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  • jun- 2026 -
    8 junho

    Poema #72: Um momento… todos os momentos

    Um momento cristalizoutodos os outros momentosde espera e indagação.Um momento trouxe à tonatodos os outros momentosde sublimação dissimulada.Um momento estabeleceu o paradoxode todos os outros momentosentre o que se quer concretamentee o que se assume perante a consciênciapara fugir do inevitável.Um momento levantou questõesde todos os outros momentosdos quais buscava-se o refúgiona indiferença e no não-sinto.Um momento mostrou claramenteaquilo que os out

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  • 8 junho

    Poema #02: Involuto

    Quero a involuçãoA proteção contra os ventosÚtero da mãeTurbulência amniótica. O desequilíbrio de voltarO ser ainda sem serTodos os caminhos por andarTodas as guerras por vencer Quero o grito de mãeNa hora de parir O choro engasgadoA dor de nascer Coragem para voltarTudo feito novoCerteza de não errarLeite materno como sustento Quero vida inteiraApagadas as besteirasQuero vento novoSoprando semente verdadeira.

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  • 7 junho

    Manteiga ou margarina?

    Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos. Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês. Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefi

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  • 7 junho

    INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez. Toda manhã parece se repet

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  • 7 junho

    Um homem, um barco e um tempo

    Havia um barco, um homem e um tempo. Um barco de madeira, pequeno e velho. Um homem cansado, derrotado e velho. Um tempo desgastado, encrustado e velho. A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo. Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes… Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem. Ondas enormes como jamais sentira aquele bar

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  • 6 junho

    Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo din

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  • 6 junho

    O gordinho do STF

    Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho. Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, g

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  • 5 junho

    Noites frias

    Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação. Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia. Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com exces

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  • 5 junho

    A Caruta

    A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia. Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal. Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sent

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  • 4 junho

    À Semelhança

    O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus. O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das

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  • 4 junho

    Poema #04: Oceano de estrelas

    o teu encanto de sereialevitou a serpentepor entre minhas teiastua pele luxo de sedapor cima de mimfeito mágica de Aladdinsucumbiu com minhas destrezasteu palato de rio docedesaguou no meu remoeste tão cansado e enfermode navegações ocrese ao velejarmos sobre ondas rítmicas& místicasno compasso do som das baleias   gozamos no alto do mundoum bilhão e duzentas mil estrelas

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  • 4 junho

    Reflexo de si

    Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem

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  • 3 junho

    Passagem

    Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet os sintomas, acho que vou morrer a qualquer instante. Já me falaram que sou hipocondríaca. Claramente isso não corresponde à realidade. A d

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  • 2 junho

    Olhos de cobra

    Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superf

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  • 1 junho

    Poema #71: Tratado de Anatomia

    A anatomia dos carros na ruarevela a um homem que os vê(entre outras coisas)uma força neutra a interferire modificar a paisagem desoladade quem anteriormente os criou. A anatomia das mulheres(independente dos lugaresem que se encontram) remete-nosa uma forma viva de organização planejadaonde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada. A anatomia do pensamento de quem(por exemplo escreve este poema)nada mais é do que uma consequência imaterialde causa e efe

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  • 1 junho

    Voraz

    Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela. Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta. Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia. Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável? A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Livre  de qualquer opinião.  Sem vergonha nenhuma, deseja.  Dane-se todo o resto! De vez em quando me s

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  • 1 junho

    Pizza fria

    Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra. Era algo em sua presença. Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas. De mercado, de banco, qualquer uma. Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento. A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez. Eram divididos em duas bolha

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  • maio- 2026 -
    31 maio

    Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo

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  • 31 maio

    Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra,

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  • 31 maio

    O homem que ouvia estrelas

    Pois só quem ama pode ter ouvidoCapaz de ouvir e de entender estrelas.— Olavo Bilac Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse… Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo. E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e pr

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  • 30 maio

    O ocaso do macho

    A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada. Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo fr

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  • 30 maio

    O que sei de futebol?

    De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol. Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades! A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz. A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la. Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava

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  • 30 maio

    O Teste

    — Quantos quilos você tem? — Uns cento e dez. — Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem? — Cento e vinte e um. — Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama? — Zulmira. — Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada

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  • 29 maio

    D. Henrique

    Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio. Canto mais belo não há – diz Tia Adélia. E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela. D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim. Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esco

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  • 29 maio

    Viver não é estar vivo

    Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela. Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas funcionam sem que você tome decisão alguma. Simplesmente você respira, seu sangue corre e seus intestinos, bem, fazem o que tem que fazer.

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  • 28 maio

    Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã

    tragoa pessoa amadaaqui dentro mas amor não se prende sendo assimsolto-oao vento

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  • 28 maio

    Longe de ser triste

    O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença. A saudade boa é isso: a certeza suave de uma falta que conforta. Ela não surge com o estardalhaço da tragédia, não rasga. Aparece como um visit

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  • 28 maio

    Aurora e o Sujeito Sentimental

    Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem. O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no

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  • 27 maio

    LAR

    Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal, imune aos trabalhos domésticos. Mas parece que ela quer me penalizar, por ter sido a vida inteira dona de casa profissional. Às vezes acho q

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  • 26 maio

    Dente na garganta

    Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o

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