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jan- 2026 -26 janeiro
Poema #54: Intervalo
“Eu quero os meus brinquedos novamente!Sou um pobre meninoQue envelheceu, um dia, de repente!”Mário Quintana (1906-1994) Tenho quarenta e cinco anose já neste meu último aniversáriofoi levantada a hipótese irreversíveldo envelhecimento antes da morte,mas nunca sabemos o que virá primeiro. Seja como for o assunto é desagradável. Imaginei-me de carteirinha sexagenária,entrando pela porta da frente dos ônibuse viajando de graça pelo país dos meus netos. Logo
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25 janeiro
Solas
Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa. 25 de Janeiro de 1851 Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me esper
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25 janeiro
Chegar partindo
Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos. E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa. Na tentativa de minorar a culpa, a busca de
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25 janeiro
Quando deixamos de ser heróis
É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões! Não deveria ser assim, mas é… Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem! Mas… e quando nós somos olhados dessa forma? Dei
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24 janeiro
Eu sou motoboy
Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano. Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no t
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24 janeiro
O Encontro
O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais… Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo… Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar. O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e
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24 janeiro
Sabedoria de bar
Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão. — Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido. — Sim, verdade. Mas o que eu ac
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23 janeiro
A vó do menino
A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa. – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração. Serve-nos uma xícara de café, e continua: – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava. – Mas ele conheceu a vó? – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze. – Então, é porque fica sozinho naquele casarão? – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa
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23 janeiro
Para entender aquarela – ou não
É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores. Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta. Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel. Se a superfície estiver seca, elas
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22 janeiro
Um pássaro
Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo. Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Hav
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22 janeiro
A verdade pela mentira!
A composição de um mosaico de histórias, pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor. Se o livro for mal-ajambrado, e não nos levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico, que busca temáticas diferentes, sensíveis ao coração humano. A desconstrução de uma tradição, serve como alavanca para o desenho de uma nova narrativa, descrita pelos olho
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21 janeiro
Herança
Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É pratic
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20 janeiro
Anotações sobre Mario Quintana
“Porta giratória”, de Mário Quintana, é, de longe, o melhor livro de crônicas que já li na minha vida. Se levanto de manhã, quero abrir o livro. Se estou longe de casa, quero chegar logo para ler, nem que seja um trecho, antes de dormir. Neste caso, como beleza é algo que eu não consigo ver sozinho, aproveitei minha coluna de hoje para que vocês vejam também. “Diálogo familiar — Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias? — Ora,
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19 janeiro
Poema #53: Ciclo II
Quando a chuva neutralizara esperança das flores, no chãouma semente irá se desenvolverà imagem e perspectiva de tornar-se,sintetizando em si todo o anseio dos homenspara que de seus ossos não se faça apenasum cemitério, mas também um canteiro.Areia (À Fragmentação da Pedra)
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19 janeiro
Dinossaura herbívora
A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks. Ela só falava quando solicitada. E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de seu interesse, nada podia detê-la. Isso deliciava a curiosidade dos netos e causava atrito com os filhos, um casal de gêmeos adotivos. Ainda assim, conversava com os netos sobre qualquer tema que lhe fo
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18 janeiro
Rio abaixo…
Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito: “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais
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18 janeiro
vida [e mundo] como um sopro
Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – poucas -, zunidos de um linguajar que não se compreende, que preenche tudo o que parece ser vazio. De repente, uma cor vibriônica desponta velo
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16 janeiro
Memórias entre Ruínas
Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas. Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma Vênus com a cabeça decepada, ao lado, que sorri ainda o seu sorriso sensual. Olho-a bem: o sorriso se crispa de dor. Levanto um martelo do chão. Para que serve um martelo, agora? Quebro o tampo de má
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15 janeiro
Tem coisas nesta vida que a gente não esquece
Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela, o caminho de crochê na mesa de jantar, a cortina de veludo — velharias cujo registro a memória já apagou. Há muito tempo a casa está vazia de sua voz e seu abecedário. Nos últimos meses ela tem se d
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15 janeiro
O Último Azul
Qual é o maior pecado que devemos temer em face de nossa caminhada escaldante, que por vezes é gélida de emoções? A certeza. Essa é a grande inimiga da união entre os povos, e da tolerância que espreita nossos atos mais dignos. Quando Jesus estava na cruz também não teve certezas, por volta das três da tarde bradou em voz alta: Eloí, Eloí, lema sabactâni? Que significa: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” O que realm
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14 janeiro
Ano-Novo
Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas me agradam. Não acredito que alguma simpatia vai mudar o nosso fado. Preciso ver os meus pais, então continuo olhando para o chão. Esbarro n
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13 janeiro
Sem frases motivacionais daqui pra frente
Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo. É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-dout
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12 janeiro
Poema #52: Ciclo I
A vida,em todas as suas formas,revela a sutileza de um mágicoque hipnotiza a todospara que não vejam seus truques falhos. Os homens,em todas as suas crenças,revelam a idiotice de um asnoque acredita em tudopor não ser capaz de discernir o óbvio. Os homens,com todos os seus mágicos,revelam a estupidez da espécieque acredita na vidacomo sendo o caminho para a salvação. A vida,com todas as suas armadilhas,revela a esperteza de um camaleãoque dissimula aos hom
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12 janeiro
SUB VIDA
A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’ O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’ Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’ Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pe
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11 janeiro
Looping quotidiano
O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam: — Data de nascimento?— CPF…?— CEP..?— Telefone, com DDD:— Sabe seu peso? Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro f
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11 janeiro
TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas
Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez. Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba
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11 janeiro
Nada de novo no front II
Começamos mais um ano e notícias de guerra voam pelos ares, atravessam fronteiras e chegam às nossas casas, em todas as casas. A despeito da poesia e da vida, velhos amargurados jogam meninos no campo de batalha e exigem vitória. A despeito do pulso e do pulsar das coisas, estes mesmos velhos, donos do mundo, brincam com fronteiras e bandeiras, ignoram sonhos e seguem arrotando e resmungando superioridades. Começamos mais um ano. As bombas ainda caem na Uc
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10 janeiro
Bora
Brasileiros de todas regiões e rincões têm o privilégio de dispor de um cardápio infindável de palavras para expressar ideias e sentimentos, com folga de opções semânticas. Nem mesmo o meio milhão de verbetes (além de gírias, regionalismos, neologismos e termos técnicos não catalogados) do Aurélio ou do Houaiss parecem ser suficientes para impedir que nosso falastrão povo recorra a novos termos para exercer sua voracidade verborrágica-papagatória. Tudo bem
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9 janeiro
Olho Mágico
A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado. – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse. O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho. Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.” Os dois comeram juntos.
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8 janeiro
O que acontece dentro de casa
O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pessoas saibam o que acontece entre as quatro paredes de um lar. A vergonha me paralisava e eu ficava quieta como um caramujo dentro da concha, e ele se sentia livre para fazer o que quisesse. Eu chorava
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