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abr- 2026 -17 abril
O fiteiro
Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos. Instalado no apartamento, o fite
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17 abril
História de Abelha
Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o
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16 abril
Tempo da mudança de atitude!
Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas. Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço. Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encont
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16 abril
Enquete
Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já co
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15 abril
Não tô nem aí
Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco,
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14 abril
O outro pior encontro casual
Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo. Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim. Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectua
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13 abril
Poema #64: Reta final
Em tesetudo é possívelmas na práticanada acontece.Eu sou a antítesede todos os axiomasbenéficos.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
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13 abril
Esteta
Então ela completou dezoito anos e ia para a faculdade. O tempo era de guerra, Donald estava botando tudo a perder, e o que ela tinha aprendido de mais relevante sobre o que quer que fosse, foi através de sua tia, que apesar de jovem, estava muito à frente do resto da família em maturidade e cultura. Algumas ideias sobre música, política e amor eram os pilares sobre os quais a sobrinha se sustentava naquele momento de guinada, e agradecia por ter naquele m
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12 abril
Venerandas folhas amarelas que não são do outono
E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos. Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogã
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12 abril
Cansaço miúdo
Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário. Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber. As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído. Pequena tarefa que
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12 abril
Coisas de vento para prosa
Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento. Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão. Coisas de vento que nos
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12 abril
Orgulho ferido
Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista. Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos
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11 abril
O Circo
Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando: — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi? — O que você viu, guri? Conta logo! — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo! — Verdade? — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz. Pronto! Era verdade sim! Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. N
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11 abril
Líbano libre
Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe. Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumav
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11 abril
Catarina
Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por
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10 abril
Cinema com meus olhos
Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição. Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los. Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso. N
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10 abril
Os anos de chumbo
Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes. Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica. Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatel
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9 abril
Um tom diferente na tinta da retina!
No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant. Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio
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9 abril
O instante
No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não
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8 abril
Pais de filhos mortos
Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos coleg
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7 abril
Dias melhores
Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores? Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica n
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6 abril
A cana na moenda
Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo. A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível. Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos
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6 abril
Jogo das palavras
O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento? Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir. O erro
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6 abril
Poema #63: Reivindicações
Eu sei que eu mereço(embora talvez eu não venha ater) o meu nome num nome de rua. Eu sei que eu mereçouma estátua de bronzena praça de Ervália. Eu sei que eu mereçodenominar a Casa daCultura como o poeta que sou. Eu sei que eu mereçocasar com uma mulhernegra, que é o meu sonhode consumo. Eu sei que eu mereçoter um aumento de saláriopara poder sobreviver. Eu sei que eu mereçoganhar um prêmio literáriopara pagar as dívidas. Eu sei que eu mereçopescar um peix
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5 abril
A era do instantâneo
Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo. Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados! O que estamos fazendo com o nosso tempo? Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo! O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas. Nunca, em tão pouco e
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5 abril
Reintegração das águas em si: páscoa
— Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.— Ele é bom de…— Bond. James Bond. Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que s
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5 abril
AUGÚRIO
Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia. Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros
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5 abril
Poema #04: Flor no Asfalto
Chamam de resiliênciaessa palavra polida,de palco e de LinkedIn,que ensina a atravessar ruínascom a coluna ereta. Resiliência:dizem ser força,dizem ser método,dizem ser quase virtude corporativa. Mas outro diaela me apareceu diferente —não em gráficos,nem em discursos bem ensaiados, mas numa fresta de asfalto: uma flor. Pequena, improvável,sem plateia, sem legenda,rompendo o cinzacom a delicadeza de quem não pede licença. Ali estava tudo. Porque a terra sa
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4 abril
Digníssimo canalha
Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogávei
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4 abril
Simulações
Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da p
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