Autores
-
mar- 2026 -13 março
Tem dias e mais dias
Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida. Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez. Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia. Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendi
Leia mais » -
12 março
Avidez e honra no tempo!
Em épocas muito passadas, os abastados entediados, não aproveitavam suas vidas ocas, por que não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. A massa de gente, seguia rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de
Leia mais » -
12 março
Os labirintos da noite
Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo. Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área d
Leia mais » -
11 março
Só se é de parar quando morrer
Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque nos anos oitenta não havia tratamento especial para neurodivergentes. E isso ela fazia quando chegava do trabalho, ia conferir as tarefas es
Leia mais » -
10 março
Oi, Mazzilli
Certas coisas na vida não vêm de graça. Se você, por exemplo, tem o hábito de ir ao cinema toda semana, de se alimentar de filmes velhos e novos, tenho certeza de que alguém o levou ao cinema pela primeira vez. Um tio, um pai apaixonado por filmes, uma mãe, um professor, uma avó. Se você é do tipo leitor apaixonado, daqueles que leem por prazer até as placas das ruas, alguém na sua casa é assim. Ou, então, alguém o levou ao museu, ao teatro, lhe mostrou um
Leia mais » -
9 março
Antes da escalada nuclear
Tuco se suicidou. Era vizinho de Zími. Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”. Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor. Ou a uma balança moral com defeito. Sabia que eram ideologicamente antagônicos. Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da polícia científica deixar a garagem do prédio. O que havia
Leia mais » -
9 março
Poema #59: Perdas e Danos
parece que perdio dom de sonhardepois de tantasdecepções. depois de tantasperdasparece que sonheique já não tinha o dom. acordei e era tudoverdade ou pesadelodepois eu achoque dormi de novo. O Jardim Simultâneo
Leia mais » -
8 março
Vênus sob cerco
Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão. Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro. Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprend
Leia mais » -
8 março
Ai, minhas orelhas!
Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica. Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase to
Leia mais » -
8 março
Esquisito íntimo
Esquisito: Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose. Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores. Esquisito q
Leia mais » -
8 março
Marta ainda não está morta
Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro. Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar, uma geleia. Sem contar a labirintite. Curiosamente ainda l
Leia mais » -
8 março
Tempos modernos
Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens. Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Mi
Leia mais » -
7 março
Genival Lacerda
Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, “quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”. Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de
Leia mais » -
7 março
Conversar ou “zapear”?
Alguém ainda tem comadres? Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias. Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! Mas o principal atributo delas era conversar. Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde era o nosso horário de lazer, de brincar, correr… Nossas mãe
Leia mais » -
6 março
Solidão nos olhos
Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai. Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim. Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos m
Leia mais » -
6 março
O leito do hospital
O leito do hospital era alto de muitos metros. Eu olhava o mundo de cima, com galhardia. Eu olhava o mundo como quem não olha. Eu não olhava o mundo: a vida passava. Era noite alta. O leito alto era um leito de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores, uma bomba atômica, meu Deus! Todos os barulhos do mundo chegavam ao meu leito. Era escuro. Eu estava alto, ouvindo todos os barulhos do mundo, e alheio. Doía. Em algum lugar do mundo doía. Doía em mim.
Leia mais » -
5 março
Futuro do pretérito!
As cores revelam significados marcantes e frequentes na demonstração de nossos atos, e alguns desejos mais enfáticos associam intensidade única para estruturar aquela manifestação ativa que transborda em um ato contra outro indivíduo, ou por vezes, a nós mesmos. Pode ser quando estamos à beira de um ataque de nervos, ou enchendo os olhos de lágrimas, e nossa solidão repudia qualquer um que queira adentrar em nossas vidas e trazer medo e tristeza. Eventualm
Leia mais » -
5 março
A loja de despedidas
Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e tr
Leia mais » -
4 março
Consciência econômica
Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia. Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e n
Leia mais » -
3 março
Poema #58: Passagem das horas
Fica de nós este resíduodo que ainda não fomos.Este abismo a se superare uma certa disponibilidade.Fica esta in/compreensão mútuae a dificuldade em se comunicar. Fica de nós este fragmentodo que ainda podemos ser.Este relacionamento a se elaborare uma parcela de interesse recíproco.Fica esta identificação de caráter simultâneoe o desejo de que tudo não se perca. Fica de nós este sentimento reticenteainda não de todo vivido/compartilhado.este completo des/c
Leia mais » -
2 março
Beiça
Beiça era o apelido de César Albuquerque Valladares. Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto. À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890. Era designer gráfico. T
Leia mais » -
1 março
Beijos
Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cai
Leia mais » -
1 março
-
1 março
De quando não havia internet
Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet! O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto! Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceir
Leia mais » -
1 março
Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé
Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, des
Leia mais » -
fev- 2026 -28 fevereiro
Agora eu era herói
Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remo
Leia mais » -
27 fevereiro
10 para 14
Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14. 10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.) 14 anos… Que aventura! Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça. Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop. Se x
Leia mais » -
27 fevereiro
Somos filhos da rua e da noite
O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão: — Esse cobertor é meu. O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram. — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram. Passou um carro numa poça e jogou água nos dois. — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma ba
Leia mais » -
26 fevereiro
O magro, o gordo e o miúdo
Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando inter
Leia mais » -
26 fevereiro
Mais lúdicos e sutis!
Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da Rainha Vitória, de Junho de 1837 até sua morte em Janeiro de 1901. Aqueles foram árduos anos para o povo famélico que andava pelas ruas difíceis e vazias. Muitos homens não tinham casa para dormir e se reuniam com outros, em espaços exíguos, para respirar e descansar. A pobreza da época em Londres fazia com que o povo optasse por dormir em caixões do tamanho de seu corpo,
Leia mais »





























