Crônicas

Conversas picadas por aí

Passo por uma mulher que fala ao telefone sobre alguém que lhe foi desagradável mas não escuto o motivo da reclamação. A voz dela fica na minha cabeça e imagino o que teria acontecido. E mais, se de fato ela tem razão em se sentir assim ou apenas recebeu de volta o que deu à outra.

Não dá tempo de seguir adiante na elucubração porque a voz de um rapaz invade meus pensamentos e na hora sou levado a prestar atenção no seu drama universitário que ele expõe a uma moça. O barulho em volta não me deixa distinguir qual curso ele faz mas sem dúvida o assunto é recorrente: o eterno conflito entre alunos e professores. A moça escuta séria e balança a cabeça positivamente.

Atravesso uma gargalhada de três moças que vem na direção contrária a minha. Me esquivo como peixe no cardume de pessoas ao telefone. Meus ouvidos captam fragmentos de uma reclamação, uma advertência e um pedacinho de declaração de amor. Silêncio por um instante quebrado por alguém, mais um ao telefone, que fala de trabalho, algum trabalho urgente.

Avanço, dobro uma rua e paro para atravessar. Ao meu lado dois policiais, uma mulher e um homem. Ela escuta atenta o colega de farda passar uma receita. Ele afirma a ela que “não tem erro, toda criança nessa idade come”. Atravesso a rua sorrindo.

Mais adiante, dois homens param ao meu lado e conversam entre si sobre algum serviço que precisam entregar mas, nas palavras de um deles, “vai dar ruim porque o Valdo está atrasado”.

Penso comigo que é melhor o Valdo se apressar porque a dupla ali conversando não tem cara amigável.

Sigo. Chego em casa, silêncio. Esquento a água para o chá. Imagino o desfecho desses fragmentos de conversas. E me arrependo de não ter pego a receita que toda criança nessa idade come. Qual idade seria?

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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