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  • maio- 2026 -
    25 maio

    Visagem

    A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela. Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia. Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada. Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã. Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo… Os olhares cada vez mais atônitos! Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima a

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  • 25 maio

    Poema #70: Trágica & Cômico

    A cada dia vai-se diminuindoo meu espaço vital.Isto porque quando comecei a sentir-meparte integrante do mundoeu já havia sido expulso do mundo.Toda uma vidatodo um aprendizadoadquirido na sombra e no silêncio de indivíduoé tão somente de conhecimento meu próprio.Só eu sei dos mecanismos mentaisque implicam em cada gestoem cada palavraque ensaiando digo às paredesque ainda não foram construídas.Encenei para mim mesmo uma tragicomédiana qual sou o único per

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  • 25 maio

    Desobediência

    Zími tomou um ácido e saiu. Cidinha era caixa do mercado perto da casa dele. Ela era refém da escala 6×1 e sua gravidez estava avançada o suficiente para que o esforço e o desgaste daquele trabalho já parecessem excessivos. Zími, que mora na Rua da Glória, chega a pé ao mercado em sete minutos. Ele só saiu naquele horário porque os ítens que precisava comprar eram essenciais. Duas da tarde de uma terça-feira insanamente quente, que castigava as massas

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  • 24 maio

    O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar… Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos,

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  • 24 maio

    Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida” Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida. A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso. Para outras idas e vindas nã

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  • 24 maio

    INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto. — Não nos conhecemos de algum lugar? — Acho difícil. — Difícil, por quê? — Eu me lembraria de você. — É? — É. — Sou tão notável assim? — Ô… — Você também chama a atenção, de tão bonita. — Preferia que não. — Por timidez? — Por conve

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  • 23 maio

    Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, a

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  • 22 maio

    Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa. Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela n

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  • 22 maio

    O Bito

    Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca. Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas. Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo. Enxergava m

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  • 21 maio

    Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádiotocaum clássico rock anos 80 — ainda não sei de quem —mas seique toda vezque essa música-clássicotoca todas as estações do rádiosintonizamtua imagem-clipedando coresa um passadoque ficou em branco. *

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  • 21 maio

    Meu amigo Tibúrcio

    Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de s

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  • 21 maio

    Esquinas da alma

    A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim. Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, s

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  • 20 maio

    Liberdade última

    Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha tempo para ficar comigo – hoje suspeito que não tinha aptidão para ser mãe, para cuidar de outra pessoa. Sendo uma casa geminada, eu entrava

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  • 19 maio

    Gerô

    E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado. Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com a

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  • 18 maio

    Turbulência

    Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz.  Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra.  Não sou assim. Meus textos são ansiosos! Vomitam verdades e mentiras com medo do arrependimento. Saem pela fresta da porta espremidos, em

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  • 18 maio

    Poema #69: Tatuagem

    O corpo utilizadopara a afirmaçãode uma individualidade,de resto inexistente. A individualidade,como um fantasma abstrato,esconde-se por detrásda porosa pele. A tatuagem utilizadapara a identificaçãodos corpos, vítimasdo desastre aéreo. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • 18 maio

    A bituca na cerveja

    Zími usava uma camiseta com a caricatura de Donald com um grande alargador na orelha, numa alusão a um dos supostos atentados. Mila Cox escrevia uma letra sobre como alguém que supostamente criou o universo precisava de dez por cento do salário de um pobre infeliz de um país periférico. O processo de composição da dupla consistia em criticar o Estado, a Igreja e a família tradicional com letras diretas, em português ou inglês. Portanto, nunca sobrou tanto

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  • 17 maio

    Overkill em copacabana

    Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do

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  • 17 maio

    Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso. Mesmo assim, algo tinha desaparecido. Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava pe

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  • 17 maio

    Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro. Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agr

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  • 17 maio

    Desistências e permanências

    A sala de aula, em algum momento, ficará vazia. Quando isso ocorrer, morrerá um país… A história do professor no Brasil é feita de desistências e permanências cotidianas. Desistências que fazem parte do diário, do quadro e do boletim. Permanências que fazem parte do olhar, do sentir e do fazer… Desisto de ser professor toda vez que as planilhas e plataformas me dão mais retrabalho e acúmulo de coisas e mais cobranças, tirando mais o meu tempo e me distanci

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  • 17 maio

    ISABELLE DE JOUR

    Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras. Trabalho no

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  • 16 maio

    A FUGA E A FESTA

    Pensa bem, Marcelo, você acha que vale a pena? Você pode se arrepender. Acabar com tudo assim, por uma bobagem. Você precisa concordar comigo que se trata de uma bobagem, poderia ter acontecido com qualquer um. Me dá a impressão de que está procurando uma desculpa. Você sente prazer em me ver implorando. Eu não me importo, eu me ajoelho se você quiser. É isso que você quer, Marcelo? Marcelo, olha pra mim, presta atenção, alguém como eu não se encontra em q

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  • 16 maio

    Entre páginas e anos

    Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo. Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O est

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  • 16 maio

    Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré) Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério. Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando dur

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  • 15 maio

    A metafísica do corpo

    Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos. Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sa

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  • 15 maio

    O derradeiro encontro

    A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida. Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por el

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  • 14 maio

    Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhosvocê passa um palavrão altosaina boca do becoda minha mente a ponta-metal do teu saltoarrebentao meu tímpano-peitonum som estridente e no meio do palcoperco todo o sentidofeito fã cego idolatrando artistaem seu show ao vivo

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  • 14 maio

    A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhav

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  • 14 maio

    Duas eternidades de escuridão

    O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nó

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