Crônicas Cariocas

  • Enquete

    Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

    Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

    Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão à parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • Raul Seixas: A Trilha Sonora da Minha Vida

    1968 – Raulzito e os Panteras

    É um disco da Jovem Guarda, com características e sonoridade próprias do movimento: letras ingênuas e guitarras bem ao estilo dos grupos de rock do exterior, sobretudo os Beatles. Particularmente é um disco que não me atrai se comparado ao que viria depois dele. Mas nem por isso deixa de ter músicas bonitas como no caso de “Dê-me tua mão” e “Menina de Amaralina”. Comercialmente, o disco foi um fracasso em todos os sentidos. Mas se por um lado não aconteceu do jeito que eles esperavam, pelo menos a intenção não foi das piores. Destaque para “Me deixa em paz”, um dos melhores rocks que Raul compôs em sua fase romântica.


    1971 – Sociedade da Grã – Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez

    É o disco mais louco do Raul. Aqui, o Raulzito de outrora foi embora dando lugar ao Raul Seixas que todos nós conhecemos. É bem provável que este seja o disco mais rebelde da história da música brasileira. Anárquico, tem de tudo: samba, rock, maxixe, chorinho, bolero…e vale até mesmo como uma crônica do Rio de Janeiro daqueles tempos, além de ser um registro histórico da parceria entre Raul e um outro grande compositor que poucos conhecem: Sérgio Sampaio.


    1973 – Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock

    Um disco de releituras dos grandes clássicos do rock nacional e internacional. Interessante é que quando foi lançado não trazia o nome do Raul na capa e sim de uma banda chamada “Rock Generation”. Na verdade, a suposta banda era formada pelo Raul, o cunhado Jay Vaquer e outros músicos. É barulhento. Foi reeditado em 1975 com o título de 20 anos de rock.


    1973 – Krig Há – Bandolo!


    O álbum é forte em vários sentidos: além do título “Krig Há – Bandolo” que é o grito de guerra do Tarzan e significa “Cuidado, aí vem o inimigo”, a faixa “Mosca na sopa”, já abre o LP dizendo quem é o tal inimigo. Além de ter sido o marco inicial da lendária parceria com o Paulo Coelho. Quase todo o álbum é feito de sucessos, alguns se tornaram clássicos eternos do rock nacional: “Al Capone”, “Metamorfose Ambulante”, a própria “Mosca na sopa”, a belíssima “How Could I Know” e “Ouro de Tolo”. Um dos melhores discos do rock brasileiro


    1974 – Gita


    Raul estava em sua melhor fase. Mergulhado cada vez mais no misticismo e nas ideias de Aleister Crowley, ele gravou um dos seus melhores discos. O disco é marcante por trazer a faixa “Sociedade Alternativa” que se tornou o hino de toda uma geração que acreditou e ainda acredita em uma sociedade unida por um mesmo ideal libertário. Além de contar com outros grandes clássicos como “O trem da Sete” que talvez seja a letra mais mística do Raul, a bem humorada “Super – Heróis”, “Medo da Chuva” com sua bonita melodia e “Gita”, um dos maiores sucessos da carreira de Raulzito. Discão. Mas o maior destaque é a capa, linda


    1975 – Novo Aeon

    Se no disco anterior Raul começava a botar indícios de misticismo em sua obra, neste disco isso está muito mais evidente. Muitos consideram esse o melhor trabalho de Raul Seixas. De fato, é um disco impecável do início ao fim. Tem algumas curiosidades como a introdução da música “Rock de Diabo” que é a mesma da música “Honey Don´t” do roqueiro americano Carl Perkins. A música “Peixuxa” lembra muito “Obladi- Oblada” dos Beatles. “A Maçã” é uma das músicas mais bonitas de toda a obra do Raul Seixas e pra fechar tem a minha música preferida dele: Para Nóia. Realmente é um disco muito bom, embora não seja o meu preferido.


    1976 – Há Dez Mil Anos Atrás


    É o último disco da fase mais produtiva do Raul e também o fim da parceria com o Paulo Coelho. Eles ainda voltariam a trabalhar juntos no disco “Mata Virgem”. “Há dez mil anos atrás” é um álbum recheado de letras consistentes. Em “Ave Maria da Rua” Raul solta a voz e emociona com uma interpretação marcante. O arranjo lembra muito a música “Bridge Over Trouble Water” da dupla Simon e Garfunkel. Já em “O dia da saudade” é possível notar semelhança com “Back in the USSR” dos Beatles. “Eu também vou reclamar” é uma das letras mais legais do Raul e é difícil não se emocionar com “O Homem”. É o único disco onde praticamente todas as músicas foram compostas por Raul Seixas e Paulo Coelho. Com exceção de “O dia da saudade” que é de autoria do Raul com o Jay Vaquer. É um dos discos que eu mais gosto


    1977 – Raul Rock Seixas

    Mais um disco com regravações de clássicos do Rock. As músicas desse disco nada mais eram do que sobras de gravação do LP “Os 24 maiores sucessos da era do rock”, a gravadora resolveu lançar essas sobras e Raul não gostou. De qualquer forma, vale como item de coleção.


    1977 – O Dia em que a Terra Parou

    A crítica não gostou, achou inferior aos trabalhos anteriores. É o início da parceria com o Cláudio Roberto, o segundo parceiro mais importante. Apesar das críticas, tem momentos bonitos. Das músicas menos conhecidas, “Sim” é uma das mais bonitas. Já em “Maluco Beleza” temos a síntese da personalidade de Raul, música que se tornaria uma espécie de identidade para ele. Não é dos melhores trabalhos dele mas também não é dos piores. Pelo contrário, esse disco é um exemplo de que a nova parceria do Raul com o Cláudio Roberto renderia bons frutos. O que acabou se confirmando nos discos posteriores.


    1978 – Mata Virgem

    Alguns fãs consideram um disco fraco. A parceria com o Paulo Coelho volta nas músicas “Judas”, “As Profecias”, “Tá na hora”, “Conserve seu medo” e “Magia de amor”. Mas percebe-se o cansaço entre eles. Acho um disco apagado, sem muito brilho. Raul coloca um tom bucólico nas músicas, mas sem deixar de lado o estilo que lhe era peculiar.


    1979 – Por quem os sinos dobram

    Todas as músicas desse disco foram compostas em parceria com Oscar Rasmussem. Dizem as más línguas que esse parceiro foi inventado pelo Raul, sendo assim, é uma parceria imaginária. Uma curiosidade que pouca gente sabe é que a letra da música “Na Rodoviária” não tem sentido algum. Isso foi feito de propósito pois Raul queria gravar um blues com uma letra sem significado. A melodia é nota dez. “O segredo do Universo” mostra um Raul Seixas flertando com o hard rock. A única música do Raul com guitarras verdadeiramente distorcidas. “Diamante de mendigo” tem um certo ar de sensibilidade e “Por quem os sinos dobram” é ótima para levantar a auto – estima. Último disco pela gravadora WEA.


    1980 – Abre-te Sésamo

    Ótimo é a melhor palavra para “Abre-te Sésamo. Um clássico indiscutível na carreira do maluco beleza. Marca a volta dele para a gravadora CBS após anos de separação. Gravado durante a abertura política, a ironia já começa pelo título do LP que faz uma sacaneada lembrando a história de Ali Babá e os quarenta ladrões. Nada fazia o Raul acreditar no Brasil e nesse disco ele coloca toda a sua crença em evidência, é o disco mais irônico e seco dele. E também é o mais politizado. Letras como a de “Aluga-se”, “Abre-te Sésamo” e “Conversa pra boi dormir” parece que sempre serão atuais em nosso país. Raul sabia das coisas.


    1983 – Raul Seixas

    É um disco “magoado”, embora não pareça. Raul estava cheio de problemas com o alcoolismo, estava há dois anos sem conseguir gravadora e com a imagem queimada no meio artístico. Este disco, lançado por uma gravadora independente, é uma espécie de “renascimento” para Raul ou como ele mesmo dizia, uma “reciclagem”. Pra mim é um álbum meio descaracterizado, me parece um disco forçado. “Coisas do coração” é muito bonitinha, tem uma levada country que ficou jóia. Destaque para o baixo de “Segredo da Luz”, sensacional!


    1984 – Metrô Linha 743


    Pra mim é o disco mais fraco de todos. Aqui começou a decadência do Raul Seixas como artista e como homem. O cansaço e a falta de criatividade são claros: “Canção do vento” é horrível, uma das piores coisas que o Raul fez. “Mamãe eu não queria” consegue até ser engraçada mas também não convence. As exceções ficam por conta de “Metrô linha 743” que é a letra mais inteligente de todas e “Geração da Luz”. As regravações de “Trem das sete” e “Eu sou egoísta” também valem a pena


    1985 – Let me Sing My Rock n´Roll

    Esse disco merece um comentário especial: trata-se do primeiro – e talvez o único – LP produzido e lançado por um fã-clube brasileiro, o Raul Rock Club. Teve tiragem limitada de mil cópias e hoje é considerado o 2º LP mais raro do Brasil, o LP mais raro é o 1º do Roberto Carlos. Com relação às músicas, são aquelas que não foram inclusas nos LPS oficiais, além de conter alguns depoimentos do Raul. A música “Canto para a minha morte” foi inclusa no LP a pedidos do próprio Raul Seixas.


    1987 – Uah – Bap – Luh – Bap – Lah – Béin – Bum!


    Meu disco preferido do Raul Seixas. Cru, visceral e sem firulas, aqui a gente nota um Raul sem questionamentos, sem complicações existenciais, apenas com uma guitarra na mão e uma vontade enorme de tocar o bom e velho rock n´roll. Parece que com esse disco o Raul queria provar pra todos que ele ainda era o maior roqueiro do Brasil. Ele mesmo chegou a declarar na época do lançamento: “Eu fiz esse disco para os roqueiros ouvirem, para eles não deixarem o rock and roll morrer”. Em meio a nova onda de bandas e cantores do rock nacional que estavam no auge do sucesso, a gente vê um Raul Seixas ainda forte e fiel aos seus valores, indo direto ao ponto e mostrando que rock é coisa de macho. “Cowboy fora da lei” estourou em todas as rádios do país, gerou um videoclipe e colocou o Raul novamente nos programas de TV. Destaque para o ótimo blues “Canceriano sem lar”, onde Raul descreve os dias vividos na clínica Tobias


    1988 – A Pedra do Gênesis

    A qualidade do som não é lá essas coisas, Raul começava a falar em tom de despedida. A depressão que ele sentia aumentava cada vez mais. Esse disco é um aviso do que seria a Panela do Diabo e consequentemente, a própria vida dele. “Fazendo o que o Diabo gosta” é a mais louca declaração de amor feita por um homem. Aleister Crowley volta em “A Lei”, uma espécie de regravação mais detalhada de “Sociedade Alternativa”. Raul cantou “A Lei” em todos os shows com o Marcelo Nova, era sempre a última música. Esse disco tem a música mais triste que o Raul gravou: Lua Bonita. Tem também a primeira música em inglês que ele compôs: I don´t really need you anymore, feita em parceria com o velho amigo Cláudio Roberto. Disco deprê.


    1989 – A Panela do Diabo


    Raul Seixas e Marcelo Nova, um encontro que deu certo. Marcelo bem que tentou – e muito – ajudar Raul. Mas Raul era rebelde por excelência, nada seria capaz de fazê-lo mudar de idéia. O que ficou dessa união foi esse disco, resultado de uma parceria entre dois amigos e porque não dizer, irmãos. Raul se despediu com muita coragem. Como disse o próprio Marcelo Nova, Raul já não tinha fígado, não tinha pâncreas, não tinha nada. Mas a vontade de lutar e de vencer, fez com que ele subisse no palco, cantasse e fosse aplaudido de pé por qualquer multidão que estivesse presente para assisti-lo. A Panela do Diabo é isso: a vida e a morte do Raul, o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar. Tchau Raul, um abraço e até outra vez

  • Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco, porque não teria colocado nas fichas a expressão “correta” – para ele, do jeito que ele quer; nos moldes do absolutismo. E isso se repete incontáveis vezes. Parece que sou um menino em suas mãos. Não tenho pulso para enfrentá-lo, não só porque ele é grande, mas porque tem uma cara amarrada de botar medo; é como se em cada erro ele fosse partir para cima de mim e me esfolar vivo. O pior mesmo é que não tenho reação. Sou um fracote, que não sabe responder à altura, e vou engolindo sapo calado. E toda a questão gira em torno de dinheiro. Quando o patrão não tem dinheiro, desconta na gente, como se tivéssemos culpa. Ele faz um escarcéu se não estivermos atentos para as contas do mês, para o que deve entrar. Às vezes, fazemos papel de gerente de banco, arrumando as contas como se fôssemos, todos, contadores ou economistas. Gregório diz que, com razão, tenho medo de sair porque tenho filho e família, e um monte de conta pra pagar. Ele, por sua vez, é solteiro e declara não dever nada a ninguém. Como um excelente profissional, pode botar essa banca. Seria aceito em qualquer empresa séria. E eu também, não posso me menosprezar. Faço muito além das minhas capacidades. Passo dias na frente do computador e mal tenho tempo de ir ao banheiro. Não ganho mal, disso não posso reclamar, mas a relação trabalhista é abusiva (mesmo eu sendo contratado e tendo todas as características de CLT). O homem disse que, se as coisas não mudarem, vai ter de fechar as portas do estabelecimento. É uma ameaça que sempre faz, porque precisamos, não só eu, mas a Maria da limpeza, o Fausto contador, e a Noélia do atendimento. Todo mundo fica em polvorosa quando ele diz, claramente, que vai fechar as portas. Na verdade, ele não sabe lidar com as emoções, é impulsivo e não mede as palavras; torna-se, muitas vezes, um monstro desgovernado. Semana passada pegou Noélia para Cristo e quis que ela atualizasse duas pastas de processos – grossas –, ainda tendo, a pobre, de lidar com os clientes chatos. Estou farto, exausto e sem forças. Não sei até onde darei conta. Essa semana foi difícil, extremamente difícil, e o patrão não vê o esforço. Somos máquinas inúteis, inservíveis, que podem ser trocadas a qualquer momento. Não sei o que fazer, não tenho perspectivas no trabalho. Vou levando como dá. E o fim é só um prognóstico que me espanta.

  • O outro pior encontro casual

    Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo.

    Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim.

    Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectual do rolê”.

    É aquele tipo de sujeito — pode ser uma mulher também, claro, já conheci várias — que quer ser o mais culto da turma, o mais sábio, um professor.

    É aquele sujeito que, ao te ver, por exemplo, com um livro nas mãos, quer arrancar o livro das suas mãos e colocar outro no lugar: “Você comprou este livro? Não acredito.”

    E vai, sem cerimônias, tirando o livro das suas mãos, colocando outro no lugar, jurando, claro, que vamos agradecê-lo no futuro.

    É aquele amigo que, num bar, não conversa, mas discursa: dá palestras, conferências. “Você acha que vou ouvir este tipo de disco? A vida é curta para eu perder tempo com música ruim.”

    Para gente assim, o gosto musical dos outros é sempre fútil, idiota, pura perda de tempo.

    É um tipo de amigo que, depois que alguém fala que foi ao cinema, estufa o peito e diz: “Eu não sei há quanto tempo não vou ao cinema. Esses filmes de hoje em dia…”

    É daqueles que, num passado — lá pela Renascença —, já viu todos os filmes, ouviu todas as músicas que tinha que ouvir, leu todos os livros, foi a tudo quanto é peça de teatro.

    Aquele amigo que diz: “Eu não vejo filmes no cinema, prefiro os que tenho em casa.” “Eu não tenho mais paciência para ouvir música, já ouvi tantas.”

    Este homem é sempre o intelectual da turma, o conselheiro, o sábio. De repente, quando ele chega, alguém fala em surdina: “Agora ninguém mais fala. Só ele.”

    Disco bom é só o que ele descobre; livro bom é só o que ele cita; teatro bom é só o que ele viu.

    E nós, claro, os amigos, vamos sumindo, como verdadeiros analfabetos, anotando, claro, as dicas dele, que serão importantes para o futuro.

    E continuamos, claro, gastando nosso salário com nossos livros tolos, nos divertindo com filmes ruins, vendo a vida passar em brancas nuvens, sem ter visto todos os filmes, sem ter ido a todas as peças, nos emocionando com um balé insignificante.

    Pois é, meu bom Antônio Maria, os chatos só aumentam desde que o mundo é mundo.

    Mas sua crônica continua muito boa — e cada vez mais atual.

    Não me canso de ler.

    Pelo menos a gente ri um pouco.

    Bebo uma cerveja por você, meu caro cronista.

  • Poema #64: Reta final

    Em tese
    tudo é possível
    mas na prática
    nada acontece.
    Eu sou a antítese
    de todos os axiomas
    benéficos.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Esteta

    Então ela completou dezoito anos e ia para a faculdade.

    O tempo era de guerra, Donald estava botando tudo a perder, e o que ela tinha aprendido de mais relevante sobre o que quer que fosse, foi através de sua tia, que apesar de jovem, estava muito à frente do resto da família em maturidade e cultura.

    Algumas ideias sobre música, política e amor eram os pilares sobre os quais a sobrinha se sustentava naquele momento de guinada, e agradecia por ter naquele momento alguma referência que não fossem aqueles passados pela escola, pela mídia ou pelos pais.

    Até porque os pais eram completamente teleguiados pela mídia, e reproduziam em suas vidas exatamente o que era pregado pelas peças publicitárias que eram enfiadas goela abaixo do povo.

    Mas ela tinha algum discernimento instintivo que fora alimentado pela tia, e por isso já era chamada de rebelde pelos outros parentes.

    Anos antes, na ocasião em que perguntou à tia sobre o que era o amor, teve a seguinte resposta:

    “Isso depende. Caso eu vá muito longe na divagação, peça, por favor, pra que eu volte ao foco da pergunta. 

    A maior parte do rebanho acredita que ele está em situações como aquela em que uma transação bancária é efetuada com sucesso numa propaganda de cartão de crédito. Isso naturalmente não corresponde à realidade, mas as pessoas acreditam que sim, e se frustram. Até porque aquilo que é comprado com o cartão pode ser algo que nada tem a ver com amor e pode ser algo que está muito longe de ser realmente útil pras pessoas que aparecem na cena. É apenas um mecanismo publicitário raso pra estimular o consumo e que mesmo assim, convence as massas.

    E na propaganda de margarina, a família está feliz tomando café da manhã, com um tempo que só teriam se acordassem às três da manhã. Isso anularia a alegria que demostram na cena. O que acontece em qualquer família normal, por força das circunstâncias reais, é que estejam pela manhã todos completamente aloprados, já atrasados, não importando o quão cedo tivessem acordado. O banheiro está ocupado, então há mais uma treta por causa disso. A condição financeira da população em geral também é um empecilho, e pouquíssimos tem tanta comida à mesa logo cedo, e a correria matinal está diretamente ligada à necessidade de ter comida para o almoço e para o jantar. Sem contar que o jantar muitas vezes só é possível com a venda do almoço. Há também propagandas de carros sendo vendidos em prestações que parecem tentadoras e que vão enforcar o escasso orçamento dessa família. É o cúmulo da estupidez e da desumanidade pensar em status num mundo como esse, mas o poder midiático consegue controlar essas milhões de mentes fracas, estabelecendo um padrão, que embora não corresponda à maioria da população, e embora as pessoas saibam disso de alguma forma, ainda assim se sentem frustradas caso não obtenham o que a propaganda determinou como condição pra felicidade. Aliás, pra não falar só da sordidez do controle midiático sobre essa questão, vamos deixar muito claro que amor não está relacionado necessariamente à necessidade de você ter um namoradinho e ser feliz pra sempre com ele. Isso é patético, antes de mais nada, porque essas relações muitas vezes têm prazo de validade. E a sordidez vai mais longe ainda quando você lembra que é preciso ter alguma independência financeira pra não cair na cilada de se casar e se dar mal e não poder sair porque depende de um Zezinho qualquer, machista e escroto. Amor tem mais relação com a sua capacidade de controlar o seu destino, na medida do possível. Você muitas vezes não escapa do capitalismo, então tem que lidar com isso sem enlouquecer, e é por isso também que esses bancos asquerosos deitam e rolam na exploração do povo através de financiamentos que tornam as pessoas eternamente inadimplentes. E é por isso que muitas mulheres não mandam o marido às favas pra começarem outra vida. É a porra da dependência financeira. O sujeito trabalha, paga as contas e a mulher que trabalha em casa se esgota até o talo e não tem um puto furado no bolso pra nada. Essa é a tônica de muitos casamentos farsários que duram décadas e que na verdade são consequência de comodismo ou falta de opção, principalmente por parte da mulher. Nesses casos, o contrato do casamento vale muito mais do que o amor. Eu, particularmente, penso no amor, ou na falta dele, de acordo com as circunstâncias de cada dia, e o atribuo àquele momento mágico em que me sinto livre, depois do trabalho, com vinho, baseado e música decente. Com ou sem algum Zezinho da vida por perto. Até porque eles estão por toda parte e sempre tem algum disponível, especialmente nesses tempos de comunicação instantânea. A vantagem disso é que a solidão deixa de ser motivo de medo e passa a ser uma alternativa momentânea e necessária para o bem estar e para a sanidade.”

    Numa outra ocasião, a sobrinha perguntou:

    “Tia, o que leva um sujeito a ser mesário voluntário numa eleição?”

    Tia: “Você já conheceu algum?”

    Sobrinha: “Não, mas vi na televisão que isso é possível.”

    Tia: “Isso é só pro Estado testar até que ponto as ovelhas do rebanho podem chegar. Quando deveria estar sendo discutido a não obrigatoriedade do voto, e quando as pessoas deveriam estar se perguntando sobre porque não deixar de votar mesmo com o voto obrigatório, surgem propagandas como essa. Entre os mesários que conheci, não havia nenhum que não estivesse deprimido com antecedência. Mas de repente o poder midiático pode fazer mesmo fazer com que exista, porque alguém acreditou que seria jogo se sujeitar a isso. De qualquer maneira é mais fácil acreditar naquilo que vemos com os próprios olhos, como a proibição da maconha, feita por quem quer que você acredite na ressurreição de um carpinteiro, nascido de uma virgem e uma pomba e que até hoje fazem as pessoas comerem ovos de chocolate trazidos por coelhos bípedes numa data específica. O coelho bípede trazendo os ovos, você não vê. Apenas os comerciais que fazem as crianças acreditarem neles para fins comerciais. Para que haja o convencimento de adultos sobre coisas surreais, as estratégias são semelhantes. O caso do mesário voluntário trata de alguém que vai além de acreditar que o Estado existe pra servir o povo, e não que o Estado seja uma doença apresentada como cura.”

    Um dia, elas estavam ouvindo música e a sobrinha perguntou:

    “Você tem esperança no futuro da humanidade?

    A tia: “Ainda tenho alguma esperança, mas não tenho otimismo algum. Parece ser uma espécie que é movida a catástrofes pra que busque caminhos que justifiquem o que entendemos por ‘humano’. As pessoas que estão no poder são homens brancos velhos, e não se preocupam com o longo prazo. Não podemos esperar qualquer atitude positiva de mudança por parte dessa gente. São lacunas em qualquer escala evolutiva. É difícil aceitar que aparentemente só uma desgraça em grande escala pode mudar as coisas, porque nesse caso, teríamos que sobreviver a isso pra ver a mudança esperada. O que não falta é urgência para que algo seja feito, e atualmente não é por esse caminho que estamos indo. De qualquer forma, toda grande mudança é precedida pelo caos.”

    Sobrinha: “Que música é essa que está tocando? Essa moça canta bem!”

    Tia: “O nome da banda é Affinity. A música é ‘Night Flight’.  Gravaram só um disco, autointitulado, que é maravilhoso. O nome da vocalista é Linda Hoyle, que gravou dois discos solo belíssimos.”

    Sobrinha: “Por que isso nunca toca no rádio ou não se torna popular de alguma forma?”

    Tia: “Os donos das rádios convencionais não queriam que suas ovelhas tivessem acesso a vários artistas brilhantes que ficaram no anonimato. Com a internet, pode rolar um resgate de muitas coisas, mas ainda assim é preciso ter algumas referências pré-internet  para que o resultado da pesquisa seja relevante. Outro consolo é que hoje você pode ter sua rádio pela internet, compartilhando música. De qualquer forma é preciso que alguém queira saber do que se trata, mesmo que por curiosidade.”

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

  • Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.

    Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.

    As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.

    Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.

    As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

    A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.

    Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?

    Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,
    ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.

    Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco.

    E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

    O pequeno casamento foi durando um grande tempo.

    Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.

    A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate. Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

    Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

    A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

  • Coisas de vento para prosa

    Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento.

    Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão.

    Coisas de vento que nos pega e nos prende em um tempo. O tempo único do coração. O tempo em que tudo é permitido e, com as próprias mãos, desenhamos os sonhos e, também, os enxergamos. Contenção.

    O vento cessa e a bola e os moleques não estão mais lá… Não estão mais no chão. A poeira e os meninos desapareceram assim como as pedras, as pedradas.

    O horizonte continua intacto e mudo. E sol a sol. O tempo. São coisas de vento…

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando:

    — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi?

    — O que você viu, guri? Conta logo!

    — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo!

    — Verdade?

    — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz.

    Pronto! Era verdade sim!

    Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. Nesse belo dia, passava em frente de casa a charanga com alto-falantes gritando a novidade. E todos corriam para a frente de casa a fim de ver e ouvir aquele que anunciaria a chegada da magia e da alegria, para toda a cidade!

    — Breve nesta cidade, o Gran Circo das Américas! Malabaristas, palhaços, globo da morte, e o inconfundível homem-faca.

    — Venham todos, teremos várias atrações: a mulher barbada, macacos, elefantes, tigres, girafas e os pequenos macaquinhos jogadores de futebol! Teremos também os desfiles dos pôneis e dos cavalos dançantes! Venham! Venham todos!

    A expectativa era criada na cidade, os ares mudavam, pelo menos para nós que queríamos ir ao espetáculo, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro!

    Meus irmãos, assim como outros garotos, caprichavam nas engraxadas de sapatos. Iam para a frente dos hotéis, lojas de fazendeiros e faziam seu merchandising.

    Homens com botas brilhantes e sapatos limpos e cuidados voltavam a ser vistos circulando pelas calçadas, porque todos estavam no clima bom do circo! Nossa mãe fazia seus milagres também, porque as meninas tinham que ver as bailarinas, os palhaços, os trapezistas, e ela iria junto, claro!

    O circo da minha infância se instalava num terreno pertencente à Companhia de Rodagem CER-3. Então, esse lado da cidade, onde se concentrava a praça, o coreto, a Prefeitura, o Clube Municipal, a Igreja Matriz, o Cinema, o Ginásio e a sede da Companhia, era o lugar mais cheio dessa época.

    Nós chegávamos para a sessão da tarde do circo. As bandeirolas coloridas enfeitavam o pátio. Carrinhos de pipocas, vendedores de balões, aviõezinhos feitos de latinhas brilhosas, pirulitos puxa-puxa, algodão-doce, sonhos; se o circo fosse dos completos, teria atrações pelo lado de fora, como pescarias, tiro ao alvo, trens fantasmas. Em filas, com uma alegria só, íamos adentrando e nos posicionando, mas sem deixar de cutucar uns aos outros com nossos saquinhos de balas ou pipocas. Os mais abastados sentavam-se em semicírculos de cadeiras, os ingressos populares iam para arquibancadas de madeira chamadas de “poleiros”.

    Mas o que interessava era que estávamos lá. Dentro do circo! A música? Constante! Alegre! Apropriada! O frenesi? Aumentando! E o palhaço? Andando pelo meio do público, fazendo suas graças, se tornando criança de novo. As bailarinas lindíssimas testando as cordas de malabarismos, e lá ao fundo o globo da morte só esperando para ser trazido ao centro do palco. Acima de nossas cabeças, os cabos dos trapézios com a corda bem esticada e a rede embaixo. Eram tantos e tão variados os mistérios coloridos de um circo, que quando tocava a terceira sirene, as luzes diminuíam, e retumbava a voz:

    “RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOA TARDE! EIS AQUI O GRAN CIRCO DAS AMÉRICAS”, o povo explodia em gritos e palmas! Pronto: estava criada a MAGIA DO CIRCO! A magia que me acompanha por toda a minha vida!

  • Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

    Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

    A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

    No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

    Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!

    Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

    A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus…

    Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

    Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

    É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

    A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

    Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

    Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia.

    Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se desconectado de suas origens.

    Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

    Textos assinados não representam necessariamente a opinião do Crônicas Cariocas.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • Um tom diferente na tinta da retina!

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • O instante

    No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.

    À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.

    Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.

    Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?

    Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.

  • Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos colegas. Ele foi, quando menor, muito dado, alegre e educado. Foi catapultado para a vida marginal. “Por que, meu Deus? Por que?”. Logo passou a fazer pequenos roubos, porque não admitíamos a sua condição, degradante. Pensávamos que dar dinheiro facilitava a vida dele para buscar os seus abusos. Mas, ainda assim, o fiz incontáveis vezes – por pena, por dor. Ele parou de estudar logo em seguida, e isso foi uma punhalada no meu coração – eu que tanto estudei, fiz duas faculdades, para dar uma vida melhor para meus filhos, levei uma rasteira, mais uma vez, da vida. O guri dizia que escola era coisa para trouxa. Mandei que trabalhasse, então, de qualquer coisa. Ele me mandou à merda. “Vai trabalhar tu, velho lazarento! Não pedi para nascer, e tu é obrigado a me sustentar!”. Quando me lembro dos momentos felizes de sua infância, que ele era grudado comigo, choro de emoção. Paulinho, como disse, foi um menino meigo e superinteligente; brincávamos muito, íamos aos jogos do Internacional, tínhamos uma vida “normal”. Tudo mudou para pior – bem pior. Agora está amasiado com uma qualquer, que sequer sabemos quem é. Malu não concebe não conhecer a própria nora. Já chegou a brigar com o Paulinho, quando ele, pontualmente, apareceu em casa – para pedir dinheiro. Soubemos, por acaso, que está esperando o nosso primeiro neto. Paulinho, talvez por isso, é entregador. Diminuiu as farras. Quiçá melhorou – não para os pais; ele ignora a nossa existência. Não sei como uma pessoa assim não pode ter sentimentos. Será que ele não tem lembranças boas de mim? Choro de saudade do que vivi e do que não vivi. Não dá atenção aos pais. Somos meras fontes de dinheiro. Vivo esperando o dia em que ele vai voltar, como homem, me abraçar como homem, e se mostrar uma pessoa digna… Flavinha, nossa menina rebelde, não partiu para o mesmo caminho, mas, vendo a influência do irmão, resolveu parar de estudar – não tive pulso para segurá-la na escola. Uma psicóloga amiga sugeriu que ela poderia ser psicopata, pelo seu estilo atrevido e por não demonstrar nenhum tipo de emoção. É uma menina bonita, então, absurdamente, inventou de abrir uma conta no OnlyFans, e ganha o seu dinheirinho. A princípio, relutei – sentia uma vergonha monstra. Mas, depois, vi que o corpo é dela, e, já adulta, pode fazer o que quiser. Malu suspeita que faça programa, porque às vezes sai muito arrumada, cheirosa, e não diz pra onde vai – sim, ela e ele não nos dão nenhuma satisfação. E Flavinha sempre está bem financeiramente, sem “trabalhar”. A verdade é que, com relação ao dinheiro, já me arrastaram tudo. Vivo da minha aposentadoria mirrada, de funcionário público estadual. O dinheiro que juntei por uma vida serviu para comprar um carro para o Paulinho e outro para a Flavinha. Carros do ano. Dei de coração, para começarem a vida. Queria que, com isso, nossa relação mudasse, mas vejo, hoje, que é praticamente impossível, que foi a pior coisa que fiz – bem, para Deus nada é impossível. Malu quase morre de um princípio de infarto, de tanto problema que carrega. Eu sou diabético e hipertenso, tenho que regular a alimentação à risca. Somos dois velhos pais de filhos mortos. E isso não convém a uma boa velhice. Somos mais velhos do que queríamos.

  • Como era gostoso o meu Pasquim!

    Quando o primeiro Pasquim chegou às bancas de jornal e revistas, como o sol de uma canção daquele compositor baiano, era 26 de junho de 1969. A memória, ainda sem os muitos livros, discos e filmes que hoje ocupam suas prateleiras, lembra daquela boa notícia que me foi trazida por Flávio, sujeito mais velho, experiente e o mais letrado entre os colegas que conheci no bairro da Torre, e que gostava de ler e colecionar Tex Willer.

    Eu, que nunca tive tendência ao babonato, à babação ou coisa parecida, sem qualquer vocação para ser um ex-croto, quando vi a capa que o Ziraldo — um craque nessa área, o nosso camisa 10 — fez em homenagem ao JK, que acabara de ser convidado para ouvir e cantar o seu Peixe Vivo em outra cidade, confesso: vivi e me vi babando. Nada mais bonito e poético do que um JK subindo ao céu, com as demais letras presas ao corpo gráfico.

    Se, aos sábados, costumava dar uma voltinha no Ponto de Cem Réis — o “escritório” que um dia foi do meu injustiçado amigo Livardo Alves* — para verificar in loco como ele está ficando de cara nova, moderna, numa morosidade de matar Salvador Dalí — e o daqui — de tédio, naqueles outros sábados, tomado por uma fome de leitura de anteontem, corria à banca mais próxima para pegar o meu Pasquim.

    A fome pasquinesca era tamanha que “comia” a capa e, mesmo que os olhos gritassem de fome de ver/comer, guardava o resto — Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Henfil, Paulo Francis, estes, particularmente — para depois da ressaca das muitas cervejas que Bil (The Kid) nos servia no Blitz; e Dantas, o careca, com Pilsen supergelada, acabava de nos matar na Flor da Parahyba.

    Acho que foi o primeiro hebdomadário, o nome feio (botem feio nisso), com que eles, uns gozadores, chamavam esse tabloide que furou, de verdade, o cerco da sisudez de um regime sem graça e autoritário.

    Tempos bons. O Pif-Paf, à época quase um desconhecido para este escriba, editado por Millôr e recentemente (re) apresentado, em seus únicos oito números, pelo intelectual, bom caráter e ótimo sujeito Márcio Roberto, muito antes de Drummond vaticinar, era apenas um quadro na parede da minha memória de papel.

    O Pif-Paf fez 60 anos há dois anos — insuportável essa história de “há dois anos atrás”, que nossos cultos e incultos políticos, repórteres e entrevistados costumam usar para aumentar e ratificar uma distância que o “atrás” dispensa. O Pasquim, um pouquinho mais novo, no ano da graça de 2026, completa 57 anos. Lembro que a primeira capa trazia a cara de Ibrahim Sued, então o mais famoso colunista social da imprensa brasileira.

    Se não bastasse um tabloide que, em apenas dez semanas — um pequeno pulo para uma turma genial, mas um gigantesco salto para a história da nossa, de novo, verde e amarela imprensa brasileira —, saltou de 28 mil exemplares para 200 mil, além desse gigante do qual falei no começo do parágrafo, trazia um furo tão grande que dava para ver, a olho nu, o que acontecia na terra de Akira Kurosawa.

    Enquanto a grande imprensa disputava, discutia e gritava em letras maiúsculas, tentando descobrir quem seria o sucessor de Costa e Silva, o Pasquim anunciava que o próximo presidente seria Emílio Garrastazu Médici (o mesmo Garrastazu que Tim Maia batizou como nome de seu esconderijo secreto, onde se trancava, sozinho, bem ou mal acompanhado, para fumar maconha e cheirar cocaína), a mais perfeita caricatura de ditador que ainda trago na memória.

    Mas, com todas as devidas vênias do mundo, achei a capa do Ibrahim Sued tão comum quanto — força de expressão — o sabão que minha mãe usava para lavar as caçarolas enegrecidas pela fumaça do carvão do seu fogão a lenha. Porém, capa mesmo, Márcio, inesquecível, foi aquela do JK subindo para o céu.

    Bons – bons?! – tempos aqueles, hein?

    Livardo Alves nasceu em João Pessoa, no dia 21 de setembro de 1936, e faleceu no dia 16 de fevereiro de 2002, em João Pessoa*.

  • Livros Restantes

    “Livros Restantes” é um filme nacional dirigido por Márcia Paraíso e lançado em 2025. Conta com as atuações de Denise Fraga, Augusto Madeira, Manuela Campagna, entre outros nomes do elenco.

    A história narra um momento específico da vida da protagonista Ana, quando ela se muda do lugar onde viveu toda a vida para Portugal.

    Desse fato, a história gira em torno de recordações e lembranças vividas por ela ao longo da vida no lugar onde nasceu e foi criada.

    Toda a história acontece tendo como pano de fundo um elemento muito importante na vida da personagem: seus livros. Como professora e apaixonada por literatura, Ana passou por um processo de doação de grande parte de seus livros em razão da mudança. No entanto, uma ínfima parcela, mais precisamente cinco livros, permanece em sua estante, permitindo que ela reviva momentos de seu passado.

    Dessa forma, ela decide devolver os livros com dedicatórias que recebeu de pessoas que passaram por sua vida em diferentes momentos. Tudo acontece sob uma grande carga de volta ao passado, seja para relembrar momentos bons, seja para recordar aqueles que são ruins.

    O filme se desenvolve com forte carga emocional, cercada por tudo o que perpassa a vida da protagonista. Desde sua intensa ligação com a família até o vínculo com o lugar onde nasceu e foi criada. É bonito ver a forma como o filme desenvolve as vivências dos personagens. Vale também destacar o modo como dá visibilidade a temas que ainda aparecem como tabus em uma sociedade extremamente conservadora como é a que vivemos. Entre eles, destacam-se a homossexualidade, o veganismo e a pedofilia.

    Por tudo o que foi exposto, sem deixar de destacar a impressionante atuação de Denise Fraga, uma gigante em cena, “Livros Restantes” se revela um filme leve, sem abrir mão da importância de abordar temas que precisam ser colocados em discussão. Vale a pena assisti-lo.

  • Dias melhores

    Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores?

    Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica no pior estado. O botão da sua calça — ou o zíper, um dos dois — arrebenta. Ou, se for num dia de calor, você está com aquela pizza debaixo do braço. Aquele dia em que a barba do homem está malfeita, em que a mulher não conseguiu horário na manicure. Aquele dia em que a gente prefere não ser visto, prefere não ser lembrado, prefere circular por aí, anônimo ou anônima.

    Você já parou para pensar que, justamente nesse dia, pode acontecer algo? Que a vida pode te fazer um convite?

    Pensei nisso outro dia, quando soube que um ator de novelas, de quem eu sou muito fã, estaria no shopping da minha cidade. Eu soube tão de repente, que não deu tempo de pensar no restaurante em que eu almoçaria. Eu também não tinha marcado hora com o barbeiro. A barba estava por fazer — estava horrível, vamos dizer assim.

    Mas o que fazer? Ele estava ali, no shopping, promovendo a novela que seria reprisada na televisão. E, mais do que isso, promovendo um concurso de embaixadinhas, para quem estivesse passando — algum rapaz, alguma moça, que gostasse de futebol.

    Eu simplesmente adorava aquele cara. Tinha visto novelas, entrevistas, teatro. Para mim, é um dos melhores atores. E ele estava ali, em plena terça-feira, num shopping, ao meio-dia, fazendo um evento.

    Eu, sinceramente, estava num dos meus piores dias: a barba por fazer, faminto — porque o encontro era no horário de almoço. Mas, mesmo assim, eu fui. Dei um abraço, olhei nos olhos dele e falei:

    — Por favor, continue nos presenteando com o seu talento, e com a sua arte.

    Ele sorriu, e disse:

    — Muito obrigado.

    Foram só essas palavras, mas eu acho que ele, como ator, entendia a intensidade do que eu estava sentindo — e retribuía, lá, da maneira dele.

    Quando acabou tudo, eu fiquei olhando ele andando pelo shopping, perto daquela cafeteria onde eu sento, tantas vezes, para comer uma torta ou tomar um cafezinho fumegante. E, naquele momento, eu achei a vida tão doce.

    Quando eu olhasse para aquele lugar, eu diria: “Puxa vida, o meu ator favorito passou por aqui.” Eu acho que a torta ficaria mais saborosa, o cafezinho ficaria mais gostoso, o lugar ficaria mais bonito.

    Aí eu pensei: o que nos leva, na vida, a esperar pelo melhor momento?

    Coisas extraordinárias podem acontecer com a gente quando o botão da camisa arrebenta, quando a gente esquece o guarda-chuva e toma um banho de um carro que passa em alta velocidade, quando a barba do homem está por fazer, quando a mulher não conseguiu ir à manicure, naquele dia em que a gente está com uma camisa de que não gosta tanto, ou em que o perfume favorito acabou.

    Aí a gente se pergunta: “E se eu deixasse para um outro dia?”

    E então você se dá conta de que não existe um outro dia. Talvez não haja um outro dia.

    Vai ter que ser naquele dia mesmo.

    Tem dias em que a gente sente vontade de passar pelo outro, e deixar de cumprimentar. Baixar a cabeça, baixar os olhos. Tem dia que dá aquela vontade — aquela vontade de ser monossilábico, diante de um cumprimento, de recusar um abraço, de recusar tudo.

    Mas, naquele dia, eu não recusei. Fui, dei um abraço naquele ator de quem eu gostava tanto — e gosto. Tirei as fotos, e postei, mesmo não estando no meu melhor dia.

    Quando saí dali, enquanto caminhava até o meu restaurante favorito, caiu, simplesmente, uma chuva muito forte. E eu cheguei lá, ensopado.

    Puxa vida… tanta coisa dando tão errado, e tão certo, ao mesmo tempo, no mesmo dia, e na mesma hora.

    Mas eu sempre penso: a gente nunca deve esperar estar no melhor dia, para viver a vida. Porque esse próximo dia, esse “melhor dia”, pode, simplesmente, não chegar.

    Fui para casa com a certeza de que tinha construído boas memórias.

    E já aconteceu de eu me arrumar todinho, passar perfume, escolher a melhor roupa, sair de casa com o dinheiro contado — e, simplesmente, as coisas não acontecerem como eu queria.

    Por isso, da próxima vez que eu tiver que viver alguma coisa, que aproveitar a vida, eu vou aproveitar. Mesmo se o botão da minha camisa estiver arrebentado. Mesmo se eu estiver molhado de chuva.

    Porque é assim que a vida tem graça.

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

  • Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento?

    Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir.

    O erro da escolha aberta e cruel nos levou ao caos. Nossa liberdade, tolhida pelo medo e pela insegurança, tira das nossas mãos uma democracia plena para nos tornarmos reféns de um incapaz que usa o poder para si próprio — uma indecência.

    Lutar? Como? Atados a pacotes infelizes, mergulhamos, sem respiradores, num mar de lama e vamos perdendo, aos poucos, o ar, pois aquele que nos ajudava a relaxar torna-se tóxico, e ficamos à deriva…

    Estranho são os jogos das palavras…

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo.

    Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados!

    O que estamos fazendo com o nosso tempo?

    Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo!

    O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas.

    Nunca, em tão pouco espaço de tempo, vimos um crescimento tão grande e significativo da informação. Há muita coisa sobre tudo, em qualquer lugar da chamada internet.

    No entanto, pobres mortais, somos sugados para a pequena tela e achamos feio o que não é espelho! Vidrados que estamos em olhar através do visor do celular, esquecemos o amor, esquecemos o céu, esquecemos o andar e o falar, esquecemos o outro e, aos poucos, esquecemos de nós mesmos!

    E tudo, ilusoriamente, parece mais prático, mais rápido, mais dinâmico, mais isso e mais aquilo.

    Com a era digital, surgiram problemas que, simplesmente, não existiam. Estamos nos robotizando? Deixamos de ser humanos para nos satisfazermos com o colorido e frenético mundo virtual!

    Para tudo, uma foto. Um evento comum tornou-se cena de filme: cabelo arrumado, roupa arrumada, discurso ensaiado. Registro de um almoço, de um jantar, de um encontro com amigos! Amigos? Cada qual com o seu telefone!

    Para tudo, um comentário! Da mais besta situação ao mais ridículo dos espetáculos, uma frase, uma curtida, uma reclamação!

    Nem o vírus escapa de tamanha comédia pastelão! Quando as coisas fazem sucesso, “viralizam”.

    Pensando bem, a imagem do vírus é até que bem apropriada: multiplica-se rapidamente e vai enfraquecendo a defesa (o raciocínio, a criticidade e o bom senso) até tomar o corpo (a vida, os sonhos e os relacionamentos).

    Temos pressa de tudo! Minutos são como a eternidade!

    Se a página não abrir, se o download falhar, se a foto não aparecer, esbravejamos, choramos, clamamos e teclamos!

    E assim, entre fotos no Instagram, vídeos no TikTok, palavras no X, mexericos no Facebook, conversas no WhatsApp e outros inúmeros aplicativos, passamos o tempo sem darmos conta do nosso próprio tempo!

    Outra vez, me recordo de Umberto Eco quando sinalizava uma época de imbecilidade!

    É claro que há coisa que merece ser vista, ouvida e comentada. É claro que há vida inteligente nos campos virtuais. É claro que há criatividade, sim!

    Mas, somando tudo bem somado, pensando tudo bem pensado e pesando tudo bem pesado, temos muita incoerência, muita fofoca, muito julgamento precipitado, muito preconceito, porrada para todo lado. Temos violência, aberração, pedofilia, anúncios, moda e enganação!

    Temos ainda nazifascismo, vício e adulação!

    Mas, peraí!
    Isso tudo não é a própria sociedade?
    Revista, ampliada e viralizada!

    Tudo o que fazemos de pior, na internet, ganha dimensão, tem volume e mais proporção! Tudo o que fazemos de execrável ganha o mundo, faz o mundo, globalização!

    Em um mundo invertido e confuso como o nosso, a imbecilidade toma contorno de salvação! Parece que tudo é explicado e explicável através do Google!

    Não há amadurecimento, não há ponderação. Tá lá, tá certo! Sem complicação!

    E, nesse mesmo mundo globalizado e antenado, exigem de nós imensa flexibilidade, fazermos várias coisas ao mesmo tempo, explicando que agora é assim, que somos multitarefas — ou devemos ser —, mas esquecem que cada vez trabalhamos mais com menos tempo!

    Otimização!

    Sei que, nessa era tecnológica (e admiro e sei da sua importância), estamos destruindo nossas florestas, acabando com a nossa água, intoxicando nossos alimentos, escurecendo nosso ar, matando os animais e desumanizando a nós mesmos!

    Era melhor ficar nas cavernas e continuar a fazer desenhos…

  • Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?
    — Não muito longe do seu destino.
    — Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
    — Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
    — Você é muito filosófica, mãe.
    — Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
    — Ele é bom de…
    — Bond. James Bond.

    Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.


    As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.

    A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.

    A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.

    ” — Nós, seres humanos, não”.

    De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.

    Caem com força nos olhos.
    nos cabelos
    na pele

    escorrem…

    Sentimos o impacto. Fechamos
    instantaneamente os olhos.

    respingam os pingos que batem no parapeito de
    pedra e ricocheteiam em nós

    Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.

    As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
    canto, em outra copa. E outro. E outro…

    As gotas caem.

    Sempre caem pelo caminho mais fácil.
    Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
    Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.

    Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.

    Paz.

    É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.

    Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.

    Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…

    Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.

  • AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia.

    Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros, sabia olhar nas pessoas e adivinhar-lhes as aflições e sonhos. Seu carisma era natural, da mesma forma que sua crença espontânea em si mesma. Rara autocrítica e coragem de sobra. Além de alguma sorte, é claro.

    Como futuróloga respeitada, Madame Suely ganhou o suficiente para criar as duas filhas. Seu marido, no começo avesso a essas coisas místicas, via com simpatia a grana que ajudava nas despesas.

    As filhas mal conseguiam disfarçar a vergonha da função da mãe, mas sempre deram valor ao dinheiro que lhes possibilitou estudo e a formação universitária. A mais velha formou-se em Comunicação, e a caçula, em Odontologia, fato aliás previsto por Suely nas cartas, embora as filhas nunca tenham acreditado.

    Verdade que suas previsões não se concretizavam sempre. Humanamente não era infalível. Quando ocorriam presságios ruins, jogava de novo as cartas até que o oráculo mudasse. Aos consulentes evitava as profecias trágicas e somente repassava aquelas que pudessem trazer algum alento ou consolo. No fundo, Suely era uma otimista.

    Com a morte do marido (que não foi previsto por ela), Suely decidiu parar com suas consultas. O tarô, agora, só em ocasiões emergenciais.

    Mesmo que procurasse evitar, tinha ainda suas premonições. Esforçava-se para que elas não se realizassem. Ao menos, completamente.

    Com o tempo foi aprendendo a se desligar desse mundo de vaticínios cheio de mistérios e falcatruas. Jogou no lixo seu baralho de tarô e aposentou-se, merecidamente.

    As filhas celebraram. Há muito aguardavam por isso. Sentiram-se aliviadas.

    Libertação e descanso era também o que Suely sentia no íntimo. Alguns poucos clientes que ainda insistiam em procurá-la, Madame Suely explicava que dali para a frente ela só poderia conviver com o presente e antever passados.

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

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