho que ser dono do meu destino e fazer-me santo na marra? Que predestinação é essa que depende de mim? Se Deus quer, faça-se. Que Deus é esse que não sabe querer? Mas como Deus pode querer se o tempo não existe? Então queriam que eu fosse mais do que Deus? Cuidado, o anjo virou diabo por causa disso. Mas queriam que eu fosse mais do que Deus, que fizesse com que a vontade de Deus se cumprisse. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Parece que o querer de Deus ou o sonhar do homem dependem muito é da obra. A obra é que nasce, acontece. Tudo é fenômeno.

    Com mais de cinquenta anos de idade, nada sei da minha vida. As coisas aconteceram. O homem na vida inteira não tem capacidade de tomar decisões. Toma-as, se as toma, com um pé no acaso, outro na circunstância. Não adianta saber que o acaso é um deus muito pequeno. O inferno dos outros faz a nossa circunstância? A maior decisão é se vale a pena ou não viver. Que todo mundo vive adiando, por medo, por imbecilidade. Não transmitir a nenhuma criatura a miséria da nossa existência. Se é miséria, por que existirmos? Cioran cansou-se de elogiar o suicídio, única ação nobre a fazer na vida, com a vida, e viveu mais de oitenta anos. Incongruência? Somos todos incongruentes. Viver não faz sentido. Nenhuma decisão na vida faz sentido. Muito menos sobre o próprio viver. Ainda mais que não somos donos de nossas decisões. Decidem por nós. Quem? Deus, o diabo? “O diabo na rua, no meio do redemunho.” Gosto dessa frase. É fácil pôr a culpa de tudo no diabo. Ou em Deus. Estou defendendo uma fenomenologia das decisões. Tudo acontece. Ou deixa de acontecer, o que já é um acontecimento.

    Escrevo a próxima frase ou não escrevo? O que escrevo? Preciso escrever? Cheguei à verdade a que quero chegar? À minha verdade? Mas se é minha, não é verdade. Não importa. Quero a minha verdade. Todo mundo quer a própria verdade. Sou um Bentinho casmurrento raspando o fundo do tacho da amargura? O que quero descobrir? Capitu me traiu, e daí? A vida é danada de gostosa, mas é Capitu: vive a nos trair. Mas, e daí? Que prazer é esse de ficar cozinhando a própria amargura? Masoquismo, deixa Capitu para lá. Tudo é fenômeno, por que sofrer?

    Ser ou não ser, eis a questão. O que eu ganharia com isso? Mas tem que se ganhar alguma coisa, sempre? Só se faz alguma coisa por interesse? Bom. Eu tenho que ter algum objetivo para realizar alguma tarefa. Algum porquê. Só posso me libertar desse fardo carregando-o até o alto da montanha. Sísifo não foi mais infeliz, carregou seu fardo. O abutre roeu o fígado de Prometeu? Ele carregou seu fardo. Quando depositá-lo no chão, quando todas as costuras estiverem cosidas, bem ou mal, estarei livre dele. Não precisarei mais ficar cozinhando as minhas amarguras. O abutre poderá deixar meu fígado em paz. Mas Sísifo teve paz? Prometeu teve paz? Sísifo não morre nunca. Prometeu não morre nunca. A miséria não tem fim. Quem disse isso? É preciso imaginar Sísifo feliz – disse Camus. Não sei como. Chegou um tempo em que não adianta morrer – disse o poeta Drummond.

    O acaso de uma vida. Tudo que vivemos passa a fazer parte de nós. Não somos feitos apenas de circunstâncias. Há um eu carregado de passado, que é um gerador de tensões. Ninguém existe como um indivíduo. Eu é um mundo. Ego, id, superego? Um mundo. O que fizeram de mim. O que eu fiz de mim. Sem chorar o leite derramado. Tenho que cumprir. Sei que posso viver porque sei que posso me despedir da vida a qualquer hora. Não esperem que eu não seja incongruente. Quem está para morrer tem o direito de se contradizer. Imagine Sísifo feliz: sou eu. Imagine Prometeu feliz: sou eu. O abutre e o meu fígado.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

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