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  • abr- 2026 -
    8 abril

    Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos coleg

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  • 7 abril

    Dias melhores

    Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores? Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica n

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  • 6 abril

    A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo. A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível. Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos

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  • 6 abril

    Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento? Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir. O erro

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  • 6 abril

    Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço(embora talvez eu não venha ater) o meu nome num nome de rua. Eu sei que eu mereçouma estátua de bronzena praça de Ervália. Eu sei que eu mereçodenominar a Casa daCultura como o poeta que sou. Eu sei que eu mereçocasar com uma mulhernegra, que é o meu sonhode consumo. Eu sei que eu mereçoter um aumento de saláriopara poder sobreviver. Eu sei que eu mereçoganhar um prêmio literáriopara pagar as dívidas. Eu sei que eu mereçopescar um peix

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  • 5 abril

    A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo. Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados! O que estamos fazendo com o nosso tempo? Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo! O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas. Nunca, em tão pouco e

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  • 5 abril

    Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.— Ele é bom de…— Bond. James Bond. Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que s

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  • 5 abril

    AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia. Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros

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  • 5 abril

    Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliênciaessa palavra polida,de palco e de LinkedIn,que ensina a atravessar ruínascom a coluna ereta. Resiliência:dizem ser força,dizem ser método,dizem ser quase virtude corporativa. Mas outro diaela me apareceu diferente —não em gráficos,nem em discursos bem ensaiados, mas numa fresta de asfalto: uma flor. Pequena, improvável,sem plateia, sem legenda,rompendo o cinzacom a delicadeza de quem não pede licença. Ali estava tudo. Porque a terra sa

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  • 4 abril

    Digníssimo canalha

    Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogávei

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  • 4 abril

    Simulações

    Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da p

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  • 3 abril

    O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo? Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu d

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  • 2 abril

    Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está à espera de sua colaboração e sustento.  O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório.  O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole.  Carrega a eternidade como salvaçã

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  • 2 abril

    A alternativa

    É uma cena que há tempos se repete, desde o dia em que meu pai anunciou que tinha perdido o emprego e minha mãe o abraçou dizendo: “Nós havemos de encontrar uma alternativa” — toda sexta-feira, no meio da tarde, o homem de chapéu, terno e gravata toca a campainha e eu abro a porta. Ele sorri, passa a mão no meu cabelo e me entrega o chapéu, que coloco no cabideiro com cuidado. Nas primeiras vezes minha mãe fazia um sinal com a cabeça e eu saía da sala. Ago

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  • 1 abril

    A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por alguns segundos, recobrei as energias e corremos para sua casa, logo acima da minha. Como Murilinho poderia escapar, de uma residência toda grade

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  • mar- 2026 -
    31 março

    Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”. Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma sabor

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  • 30 março

    Crop Circles

    Tinham show às dezessete horas em Hortolândia.  Chegaram cedo na cidade, apesar do trânsito caótico dentro do Complexo Metropolitano expandido.   Era uma festa particular, uma espécie de quermesse organizada por jovens locais, amigos de Mila Cox. O local era uma casa com pouca área construída em um terreno bem grande em meio a um grande descampado.   A proprietária era uma agitadora cultural de Sumaré, que usava aquele imóvel para promover f

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  • 30 março

    Poema #62: Pra encerrar e recomeçando

    mandei uma mensagemacabando com tudoque não havia. tranqueio portão de entrada paraque nada entrasse além daminha covardia. jogueia toalha como quem sedespede da vida e talveznão devesse ainda: era cedo etarde demais ao mesmo tempo.fiquei com o meu corpo deitadono chão da cozinha doendo semalma e sendo apenas, nada maise nada menos, que um obstáculoao percurso das formigas. O Jardim Simultâneo

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  • 29 março

    Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês. Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém

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  • 29 março

    curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa. Entre pensamentos, me perco, até que os acorde

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  • 29 março

    Nelson a conhece

    No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de lugar, consegue um vãozinho para pôr o pé, até chegar o mais próximo possível do lugar procurado e ali segurar na alça de apoio e parar. Não olha para as pessoas, mas também não vê o cenário que passa

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  • 29 março

    Poema #16: Poema ao vento

    Poema ao ventoCesto vazio em pouso certoCascalho de ilusõesSem tempo. Poema ao ventoE nenhuma certeza das coisasNenhuma certeza. De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para

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  • 29 março

    Devota

    O espaço era pequeno e fechado por uma porta metálica, com paredes de pintura descascada. A roupa e os poucos objetos pessoais pendurados em sacolas ou em pequenas prateleiras. O local era compartilhado com outras detentas. Quando podia ficar sozinha, Juliana pensava na vida, nas memórias daquilo que havia vivido. Dormia num beliche com base rígida e um colchão simples. Colado à parede, ao lado da cabeceira, um pequeno quadro com a imagem clássica de Jesus

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  • 29 março

    O que fica fora da foto

    Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado? O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo. Uma risada explode — e alguém já procura o celular. O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade. Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente. A cena não passa mais direto pela gente

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  • 28 março

    O que eles dizem

    Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós – perguntam eles – sem a internet”? Nem dá para imaginar… Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual? Enfim, caminhamo

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  • 28 março

    Os brincos

    1.Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. Escutou miados e sentiu algo semelhante a um conjunto amorfo de pelos roçar sua perna. Arrastou-se até o elevador. Apertou o botão térreo e lembrou que Pedro havia ficado no berço. Saiu do elevador e c

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  • 27 março

    Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida. Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crí

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  • 27 março

    Abençoado quem?

    Quem convive comigo há pouco tempo nem imagina quão atacado das ideias eu já fui. Sim, o tempo amorteceu minha irritabilidade e ando menos propenso a erupções. Mas as vezes o passado aflora. Uma das ocasiões em que sou mais propenso a erupções é com o uso incorreto das palavras. Não faz muito tempo fui ao cinema no shopping com minhas filhas. Estávamos dentro do elevador indo para a garagem quando um cidadão veio correndo, eu o vi e segurei a porta. O cara

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  • 27 março

    O retorno

    No outro lado não havia nada. O outro lado era apenas o outro lado. Voltei branco para casa. Como se já não fosse. Eu estava branco como se nunca tivesse sido. Naveguei pelo Lete como num passeio de domingo. Atravessei o Lete e era como se não tivesse ido a lugar nenhum. Conheci que a morte não é nada, uma hora em que tudo está consumado. Os dentes estavam podres, o passarinho seco no armário. Não havia mais nenhum poema a escrever, não havia unha a cortar

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  • 26 março

    Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu prazer.  Em nossas mentes pode aparecer uma cena de horror quando os dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como estamos de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito felicidade, empa

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