Crônicas Cariocas

  • Almoço mineiro

    Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta, basta olhar para ela.

    Decido ir andando até a Rua dos Caetés para almoçar. Almoço é coisa séria. E meu prato favorito é: arroz, feijão andu, língua de boi, couve refogada, farofa e ovo.

    Levo comigo o livro Amores difíceis, de Italo Calvino, além de uma carta que escrevi para um amigo meu, que está no Rio de Janeiro.

    Escolho uma mesa, noto que agora colocaram mesas e que a gente só come no balcão se quiser.

    — O seu é o que, amigo?

    — Com língua de boi, por favor.

    Perguntam se quero beber alguma coisa, mas só peço chope depois de comer.

    Enquanto o prato não chega, olho para as mesas: uma mulher come sozinha, debruçada no balcão. O garçom sorri como se fosse da família da gente; aliás, qualquer um ali — seja quem for, que se apaixona pelo mesmo prato — é como se fosse da família da gente.

    Penso que cada um tem seu prato favorito. O meu é minha alma exterior, como dizia um personagem antigo de Machado de Assis. Penso nos personagens de Italo Calvino, cujo livro está bem diante de mim, sobre a mesa.

    Eles se divertem com paixões impossíveis, desejando quem nunca terão. Eu não. Meu amor é mais possível, por aquele prato, que comi rezando, pelo chope que o garçom já trouxe.

    Depois do almoço, vou caminhando para fazer a digestão. Sinto vontade de escrever um conto, mas ando mais um pouco e espero passar. Vou ao banco e deposito algum dinheiro.

    No guardanapo que trouxe comigo, anoto: “O amor é uma coincidência. Às vezes coincide com o amor do outro, às vezes não; mas, com um prato de comida como aquele, até a dor de amor dói bem menos.”

    Gosto de caminhar. A cidade é cheia de árvores e gente simples andando na rua. Andu, para quem não sabe, é meu restaurante favorito — vou lá batendo perna sozinho, lendo um livro ou matutando um texto. Nem pensar em convidar um amigo. Vai que ele inventa de comer em outro lugar?

    Mas eu já te falei do meu prato preferido — e, se você comer, vai ser o seu também.

  • Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu

    Quero banhar-me nas águas sujas
    Quero banhar-me nas águas sórdidas
    Sou a mais solitária das criaturas
    Me sinto só.

    Confiei às mulheres os meus amores
    Caí de quatro pelas sarjetas
    Cobri minha alma de decepções
    Valei-me Manuel Bandeira.

    Vozes da morte contai a história
    Da pessoa boa que sempre fui
    E eu dormia ouvindo o ruído calmo
    Do bambuzal

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Defasagem

    Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala.

    Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar.

    Pecou miseravelmente e estava envergonhado.

    As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião.

    Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte.

    Antes de dividirem o apartamento, Zími nunca tinha tido à disposição tantos canais de documentários para assistir sozinho, numa tela grande.

    Isso deixava sua parceira musical intrigada, pois antes eram apenas os livros que o deixavam ausente por horas, como se ela estivesse sozinha em casa e ele fosse uma planta em outro cômodo.

    Ela gostava disso, mas era uma condição inédita em sua vida.

    Cox vivia antes numa casa de classe média na Penha, com a mãe e a avó, que consideravam o novo apartamento um muquifo. 

    Mas para ela era ideal. E para Zími era como um hotel de luxo.

    Ela não reclamou das pilhas.

    Na verdade, Mila Cox estava aflita naquele momento por conta de um e-mail que recebeu de um cara que assistiu a um show dos Crop Circles numa festa de aniversário em Santana do Parnaíba, no fim de semana anterior.

    Ela estava ali bebendo café numa caneca de chope e usava uma camiseta rosa, furada, do Black Flag.

    No dia desse show, aconteceu a estreia do amigo Silvano tocando ao vivo, que ensaiou seu repertório em menos de uma semana, em seu apartamento, vizinho de andar de Zími e Cox, isolado acusticamente com caixas de ovos nas paredes.

    No tal e-mail, o sujeito fez elogios à apresentação de Silvano e dos Crop CIrcles, acrescentando que nunca tinha ouvido falar deles, e que instantaneamente os viu como uma ‘pérola da obscuridade’. 

    Disse também nunca ter visto de perto, ao vivo, algo tão ‘cool’.

    Mila Cox sabia que Zími estaria satisfeito se passasse o resto da vida no underground, com trabalhos paralelos à música, para pagar as contas. 

    Ele prezava ir ao mercado e sair de bicicleta sem ser abordado a todo momento.

    Sabia também que continuar no underground era, na concepção dele, continuar sendo ‘cool’.

    Ele sabia que ela queria as duas coisas. 

    Ter algumas vantagens do mainstream, mas sob uma aura underground.

    Zími dizia que uma vida brasileira normal, com preocupações financeiras, políticos escrotos, fanáticos religiosos e a repulsa que a maior parte da população tem pelo rock, e especialmente pelo rock alternativo, dão legitimidade ao trabalho.

    Em tempos de internet, uma eventual repercussão no exterior se torna mais possível agora do que quando ele tinha a idade dela.

    Zími tinha quarenta e seis anos, e Mila Cox, dezenove. Além disso, ele gostava de se expressar através da música, sem pitacos de gente que não é do ramo. 

    Queria poder até mesmo errar de forma livre, e depois fazer de novo da maneira correta.

    Pediu que ela, no contexto do e-mail, pensasse apenas nas palavras ‘pérola’ e ‘cool’, ignorando a palavra ‘obscuridade’, caso se incomodasse com ela.

    A Zimi, isso não incomodava.

    Damo Suzuki era obscuro ao grande público e era uma das principais referências artísticas para ele, que também nunca escondeu seu desprezo por tudo que é mainstream no Brasil.

    Segundo Zími, toda sua contribuição para a banda, formada apenas por ele na bateria e vocal, e Mila Cox no baixo, vocal e sintetizadores, sem um guitarrista, é tirada do que ele via no dia a dia, admirando ou repudiando o que estava lá, e muitas vezes se favorecendo de seu anonimato.

    Cox sabia, no entanto, que ele adoraria se ganhasse dinheiro suficiente para que não tivesse que fazer mais nada que não quisesse.

    Com o dinheiro, ele poderia perder o interesse pela música, pagaria as contas no débito automático e ficaria em casa fumando maconha e vendo documentários enquanto estivesse acordado.

    E ele estaria tão pleno, etéreo e abstrato, que ela jamais ousaria incomodá-lo, sabendo principalmente que ele diria, de imediato, que estava com os boletos pagos. E a sua tendência de se tornar recluso e misterioso se acentuaria.

    Sem contar que não era segredo que Zími preparava um livro havia um bom tempo, e dizia que ainda não havia ficado pronto por causa dos compromissos musicais, sendo essa a vertente cultural a que daria prioridade.

    Mas dizia que o livro ficaria pronto a tempo do lançamento futuro de um box da banda, com todo o material gravado, para atender aos desejos megalomaníacos de Mila Cox.

    Ele desconversava quando o assunto era ter mais dinheiro do que ele jamais teve, porque não contava com essa sorte, e não queria gastar seu tempo de sonhar com algo que considerava ilusório.

    Enquanto não escondia sua vontade de se tornar relevante para um público maior, principalmente fora do país, Mila Cox alegava que não podia entrar nos sonhos dele para saber se ele dizia a verdade., em relação ao que ela chamava de conformismo.

    A isso, Zími chamava de aproveitar a recompensa pelos esforços do passado, e não contava com essa recompensa enquanto não considerar ter feito tudo que podia.

    Ele disse que a arte tem que ser produzida de forma independente porque ela jamais vai se sobrepor aos valores do mercado, que poderia estar vendendo o que fosse, desde que gerasse lucros.

    Então, sempre que as conversas entre eles sobre esse assunto chegavam a essa parte das diferenças que tinham entre si, Zími dizia que para ele nunca houve zona de conforto em nenhum setor da vida, em nenhum período, e a arte, antes de uma fonte de renda, deveria ter um propósito em si mesma, antes que pudesse ser vendida como o produto arte.

    Insistia também sobre o fato do amanhã ser um bônus. Tudo o que tinham de fato, era tempo, sem saber quanto.

    Ele lembrou que enquanto Silvano fazia seu primeiro show no último fim de semana abrindo para os Crop Circles, eles já estavam no show de número duzentos e trinta e nove, além de trinta e quatro singles e duas coletâneas.

    Silvano nem mesmo havia terminado seu disco no dia de sua estréia.

    Tinha gravado um esboço tosco com as dez músicas que entrariam no disco, e se apresentou tocando guitarra sentado, também tocando bumbo e caixa acionados por pedais. Zími usava o mesmo kit,acrescentando apenas um chimbal.

    A guitarra era uma imitação de Rickenbacker, comprada na semana anterior, e seu amplificador era um cubo preto sem marca aparente.

    Deixou para lançar o disco no show seguinte, que ainda não havia sido marcado, e seria gravado com a produção de Zími.

    Silvano queria ver a reação do público e também a sua própria diante dele, perder a virgindade de tocar ao vivo e só então disponibilizar o álbum na internet.

    No caminho de ida, ouviram duas vezes seguidas o álbum ‘Enemy of the enemy’, do Asian Dub Fundation, colocado por Silvano, que dirigiu em um silêncio nunca visto antes em dias de show.

    Zími e Mila Cox não sabiam se ele estava muito nervoso ou se estava apenas concentrado para seu show. Era um sítio grande, e havia ali, entre muitos carros, uma Veraneio 73 de colecionador, que fez com que Silvano parasse para olhar por vários minutos, sem soltar o case de sua guitarra, nem o amplificador, que levava com a outra mão.

    Mila Cox tirou a foto e postou no dia seguinte nas redes sociais da banda.

    A garota que fazia aniversário em Santana do Parnaíba era filha do dono do sítio, e havia ouvido falar deles por conta da repercussão de um show em Tanabi, semanas antes. Alguém que esteve presente os recomendou para que tocassem na festa.

    A providencial aparição do uruguaio Silvano em suas vidas fez com que eles mudassem de patamar em termos de estrutura, e mais do que nunca seria preciso, de acordo com Zími falando para Mila Cox, ter paciência para que a popularidade deles também alcançasse um nível superior, como ela desejava.

    Agora que viajavam na Kombi de Silvano, Zími deixou de se queixar das noites seguintes aos shows, com eles dormindo no Chevette Jeans 79 de Cox. 

    Dormir na Kombi era bem mais fácil e o veículo era muito mais apropriado para aquele tipo de rolê.

    A estreia ao vivo de Silvano correu bem, durou trinta e cinco minutos e gerou curiosidade das cerca de trezentas pessoas presentes e conseguiu arrancar aplausos. Antes do show estava tenso, mas se controlou na bebida, deixando para beber depois da apresentação.

    Era uma monobanda, algo ainda mais minimalista que o duo que tocaria em seguida. 

    O som era uma mistura convincente de blues e punk rock.

    Ninguém ali diria que era o primeiro show daquele sujeito.

    De maneira nenhuma Silvano era alguém que projetava sua autoestima na própria aparência, mas ele tinha um tênis Pony de cano alto, uma calça preta de moletom e um colete jeans, que foram o suficiente para que as pessoas saíssem da frente quando ele passava.

    Parecia um Pappo Napolitano brasiguaio.

    Ele assistiu ao show dos Crop Circles na lateral do palco, sem camisa e enrolado numa toalha, com uma caneca em que bebia alguma das cachaças artesanais que, como sempre, haviam sido compradas com antecedência num alambique local.

    Bastava que Mila Cox anunciasse um show fora da cidade de São Paulo, para que ele pesquisasse onde compraria as bebidas, e logo entrasse em contato com o fornecedor.

    Ela havia colocado o Chevette à venda, para comprar um amplificador Orange para seu baixo.

    Zími mencionou também esse fato para lembrar a ela que estavam evoluindo, e o tempo que os separava de uma eventual fama maior, deveria ser aproveitado para tentarem entender o que seria ter problemas que não fossem financeiros.

    Mila Cox respondeu dizendo que problemas financeiros infelizmente são, no mundo tosco em que viviam, a causa de muitas outras aflições.

    Zími concordou e pediu a ela novamente que tivesse paciência, salientando que se ela conseguir logo viver apenas de música, isso pode se tornar tão ou mais exaustivo do que ter trabalhos paralelos para sustentar a banda.

    Os trabalhos que eles pegavam como copywriters podiam ser chatos às vezes, mas eram previsíveis, toleráveis e pagavam o suficiente para que eles existissem como pessoas e artistas.

    Ao bater na porta de Zími, Mila Cox interrompeu um pensamento sobre como a maturidade não vem com a idade, e agradecia pelo fato de Mila Cox compensar essa sua defasagem.

    A isso, eles chamavam mutualismo não simbiótico.

  • Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados

    É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora.

    Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira e sabonete líquido: jogo uma água de qualquer jeito no rosto, a toalha felpuda brinca de me fazer cócegas e eu sorrio.

    Café. Preciso de café.

    Pego água no purificador, encho a chaleira elétrica, ligo o botão, pote de pó de café, xícara vermelha. Não ouso olhar pelo vidro do armário e pegar a prensa francesa. Muita lembrança, a dor ainda arde no meio do peito, carne viva, vida ainda, enfim. A campainha toca. A chaleira estala. Tiro o interfone do gancho.

    — oi, então… voltei. Posso subir?

    (..!)

    Ela vinha devagar, como quem teme assustar as paredes. Um pouco desengonçada, com os olhos verdes, quase cinzas. Um rumor de vento antes que os nós de seus dedos bateressem na face externa da porta antecede a minha falta de juízo: ela está ali, com a mesma roupa de sempre, o mesmo olhar **suplicante por abrigo. Eu estou ali, acreditando uma outra vez que, talvez, dessa vez, a palavra “voltei” dure. Nada nela pede licença: entrou, simples como um sopro.

    Eu, sem antever a previsão repetida, me torno o personagem em slowmotion de novo – que inquietante a potência dos outros em fabricar nossas próprias características! Cena de filme clichê, coisa etérea, poeira suspensa. Uma nuvem entre o céu vazio que ela tanto se esbalda.

    No começo, como em todos os começos antes, achei que o amor era isso: ficar leve. O café não esfria, ela me serve antes que isso aconteça. Encosta a cerâmica fria em meus lábios, me faz respirar diferente. É a minha cozinha. Não é a mesma cozinha. Ela joga os cabelos para um lado só com as pontas dos dedos — gesto comum, mas que suspende o ar da cozinha. O tempo pára, ou finge parar. Eu, que sinto e confundo sonho e acontecimento, observo: ela é mais ideia do que corpo. Parece feita do mesmo material das manhãs que não voltam. Há nela um quê de desenho inacabado: o contorno treme, a pele é quase vento, o olhar pesa mais do que o rosto. E, mesmo assim, sorri — um sorriso de quem se desculpa por existir e por não conseguir deixar de existir.

    Sinto que a inventei e ela, por delicadeza, continua encenando que é real.

    Difícil entender que leveza demais é outra forma de se partir: um vaso de plantas que se quebrou e colei sozinho, mas não segura a água das plantas; um eco de lembrança que se recusa a morrer; vento, sua forma mais triste de permanência. Irônico e cômico.

    E eu, bobo, inteiro, continuo acreditando. Ela é boa em cuidar — não de mim, mas da imagem que deixei dela. Cautelosa demais, como se desarmasse sempre uma bomba, para ser humana.

    Um fantasma educado, incapaz de errar, dessas pessoas que não sangram por medo de manchar o chão. Não é antifragil. Não admite consertos. Teme o caminho de desconstrução; é desconfortável o transitório. É tóxico se deixar transformar.

    É desconcertante a sutil e total diferença entre sentimento e condição.

    Jamais suportara ver o que fica depois do “cuidar”, o real: a bagunça dos gestos, o fedor da presença, o convívio que tira o amor do ideal. Queria o brilho, não o suor. Não entendera a distinção poética e viva entre abrir mão e dar as mãos; vivia no mundo idealizado da precisão, das decisões calculadas — não no das concessões e imperfeições humanas. Planejava demais, deixava pouco espaço para o acaso, para o erro, para o viver de verdade.

    É mais máquina que mulher, mais tese que pele. E quando falha, usa o discurso pronto, como quem cita, não como quem sente:

    — Errar é humano, está tudo bem.

    Mas não está. Não quando quem erra é ela. Não suporta o reflexo da própria admiração; nem a vontade, secreta e infantil, de ser o outro. Eu sou esse espelho, e sei que ela tentou. Tentou ter os meus sonhos, camuflar-se no meu mundo. Não me abriu porta nenhuma para o seu. Mudar não é uma opção. Assumir a mim e a si, tampouco.

    Estar presente não é para ela. Ela brinca de amarelinha numa superfície de casas

    passadas e futuras. Pisa leve, pulando. Torce as pernas com graciosidade. Sorri em ambos os tempos – recentemente aprendeu a sorrir com os dentes endireitados por aparelhos ortodontários e pela minha presença em sua vida. Se viu perdida de identidade. Surtou.

    — Quem sou, se não estou pronta?

    É bonita, a danada da imagem distorcida! Mas ela não quer estar aqui, na minha cozinha, o saguão inexorável de um aeroporto internacional. Quer estar no movimento que a faz ser alguma coisa.

    Vai indo embora da mesma forma sorrateira e desonesta que entrou, à francesa tal qual a origem da cafeteira que me encara, relembrando-me que, sim, tudo o que tivemos foi real, eco do que poderia ter sido numa frequência de momento eterno. Ela prometeu. Prometeu me olhando nos olhos. Olhos verdes. Olhos-cinza. Tudo virou pó, eu suspirei, comunguei sozinho junto à fênix derradeira.

    — imbecil de mim, que chamei o eco de sentimento.

    Não sei se era falta de amor, não acredito verdadeiramente… Acho que tal proteção desmedida nunca teve motivo. Era medo, e só isso. Do sucesso. Do mundo a julgar. De se permitir viver a vida, gozar dela; o embate entre o enxergar meu excesso de alma e sua rasa profusão de quem nasceu para pilotar aviões com copilotos artificiais e sem passageiros. Sabe de cor o que estuda, os manuais de aeronaves. Teorias que precisam funcionar, é preto no branco.

    Deixou escapar, num momento de retorno, que eu a fazia ver o mundo com cores. Que ali, no aconchego das 4 pernas debaixo de um cobertor no meu sofá, comendo pipoca, era plenitude. E que o conjunto era poderoso.

    Tais coisas se confundem quando o tempo esgarça. E com ela, sempre, involuntariamente, se esgarça. Eu lhe dou de presente o que eu existo no agora. Ela só tem fusos horários que não me encontram.

    Só sei que ela ama e odeia com a pressa de quem tem de pegar o próximo voo. Viagens sem reembolsos. Voos sem pouso e sem escalas. Combustível infinito, vida perdida. Viagem… a viagem na paranóia humana.

    E eu, que sou pedra, não peso, mas gemo a me lapidar pelo processo da vida. Gemo em gema e brilho. Pareço os raios que me acordam com a furiosa simpatia de um nascer de dia: eu sonhei ser terra fértil.

    Preparei a minha casa para um corpo vento. Projetei os fluxos livres. Convidei as brisas, todas. Me enfeitei com o perfume mais marcante, para que ela o carregasse consigo. Um vento que ela escolhia ser, pois a humanidade, nela, a enfraquece. Ela prefere relacionar-se com máquinas. Prefere o irreversível irreal. Sua condição de menina ferida, adolescente que finge acreditar tão somente em seu poder interior.

    E o que é o amor, senão o desapego da matéria para se manter leve? Leve é ser vento ou se estar seguro em uma estrutura que resista e acolha a ele próprio?

    (nada se movimenta, só o visor digital do relógio de cabeceira).

    Guardo dela o som dos passos que sempre se vão, não o rosto. O tom do verde desbotado e craquelado em cinzas, é tudo o que me resta.

    A chaleira esvaziou. O pó de café firmou-se no filtro de pano. Lacrei a prensa francesa em uma caixa de papelão destinada a doações. A natureza é morta em todos os quadros da casa.

    Guardo a ideia de que talvez o amor não precise durar — basta doer bonito. Doer queimando. Doer para não existir e dar sentido a não ser.

    Durmo.

    Na manhã de hoje, tal domingo em que os despertadores são o silêncio prolongado da madrugada companheira, minha taça de vinho substitui a xícara vermelha. Me olha do topo de seu corpo translúcido e brilhante, fixamente, como quem pergunta:

    — Voltaria a amá-la?

    Ao que respondo “sim”, pois verdade seja entendida: não se deixa de amar por um triz, por uma mera vontade, desilusão ou capricho. É um processo. É a dor de não querer apagar o possível, que jamais será aceito, da parte dela.

    Amá-la é fazer um pacto com o silêncio. É espetar-me e sangrar sozinho. É aguardar o próximo vento, ou uma mísera brisa.

    Desta dolorosa manhã repetida de sábado, resta o domingo árido. Resta a realidade sem. Restamos eu e meus desenganos.

    Graças aos céus amanhã é segunda-feira.

  • Desconfio que nasci pata. Pata pateta?

    Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário.

    Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo diferente em mim. Da taquigrafia à flauta doce, da escrita literária ao pudim de leite sem furinhos — tudo me capturava a atenção, mas nunca a dedicação. No meu pula-pula, abri tanto o leque e o passo da dança que nunca fui virtuose em nada, a bem da verdade.

    E aí vem aquela pergunta que arrepia: qual é a sua especialidade?

    Para esse tipo de angústia, só mesmo consultando os universitários — no caso, uma psicóloga. Ela me perguntou — Já pensou em escolher um animal que a represente?

    Respondi sem hesitar: — Sim, sempre imaginei um pássaro. Um sabiá, talvez… ou um beija-flor, voando em busca de novos rumos.

    E qual não foi a minha surpresa quando ela disse: — Que tal um pato?

    Pato? Só me faltava essa! Lembrei logo do Pato Pateta da música do Toquinho, já sentindo meu bico crescer e amarelar. Antes de soltar um “quá, quá”, resolvi esperar o diagnóstico.

    — Veja — explicou ela —, o pato é a única ave que anda, nada e voa. Faz de tudo um pouco. Não com perfeição, mas com competência. É isso que chamamos de “multipotencialidade”.

    Aos poucos a ficha caiu: o pato pode até parecer desengonçado na terra, mas na água desliza com elegância, e no céu encara o vento com coragem. Não precisa ser o rei de nada para ser bom em muita coisa.

    Respirei fundo. Ufa, redimida! Sou uma multipata.

  • Poema #14: Fluxo

    E vem
    é frio é pouco
    e quente e certo
    incerto

    é leve é tarde
    e breve e louco
    solto

    é muito é medo
    e mesmo e igual
    real

    parte e vem
    vem e parte
    uma parte
    e vai…

  • Trilhas da Minha Vida – parte 2/5

    Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    21) CASABLANCA (Michael Curtiz), 1942

    Impossível não associar o cultuado drama ambientado durante a II Guerra a AS TIME GOES BY, uma das canções mais marcantes do cinema que, tocada ao piano num bar, faz com que o galã Humphrey Bogart se recorde de seu antigo amor, Ingrid Bergman. Curiosamente, o aclamado tema é de 10 anos antes, não tendo sido composto para o filme, cuja trilha sonora pertence a Max Steiner que o utilizou habilmente. O austríaco Steiner é um dos maiores compositores de Hollywood, assinando mais de 300 trilhas com 24 indicações ao Oscar, destacando-se outro clássico, E O VENTO LEVOU (1939), além do primeiro (e melhor) King Kong, o de 1933.

    22) DIAMANTES SÃO ETERNOS (Guy Hamilton), 1971

    Não se pode deixar de mencionar as diversas trilhas da franquia 007. Injusto ressaltar uma dentre elas, já que muitas foram marcantes, em especial aquelas compostas por John Barry (também um dos autores do famoso tema de James Bond). Cada novo filme revelou uma canção principal com algum intérprete renomado: Paul McCartney (LIVE AND LET DIE), Carly Simon (NOBODY DOES IT BETTER), Matt Monro (FROM RUSSIA WITH LOVE), Louis Armstrong (WE HAVE ALL THE TIME IN THE WORLD), Tom Jones (THUNDERBALL), Duran Duran (A VIEW TO A KILL), Nancy Sinatra (YOU ONLY LIVE TWICE), Sheena Easton (FOR YOUR EYES ONLY), Adele (SKYFALL) etc. Mas a coroa vai para Shirley Bassey, agraciada com 3 temas (GOLDFINGER, DIAMONDS ARE FOREVER e MOONRAKER).

    23) LUZES DA CIDADE (Charles Chaplin), 1931

    Nesse clássico que combina comédia e drama, Carlitos desempenha um vagabundo que sustenta uma florista cega que, ao voltar a enxergar, não consegue esconder a frustração ao reconhecer seu maltrapilho benfeitor. Não bastasse ser diretor, produtor, roteirista e ator principal, Chaplin ainda compôs a bela trilha sonora. Em se tratando de um filme mudo, a música desempenha papel primordial traduzindo as emoções dos personagens. É utilizada também a espanhola VIOLETERA como tema da florista. Deve-se ressaltar que Chaplin compôs outras duas pérolas: THIS IS MY SONG (sucesso na voz de Petula Clark) para o filme CONDESSA DE HONG KONG, além da célebre SMILE (filme TEMPOS MODERNOS), regravada por Nat King Cole, Michael Jackson, Judy Garland, Barbra Streisand e Lady Gaga, dentre tantos.

    24)  OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (John Badham), 1977

    Na década de 60, os Bee Gees eram tidos como um trio de soft rock que alcançou sucesso com canções singelas como MASSACHUSETTS e I STARTED THE JOKE. Pegando carona na onda ‘disco’, os irmãos Gibb emplacaram uma das mais bem sucedidas trilhas, SATURDAY NIGHT FEVER com canções como STAYIN’ ALIVE, HOW DEEP IS YOUR LOVE, YOU SHOULD BE DANCING e NIGHT FEVER com John Travolta arrepiando na pista. De quebra, outros grupos representativos dos anos 70: Kool & the Gang, KC & Sunshine Band e Tavares.

    25) UM HOMEM, UMA MULHER (Claude Lelouch), 1966

    Esse drama romântico de Lelouch, vencedor da Palma de Ouro de Cannes e do Oscar de filme estrangeiro, que consolidou a importância do diretor francês no contexto internacional, deve seu sucesso em grande parte à maravilhosa trilha de Francis Lai. Aliás, a parceria entre Lelouch e Lai estendeu-se para outros filmes do diretor, como VIVER POR VIVER, UM BOM ANO etc. Outra trilha icônica de Lai, que lhe valeu um Oscar, é a do blockbuster americano LOVE STORY de 1970. O tema instrumental de Lai, THEME FROM LOVE STORY, lançado em single por Henry Mancini, alcançou grande êxito comercial. Quando lhe foi adicionada uma letra, sendo rebatizado como WHERE DO I BEGIN?, voltou repetidamente às paradas nas vozes de Andy Williams, Tony Bennett e Shirley Bassey.

    26) SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder), 1960

    Billy Wilder é um dos mais respeitados diretores do cinema com obras primas inesquecíveis como CREPÚSCULO DOS DEUSES, PACTO DE SANGUE, FARRAPO HUMANO e SABRINA, versão com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn. A que tem a trilha mais conhecida – composta por Adolf Deutsch – é provavelmente THE APARTMENT com Jack Lemmon e Shirley MacLaine, destacando-se a canção JEALOUS LOVER. Deutsch musicou também outra comédia de Wilder, QUANTO MAIS QUENTE MELHOR além de RELÍQUIA MACABRA (de John Huston) e o musical SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS (Stanley Donen).

    27) ORFEU NEGRO (Marcel Camus), 1959

    Apesar de o enredo (baseado na mitologia grega) ter transcorrido no Rio de Janeiro durante o Carnaval, com elenco de atores brasileiros, os méritos ficaram com a França do diretor Camus, nos grandes festivais em que concorreu, por aquele país ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes. A trilha sonora, de autoria de Tom Jobim (em colaboração com Vinícius) e do violonista Luiz Bonfá, que compôs os temas MANHÃ DE CARNAVAL (interpretado por Agostinho dos Santos) e SAMBA DE ORFEU (ambos em parceria com Antônio Maria) marca o início da explosão da bossa nova. MANHÃ DE CARNAVAL consolidou-se como uma das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior com versões de Sinatra, Sarah Vaughan, Nina Simone, Stan Getz, Paul Desmond, Quincy Jones etc.

    28) THE BLUES BROTHERS (John Landis), 1980

    A simpática comédia musical estrelada por John Belushi e Dan Aykroyd, por aqui recebendo o título de OS IRMÃOS CARA-DE-PAU, teve uma das ‘soundtracks’ mais bem sucedidas de todos os tempos. Boa parte das músicas (clássicos de blues, soul e R&B, inclusive uma versão de PETER GUNN de Henry Mancini) foi executada pela própria dupla, algumas ao lado de astros de primeira linha que participaram pessoalmente da trama como Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown e Cab Calloway. Houve uma continuação, BLUES BROTHERS 2000, que, apesar da boa seleção musical, não vingou.

    29) FALE COM ELA (Pedro Almodóvar), 2002

    Preferido de Almodóvar, Alberto Iglesias compôs diversas trilhas para o cineasta espanhol como VOLVER, MÁ EDUCAÇÃO e TUDO SOBRE MINHA MÃE. A mais bela e pungente talvez tenha sido HABLE CON ELLA que abre espaço para temas da MPB com Elis Regina interpretando POR TODA A MINHA VIDA (Tom & Vinícius) e Caetano Veloso com CUCURRUCUCÚ PALOMA que aparece em pessoa cantando  a pérola do folclore mexicano, faixa do álbum FINA ESTAMPA AO VIVO. Iglesias musicou outros filmes como LÚCIA E O SEXO, CHE, O CAÇADOR DE PIPAS e O JARDINEIRO FIEL, este dirigido por Fernando Meirelles.

    30)  MY FAIR LADY (George Cukor), 1964

    Baseada no megassucesso do musical da Broadway, a comédia estrelada por Audrey Hepburn e Rex Harrison arrebatou 8 Oscars incluindo o de trilha sonora com a memorável I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT interpretada pela própria atriz. A trilha foi composta e supervisionada pelo maestro e pianista André Previn, outro colecionador de indicações às estatuetas, tendo faturado mais três: GIGI, PORGY AND BESS e IRMA LA DOUCE, sempre fundindo pop com jazz e música clássica. Cukor foi também o diretor da mais famosa versão de NASCE UMA ESTRELA (1954) com Judy Garland e canções da dupla Arlen/Gershwin.

    31)  EASY RIDER, SEM DESTINO (Dennis Hopper), 1969

    O celebrado ‘road movie’ protagonizado por Peter Fonda (que também o produziu) e Dennis Hopper (que também o dirigiu) marcou o surgimento da geração beat com uma trilha sonora pertinente que traz The Jimi Hendrix Experience e The Byrds (com seu líder Roger McGuinn em duas faixas solo). Mas a canção que marcou realmente foi o hino libertário BORN TO BE WILD (que passou a ser também o hino dos motociclistas) interpretada pelo grupo Steppenwolf que a lançara em seu álbum de estreia um ano antes. À icônica canção é atribuída a origem do termo ‘heavy metal’, contido em um de seus versos.

    32)  CANTANDO NA CHUVA (Stanley Donen), 1952

    A cena começa com Gene Kelly deixando Debbie Reynolds em casa e termina com ele entregando o guarda-chuva a um necessitado, sob o olhar repreensivo de um guarda. Esses 4 antológicos minutos bastaram para credenciar SINGIN’ IN THE RAIN como um dos musicais mais famosos do cinema. O curioso é que quase nenhuma das músicas da dupla Freed/Brown que tocam no musical foi feita para o filme, tendo sido oriundas de outros espetáculos da MGM, inclusive a que dá título à película, composta em 1929, época em que não havia quase filmes falados, inspirando o diretor Donen que popularizou a canção.

    33)  MISSÃO IMPOSSÍVEL (Bruce Geller), 1966

    Não estamos nos referindo à franquia estrelada por Tom Cruise com diversos longas metragens de ação iniciada em 1996, mas ao bem sucedido seriado para a TV em que ela se baseou, criado e produzido por Bruce Geller que foi ao ar entre 1966 e 1973 em 7 temporadas. O famosíssimo tema musical (reaproveitado na versão cinematográfica) marca o ponto alto da carreira de Lalo Schifrin. O maestro, músico e arranjador argentino trabalhou com diretores de renome, como Peter Yates (BULLITT com Steve McQueen) e Don Siegel (DIRTY HARRY com Clint Eastwood), além das trilhas de OPERAÇÃO DRAGÃO (Bruce Lee), A HORA DO RUSH (Jackie Chan) e TERROR EM AMITYVILLE dentre tantas.

    34)  VELUDO AZUL (David Lynch), 1986

    Angelo Badalamenti foi o compositor preferido de David Lynch, compondo 4 trilhas de destaque: TWIN PEAKS, CIDADE DOS SONHOS, ESTRADA PERDIDA e BLUE VELVET. Nessa última, a canção tema, mega-sucesso do cantor Bobby Vinton (interpretada no filme pela atriz Isabella Rossellini) inspirou o título. Roy Orbison também comparece com IN DREAMS, reforçando o clima pop vintage, justaposto por uma partitura orquestral conduzida por Badalamenti, tendo como referência o compositor clássico Shostakovich. A combinação desses elementos tão díspares criou um clima perfeito para o perturbador enredo com características neo-noir.

    35)  O PICOLINO (Mark Sandrich), 1935

    Russo de nascimento, Irving Berlin foi indiscutivelmente um dos mais profícuos compositores da história, com inúmeras canções que se tornaram clássicos do cancioneiro americano. Dentre as trilhas mais famosas, O PICOLINO (TOP HAT) com a inesquecível CHEEK TO CHEEK em que Fred Astaire exibe suas habilidades vocais e de sapateado acompanhado de Ginger Rogers. Outros filmes que contaram com composições de Berlin são BLUE SKIES, EASTER PARADE (DESFILE DE PÁSCOA) e HOLIDAY INN que revelou WHITE CHRISTMAS imortalizada por Bing Crosby, referenciado como o single mais vendido de todos os tempos, com 50 milhões de cópias.

    36) FURYO (Nagisa Oshima), 1983

    A produção nipônica de guerra estrelada por David Bowie ganhou uma bastante pertinente trilha assinada por Ryuichi Sakamoto, combinando composição sinfônica ocidental com sons tradicionais do extremo oriente e um toque de música eletrônica. O conhecido tema instrumental ganhou uma maravilhosa versão vocal de David Sylvian do grupo Japan (que de japonês só tem o nome). Sakamoto viria também a compor para três filmes de Bernardo Bertolucci, O CÉU QUE NOS PROTEGE, O PEQUENO BUDA e O ÚLTIMO IMPERADOR (ganhando o Oscar por esse último).  Compôs também para OLHOS DE SERPENTE (Brian de Palma) e DE SALTO ALTO (Almodóvar). O diretor Oshima é o mesmo do arrojado IMPÉRIO DOS SENTIDOS, filme que desafiou os padrões de censura com suas cenas de sexo explícito.

    37) ADEUS ÀS ILUSÕES (Vincente Minnelli), 1965

    Nesse filme rodado na costa da Califórnia, o casal Richard Burton & Elizabeth Taylor protagonizou um tórrido romance proibido que desafiou as convenções moralistas da época. Apesar das críticas mornas e do desempenho comercial sofrível, o filme teve o mérito de revelar THE SHADOW OF YOUR SMILE (também conhecida como LOVE THEME FROM SANDPIPER), composição de Johnny Mandel, que, não apenas ganhou o Oscar de melhor canção, como foi, devido à sua melodia refinada, uma das preferidas por intérpretes ligados ao jazz, com incontáveis gravações: Tony Bennett, Andy Williams, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Astrud Gilberto, Stevie Wonder, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, George Benson, Gerry Mulligan, Bill Evans etc.

    38)  HAIR (Milos Forman), 1979

    O diretor e roteirista tcheco Milos Forman é um dos mais respeitados do cinema, com diversos filmes premiados como UM ESTRANHO NO NINHO, AMADEUS, HAIR e O POVO CONTRA LARRY FLYNT, dos quais, HAIR, recheado de hinos hippies é o que dispõe da trilha sonora mais conhecida. A ópera-rock antibelicista, baseada no musical homônimo da Broadway de 1968, captou o clima da contracultura e da rejeição à guerra do Vietnã. O álbum vendeu milhões de cópias revelando canções como AQUARIUS/LET THE SUNSHINE IN (imortalizada pelo grupo 5th Dimension) e GOOD MORNING STARSHINE (hit do cantor Oliver). Por sua vez, a trilha de AMADEUS com músicas de Mozart regidas por Neville Marriner ajudou a popularizar o músico erudito.

    39) O SENHOR DOS ANÉIS (Peter Jackson), 2001

    A quantidade de trilhas assinadas por Howard Shore impressiona. Musicou quase todos os filmes de Cronenberg (A MOSCA, VIDEODROME, SCANNERS, MARCAS DA VIOLÊNCIA) e diversos de Scorsese (O AVIADOR, OS INFILTRADOS, GANGUES DE NOVA YORK, AFTER HOURS), além de O SILÊNCIO DOS INOCENTES, SEVEN dentre tantas. Mas, indubitavelmente, suas trilhas mais conhecidas são as das trilogias O SENHOR DOS ANÉIS e O HOBBIT dirigidas por Peter Jackson com base na literatura fantástica de J R R Tolkien. A grandiosidade da tarefa de Howard é notável, empenhando uma orquestra com uma quantidade absurda de músicos e instrumentos. Como resultado, faturou 3 Oscars, inclusive melhor canção para INTO THE WEST (parceria com Annie Lennox).

    40)  FAÇA A COISA CERTA (Spike Lee), 1989

    Spike Lee é conhecido por explorar, em filmes engajados, temáticas raciais. DO THE RIGHT THING foi seu maior êxito. O filme trata da escalada de violência gerada pela instalação no bairro predominantemente negro do Brooklin, NY, de uma pizzaria por um italiano branco e seus filhos. A trilha que serve como fundo a esse quadro de conflitos traz diversos ritmos da música black: hip hop (Public Enemy), jazz (Al Jarreau), swing (Teddy Riley), reggae (Steel Pulse), gospel (Take 6) e até salsa (Ruben Blades).

  • A atemporalidade da dor

    Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim. 

    Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante dele estava um homem velho, cabeça branca e lentidão nos gestos.

    Os olhares se encontraram, mas tanto tempo havia passado que os rostos não eram mais familiares um para o outro.

    — Norman, é você? 

    — Sim.

    Sem pestanejar, Carl disparou dois tiros. Norman caiu morto sem ter tido tempo de reconhecer seu agressor ou desconfiar da motivação do crime. 

    Carl se declarou culpado e foi condenado à prisão perpétua. Em sua defesa, o assassino confesso alegou que durante mais de meio século sofreu intensamente com a lembrança daquele trote humilhante (ter sua cueca puxada para cima na frente dos outros colegas). 

    Depois de ler essa história, me peguei pensando na cruel atemporalidade da dor, na gosma tóxica e sufocante que é o ódio, seja ele destinado aos outros ou a nós mesmos. Quantas vezes somos nosso maior crítico, algoz? Quantas vezes Carl odiou Norman por ter lhe feito de otário? Quantas vezes ele se torturou por não ter conseguido evitar que fosse tolo? 

    Não tem jeito, o perdão é mais eficaz, enquanto remédio, para quem perdoa do que para quem é perdoado.

    O perdão, ao qual me refiro aqui, não é necessariamente a retomada do afeto, da amizade, da relação. Muitas vezes, é só o cessar da importância. O silenciar do desarranjo afetivo.

    Um deixar ir para poder seguir em frente, apostando na estrada que se forma quando se começa a caminhar com uma nova passada. 

    Perdoar, para mim, é olhar fixo para o horizonte, deixando as pegadas no seu lugar de destino, o passado, que fica atrás de mim, mas não tem o poder de me perseguir ou aprisionar.

  • Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto.

    Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo.

    Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida.

    É aquele instante que, de repente, nos olhamos surpresos e sorrimos ao mesmo tempo.

    Vamos de histórias:

    Há quem conte os degraus antes de subir uma escada. Há quem só se sinta tranquilo se alinhar os talheres na mesa. Uns somam os números das casas; outros evitam pisar nas linhas do chão.

    São rituais pequenos, manias inofensivas. Dá a impressão de que a pessoa se organiza por dentro, como se o mundo só fizesse sentido a partir de certas repetições.

    Cada pessoa tem sua forma de lidar com o caos. Alguns o enfrentam com listas; outros, com orações.

    Eu, confesso, traduzo o mundo em comparações.

    Vejo bichos nas expressões humanas, metáforas nas situações, poesia nas coincidências.

    Hoje, por exemplo, vivi um dia de algodão-doce.

    Estava na missa. Era dia do meu aniversário.

    Ajoelhada, olhos baixos eu  agradecia a Deus por mais um ano de vida. Ao levantar a cabeça vi um menino que vinha sorrindo em minha direção.

    Pareceu-me vagamente familiar…

    Meu neto?

    Surpresa, olhei para o corredor por onde ele entrou e vi outro neto… e mais outro… depois o pai, a mãe, minhas filhas e seus filhos, nora, genros.

    Levantei do banco da igreja e percebi: estava cercada!

    Filhos, filhas, netos! Todos ali reunidos, como que guiados por um mesmo chamado silencioso.

    Uma onda de amor me envolveu.

    A riqueza da vida interior proporciona experiências lindas até na simplicidade.

    Dia de algodão-doce, com certeza! 

  • Fábula do Afeto e do Amor

    Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor.

    As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu pelos ouvidos de Amor causando calafrios. Isso, as palavras eram frias.

    Amor se arrepiou e custou a acreditar que estava mesmo diante de Afeto e não de Rancor ou Mágoa. Afeto queria conversar mas o convite vinha desprovido de afeto. Era algo quase formal, como se cumprisse uma obrigação desagradável.

    Amor engoliu em seco, sorriu sem graça para disfarçar o incômodo e disse que sim, claro, vamos conversar. Os dois se encontraram e aconteceu o inesperado: da boca de Afeto nenhuma palavra saiu. Amor espiava curioso sem entender o que estava acontecendo. E Afeto ficava ali sem jeito, sorrindo tímido como se esperasse que Amor tomasse a iniciativa.

    O silêncio entre os dois perdurou o tempo de ficar constrangedor além da conta e a ansiedade de Amor transbordar. Se controlando e usando voz suave e tom baixo, com receio de desagradar, Amor perguntou porque Afeto não falava nada. Ao que Afeto retrucou sem graça que a iniciativa de falar sempre fora de Amor e que Afeto sempre respondia ou reagia às palavras de amor do Amor. Você sempre falou tão bem, tem um domínio tão lindo das palavras, sorriu Afeto, utilizando um encantamento corriqueiro entre eles. Um charminho quase dengoso que era o início de conversas sinuosamente agradáveis e íntimas. Mas que dessa vez não surtiu efeito. A química entre os dois fora afetada.

    Amor lembrou a Afeto que quem havia sugerido a conversa tinha sido ele, Afeto, e por isso ele, Amor, entendia que a iniciativa não cabia a si. Sorrindo sem jeito Afeto concordou porém nada disse.

    Enquanto permanecia silenciosamente diante de Afeto, Amor percebeu que estavam sentados curiosamente próximos mas ao mesmo tempo distantes. Em outras eras quando Amor encontrava Afeto sempre se aproximavam mais, chegando ao ápice de se misturarem a tal ponto que ficava difícil saber onde terminava o Afeto e começava o Amor. Difícil e desnecessário, dizia nessas ocasiões Amor, derramando todo seu repertório amoroso para deleite de Afeto.

    Mas agora, tudo mudara. Afeto percebeu que Amor notou a distância que surgira entre eles. De sua parte, seguia em seu mutismo constrangido. Como se não soubesse o que fazer. Afeto e Amor pela primeira vez desde que se conheciam não conseguiram falar nada um para o outro.

    Amor se mexia em seu assento, inquieto. Não tinha costume de ficar longe de Afeto e a cada momento notava alarmado que eles se distanciavam cada vez mais. O olhar de Amor era agonia e ansiedade. O de Afeto, tristeza.

    Para piorar, Amor estava com receio de falar. Sempre foram sinceros e transparentes um com o outro. Mas ali, naquele momento, não mais. Algo se quebrara e Amor não sabia o quê, nem como, nem porquê. Decidiu perguntar a Afeto. Amor escolhia as palavras, selecionava o tom de voz mais tranquilo para se expressar mas nada saía ainda de sua boca. Na hora de dizer algo, calou-se indeciso e triste sob o olhar enigmático de Afeto. O mutismo constrangedor era contagiante.

    Por quanto tempo eles ficaram assim, nesse impasse, ninguém sabe dizer. Se fosse perguntado, Afeto diria que foi um pouco, talvez mais. Amor diria que durou uma eternidade ou um pouco menos.

    Há várias verdades no mundo e uma delas é que ninguém mora na casa da Tristeza para sempre. Ela tem um bom número de hóspedes ocasionais mas nenhum morador fixo. Amor foi um deles. Mudou-se para lá logo após esse encontro silencioso. Se Afeto também tomou essa decisão, Amor não saberia dizer. A morada da Tristeza era enorme e dava para ter muitos hóspedes ao mesmo tempo sem que eles se cruzassem por seus frios e silenciosos corredores. Amor ficou lá até o dia em que abriu a janela do seu quarto e viu o Sol com outros olhos.

    Chegou até a janela do seu quarto para se aquecer e sentiu o vento matinal que parecia convida-lo a fazer algo, tomar uma atitude. Por fim, Amor ouviu as ondas do mar ao longe e disse para si: hora de ir embora.

    Arrumou sua bagagem, pequena em comparação com a que tinha trazido, e botou o pé na estrada. Se sentia um pouco melhor, não por completo, mas o suficiente para caminhar. Saiu devagar pela porta da morada da Tristeza enquanto cantarolava bem baixinho os versos de Travessia, de Milton Nascimento.

    Diante de si surgiram vários caminhos. Alguns ainda com suas pegadas e outros com marcas difíceis de identificar. Amor suspirou profundamente e seguiu em frente por um deles. A brisa que soprava era agradável e por quase todo o trajeto ele sorriu leve. Eventualmente a cada nuvem que encobria um pouco o Sol lembrava do que ocorrera entre ele e Afeto. Primeiro forte, depois mais branda a lembrança foi diminuindo até sobrar um eco triste e carregado de decepção. Nada além. No fim do caminho ele encontrou a praia de areia branca indicando ao Amor que havia chegado ao local de descanso e paz.

    O tempo passou, não se sabe quanto. O Amor seguia leve de frente para o mar. Um dia qualquer, com Sol quente mas não muito, mar calmo e água convidativamente fria, estava o Amor conversando alegremente com Compreensão, Razão e Felicidade. Ao se virar distraído, para sua surpresa viu, a meia distância de onde estava, Afeto. Calou-se estático e sentiu um aperto no coração.

    Afeto sorriu tímido. Compreensão, Razão e Felicidade olhavam perplexas de um para outro. O silêncio e a imobilidade dos dois era angustiante. Ali diante de Afeto, Amor repassou toda a existência em comum deles dois. Toda a lembrança do que haviam passado veio forte novamente. Os bons momentos, que não foram poucos e muito quentes, e o final triste e gélido.

    Então, Amor se virou devagar e tomou outro rumo. Sem acenar ou olhar para trás. Felicidade ficou com lágrimas nos olhos, Compreensão suspirou e Razão nem se mexeu, lançando somente seu olhar neutro. Afeto ficou perplexo com a atitude de Amor. Sentiu um aperto na garganta enquanto ele se distanciava devagar e sozinho.

    Dizem que à noite, cada um em seu bangalô à beira mar, os dois choraram baixinho.

  • CROQUIS

    1

    O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

    2

    Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.

    3

    De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.

    A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.

    4

    O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!

    5

    A linguagem é o nosso confessionário. Falar é confortar-se; liberta e consola. Tudo que se subtrai ao desejo se compensa na linguagem. Por isso as pessoas falam, rezam, escrevem tanto. 

    6

    A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não derrapar no fosso das ilusões.

    7

    A depressão caracteriza-se por uma defecção (abandono) do ser.  Depois que o indivíduo sai da crise, imagina não ser mais o que era. Sente a identidade como um fio tênue, que a custo lhe assegura a autopercepção. Ressente-se de plenitude. Um dos apelos patéticos que o depressivo faz a si mesmo ou a quem tenta ajudá-lo é: quero ser eu de novo.

    8

    A velhice é por natureza amiga da virtude. O homem só renuncia a certos pecados quando já não está em idade de cometê-los. Por outro lado, um dos maiores pecados da velhice é o ressentimento.

    9

    Costuma-se dizer que quem não ama a si é incapaz de amar os outros. Penso que é o contrário; quem não ama os outros é incapaz de amar a si. O amor, que é um sentimento basicamente altruísta, não pode ter como referência o ego de cada um. A percepção da incapacidade de amar o outro é que leva ao desamor por si mesmo.

    10

    Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele.

  • Viver com medo, é ser escravo!

    O precursor da carta dos direitos humanos, foi o Cilindro de Ciro que é uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberto nas ruínas de Babilônia na Mesopotâmia em 1879.

    Ele foi criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.), e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, e lista sua genealogia como um rei de uma linhagem de Reis. Nele foi declarada a liberdade de religião e a abolição da escravatura, apesar de que alguns estudiosos e o Museu Britânico, rejeitem essa interpretação de protagonismo sobre as normas que reconhecem a dignidade humana.

    Porém, seu brilhantismo salta os olhos e mantém informações importantes sobre a liberdade dos homens, já pensada naquela época mais primitiva de nossos povos.

    A ideia de estabelecer “direitos humanos”, tem origem no conceito filosófico de direitos naturais, que seriam atribuídos por Deus porque são as normas que reconhecem e protegem a dignidade de todos. 

    Os direitos humanos regem o modo como os seres individualmente vivem em sociedade e entre si, bem como sua relação com o Estado e as obrigações em relação a eles.

    A “Declaração Universal dos Direitos Humanos” é um dos documentos básicos das Nações Unidas, e nela são enumerados os direitos que todos possuem, de ir e vir livres em sociedade com dignidade, com espírito de fraternidade.

    Esse curto espaço de tempo, nossa vida, que é o intermédio entre o tempo e a eternidade, nos foi concedido para usufruir com fraternidade e pulsão pela paz, por isso, devemos lembrar que ninguém deverá ser mantido em escravidão ou servidão; e que devem ser proibidos em todas as suas formas.

    O escritor e filósofo germânico, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, nos deixou uma frase cunhada em um de seus livros dourados: “viver com medo é ser escravo”, é por isso que o escravo não se rebela, e acaba por não perceber que sua vida já é puro sofrimento. 

    Diante de rebelar-se e morrer, ou submeter-se e sofrer, o escravo encontra uma nova forma de liberdade, desenvolvendo melhor consciência pessoal.

    Valorizando a equidade e não a igualdade, encontramos menos dor e sofrimento, mais realizações e benesses aos que teimam em respirar em nosso planeta azul. 

    Frutos do amor, não poderíamos deixar de nos submeter ao amor sem ressentimentos, mas sim do resultado de mãos estendidas, que poderiam ser as suas.

  • O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.

  • Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.

  • O homem que não gostava de nada

    Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.
    Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe.

    Certo dia, chamei para um cinema.
    — Nossa, cinema é tão chato.
    — Mas é filme do Almodóvar.
    — Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha.

    Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.
    — Eu não. Aquele monte de gente.
    — Uai, mas você não gosta de gente?
    — Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.
    — Descansar do quê?
    — Ah, sei não. Descansar só.

    Aí veio uma banda de rock, num pub legal, um lugar escondido em BH.
    — E aí, topa?
    — Vai, e depois me conta.
    — Mas você adorava rock.
    — Ah, seria bom, mas roqueiro, em geral, grita muito. E fora o flanelinha, não é? Sempre de olho nas moedinhas da gente.

    Sugeri uma ida para a praia.
    — Mar? Não acho a menor graça.
    — Mas com este calor?
    — Ah, muito sol. Mar é perigoso. Outro dia, vi na televisão que três banhistas…

    Última tentativa.
    — E se a gente saísse pra comer?
    — Onde?
    — Naquele restaurante de sempre.
    — Vixe, estou de dieta.
    — Mas lá tem comida vegetariana.
    — Não é a mesma coisa.
    — Por que não?
    — Porque eu só como carne de hambúrguer e alface, e tem que ser do alface aqui perto de casa, que é mais saudável, nutritivo, e o hambúrguer no mesmo sacolão.

    Não gosta de samba, de sol, de chorinho, de mar, ou de lagoa. Desliguei o telefone, olhei para o garçom, e ele disse:
    — Mais um chopinho?
    — Pode trazer.

    O chope estava absurdamente gelado, e era só o que eu precisava.

  • Era uma vez Dona Namoradeira

    Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal.

    Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois o tempo perdido poderia ser o causo não presenciado.

    Geralmente, logo pela manhã era difícil que algo acontecesse. Todo mundo da vila passava em disparada para que não atrasasse no seu dever sagrado diário. Cada pessoa que passava pela janela daquela casa falava “Bom dia Dona Namoradeira” e ela retrucava “Meu nome é Maria, fio(a) de satanás”. A verdade é que todos sabiam que já havia adotado aquele apelido carinhoso, mas ela fazia questão de demonstrar que não gostava nada daquilo.

    Certa vez, um garoto que costumava passar o dia brincando naquela rua e era bem do atrevido decidiu lhe perguntar de onde vinha aquele apelido. Brava, ela respondeu:

    — Foi um sujeitinho saidinho que andava por essas bandas faz muito tempo e era doidinho pra se engraçar pro meu lado. Como eu nunca dei bola, ele tentou criar essa história de namoradeira, vê se pode meu fio?

    Nada que acontecia por naquela vila passava despercebido aos olhos da senhorinha. Por esse motivo, o povo da vila criou o hábito de logo de noitinha, um pouco depois da noite tomar conta da cidade, se reunir na casa de Maria. Nessa hora, ela se dedicava a contar os causos do dia. As histórias eram diversas, como no dia em que o marido da vizinha voltou mais cedo pra casa e encontrou sua mulher na cama com o carteiro. Ela contou, a quem estava naquela sala a seguinte história:

    — Meus fios, hoje aconteceu por aqui a tragédia que estava se anunciando faz é tempo. Todo dia eu percebia que o carteiro trazia uma carta pra Celinha e ficava lá dentro da casa dela de proza. O ritual era sagrado. Até que hoje, o Gumercindo, coitado desse homi trabalhado que só ele, decidiu voltar pra casa mais cedo, Trouxe até flores! Só que quando chegou viu a danada da Celinha no rala e rola com o carteiro. Que confusão meus fios. Vuou foi roupa e mala pra todo lado. Tadinho do seu Gumercindo, tão trabalhadô.

    Geralmente, ela procurava contar as histórias e acontecimentos do dia, mas nem sempre seu radar conseguia apurar notícias fresquinhas. Nesse caso, era comum que ela contasse histórias do passado, de uma época em que nenhum dos que se faziam presentes naquela sala viveu. Foi assim que descobriram que certa vez morou naquela vila um homem bem estranho que, como muitos falavam na época, todo dia de lua cheia saia de sua casa uivando atordoado igual a um animal descontrolado.

    Certo dia, o povo daquela vila passou pela janela da namoradeira e viu que ela não estava cumprindo seu dever diário. Todo mundo estranhou, mas, na correria do dia, ninguém teve tempo de ir perguntar a senhora o que havia acontecido.

    De noite, ao perceberem que ela não apareceu em sua janela durante nem uma hora daquele dia, os moradores decidiram bater em sua casa. Batidas sem nenhuma resposta… Alfredo, o fortão da vila, decidiu arrombar a porta e, quando todos entraram, se depararam com Dona Maria totalmente em paz em sua cama dormindo um sono eterno. Ao lado, na cabeceira, havia um bilhete que dizia “meus fios, o homem e a muié morrem, a carne vira comida pra bicho, mas as histórias nunca podem morrer. Eu estou indo, mas nunca deixem que morram as histórias que contei e as histórias que ainda acontecerão nesse lugar.”

  • Na parede do banheiro

    Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido.

    Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade.

    Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica.

    Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais.

    Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições climáticas tornam a cidade inviável.

    Moravam no sexto andar de um prédio na Rua da Glória, e o barulho que vinha da rua durante os dias influenciava diretamente no som que faziam.

    A entrevista era para um universitário que foi ao show dos Crop Circles em Registro, no sábado anterior.

    Era parte de um trabalho para a faculdade de jornalismo que o jovem cursava, e tratava sobre música alternativa.

    Crop Circles é a banda formada por Mila Cox e Zími.

    Eles tinham piadas internas sobre quando eram chamados para entrevistas.

    Cox toca baixo e sintetizador, e Zími toca de pé um kit minimalista de bateria, como fazia Bobbie Gilespie nos primórdios do Jesus and Mary Chain.

    Os dois eram vocalistas, alternando as músicas em que cada um cantava.

    Eles pagam as contas trabalhando como copywriters.

    Nunca davam entrevistas juntos. 

    Mila Cox era quem geralmente atendia esses jovens.

    Dessa vez Zími aceitou falar, a pedido do universitário, porque no dia do show em que eles se conheceram, o jovem tentou uma aproximação com Mila Cox, e prontamente levou um toco.

    Agora ela estava acompanhando a conversa, porque sentia que seria necessário editar o resultado antes que o estudante o mandasse para o professor.

    À certa altura, já conversando pela webcam, o rapaz perguntou sobre a motivação de Zími para fazer música com uma parceira musical mais jovem.

    (Zími tem quarenta e oito anos, e Mila Cox tem vinte e três. O estudante que está entrevistando Zími tem dezenove.)

    A entrevista havia demorado alguns minutos para decolar, mas de repente, com aquela pergunta, o jeito que Zími se mexeu na cadeira, de frente para o computador, fez Mila Cox saber que naquele momento ele começaria um grande discurso, que logo se transformaria numa metralhadora verbal que poderia perder a linearidade e fugir do assunto a qualquer momento, caso sua raiva seguisse aumentando.

    Então, enquanto Cox já suspeitava de encenação, Zími começou a falar, quase exaltado:

    “Algumas pessoas podem pensar que há algum tipo de glamour a ser alcançado, mas isso não existe. É um trabalho sério, porque é a sua imagem entregue a um público, seja qual for seu tamanho. E se a internet serve muito bem pra divulgar a qualidade artística da pessoa, serve ainda mais para expor milhares de cretinos ao ridículo eterno. A minha vida melhorou depois que montamos essa banda. Melhorou inclusive financeiramente. Mas nós nunca lucramos com a banda. Eu estava bastante falido, e agora provavelmente sou um pobre premium. Provavelmente nunca pagaremos as contas tocando. A questão é que para que a banda pudesse existir, era preciso que eu mudasse de vida antes mesmo de ter uma música pronta pra lançar na internet sob o nome de uma banda. Estarmos vivos também é uma motivação fantástica. Nosso vizinho morreu na pandemia, ainda jovem, sem nunca ter bebido, fumado ou dado um teco. Eu reclamo muito, mas prezo demais pela vida. Tento aproveitar. Mas uma coisa que nunca conheci foi o que chamam de ‘zona de conforto’. As pessoas que podem fugir pra essa zona quando o negócio fica louco não vivem a mesma realidade que eu, e provavelmente a maioria das pessoas não conhecem de verdade essa área. Mas me surpreende que eu ouça tanto falar sobre isso.”

    Zími então fez uma pausa em sua fala, deu um trago no cigarro e soprou a fumaça mirando a tela do computador, diretamente na cara daquele jovem. 

    Estava imaginando que ele fosse criado pela avó, que tinha cabelo de algodão e fazia uma vitamina para ele tomar antes de ir para a escola. 

    Possivelmente teve babá até pouco tempo atrás, e talvez até motorista.

    Ele tinha o cabelo penteado e não podia confrontar as expectativas da família, e muito menos expectativas sociais mais abrangentes.

    Então, sem falar ainda, Zími fez uma careta ao imaginar que aquele cara deixava a cama desarrumada e cheia de farelo, e a encontraria arrumada quando voltasse.

    Ele vestia uma camiseta desbotada da banda Carniça de Bode, a mesma que usou no dia do show em Registro.

    Mila Cox sabia que ali Zími, quando voltasse a falar, responderia de uma só vez a todas as perguntas que o estudante poderia conceber, antes que ele perguntasse qualquer coisa novamente.

    E então Zími voltou a falar.

    “Quando montamos a banda, ela tinha dezoito anos e queria se tornar inesquecível. Eu tinha quarenta e três, e queria mesmo era ser esquecido, e viver do jeito que eu quisesse, muitas vezes pagando caro por escolher esse caminho. Para muito além do gosto musical, o que nos atraiu pra esse projeto de vida e de arte foi reconhecermos um no outro a completa impossibilidade de ser domesticado. Continuei vivendo do jeito que eu quero, embora continue insatisfeito com certas bizarrices , que lamentavelmente existem ou ocorrem independente da minha vontade. A sociedade já estava falida desde muito antes de eu nascer, eu sei que há coisas sobre as quais não temos controle, e que nunca vão mudar. Já tive bandas antes, uma delas antes de existir internet. Eu não tinha qualquer ilusão sobre encontrar glamour nessa atividade. E repito: O que deve haver é um propósito muito mais verdadeiro, porque sendo popular ou não, é a sua imagem que está ali, premeditadamente exposta. As bandas legais ficam soterradas pelo lixo de quem não tem a menor ideia do que está fazendo e nem ao menos gosta de arte. Hoje o perigo de fazer um papel ridículo e virar meme é, ou deveria ser, muito mais assustador do que um fracasso comercial. E para quem já tem algum legado, o esforço pra mantê-lo deve ser tão intenso quanto a vontade que se tinha pra emergir. Um legado pode se tornar algo tentador pra ser vendido, quando se quer resolver o setor financeiro da vida. No meu caso, esse sempre foi o setor que me causou depressão e desespero. A lida com algumas pessoas também pode ser um pesadelo, mas que muitas vezes pode ser remediado justamente pelo dinheiro. Comprando o conforto de um isolamento que só é rompido por quem desejamos.”

    Depois disso, combinaram que o universitário editaria a entrevista e enviaria para Zími e Cox, antes de mandar para o professor.

    Mila Cox falou para Zími:

    “Tem que aguentar mesmo. O cara é parte do nosso público. Talvez esteja logo na imprensa.Isso será editado a fim de cortar partes machistas, por exemplo. Toda semana tenho que conversar com um deles.Esse aí parece mais playboy, tem alguma coisa estranha nele que não gostei.”

    Zími falou:

    “Ainda bem que se aparecer alguém da imprensa mesmo é você que vai falar.”

    Ela respondeu:

    “Talvez com eles seja mais fácil e certamente a repercussão será melhor também.”

    Cox se levantou e foi fazer café.

    Zími então atentou novamente para o barulho que vinha da rua e foi olhar pela janela.

    Bateu o cheiro do café e ele ficou feliz, mas não só pelo café.

    Ele estava bem alcoólatra, e até os bêbados mais clássicos do bairro falavam isso para ele.

    À noite ele beberia com certeza, mas naquela hora ele queria café, porque ainda não estava tremendo.

    Ele achou que Mila Cox tinha sorte por beber pouco.

    No momento em que ela implicou com o universitário, ela bebia depois do show.

    Zími pensou em puxar esse assunto, mas Mila Cox era uma das pessoas que o alertava sobre o abuso de cachaça.

    Zími resolveu que beberia na padaria do outro lado da rua, que estava enchendo porque à noite haveria um jogo do campeonato brasileiro.

    Da padaria ele podia ver a janela de seu apartamento e isso era muito confortável para ele.

    Então, justamente ele, que praguejava horrores apenas por ouvir o termo ‘zona de conforto’, talvez estivesse descobrindo que a sua era a calçada da padaria, onde ficava bêbado e estaria perto de casa.

    Zími tomou banho e desceu. 

    O porteiro daquela noite em seu prédio era gente fina.

    Atravessou a rua, e na padaria ninguém parecia estar com medo de ingerir metanol.

    A alienação ali era tão completa, que Zími se sentia livre de qualquer culpa.

    Ele estava com a sua caderneta e no dia seguinte estaria entregando à Mila Cox a ideia de uma nova música, que ela concluiria.

  • Poema #42: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?

    A vida é um eco, não é mesmo?

    Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos.

    Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos.

    O vazio é repleto de tudo; é o próprio caos.

    Descomplicar é o verbo de ação para que a estafa necessária possa agir em meio ao vazio.

    Tudo o que nos torna nós mesmos padece do esquecimento: troca da derme, pele nova, ar que sai e que entra. Roupas que já não cabem ou não representam.

    Pessoas que se vão, memórias que se quebram, se apagam, acabam no lixo. Reciclar — é possível?

    Eco.
    Vibração repetitiva.
    Repete e distorce.
    Perde.
    Se esvai.
    Some.

    Descomplica o vazio retumbante.

    Vácuo.
    Fundo.
    Cegueira.
    Falta de ar nos pulmões.

    Um batimento de vida ._/\./|_. .
    (Descomplica)

    Respira.
    Esvazia.

    (O vão no papel já é muito)

  • Velórios Virtuais

    Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia:

    — Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton?

    A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família.

    — Eu não, amiga. Já li todos os posts sobre a morte dela, até a declaração dos filhos… mas ninguém revela nada. Justo pra nós, que somos quase íntimas dela. Intimidade de fã, daquelas que atravessa décadas de filmes, romances, premiações e fofocas de revista.

    — Quase íntimas mesmo! — completou a primeira, já animada. — Assistimos a maioria dos filmes, acompanhamos aquele romance com Woody Allen…

    E você reparou na cara do Al Pacino no enterro?

    A amiga assentiu com um ar grave, como se tivesse estado lá.

    — Sim! Agora não adianta se arrepender de não ter se casado com ela. No fim, ela acabou não casando com ninguém. Mas convenhamos, uma mulher como ela não nasceu pra se amarrar.

    Riram discretamente, como quem partilha segredos de bastidores.

    — Pena não estarmos lá… — ela disse, olhando para o nada. — Queria muito ter dado um último adeus.

    Havia uma ternura estranha naquilo: choravam a morte de alguém que nunca tinham encontrado.

    — Pena mesmo. E o Robert Redford então? — a outra retomou, aquecida pelo drama. — Ontem revi Out of Africa e chorei só de lembrar. Não é à toa que a Meryl Streep se apaixonou por ele ali mesmo.

    — E viu a homenagem do Andrea Bocelli? Fiquei arrepiada com o gesto dele de ficar com o cachorro de estimação dele… como era mesmo o nome do cachorro?

    A pergunta ficou suspensa no ar. A resposta veio, seca:

    — Menina… fiquei chocada quando soube que essa história é fake. Tudo inventado por IA.

    O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer indignação.

    — Jura? — sussurrou a primeira, como quem perde o chão. — Mas então tudo aquilo que saiu no Facebook era falso?

    As duas se encararam por um instante, os celulares quietos sobre a mesa. O cappuccino já esfriava.

    — Bom… — disse por fim a outra, tentando reorganizar o mundo. — Pelo menos a história da mãe da Preta Gil é verdadeira. Achei lindo ela ser amparada pela Flora Gil.

    — Lindo mesmo — concordou a amiga, retomando o fôlego. — Pena não morarmos no Rio, senão teríamos ido ao enterro, né? Riram de leve, cientes da contradição, mas sem coragem de desmontá-la.

    — Lógico! — disse ela, com convicção. — Somos quase íntimas dela. Quer dizer… nem conhecemos pessoalmente, mas eu me sentia da família.

    Do lado de fora, carros passavam, pessoas seguiam seus trajetos, alheias àquele luto emprestado. A última frase veio quase como um suspiro:

    — É aquela coisa de alma, né? — ela completou, com doçura.

    A amiga levantou os olhos da tela e sorriu, agora com ironia calma:

    — Ou de algoritmo.

  • A procura da poesia

    Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo!

    Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa!

    Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos!

    Ah! Carlitos! Se você soubesse…

    O seu humano máquina se transformou ainda mais em produto! Ele não aperta mais os parafusos, mas continua sendo vigiado, monitorado, controlado, etiquetado… incansavelmente!

    E não dormimos direito! E não descansamos direito! E não comemos direito! E não vivemos direito!

    Ah! Carlitos! Se pudéssemos mudar isso tudo!

    O mundo precisa com urgência da poesia do seu andar.

    O mundo precisa com urgência da poesia dos seus gestos.

    Como temos pressa para tudo, não temos mais tempo para a poesia! Ela, coitada, está em algum lugar que não é possível ver na confusão das coisas.

    Mas ainda há esperança…

    Existem criaturas teimosas que leem e que procuram a poesia nas ruas, nas casas, nos muros, nos becos, nos rostos…

    Estas criaturas, resistência destes tempos apressados, não têm pressa e, por isso, procuram a poesia de cada dia em tudo que encontram.

    Ah! Carlitos! Saudade do vagabundo, do garoto, das risadas e brincadeiras ingênuas.

    O mundo já estava se transformando e não tínhamos a menor noção de tudo o que viria, entretanto, no seu tempo, a poesia era mais visível e palpável…

    Em meio aos chips e à fumaça poluidora, a poesia se esconde…

    Em meio ao tremor da luz azul das telas, a poesia se fragmenta…

    Em meio aos gritos e delírios das redes sociais, a poesia se encolhe…

    Mas, de todo o jeito, esse ofício de escrever é de uma teimosia sem igual…

    E enquanto houver olhos que leem e entendem palavras, a poesia será a porção de sensibilidade de que precisamos durante a caminhada…

  • Acalento

    Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono.

    Por quem? Por elas, as palavras.

    Já perceberam como elas chegam?

    Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.

    Delas, sou fã, parceira e amiga.

    Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.

    Ahhh, as palavras…

    Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.

    E os sons? Variados, engraçados, escrachados…

    O ritmo? Esse é um capítulo à parte!

    Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,

    ou são sedutoras, como veludo.

    A intensidade de grito, a elegância de néctar.

    Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.

    Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.

    Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?

    Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo. 

    Mas essas não me ocupam a mente.

    Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.

    Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!

    Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.

    Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega — e o coração também.

  • Duplo carpado

    Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto.

    A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais.

    Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada.

    O discurso social não facilita o trabalho nem suaviza o trauma: você ainda está se familiarizando com as rugas, com o ganho de peso, lapsos de memória, ressecamento generalizado e já se depara com a placa de sinalização da vaga para idoso. Pelo amor de Deus, aquele boneco envergado, de bengala, é um algum tipo de mau presságio? Me causa calafrios de horror. Não teria outra forma de nos representar?

    Ouvi dizer que um supermercado aqui no Rio vai adotar outros símbolos como. por exemplo, um boneco surfando ou jogando tênis para sinalizar a vaga de idoso em seu estacionamento. É bem verdade que a figura do esportista está longe de me representar, mas prefiro. Pelo menos, me inspira. Além disso, a médio prazo, iniciativas como essa ajudarão a “descriminalizar” a velhice.

    Sabemos que envelhecer não é um exercício de baixa intensidade, pelo contrário, é uma acrobacia de alta complexidade. Para executá-la é preciso treino e persistência.

    Pensando bem, gosto da ideia de ter um(a) acrobata como símbolo da vaga de idoso. Como segunda opção, sugiro aquela trave de equilíbrio, o cavalo com alças ou as barras assimétricas da ginástica olímpica. Também simbolizam bem o desafio dessa fase da vida. Envelhecer é um exercício árduo. Nos exige foco, controle emocional e, acima de tudo, uma vontade enorme de bater recordes, vencer e escrever seu nome na história.

  • Trilhas da Minha Vida – parte 1/5

    Um grande filme deve vir acompanhado de uma trilha sonora à altura. A música tem o poder de potencializar as sensações a nós repassadas pelas cenas assistidas. Em alguns casos, fica tão intimamente vinculada às imagens que delas se torna indissociável. Muitas obras cinematográficas devem seu sucesso à trilha sonora, havendo casos em que esta chega a ofuscar o próprio filme. Meu destino foi moldado pelos filmes que assisti. A música que os acompanhou faz a trilha sonora da minha vida.

    1) BLADE RUNNER (Ridley Scott), 1982

    Ridley, responsável por filmes icônicos como ALIEN O OITAVO PASSAGEIRO, GLADIADOR e THELMA & LOUISE, atingiu seu ápice com o ficção científica BLADE RUNNER, um dos maiores filmes de todos os tempos, em que Harrison Ford encarna um caçador de androides. Recebeu uma trilha sonora compatível com sua excelência, assinada por Vangelis Papathanassiou. O músico grego começou sua carreira no grupo pop Aphrodite’s Child e acabou enveredando pelo caminho da música orquestral eletrônica batizada inapropriadamente de “new age”. Mas o auge veio com as trilhas sonoras como as de 1492 A CONQUISTA DO PARAÍSO, ANTARCTICA e a vencedora de Oscar CARRUAGENS DE FOGO (CHARIOTS OF FIRE). Em BLADE RUNNER, Vangelis acertou a mão no acompanhamento da ambientação futurista criada pelo diretor. E ainda esnobou fazendo uma das canções românticas mais calientes da história, LOVE THEME, mesclando sax com sintetizador.

    2) NOVIÇA REBELDE (Robert Wise), 1965

    Clássico dos clássicos, esse musical continua fascinando gerações com melodias compostas pela dupla Rodgers/Hammerstein que já emplacara vários sucessos na Broadway. A música está estampada até no título original, THE SOUND OF MUSIC. A saga da família Von Trapp comandada militarmente por Christopher Plummer e a irrequieta freirinha a ela agregada (Julie Andrews) é contada através de melodias que parecem não envelhecer como a que acompanha grandiosa abertura (num verdíssimo gramado tendo os Alpes austríacos ao fundo) ou a singela DO RE MI. Wise dirigiu outro famosíssimo musical, WEST SIDE STORY, com temas compostos pelo maestro Leonard Bernstein. Aventurou-se também pela ficção científica dirigindo O DIA EM QUE A TERRA PAROU e posteriormente, STAR TREK com uma grandiosa trilha orquestral conduzida por Jerry Goldsmith.

    3) AMARCORD (Federico Fellini), 1973

    O compositor italiano Nino Rota fez trilhas antológicas para o cinema como as d’O PODEROSO CHEFÃO de Coppola, ROMEU E JULIETA e A MEGERA DOMADA de Zefirelli, MORTE SOBRE O NILO de Guillermin e O LEOPARDO de Visconti. Mas seu colaborador mais fiel foi Federico Fellini com quem trabalhou em praticamente toda sua vasta filmografia: OS BOAS-VIDAS, 8 ½ , SATYRICON, AS NOITES DE CABÍRIA, BOCCACCIO 70, CASANOVA, JULIETA DOS ESPÍRITOS, LA DOLCE VITA etc. A nostálgica e comovente trilha de AMARCORD certamente é seu mais belo trabalho. O filme autobiográfico que retrata a infância do diretor num pequeno vilarejo italiano é considerado uma das maiores obras do cinema. Impossível não a associá-la à belíssima música tema.

    4) MÁGICO DE OZ (Victor Fleming), 1939

    OVER THE RAINBOW tornou-se uma das canções mais adoradas de todos os tempos com centenas de gravações por artistas dos mais variados gêneros, de Frank Sinatra a Eric Clapton, de Ella Fitzgerald a Mariah Carey, de Nara Leão a Paula Fernandes. A gravação original foi composta nos anos 30 pela dupla Arlen/Harburg, integrando a trilha do filme THE WIZARD OF OZ especialmente para a interpretação de Judy Garland, então com 16 anos. Naturalmente faturou o Oscar (a trilha e a canção original). No mesmo ano, Fleming viria a dirigir outro clássico, E O VENTO LEVOU, com trilha de Max Steiner (com o famosíssimo TARA’S THEME). Max é outro campeão de trilhas com 24 indicações ao Oscar. São dele as trilhas de CASABLANCA e do primeiro KING KONG (1933).

    5) LARANJA MECÂNICA (Stanley Kubrick), 1971

    Stanley Kubrick foi um dos maiores diretores de todas as épocas, senão o maior. Era aficionado por música clássica. Quem não se lembra de ALSO SPRACH ZARATHUSTRA e da valsa DANÚBIO AZUL de Strauss em 2001 UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO? E também Schubert (BARRY LYNDON), Chopin (LOLITA), Bartok (O ILUMINADO). Em sua última produção, DE OLHOS BEM FECHADOS, flerta com arrojadas composições do húngaro György Ligeti com fragmentos de uma liturgia ortodoxa cantada em romeno. Mas a trilha mais cativante permanece sendo a de LARANJA MECÂNICA (CLOCKWORK ORANGE) em que funde peças tradicionais de Beethoven com música eletrônica. A cena de abertura em que o personagem central vivido por Malcolm McDowell se delicia com sua gangue de arruaceiros na leiteria Korova ao som da peça composta por Wendy Carlos é de arrepiar.

    6) OS INTOCÁVEIS (Brian de Palma), 1987

    Ao lado de John Williams, Ennio Morricone é o mais importante ‘trilheiro’ do cinema contemporâneo. Dentre as memoráveis, CINEMA PARADISO (Tornatore), ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Sergio Leone) e A MISSÃO (Joffé), obras dos Irmãos Taviani, Pasolini, Almodóvar além, é claro, dos famosos temas para os ‘western spaghetti’ como POR UM PUNHADO DE DÓLARES, O BOM O MAU E O FEIO e QUANDO EXPLODE A VINGANÇA. E filmes com conteúdo político como SACCO E VANZETTI, INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO…, 1900, BATALHA DE ARGEL e QUEIMADA. Trabalhou até com Tarantino em OS OITO ODIADOS (que lhe rendeu o único Oscar, reparador, já que é uma trilha “menor”). A comovente trilha de THE UNTOUCHABLES nos conduz ao enfrentamento do quarteto liderado por Kevin Costner e Sean Connery contra o poderoso Al Capone (Robert de Niro). Palma tem uma respeitável filmografia, destacando-se sua colaboração com Pino Donaggio em CARRIE A ESTRANHA, VESTIDA PARA MATAR e DUBLÊ DE CORPO.

    7) TUBARÃO (Steven Spielberg), 1975

    O maestro John Williams é o compositor mais requisitado de Hollywood.  O único concorrente que lhe fez frente em número de indicações ao Oscar é Alfred Newman. Entre suas famosas trilhas orquestrais épicas, as sagas de HARRY POTTER e STAR WARS. Spielberg é seu amigo particular e o mais assíduo colaborador. Grande parte de seus filmes, inclusive ET, JURASSIC PARK, A LISTA DE SCHINDLER, CONTATOS IMEDIATOS e a série completa INDIANA JONES é dele. TUBARÃO (JAWS) foi uma das primeiras colaborações entre os dois (e possivelmente a mais bem sucedida). A sequência mais marcante é a que precede as investidas mortais do sinistro esqualo, criando uma tensão no espectador que, ao escutá-la, prepara seus nervos para o impiedoso ataque.

    8) PANTERA COR-DE-ROSA (Blake Edwards), 1963

    Henry Mancini é um nome que não poderia deixar de figurar em primeiro plano. Os temas cômicos para duas trilhas tornaram-se famosíssimos. A PANTERA COR-DE-ROSA e HATARI (com a famosa DANÇA DO ELEFANTINHO). Compôs ainda as trilhas dos clássicos CHARADA (Stanley Donen) com Cary Grant e Audrey Hepburn, VICTOR OU VICTÓRIA com Julie Andrews e BONEQUINHA DE LUXO com Hepburn (ambos de Blake Edwards), incluindo MOON RIVER, uma das mais belas melodias de todos os tempos. Não bastasse tudo isso, é dele também o famosíssimo tema de abertura da série televisiva Peter Gunn.

    9) VERÃO DE 42 (Robert Mulligan), 1971

    O pianista, maestro, compositor e arranjador francês Michel Legrand foi um dos mais respeitados músicos do século XX, responsável por mais de 200 trilhas, como as de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, THOMAS CROWN AFFAIR e YENTL de Barbra Streisand, com destaque para 2 clássicos da nouvelle vague de Jacques Demy, OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e AS JOVENS DE ROCHEFORT, além de trabalhar com diretores cultuadíssimos como Orson Welles, Malle, Godard e Wajda. Fez ele uma ponte entre a chanson francesa e os musicais de Hollywood. A trilha de SUMMER OF 42, película que retrata a paixão proibida de um adolescente por uma mulher mais velha, cujo marido estava afastado, rendeu-lhe um Oscar, com destaque para o belíssimo tema THE SUMMER KNOWS. O diretor Mulligan é o mesmo de O SOL É PARA TODOS com Gregory Peck (trilha de Bernstein)

    10) EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Jeannot Szwarc), 1980

    John Barry é outro nome imprescindível quando se trata de música para o cinema. Dentre suas trilhas, DANÇA COM LOBOS, ENTRE DOIS AMORES (OUT OF AFRICA), CHAPLIN e KING KONG (versão de 1976). Mas duas são absolutamente magistrais: PERDIDOS NA NOITE (MIDNIGHT COWBOY), incluindo o melancólico tema executado com gaita (a trilha traz também a famosíssima EVERYBODY’S TALKING interpretada por Harry Nilsson); e SOMEWHERE IN TIME, cuja música tema é indissociável do drama do sonho desfeito vivido pelo personagem de Christopher Reeve.  Além disso, Barry assinou temas para os primeiros filmes de 007, tendo inclusive elaborado os arranjos do famosíssimo tema original de James Bond. O diretor Szwarc é o mesmo de TUBARÃO 2.

    11) BUTCH CASSIDY AND SUNDANCE KID (George Roy Hill), 1969

    Burt Bacharach é um celebrado compositor, com pérolas do cancioneiro norte-americano, reconhecido sobretudo nas vozes de Dionne Warwick, Aretha Franklin e os Carpenters. Quem ousa dizer que não gosta de I’LL NEVER FALL IN LOVE AGAIN, THE LOOK OF LOVE, I SAY A LITTLE PRAYER, CLOSE TO YOU? E naturalmente RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD que integra a trilha desse filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford (a mesma dupla protagoniza outro sucesso do diretor, GOLPE DE MESTRE, que também possui uma trilha genial com base no ragtime de Scott Joplin). Bacharach compôs mais duas trilhas memoráveis, HORIZONTE PERDIDO e CASSINO ROYALE (não confundir com o filme de 007 de 2006).

    12) PSICOSE (Alfred Hitchcock), 1960

    A obra máxima de suspense de Hitchcock, à época causou furor e pânico nas salas de projeção, especialmente a tétrica cena do assassinato a facadas no chuveiro, um dos takes de maior tensão da história do cinema. O grau máximo de apreensão ocorre em função do famosíssimo acompanhamento de violinos estridentes criado por Bernard Herrmann. O maestro nova-iorquino tem um precioso currículo tendo composto trilhas de obras primas do cinema como CIDADÃO KANE de Orson Welles, FAHRENHEIT 451 de François Truffaut, TAXI DRIVER de Martin Scorsese e TRÁGICA OBSESSÃO de Brian de Palma. Mas o maior destaque refere-se à filmografia de Hitchcock que inclui dentre outros VERTIGO e O HOMEM QUE SABIA DEMAIS.

    13) LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean), 1962

    Maurice Jarre é outro colecionador de indicações ao Oscar. Venceu em DOUTOR JIVAGO, PASSAGEM PARA A ÍNDIA e LAWRENCE DA ARÁBIA, três clássicos do diretor David Lean. Esse último é considerado uma das mais ambiciosas obras da história do cinema e ganhou de Jarre uma trilha com a grandiosidade compatível com o esplendor das imagens. Jarre inovou agregando instrumentos étnicos e eletrônicos em seus arranjos, constituindo-se um dos precursores da world music da qual seu filho Jean Michel tornou-se celebridade. Maurice assinou também as trilhas de A TESTEMUNHA, SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS e GHOST (embora a canção que identifique o filme seja UNCHAINED MELODY com a dupla Righteous Brothers). Quanto a Lean, deve-se citar também A PONTE DO RIO KWAI que revelou a memorável marcha COLONEL BOGEY.

    14) A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (Mike Nichols), 1967

    Mike Nichols estreou na direção com o icônico QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF? com intensas atuações de Elizabeth Taylor e Richard Burton. Mas sua trilha mais famosa é a de THE GRADUATE, filme onde o jovem Dustin Hoffman mantém uma relação complicada com a sedutora Sra. Robinson, vivida por Anne Bancroft. As desventuras do personagem são acompanhadas por canções de Simon & Garfunkel que se tornaram verdadeiros hinos pop dos anos 60, como SOUNDS OF SILENCE, MRS. ROBINSON e SCARBOROUGH FAIR. A dupla norte-americana não tem tradição de compor para o cinema. Nem precisa, já que vendeu dezenas de milhões de discos.

    15) AMÉLIE POULAIN (Jean-Pierre Jeunet), 2001

    Os trabalhos do multi-instrumentista francês Yann Tiersen receberam influência do compositor clássico Erik Satie e dos minimalistas, sobretudo Michael Nyman (que também se tornou conhecido pelas trilhas que compôs). Tiersen ganhou repentina projeção mundial justamente pela belíssima trilha de AMÉLIE POULAIN. A composição para piano, violino e harmônica consegue transportar para a música com perfeição o pequeno, porém fascinante mundo, vivido pela personagem representada por Audrey Tautou e suas peraltices pelas coloridas ruas de Montmartre. Tiersen não é um grande habitué de trilhas. Além dessa, destaca-se apenas a trilha de outro grande filme, o alemão ADEUS LÊNIN que guarda semelhanças com a de AMÉLIE.

    16) CABARET (Bob Fosse), 1972

    Musical de Bob Fosse (que também é coreógrafo e dançarino) estrelado por Liza Minelli que retrata com maestria e fidelidade o ambiente vaudeville de um cabaré de Paris durante o período de ascensão do nazismo. Só não ganhou o Oscar porque o concorrente era nada menos do que O PODEROSO CHEFÃO de Coppola. As canções de John Kander e Fred Ebb (que também compuseram para NEW YORK NEW YORK, FUNNY LADY e CHICAGO), boa parte executada no palco da casa de espetáculos, ao lado do mestre de cerimônia representado pelo impagável Joel Grey, são inesquecíveis. Bob ainda dirigiria outro grande musical, ALL THAT JAZZ (Palma de Ouro em Cannes) com outra bela trilha sonora (assim como CABARET, supervisionada por Ralph Burns) com destaque para ON BROADWAY com George Benson.

    17) PINÓQUIO (Walt Disney), 1940

    O compositor Alan Menken é o preferido dos estúdios Disney para trabalhar trilhas de êxito como A PEQUENA SEREIA e A BELA E A FERA. A ele minhas desculpas, mas a melhor trilha Disney continua sendo a do clássico PINOCCHIO de 1940 de criação coletiva, que traz a maravilhosa canção WHEN YOU WISH UPON A STAR (Jiminy Cricket), ganhadora do Oscar. Segunda superprodução dos Estúdio Disney (a primeira foi BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES que também possui uma trilha excepcional que inclui HEIGH OH: “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou”), o longa de animação marca o auge da perfeição técnica do desenho animado.

    18) WOODSTOCK (Michael Wadleigh), 1970

    Aqui a trilha é o próprio filme. Oscar de documentário, a película registra o mais importante festival de música de todos os tempos, ocorrido em 1970 na fazenda de Woodstock, Califórnia. Na pauta, o surgimento do movimento hippie, amor livre, consumo de drogas e protestos contra a guerra do Vietnã. No cardápio, canções memoráveis, sobretudo rock, que fizeram a cabeça da geração ‘flower power’, executadas por nomes como Jimi Hendrix, Santana, The Who, Ten Years After, Jefferson Airplane e Joe Cocker. Mas havia também o funk de Sly and Family Stone, o blues de Canned Heat e o folk de Crosby, Stills Nash &  Young, Joan Baez e John Sebastian. As canções foram reunidas num álbum triplo. Posteriormente, saiu um volume 2, duplo com canções relegadas no primeiro registro.

    19) KOYAANISQATSI (Godfrey Reggio), 1982

    Esse é um dos exemplos em que a trilha, assinada pelo compositor erudito Philip Glass, tornou-se tão celebrada e impactante que praticamente empanou o brilho do filme. Trata-se de um documentário, se é que podemos assim o definir, “narrado” através de um painel de imagens que mostra o alvoroço da vida “moderna” (refere-se ao ano de 1982, quando a produção foi rodada). A música desempenha presença crucial na retratação da paranoia. Aliás, no filme não há diálogos, apenas uma sequência frenética de cenas desconcertantes. As peças minimalistas executadas por um mestre do gênero casaram perfeitamente com as imagens. O filme foi o primeiro da trilogia “qatsi” que inclui POWAQQATSI e NAQOYQATSI do mesmo diretor, também “trilhadas” por Glass. Após a bem sucedida empreitada, Glass tornou-se bastante requisitado, assinando trilhas de filmes importantes, como AS HORAS, MISHIMA, KUNDUN e TRUMAN O SHOW DA VIDA.

    20) PARIS TEXAS (Wim Wenders), 1984

    Além do icônico ASAS DO DESEJO, o diretor alemão Wim Wenders realizou obras-primas como BUENA VISTA SOCIAL CLUB, documentário que resgatou uma geração esquecida de artistas cubanos. O produtor musical foi o guitarrista californiano Ry Cooder, com quem Wenders já havia trabalhado em PARIS TEXAS, Palma de Ouro em Cannes. Aqui, os cortantes solos de guitarra de Cooder fornecem o clima melancólico e agreste dos rincões desérticos do Texas onde se desenrola a trama. Outro documentário a destacar de WW é O SAL DA TERRA sobre a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Receita para se aburguesar

    Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe.

    Assim, gostaria, agora, de propor uma receita para se aburguesar (na aparência).

    Ostente algum sobrenome. Se soar minimamente gringo, melhor. Caso tenha nascido no período de decadência da família e aquele penduricalho em seu nome nada mais possa significar, não há problema, continue a se gabar dele.

    Há parentesco com certa personalidade conhecida? É forçoso falar: “sou parente de fulano de tal”, mesmo que o tal fulano nem saiba quem é você. Os familiares defuntos são mais úteis para isso, pois já não podem dizer “Meu parente? Conheço não”. Lembremos, aqui, do nosso boca do inferno: “saiba a todo o cavalo a parentela, o criador, o dono e o defeito.”

    É necessário se endividar, não sendo a dívida a da necessidade. Quando não tem, mas precisa mostrar, o caminho é um só, o encalacramento. Apesar de seu salário não comportar os costumes frívolos dos sujeitos de pompas nobres, é inescusável não procurar os reproduzir. Acima de tudo, nunca aperte os cintos, você tem uma imagem a zelar. O bom remediado que se acredita burguês sempre tem um débito a saldar e a esconder.

    Nos tipos que observei, é muito comum o tal “ser chique”. Admito ao leitor, não consegui compreender bem o que seria isso. Todavia, alcançar esse ideal não parece difícil, tirar foto com uma taça de vinho é o suficiente.

    Despreze tudo que seja nacional, principalmente se for popular, e glorifique o que é de fora. Dizer que vai à roda de samba não pega bem. “Madame não gosta que ninguém sambe”, como o objetivo é se assemelhar a madame, adote a mesma opinião.

    Além de tudo, finja intimidade com outros países. Sem esquecer de os enaltecer, fale da Itália ou dos Estados Unidos no almoço como se lá ocorresse o seu passeio dos finais de semana. Comparações são sempre bem-vindas, até quando não possuem qualquer sentido de existir e a valorização do estrangeiro menos ainda.

    Esses são só alguns exemplos, vejamos o fundamento: a mimese. Pelo menos, a sua tentativa. É imprescindível a pose, saber fingir ser. “Faça mesuras de A. com pé direito.” Claro, faltará o essencial, o que faz o burguês ser burguês. Tudo bem, macaqueie; no fundo, é disso que se trata.

    Não se importe com os verdadeiros lordaços, que lhe olham com o ar de desdém que lançam a todos os trabalhadores (como você), mas com o acréscimo do ridículo imputado às suas práticas. Não ligue para isso. Afinal, tu crês que é um deles, então, seja firme, siga seu devaneio.

    Acreditando corresponder ao que não é, repugne os seus, como o burguês autêntico lhe repugna. Procure se aproximar desses e se distanciar daqueles; quando, na verdade, está colado com os que trata como outros e apartado dos que você vê como seus irmãos. Nisso, pode até tentar criar (na sua mente) uma nova classe, uma suposta média.

    Não dê atenção ao que os outros irão pensar; ademais, haverá sempre “quatro asnotes de bom ouvir e crer”, que irão se juntar a você, a fim de completar a manada. Porém, se sonha com os ricos, vive entre os pobres e compartilha com eles os mesmos pesadelos.

  • Bethoven nos salvará

    Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado.

    Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do espaço. No livro “3001: A última odisséia”, do Arthur C. Clarke, ele trata dessa ideia usando personagens que conhecemos desde “2001: uma odisséia no espaço”. A saber, os astronautas, HAL 9000 e o monolito.

    O motivo dos extraterrestres no livro do Clarke para nos exterminar é bem conhecido de todos nós: nossa selvageria e capacidade crescente de eliminarmos uns aos outros. Não vou contar de quem parte a iniciativa de nos varrer do universo nem como termina tudo. Vai lá e lê o livro.

    Mas me pego pensando o seguinte: e se um dia nos depararmos com essa situação? Ali, diante da encruzilhada entre a vida e a extinção, o que ou quem nos salvará? Para mim a resposta é simples: Bethoven.

    O gênio alemão nos tirará do patíbulo, livrando nossos pescoços selvagens do cutelo alienígena.

    Por que? Basta que a missão punitiva extraterrestre escute “Ode a alegria”. Ela é o quarto movimento da Nona Sinfonia e tem um coro que entoa os versos de outro alemão, Friederich Schiler. O poema apela à fraternidade e busca o melhor lado do ser humano.

    Dito assim eu não disse nada a respeito dela. Porque ela é indescritivelmente bela. Confesso, diante da meia dúzia de leitores que gentilmente passeiam seus olhos por minhas crônicas, que eu choro quando escuto “Ode a alegria”.

    E minhas lágrimas se reuniriam as dos aliens que enxugando os olhos – ou algo de mesma função – diriam entre eles: são selvagens mas se fizeram música assim merecem uma segunda chance.

    Não a desperdicemos.

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

  • Alguns convencidos que tudo sabem!

    Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas. 

    Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica. 

    Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos. 

    Esse é um exemplo de como a sabedoria do idoso jamais deve ser ignorada. 

    Ele não possui cérebro, mas sua habilidade em encontrar caminhos mais curtos, sem conhecer o destino, é impressionante.

    Sua locomoção é lenta porém precisa, e se dá a uma velocidade de 1cm/minuto, permitindo-lhe avaliar cuidadosamente seu trajeto.

    Seu apelido vem do filme clássico The Blob (A Bolha Assassina) de 1988, que narra a história de uma estranha substância gelatinosa que dissolve a carne humana. 

    No entando, o Blob, especialista em meios de transporte, não come gente, tem apenas uma semelhança em termos de forma com a Bolha. 

    Um artigo de 2010 descreveu que flocos de aveia foram dispersos em uma representação de Tóquio e das cidades, e Blob criou uma rede semelhante ao sistema ferroviário de forma eficiente e tolerante a falhas.

    Como é possível essa forma de mofo nos ensinar diversas alternativas para solucionar problemas práticos em nossos árduos dias e mostrar o valor da adversidade e multiplicação de seres, sem um cérebro?

    Sua reprodução se dá mediante a produção e liberação de esporos, que se tornam novos “Blobs”. Eles possuem 720 sexos diferentes, sendo assim um ser com orientação sexual ilimitada e centenas de identidades de gênero.

    Como na maioria das espécies, a sobrevivência é impulsionada pela diversidade genética, que no caso do “Blob” acontece quando dois organismos geneticamente diferentes se encontram e se fundem em um novo “Blob”. 

    Será que no futuro muito distante, nos transformaremos em uma ameba sábia sem a necessidade de um cérebro no crânio?

    Se não vingarmos nos próximos milênios o cofre do apocalipse, que preserva culturas a fim de proteger a segurança alimentar global, garantirá nosso DNA pastoso.

    Por vezes o menos é mais, e surge como o aspecto mais relevante em um ser simples e despretensioso, muito a frente de alguns convencidos que tudo sabem.

  • Atriz dentro da parede

    Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém em seu estado normal ri diante do espelho. E ela era quase-normal. Quase.

    Ela dançava, lecionava, contava histórias e atuava. Mas sentia-se mais como atriz do que como qualquer outra coisa – ah, a legião de artistas que se alimentam dos seus míseros salários de funcionários públicos que parecem ter saído do poema “Não há vagas” de Ferreira Gular. E como atriz era uma excelente filósofa. Dessas que buscam o tempo todo o “algo além” perdido nas entrelinhas da vida. Seu corpo grande e intranqüilo buscava na dança acalmar-se. Sua voz macia buscava expressar-se – a si e a voz em si – para dar sua contribuição ao mundo em forma de som verdadeiro. Ela pretendia que tudo o que viesse a dizer fosse verdadeiro, mesmo que as palavras não fossem suas ou não pertencessem ao grupo das verdades absolutas. Ela autorizava palavras de outros, mas era criteriosa para essa autorização. As histórias que contava eram histórias para um mundo melhor. E atuar.

    Atuar completava sua paleta de busca por auto-conhecimento. Sua última peça, contudo, não havia tomado a direção do verdadeiro prático, ficando sua atuação presa no nível de intenção. E como quando sentimos que a nossa verdade não atingiu muitos metros além do nosso corpo – não porque não tenhamos sido verdadeiros, mas pelo fato triste de que interlocuções podem ser mais cabos de guerra ou muros, mais isso do que estradas retas.

    Dar um tempo com teatro seria necessário. Chegando em casa depois da última apresentação, olhou desconfiada para o velho companheiro de vidro reflexivo e tomou a decisão: “Preciso mudar um pouco”.

    Novo corte de cabelo. Nova cor. Feito. Olhos nos olhos no espelho mais uma vez – e isso era sempre meio constrangedor, pois não se confia em espelho. Os olhos do espelho pareciam-lhe mortos, como olhos de tubarão. Quase pediu conselho ao espelho, até lembrar que não se pode confiar neles – em nenhum deles. Abaixou a cabeça e virou-se, andando noutra direção, para poder assim melhor pensar. Pensou em viajar. Sair da cidade por uns dois dias. Talvez três. Talvez um primeiro passo para uma temporada bem maior que o imaginável. Fazer mala. Embrulhar-se para viagem. Mala feita. Ser físico devidamente embrulhado. Mulher devidamente embrulhada e estômago também. A essa altura já hesitava em dar uma última olhada no companheiro de vidro vivo. Medo dele. Saiu sem se conferir a beleza. Pés no corredor do prédio, trancou a porta. Elevador ou escada? Escada.

    Desceu. A descida foi longa, mais do que seria uma subida. Pensou dezenas de pensamentos por degrau, como uma metralhadora giratória cega. Chegando lá fora – no ante-começo de lá fora – perturbou-se com a monstruosa luz cinza da tempestade que se anunciava com suas músicas de vento. Parou. Pensou: “Esqueci algo. Não posso sair assim”. Voltava. Subiu com a mente menos cheia e menos giratória. Desta vez de elevador.

    Fechadura. Tapete. Portal a ser atravessado rumo ao espelho. Espelho triste pela ausência de sua dona. É isso. Ela era, sem que percebesse ou lembrasse, dona do espelho. Passou um batom vermelho. “Espelho. Meu espelho” – o chamou finalmente de seu. O vermelho do batom lhe trouxe uma súbita alegria. Quase sorria para o rosto que ficava mergulhado na parede, como mágica.

    Antropologicamente, entendeu porque os índios do século XVI foram vencidos pelos espelhos. Espelhos de mão nos aprisionam dentro do nada.

    Espelhos de parede aprisionam nossos dobros dentro da parede. Só bebês e animais sabem que quem vemos dentro da parede através do espelho não somos nós. Terminou então de passar seu batom vermelho e fez seu movimento louco: sorriu finalmente para o espelho, com os olhos felizes direcionados aos da outra na parede – a mulher bonita que mora dentro da parede.

    Alívio. Enxergou a beleza da mulher-gênio dentro da parede, e das belezas dentro de si como mulher pensante de carne, osso e desejo. Fome. Geladeira. Televisão. “Amanhã viajo”, pensou, desta vez alegre e em paz. Na última caverna da alma o doce som dos aplausos. O que houvera antes esquecido era a mulher que morava dentro da parede. Era setembro.

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