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fev- 2026 -9 fevereiro
A dúvida é mais cruel que qualquer verdade
Zími acordou cedo e estava em bom estado. Trabalha em casa, assistindo antes ao noticiário da manhã, que lhe agrada por mostrar ao vivo as condições surreais do transporte público. Ele estava livre disso depois de anos, mas a forma como o povo é obrigado a se deslocar para o trabalho como gado de corte ainda o chocava. Nunca havia o menor esboço de rebelião por parte de quem é obrigado a simplesmente doar todo o tempo e energia de sua vida e aind
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9 fevereiro
Poema #55: Linguagem do escuro
Agora que a luz se apagoue a solidão restabeleceu seu domínio,ouço com receio a linguagem do escuroque me des-norteia a vida. Nasci sob o signo da mortemas prefiro-a assim,conquistada aos poucos.Porção diária de venenoque injeto na raiz da vidaaté que ela, afinal, desapareça. E a linguagem do escuro prevalece(ainda que se acendam todas as luzes)como sendo a linguagem universal de tudoa tecer as teias da incompreensão fraterna.Areia (À Fragmentação da Pedra
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8 fevereiro
Nas alturas, um café com o Redentor
Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações. (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.) Vejo, a princípio,
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8 fevereiro
Poema #02: Sem alarde
Não era o primeiro a chegartambém não era o últimoficava no meio. Lugar pouco disputado,onde ninguém posae quase ninguém repara. Enquanto alguns se apressavam em brilhare outros reclamavam da falta de luzele aguardava. Não parecia esperar nada específicotalvez só o tempo exato em que algo se revelasem fazer alarde. Foi assim que aprendi:nem toda claridade quer vencer a noitealgumas só querem caber dentro delapor um instante e depois seguir vagalumeando
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8 fevereiro
Poema #15: Um Soneto da Lua
Ainda que sejam versos pequenos…Uns simples versos que sejam ao menos,os ventos os empurrarão no tempoonde serão o eterno consentimento. Toda a lua brilha alta e resplandeceporque deseja muito o amor do mar.Acaricia um instante e depois reflete:é a busca de nunca encontrar. Como um solitário que ri na estradaé toda ela amor…uma imagem vaga,tempero de emoções, fogo que estala. Sendo certo o errado e não sendoa peleja da busca, o contratempo,ainda que seja u
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7 fevereiro
Super pobres
Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão. Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e pri
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7 fevereiro
Solidão x Solitude
Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade. No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir. Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôs
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6 fevereiro
Parada em ventania
Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que
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6 fevereiro
Ser surpreendido
Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos. Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz. A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam. Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar. Por dever
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5 fevereiro
O grande acontecimento
Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso. No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite
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5 fevereiro
Capacitismo
A discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência, são vistos como normais em sociedades desinformadas ou mal-intencionadas, e essas pessoas são entendidas como exceções; eles creem que a deficiência é algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica. Um exemplo de postura inadequada, é dirigir-se ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física, ao invés de dirigir-se diretamente à própria pessoa. Atitude
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4 fevereiro
Matei
Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada
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3 fevereiro
Meu primeiro grito de carnaval
Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia. Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.
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2 fevereiro
Soberba
No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?” O vovô respondeu: “Nunca me preocupei com o futuro. Sempre temi pelo presente mesmo. Mas nunca na mesma intensidade de hoje em dia.” Neta: “Sim, mas você não é tão velhinho como os vovôs dos meus amigos. Tem algum medo
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1 fevereiro
Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!
Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena co
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1 fevereiro
Meu relógio é de borracha
Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado. Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de p
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1 fevereiro
Uma Crônica Canina – parte 4: Entre Cães e Monstros
Em que ponto da nossa trajetória como humanas criaturas vamos nos perdendo de nossa essência? Em que ponto dessa trajetória viramos bichos, ou melhor, monstros? Há uma semana, um crime brutal ocorreu em Santa Catarina, a violenta e absurda morte do cachorro Orelha! Morte cruel, inaceitável e que nos coloca a incômoda e persistente pergunta: o que houve com o humano? Bestas feras que ignoram a razão e desprezam a vida! E o mais aterrorizante, a normal
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1 fevereiro
Comunismo na prática
São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse. As opçõe
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jan- 2026 -31 janeiro
BBB
Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia. Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado pa
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31 janeiro
A Presença
Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si? Onde fica? É cidade, é país? Em que continente? Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal. Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame. Con
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31 janeiro
Minha menina
Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada. Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos. Busco convencê-la de qu
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30 janeiro
Voz de IA
Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida. E como é que isso dá certo? As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade vo
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30 janeiro
Entre o que se escreve e o que se publica
Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores n
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30 janeiro
Nono marido
A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos. Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos m
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29 janeiro
Trevas de nossas dúvidas!
As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, foram criadas na Grécia antiga. Apesar de parecerem rudimentares pelos padrões atuais, essas coleiras cumpriram um papel essencial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma das maiores ameaças: os lobos. Na Grécia antiga, os cães eram usados para diversas funções, como pastoreio e proteção. No entanto, os ataques de lobos, representavam um risco
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29 janeiro
STRIPTEASE
De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um p
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29 janeiro
Moça em janela de hotel
Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mes
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28 janeiro
A falta
Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um ap
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27 janeiro
O Bom Humor de Cada Dia
Não sei quanto a vocês, mas acho que o bom humor anda em falta no mercado. Houve um tempo em que bastava virar pro sujeito no ponto de ônibus, reclamar da demora, e alguém já emendava uma piada. O dono da banca comentava o calor, o porteiro dizia qualquer bobagem, o manobrista ria de si mesmo, o flanelinha improvisava um comentário espirituoso, a moça da farmácia devolvia o troco com uma graça inesperada. A gente ria no meio do dia, sem perceber. De uns te
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26 janeiro
Vilania
Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar. A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes se arrastando no underground durante os últimos anos, era satisfatória. Eles gostavam de acreditar que a dor existe no que há entre aquilo que as pessoas são, e aquilo que elas idealizam ser. Como eles não tinham o ego inflado, estava tudo bem.&nb
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