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dez- 2025 -29 dezembro
Poema #50: Andarilho Descalço
estou sem almoçoe sem jantae com duas costelasquebradas meu caminhar é pelesobre o bronzedo asfalto, atritosuave de quem sonha estou sofrendocom as calças e tudoe isso é nada paraquem vive na rua. Um Andarilho Dentro de Casa
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29 dezembro
Poema #10: O voo do morcego
Solto em São Paulo, aonde iria?Rompia a noite, não decidia.Abria as asas: para onde ia? Se fosse Batman, já saberiaqual o combate de cada esquina.Mas nem pra Coringa prestaria. Vampiro? Não, desmaiariaà vista de sangue.Dos predadores recusavaaté a fantasia. Ao
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29 dezembro
A fome do rico
O garotinho olhava do lado de fora do restaurante os pratos fartos serem ignorados pelos frequentadores, que falavam ao celular e aparentemente não tinham fome de verdade. Então enfiava o dedo no nariz e fazia qualquer ruído para ser notado. Em estatísticas de
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28 dezembro
Ema, ema, ema cada um com seus problemas
Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho. Emília desvia o olhar. Final de um dia estr
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27 dezembro
Contabilidade emocional
Todo fim de ano aproveito para fazer minha contabilidade anual. O balancete tem como objetivo listar os saldos das minhas contas emocionais (ativo, passivo, receita, despesa). Esse fechamento contábil possibilita uma leitura mais detalhada dos investimentos af
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27 dezembro
Sandálias divisionistas
As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente s
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26 dezembro
O menininho e a menininha
O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse: – Você é parecido comigo. – Você não é preta – ele disse. – Você é clarinho, é quase branco – ela disse. – A sua roupa
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25 dezembro
Seu próprio molde!
A lagosta se esconde embaixo das pedras quando sua concha está apertada. Essa condição a provoca providenciar uma nova proteção, porque seu corpo cresceu. Nossas vidas apresentam situações de muito estresse e desconforto, e rapidamente buscamos um remédio ou c
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25 dezembro
Um conto de Natal
Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã par
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24 dezembro
Eternidade
Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em at
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23 dezembro
Feliz Natal
Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namora
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22 dezembro
Poema #49: Identificação
Identifico-me com a noitee com o que ela trazde específico a si mesma,e assim fazendo, aceitoo convívio de seres opacose da nova ordem e estado de coisasque o escuro inaugura.Identifico-me com o avessosou aliás o próprio avesso de mim,e assim sendo, conheçoas
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22 dezembro
Errância
Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas. Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coi
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21 dezembro
Onde mora o seu olhar
Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver. Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à difere
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21 dezembro
A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia
E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá… O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calend
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21 dezembro
Entre
A arte salva momentos.A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postage
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20 dezembro
Reflexões em tempos de espanto
Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote? Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não a
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19 dezembro
Maria Quitéria
Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte. “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.” Olha para a esquerda, vesgo na eternidade. “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.” A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O sa
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19 dezembro
Morrer de amor
Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou cha
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18 dezembro
Pelos olhos de um cavalo
Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom qu
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18 dezembro
Nossa frágil condição humana!
Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a hist
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17 dezembro
Peregrinação
Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro.
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16 dezembro
Está tão difícil ser eu
Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te
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15 dezembro
Sacripantas
Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo. Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço. Zími, com um
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14 dezembro
Nota de abertura
(nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto —
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14 dezembro
Só a bailarina que não tem
Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados ven
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14 dezembro
Uma crônica quase poesia
Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo. Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída. U
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13 dezembro
Por que as pessoas gritam?
Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado. “A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo A opressão, a intimidação e o
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13 dezembro
A ordem é amar?
O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar
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12 dezembro
A Manquinha
Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo. Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste. Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó. Que pena a Manq
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