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maio- 2026 -13 maio
Mabel
Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para
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13 maio
A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé
Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das
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11 maio
A grama do vizinho é artificial
Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia: “Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.” Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo. Seu pai o estimava como aqu
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11 maio
Poema #68: Sobrevivência no quarto
ITenho comigomilhões de cadáveresque apodrecem seus ossosjá destituídos do ímpetoque movimenta os homens vivospara a conquista de algo. IITenho comigoa inércia do corpoque aniquila o meu sonhojá despojado da vidaque antes impedia o planode me alimentar desses ossos. IIIO que sou hoje é esta certezade não ser senão em mim.O que sou hoje é este impulsoem preservar o que já está desfeito.O que sou hoje é esta incapacidadede desempenhar papel no mundo.O que so
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11 maio
Poema #01: Incondicional
Entre tantas vozesTantos abraçosEntre tantos conselhosEm meio ao cansaço Quando sorrioOu quando choroSe me surpreendoOu me apavoro Se a alegria é tantaOu a decepção é muita,Importa ter o teu colo, Mãe,Pra valer a pena continuar.
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10 maio
Inopinadamente, flores
— para minha mãe, Lucia. Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante. De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam. Por um breve, quase memorável períod
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10 maio
Dia das Mães
Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado… Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão… Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos. Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro… Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é? Há coisas que chegam assim, num sussurro… N
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10 maio
O outro pé da meia
Noite fria, escura.Abre a portinhola. A roda gira.De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.Segue em passadas trôpegas seu caminho. **** Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o cora
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10 maio
Rosane desistiu
Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar. A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde quemostrem v
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9 maio
A cartomante do fim da rua
1. A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exata
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9 maio
Mundos Paralelos
As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar. Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos. Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.” Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas
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9 maio
CARAS E COROAS
“Esse cara sou eu” (Roberto Carlos) Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados. Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa
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8 maio
Ulisses à beira da lagoa Rodrigo de Freitas
Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão. Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que inv
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8 maio
A GAIVOTA
Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota. Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o s
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7 maio
Um gênio e um louco
Em 1879, o Professor James Murray candidatou-se para liderar a tarefa de elaborar o célebre Oxford Dictionary of English. Monstruosa empreitada que consistiu em colocar toda a língua inglesa em livros, bem como a etimologia das palavras e o sentido de cada termo. O filme “O Gênio e o Louco”, que foi aos cinemas em 2019, contou essa história: um grupo de sábios reuniu-se para resolver a pendência de 20 anos da Universidade de Oxford. No papel do Dr. William
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7 maio
Foi assim que tudo começou
No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom. No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom. No terceir
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6 maio
Prisão
Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às
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5 maio
Pisando na merda
No macro, Donald parecia um garotinho que subiu numa árvore e não sabia descer. No micro, o erro principal de um outro idiota foi abordá-la tentando falar sobre rock. Ele era um vizinho do bairro da Liberdade. O tiozão de churrasco que saía de moto, dizia que gostava de rock. Donald era seu ídolo. Tinha uma família falida em todo e qualquer aspecto possível, idealizada anos antes por ele mesmo, e agora não tinha a quem recorrer, nem mesmo
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4 maio
Li ho visto passare
Dove mi nasconderò?Dove mi sentirò?L’appartenenza non è piùChe la gentilezza Di far nullaSenzaUna scelta. Il poema sarebbe belloSe non fossi ioA scrivirtelo,Dall’uomo che suona zeroInsomma, dammelo subito!Che poi riesco a diventare…Ansito. Chiusa è l’ombra poiché si èavvolta alla finestrae finchè La parola più lungaSotto l’esistenza esternaTrovasi infatti un esempioCioè, una resistenzaIncerta. Dimmi di più, dimmi di sì, di no…Su di noi lo scont
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4 maio
SITUAÇÃO
Alguma coisa se move e não é pouca. Contudo não sabemos definir exatamente sua natureza e extensão. Não obstante algo acontece e estamos inseridos, como blocos de nuvens a caminho do abismo. Somos protagonistas meio tontos no mundo e não sabemos ao certo o seu desfecho. E se vivemos de uma forma obscura é porque é assim que sempre acontece nas cavernas em tempos sombrios. Nossa percepção das coisas anda meio embaçada, mas são as teias dos nossos olhos que
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3 maio
O que há de velho?
Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido. O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador t
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3 maio
No raso, a/mar não ensina — derruba
Aquosa, a superfície reflexiva. – custa a – Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso. – …entender que aquela é – (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sentia. Sentia – e segue sentindo – a falta de si, dela própria; demora-se na compreensão da charada. Só então veste-se de si mesma. – …
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3 maio
Sucesso
Diana Duran, cantora e compositora, planejava lançar seu novo álbum com músicas inéditas. Algumas faixas em inglês. Quando Diana cantava em outro idioma, inventava erros linguísticos somente pela graça do viés poético. Adorava aliterações, repetições de sons para dar ênfase ao conceito. Para ela, certos sons se encaixavam melhor nas canções, ainda que pudessem soar algo inusuais. As letras simples falavam de amor e solidão. Tinha um tipo de poesia blasé co
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3 maio
Arca em regime fechado
Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê. Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais. Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas. E assim começou o v
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3 maio
Crônica sobre uma foto: a estação rodoviária
Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo. É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cacho
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2 maio
Sertanejo Universitário
“Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” — (Gusttavo Lima) Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ suge
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2 maio
Metamorfose
A lagarta vira borboleta. Mas a borboleta não volta a ser lagarta. Existem as boas mudanças e aquelas diante das quais exclamamos: eu achei que não podia piorar! Quando mais jovem ouvi a expressão: A mudança é a única constante da vida. Adquirimos novos gostos, costumes, amores, desafetos, casas, amigos, opiniões e o que mais quisermos, ao longo da nossa vida. Sem perceber… mudamos. É bom? Depende do ponto de vista. Os pais acham óti
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2 maio
A aventura
Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava: — Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de
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1 maio
Zebras à vista na copa do mundo
Estava passando em revista os 12 grupos da copa do mundo de futebol e conhecendo as 48 equipes. Um comportamento estranho, admito, porque nunca fui fã de copa do mundo, como atestam as pessoas que me conhecem. Verdade. Me entusiasmei mais com a copa do mundo de clubes, aquela do ano passado em que meu Fluminense surpreendeu a todos que não o conhecem, naturalmente. Visto isso, por que diabo queimei minhas pestanas conferindo quem vai participar? Porque eu
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1 maio
Os dois chapéus
Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando: – Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio. – Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o
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