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dez- 2025 -20 dezembro
Reflexões em tempos de espanto
Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote? Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…
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19 dezembro
Maria Quitéria
Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte. “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.” Olha para a esquerda, vesgo na eternidade. “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.” A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado. “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.” – Na igreja, eu sei. Dava para o padre. – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana. – Perseguia a filha em tudo quanto era canto. – É. No ba
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19 dezembro
Morrer de amor
Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri. Por que sorriu? Lembrou dos amores passados? Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro
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18 dezembro
Pelos olhos de um cavalo
Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom que a corta pelo meio, observei o lado norte, a parte sul, as casas iguais, esquadrinhei seus telhados. Era mesmo bela aquela cidade. A poucos passos de mim estava um cavalo olhando quieto a paisagem es
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18 dezembro
Nossa frágil condição humana!
Histórias e piadas contadas por nossa família e amigos, invariavelmente nos fazem rir, mas se forem das boas. Observando no detalhe, elas contam histórias sobre o mal, ou de uma desgraça alheia. A bondade não tem graça nenhuma, somente se ao final a história virar um desastre. O filósofo francês Henri Bergson disse que o cômico exigia algo como uma momentânea anestesia do coração. “O riso não tem maior inimigo que o coração”, por is
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17 dezembro
Peregrinação
Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escur
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16 dezembro
Está tão difícil ser eu
Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você. — Você sabe quem está falando?— Não faço a menor ideia.— Ah, sabe sim.— Sei não. A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se
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15 dezembro
Sacripantas
Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo. Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço. Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhand
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14 dezembro
Nota de abertura
(nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo. DIIIIIIIIIIIIM. (Silêncio) Sura Berditchevsky parou por diversas vezes um ensaio do musical mais emblemático da minha carreira de atriz, sobre os anos 60 (60, O MUSICAL, texto da amada Bibian
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14 dezembro
Só a bailarina que não tem
Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu? Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda.
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14 dezembro
Uma crônica quase poesia
Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo. Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída. Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado. Uma crônica tão curti
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13 dezembro
Por que as pessoas gritam?
Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado. “A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disp
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13 dezembro
A ordem é amar?
O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública. A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa me
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12 dezembro
A Manquinha
Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo. Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste. Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó. Que pena a Manquinha, com o seu coto de perna! Fosse gente, teria uma muleta. Uma filhinha, que lhe traria um prato de comida. Ou nem teria essa filhinha – e ficaria, pobrezinha, num canto pedindo esmola. Já imagina
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11 dezembro
O peregrino
Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio. No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graç
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11 dezembro
Um tom diferente na tinta da retina
No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant. Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um car
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10 dezembro
Nova idade
Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com u
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9 dezembro
O mar é logo ali
Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha. Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá c
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8 dezembro
Poema #48: Instante de delírio
Olho para o vaziode meus olhos.O espelhonão reflete mais o amor,outrora visível. Imagens tão nítidasse me afloram perdidasna incongruência do vidro,uma vez descascada sua tintaprateada de reflexão. E agora as manhãstrazem o hálito da perda,do que fui e que no meu delíriose esgotou em fome. Não a fome dos homensdo nordeste, biológica.Tampouco a fome dos homenscivilizados, que inventaram a fomepara dois terços do mundo. Mas fome ela mesma,que não se come e m
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8 dezembro
Poema #09: Dominó
Não escanda a minha fala.Escancarar uma taranem sempre é um bom negócio. Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.Um dia, quando nada sobrar,elas ainda farão o seu coração bater. É como diziam os romanos:tudo em latim.Ninguém entende, todo mundo concorda.
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8 dezembro
Obscuros
No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína. Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento. Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo. Ele tinha trinta e oito anos. Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que poten
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7 dezembro
Caos contraproducente
Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais. Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente do que também pode ser um ramo de gravetos1 , o caos é quase palpável. Percebi, ao procurar o volume no topo de rol das minhas leituras que,
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7 dezembro
A Leoa e o menino
O menino sonha os seus sonhos de menino. Voar, cantar, adestrar leões! A leoa faz o que uma leoa sabe fazer, observar atentamente e esperar o momento certo para atacar, afinal, o que um leão faz de melhor a não ser atacar com precisão a sua presa? O menino foi esquecido pelo tempo, pelo relógio e pelos olhares. O menino esqueceu-se de si mesmo… Solto nas ruas, fechou-se em si mesmo nos seus sonhos e nos seus devaneios. A leoa treina e treina cada pulo, cad
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7 dezembro
O retratista fiel
Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas. Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava. Na varanda da casa onde morei com
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6 dezembro
Breve encontro
Hoje, por acaso, tropecei no passado. Um banco de madeira, daqueles que encontramos nas pracinhas, a sombra de uma árvore de flores amarelas e a brisa suave de um fim de tarde me levaram à infância. Lá encontrei minha inocência, o castelo suntuoso dos meus sonhos, a paz de saber-me neta da minha avó e todas as garantias de amparo advindas dessa benção. Bolas de sabão sopradas ao vento pela menina de vestido floral faziam ecoar no tempo as gargalhadas
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6 dezembro
Um ouvido novo, para uma história velha…
Que atire a primeira pedra quem não passou por isso! Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem? Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde
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5 dezembro
Cultura popular
Ah, essa cultura popular do momento. Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café. Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que e
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5 dezembro
O amor, sem querer, acaba
“Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor. Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem
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5 dezembro
O Ouriço
Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente. Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira. O Duque não pode morder
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4 dezembro
Não se deixe levar pelo contágio alheio!
A Sociedade Teosófica é um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor. Pode ser considerada uma das poucas democráticas disponíveis a todos os povos. Ela encoraja o estudo da Religião comparada a Filosofia e Ciência, e Investiga as leis não explicadas da Natureza, e os poderes latentes no homem. Ela não impõe nenhuma crença sobre seus membros, que se unem espontaneamente pelo objetivo comum de buscar a
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