Crônicas Cariocas

  • O retorno

    No outro lado não havia nada. O outro lado era apenas o outro lado. Voltei branco para casa. Como se já não fosse. Eu estava branco como se nunca tivesse sido. Naveguei pelo Lete como num passeio de domingo. Atravessei o Lete e era como se não tivesse ido a lugar nenhum. Conheci que a morte não é nada, uma hora em que tudo está consumado. Os dentes estavam podres, o passarinho seco no armário. Não havia mais nenhum poema a escrever, não havia unha a cortar, não havia barba a fazer. Havia bolor na manteiga, no pão sobre a mesa. Meu cachorro não me reconhece. Sou um estranho em minha própria casa. Sou um estranho no espelho. Sou uma ausência do lado de fora do espelho. Meu gato perdeu o caminho de casa, geme no horizonte sob a lua. As luzes se apagaram. Um nó nos fios que me ligam a parte nenhuma.

    Você me pergunta se foi bom. Eu respondo que o sonho acaba como quisermos. Há lixo nas ruas, em casa, nos bueiros. Em todo lugar há moscas e ratos e baratas. Deixar de ser é um ato de extrema pureza. Não porque última, mas uma essencial pureza. Os olhos estão nublados, a doçura da cegueira. O universo me ilumina no escuro. Não caminho em linha reta. Não sinto os meus pés, ou estão em brasa, pouco importa. O arame farpado fere as minhas mãos, o peito, o sexo. Eu sorrio como se não fosse comigo, alheio ao ser que em mim pensa e sente. O tempo me devora. E eu estou no sótão me contemplando. Ou no porão com água até a garganta. Bebendo a água do tempo. Teço o ríctus e o sorriso da inocência. Tenho cinza nas mãos. Eu já fui esse punhado de cinza. Ser pó era tudo que almejava. Antes e depois se confundem no pó. Quisera a loucura e toda a sua beleza. Agora todos os desejos se apagaram. O futuro não é mais que uma linha de giz. Ser é uma linha de giz.

    Quero soltar os meus demônios. Já voaram comigo sobre os abismos. Hoje são moscas tontas ao redor de uma lâmpada. As moscas morrem comigo presas no mel. A felicidade é o ser que esgota o seu tempo. Tudo é fluir. E parede, parede, parede. Mas a própria parede é fluir. Criar um corpo é ignorar o corpo. Já não somos donos de nada. Fluímos. O rio é vermelho de tanto fluir. O homem flui através de si mesmo. Fluir nega o ser. Somente a náusea é bela. O vômito é um poema de luz. Eu estou fora do livro. As minhas letras caíram à beira da estrada. Nada é bastante para a minha falta de sede senão que a falta de sede ainda é sede. Essa mulher me quer. Essa mulher, o corpo da mulher me justifica. Estou confuso e luto contra o anjo. Quem me garante que a ficção acabou? Quem me sonha, sonha duas vezes o mesmo sonho? Estou vazio de mim. Sexo é o corpo do ser. Estou suando em agonia dentro da mulher. Estou vivo e não sonhar ainda é conhecer. Não sei o preço da vida. O abandono é a minha herança. O sexo é o tempo e os pomos dourados do outono caem. Não há mais respostas porque não há mais perguntas. Onde estou não é um lugar, domicílio ou prisão. Meu compromisso é não ter compromisso nenhum. Sofro a ingenuidade de ser. O jogo acabou. Uma mulher me espera. O reconhecimento do ser vem da cama.

    Você era, não é. Volta a ser ou não. Eu exalei o último suspiro, um gemido fundo como se buscasse o fundo do fundo da alma. O mundo acabou. Bastava o meu sorriso de bobo. Eu era um idiota com todos os dentes à mostra e nenhuma história mais a contar. Sem nenhum estrondo, sem aviso prévio, o mundo acabou. Um balão sem nada dentro. Mas tenho que me render: a angústia ainda me vira o estômago.

  • Fidelidade canina

    O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:

    – Acho que devemos dar um tempo.

    – Concordo – disse ela prontamente.

    – Amanhã vou dar entrada nos papéis. 

    – Ótimo. – E completou, depois de um breve intervalo: – Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.

    – Ah, isso não! Totó é meu.

    – Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.    

    – Mas eu fui quem lhe deu o nome.

    – Um nome, por sinal, originalíssimo! – ironizou Tâmara.

    – E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo… Não entende nada de cães.

    – E você não entende nada de mulheres.

    Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e eriçou a outra, como se quisesse escutar melhor. 

    – Ou levo Totó comigo, ou não me separo! – sentenciou a mulher. 

    – O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!

    Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:

    – Vamos deixar que ele decida.

    – Ele?! Como?

    – Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.

    Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.

    Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele.

    – Aqui, Totó!

    – Não, Totó. Aqui!

    Valia tudo – estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.  

    Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante. 

    Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

  • Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida.

    Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crítica ou pelo discurso metalinguístico. Cavaquear com o último texto lido (e, no fundo, ler é dialogar) pode significar, no escopo de suas intenções, apenas abordar determinada experiência; ainda que, em última instância, produza-se também metalinguagem. Tratar de tais “objetos” ou da vivência entre eles é também falar do mundo em geral e de um em específico.

    Os críticos crípticos não enxergam isso, nem poderiam; pois, mesmo trabalhando com esse material, fecham os olhos para tudo que pulsa. O universo dos livros palpita como nenhum outro. O intelectual que se recusa a ver o mundo não pode compreender a leitura como a prática permeada de vida que é.

    Quem não se insere nessa relação de vida não compreende o fenômeno completamente. Todavia, ela não diz respeito a ofício ou frequência de leitura, mas a um tipo de vínculo e até a certa maneira de viver, na qual os livros possuem outra dimensão (muito além da materialidade do impresso) e aparecem como elementos fundamentais do cotidiano.

    E são só esses leitores, os de vida, que conseguem experienciar a dimensão transcendente contida nos livros. Tão imprescindíveis como o pão e a água, tão habituais como tomar café pela manhã, mas dotados de uma significação que nada disso consegue comportar. Fazem parte do dia a dia, porém, jamais perdem o encanto que possuem.

    Destarte, é plenamente natural que a vivência contida no correr cotidiano das páginas esteja presente no que se escreve. Não se pode falar sobre o que está fora da vida, e os livros estão inseridos nela. Mais do que isso, com eles, constitui-se especial forma de existir. Assim como engendram um mundo, que é, ao mesmo tempo, todos os mundos, existentes e possíveis.

    Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em Quarta, 24 de nov. de 2021

  • Abençoado quem?

    Quem convive comigo há pouco tempo nem imagina quão atacado das ideias eu já fui. Sim, o tempo amorteceu minha irritabilidade e ando menos propenso a erupções. Mas as vezes o passado aflora.

    Uma das ocasiões em que sou mais propenso a erupções é com o uso incorreto das palavras. Não faz muito tempo fui ao cinema no shopping com minhas filhas. Estávamos dentro do elevador indo para a garagem quando um cidadão veio correndo, eu o vi e segurei a porta. O cara entra e diz “obrigado, abençoado”.

    O filme divertiu e a companhia das minhas filhas é sempre muito agradável. Por isso escutei a bobagem e nem esbocei reação. Mas…

    Mas o vírus da irritabilidade mora em mim ainda, em estado latente, e por isso o assunto voltou a memória. Abençoado por que, caramba? Que diabo eu fiz para que ele, que nunca me viu mais gordo nem mais magro, me lançasse esse epíteto elogioso? Não dava para ser clássico, ou vintage, e dizer somente “obrigado”?

    Mas não para por aí. Outro dia esbarro no noticiário online na frase “Fulana explana beleza”. Na boa, eu dei um crédito ao autor e fui buscar no dicionário o significado do verbo explanar. Tá lá escrito: 1. fazer exposição verbal de; narrar minuciosamente. 2. tornar plano, fácil de entender; esclarecer, explicar pormenorizadamente.

    Faz sentido? Para mim, nenhum.

    E antes de terminar, aviso: ando de ótimo humor!

  • Memória para último uso

    No dia de seu aniversário de oitenta e cinco anos, ele saiu de casa pela primeira vez depois do longo período em que seus passos só conheceram o caminho entre o quarto, o banheiro e a cozinha. Era outono e fazia frio, e sua garganta rascava. Com esforço, chegou até o banco costumeiro, na avenida diante do mar. Por sorte estava vazio e era disso que precisava: ninguém por perto, nenhuma presença que o incomodasse, nenhum olhar curioso sobre a sua pessoa. Soltou o corpo sobre o assento e tirou o chapéu. Estava cansado. Tossiu e levou a mão à garganta, identificando o incômodo. Passou os dedos pelas tábuas do banco, acariciou os nós da madeira e depois perdeu o olhar na imensidão que tinha à frente. “Este banco é mais confortável que o anterior, de pedra. Mas o mar continua o mesmo de sempre, traiçoeiro.” Olhou as ondas e sua mesmice. Fechou os olhos e respirou devagarinho.

    Quando levantou as pálpebras instantes depois, viu-se com dez anos sentado na areia, fazendo castelos com dois amigos. Em seguida tinha vinte anos e sentiu nos lábios sabores novos: a primeira taça de vinho tinto, o beijo de Marilda, o sangue que a bofetada de seu pai produziu.

    Continuou olhando o mar e apreciando as imagens que passavam diante de seus olhos: a trincheira durante a guerra, a dor, o companheiro que pisou numa mina e perdeu uma perna, a fome, o rádio, as cartas de Marilda, o frio, o cheiro de pão fresco, as fotografias, o casamento, o sorriso de Marilda, o trigo queimado, os filhos, a cidade, a televisão, o trem, o trabalho, a casa que tinha construído à custa de dinheiro poupado por anos, a ausência de Marilda, a solidão, o abandono, o esquecimento, o banco de madeira que antes era de pedra, o mar, a areia, uma lágrima, um sorriso — tudo o que acreditava perdido, até aquele momento, nalgum escaninho da memória. Aprendeu, sentado naquele banco, a abrir os olhos sem medo, a fechá-los sem culpa e a tranquilamente dizer adeus a tudo.

    Certas memórias doem e não cicatrizam. Em vez de obscurecerem com o passar do tempo, como acontece com lembranças desimportantes, elas, pelo contrário, permanecem, fazendo apenas as outras desaparecerem. Essas memórias escurecem como lampadinhas enfileiradas que se apagam uma a uma, lentamente, desafiando a capacidade humana de lembrar. Gritam para continuarem vivas.

    Ciente de que não sabia nadar, caminhou devagarinho na direção da água.

  • Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu prazer. 

    Em nossas mentes pode aparecer uma cena de horror quando os dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como estamos de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito felicidade, empacotada nas mãos a disposição de um instante para se expor, ou enxugar os olhos marejados. 

    Mas se a cena no palco partir de seres sem rosto, recém chegados nesse planeta, descobrindo o mundo como se acabassem de nascer, o que você escolheria para começar tudo de novo? Onde iniciaria sua desventura repaginada com uma lista de quero mais, ou nunca faria novamente o que tanto me desgastou? 

    O silêncio das ideias, traz a tona o sonho, a espera de um despertar magoado pela demora em se desmanchar em vida.

    Nem todos os atos nos levam imaginar existe uma luz no final do túnel, ou “Lanterne Rouge”, expressão tirada do transporte ferroviário, popular no século XIX, como o último vagão do trem que acendia uma luz vermelha para mostrar que era de fato a última composição.

    Nossas escolhas estão sempre em transformação, se modificam na fila da esperança de todos os dias, por isso fica difícil nos chamar de Lanterna nesse campeonato da existência.

    Manter-se a frente das novidades nos permite escapar da sinfonia do Flautista de Hamelin, que conduziu cento e trinta crianças para uma caverna sem saída. 

    “Ao final de tanto viver, não tenha pena dos mortos, mas sim dos vivos, dos que vivem sem amor”. J. K. Rowling.

  • A brevidade da vida – parte 1: A inefável decisão da eutanásia

    Não era meio-dia quando entrei em casa e vi Rex andando, em seu passinho lento, ao redor da mesa. Paty na cozinha, Duque deitado aos seus pés: uma cena comum do meu dia a dia. Dei um beijo em Paty, afaguei a cabeça do Duque e fui falar com Rex. Desde que ele apresentou a demência, minha atenção se voltou inteiramente para a sua segurança.

    Nossos cães são cegos de nascença, mas vivem confortavelmente nessa condição, apesar da idade avançada. Ainda que pese a saúde fragilizada de ambos, Rex recebe nosso cuidado mais atento, embora seja Duque quem tome um monte de remédios e carregue um coração cansado.

    Notei Rex cambalear mais do que de costume naquela manhã. Nesse instante, caminhou em minha direção e caiu diante de mim. Peguei-o no colo e o levei para a cama. Era quarta-feira quando ele mergulhou em um sono profundo de quase 24 horas: sem comer, sem beber, sem reagir aos nossos estímulos.

    Na manhã seguinte, nosso veterinário veio vê-lo. Encontrou-o naquele estado quase vegetativo, sem reação ou sinais de melhora. O que disse não foi nada animador: algo neurológico, sem grandes perspectivas. Para nós, restava esperar e alimentar esperanças. Confiamos plenamente no Dr. Maurício. Eu o conheço há mais de duas décadas e sei que, naquela sua maleta de medicamentos, ele pode carregar muitas esperanças.

    Na sexta-feira, depois de quase dois dias acompanhando um Rex catatônico, falamos pela primeira vez em eutanásia. “Não podemos deixá-lo morrer de inanição”, disse Paty. Decidimos que seria no domingo, com todos em casa e tempo suficiente para uma despedida tranquila.

    No sábado, Carol veio. Eu sabia que ela viria — não só por Rex, mas, principalmente, por Paty. Carol tem essa sensibilidade de chegar e abraçar quando mais precisamos. Coisa rara em muita gente.

    Uma vizinha sugeriu que fizéssemos uma oração com Rex, e eu a fiz na calada da madrugada, antes de o dia amanhecer, justo no dia em que o veterinário viria para fazer as duas aplicações que poriam fim àquele sofrimento.

    No domingo pela manhã, Rex ergueu o tronco e deu alguns passos antes de arriar novamente — para, enfim, sair da inércia, beber água de coco e conseguir comer sem a nossa ajuda.

    Adiamos a eutanásia. Era o certo. Pelo menos enquanto houver qualquer resquício de dúvida.

    Hoje é terça-feira. Rex conseguiu comer um pouco de carne moída. Voltou a urinar em pé e, depois de seis dias, a andar ao redor dos móveis novamente. Há vida pulsando dentro dele, neste exato momento.

    Há uma frase da escritora Camila Appel que diz: “Evitar falar da morte não afasta o fim”.

    Mas há algo que ela não diz, e que a vida ensina à força: às vezes, quando nos preparamos para a morte com toda a lucidez possível, é a própria vida que nos surpreende e pede mais um pouco de tempo.

    E, nesse pouco, cabe tudo, inclusive, cultivar a esperança.

  • Não sei se isso faz sentido

    Cheguei ao fim da linha. Não basta seguir por seguir, sem propósito. A vida me impôs barreiras e superei quase todas. Agora, depois dos sessenta, estou endividado, falido e exausto. Tudo por causa da minha consciência franca, para acreditar nas pessoas. “Celso, tu tem condições de comprar isso! Tu pode viajar, espairecer”. E fui entrando numa bola de neve, apesar de ganhar bem. Trabalhando na iniciativa privada, é hoje, não é amanhã. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mudou, para pior. Descartável – como suponho –, fui posto para fora do trabalho. Soube que ocupa o meu lugar hoje um rapazinho de seus dezoito anos. Tem mais gás – é verdade –, mas não tem a minha experiência em analisar planilhas, escrever os relatórios etc. e tal. Por isso a minha falta de ânimo e de crença no amanhã. Não fosse uma reserva que guardei, passaria fome. Digo que só sou eu no mundo. Meus pais morreram, e apenas sobrou uma tia-avó endinheirada, mas mão-de-vaca. Não posso, nunca, contar com ela. A fortuna dela provavelmente ficará comigo, caso não tenha feito um testamento para doar ao clube de terceira idade, onde participa, ativamente, das atividades, como o bingo. A única alegria que tenho é o Biloro, o meu cachorrinho. Não me cobra nada, a não ser carinho. É um bichinho inteligente pacas. Sabe quando estou mal e passa o dia deitado perto da minha cama, para me fazer companhia. Ligo para titia, para trocar umas palavras, e ela logo desliga, dizendo que não tem tempo. É durona, aos noventa e três anos. E é intragável (esqueçamos dela)… Tenho algo como mais seis meses para gastar as minhas reservas. Algo de bom tem de acontecer. Entrego meus currículos em várias empresas – sem aquela loucura de ser manual; é tudo virtual –, inclusive internacionais. Posso trabalhar como jornalista e redator, já que tenho curso superior em ambas as áreas. Paula diz que conseguirei dar a volta por cima. Ela é minha amiga e ignora o estado em que me encontro. Na verdade, é um pouco infantil e fantasiosa. Quer que eu faça algum exercício para não entrar em depressão. Mas a maldita já me ataca há anos. Falei a ela e a coitada disse que não se lembrava: “Perdão pelo lapso!”. Como vou conseguir superá-la? É algo sério que venho tentando há anos lutar contra, e fracassando arrasadoramente. Os médicos também me cobram alguma atividade física. Terei de fazer, a contragosto. É isso. Não tenho muito mais a dizer. Recomecei a psicanálise, e o analista pediu para eu escrever este relato, para que pudesse “elaborar” os meus problemas. Fábio, o tal psicanalista, é um tanto romântico, imagino, porque tem muitas ideias felizes. “Faça um passeio no parque e leve o cachorro. Vocês terão um dia muito agradável!”. Gosto do Fábio, ele realmente sabe me convencer, com jeito e cuidado. Tenho pouco a quem recorrer. E às vezes sou convencido de que há saída. Mas as minhas emoções são voláteis; tenho dias bons e ruins. Hoje, acho que devo continuar, lutar pelos meus sonhos. Um deles é escrever o meu primeiro livro. Será uma realização. Nunca tive tempo para coisas assim, agora aproveito para escrever. Escrevendo viverei. Oxalá esteja certo desta vez.

  • Retratos Fantasmas

    “Retratos fantasmas” é um documentário brasileiro que foi lançado no ano de 2023, dirigido, escrito e narrado por Kleber Mendonça Filho.

    Essa obra é muito interessante para que o público amante do cinema brasileiro possa conhecer mais sobre esse genial diretor. Kleber demonstra todo o seu amor pela cidade onde viveu, o Recife, pelo cinema e por suas memórias de família. Por meio desse trabalho, é possível entender melhor quem é ele como pessoa e por qual motivo suas obras tem a riqueza de detalhes como característica.

    É possível ver vários cenários que compõem os filmes dirigidos por esses diretores. No filme, aparecem os cenários utilizados para gravar filmes como “O som ao redor”, “Aquarius”, “Recife Frio” e até mesmo muitas ideias que foram utilizadas em “O agente secreto”. Por meio das histórias que são contadas, é possível perceber que o diretor usa suas vivências para ajudar na construção dos filmes que escreve e dirige.

    O documentário é dividido em três partes. Na primeira, ele fala sobre o bairro de Setúbal, onde foi criado e viveu muito tempo. Aliás, nessa parte é curioso ver que o filme “O som ao redor” foi gravado no apartamento onde Kleber morou. Chama atenção também a influência que Dona Joselice, mãe de Kleber, teve em seu posicionamento de vida e ideológico.

    A segunda parte é um grande mergulho sobre os antigos cinemas do Recife e pelo seu centro da cidade. Ele comenta os processos de metamorfose que a cidade sofreu ao longo dos últimos anos. O trecho já inicia com imagens de antigos cinemas que viraram igrejas, farmácias, shopping centers, e outras coisas.

    A terceira parte foca na transformação dos cinemas em igrejas evangélicas.

    Tudo o que foi falado, demonstra o cuidado de Kleber em construir um documentário com muita pesquisa histórica, afeto e conhecimento técnico. Ele utiliza técnicas de cinema o tempo todo, com destaque para o cinema de terror.

    Dessa forma, “Retratos Fantasmas” é uma obra essencial para entender esse diretor e saber o porque ele é tão celebrado nacional e internacionalmente.

  • O que não pode esperar

    A cena é a seguinte: um homem está numa fila de uma clínica médica — mas poderia ser do Detran, de um laboratório, de um cartório, já que o que vai acontecer é muito comum —. Ele, mesmo podendo fazer tudo pelo celular, coloca uma pasta em cima do balcão, apoia os cotovelos, ignora a fila que se formou atrás dele e vai mostrando exames que precisa apresentar para duas médicas, uma delas oftalmologista. São muitos papéis. Ele se confunde.

    Tudo isso de manhã, num sábado, com a cidade aparentemente mais calma. Olho para a máquina de café, quero pegar um cafezinho, mas penso em tomar um depois de passar no guichê, para ganhar tempo. Mas quero ficar ali, ouvir, embora eu não precise falar nada.

    Na fila, posso ver o muxoxo de um e de outro, geralmente jovens, meninos e meninas — acostumados com Pix, QR Code, aplicativos.

    A atendente diz:

    — Não, este aqui… deixa eu ver… este aqui o senhor traz na terça-feira.

    — E este aqui? — pergunta o homem.

    — Este aqui é na quarta-feira.

    Olho a fila: gente de braços cruzados, guardando o celular no bolso e pegando de volta várias vezes.

    O homem debruça os cotovelos no balcão, não olha em volta, não vê a fila se formando atrás dele. Ele, que vem de um outro tempo, parece ter um ritmo próprio, diferente dos outros — mais lento, mais pausado, mais calculado. Ele foi até ali, precisa resolver tudo para não ter que voltar. Vejo que, naquele dia, ele está sozinho — nem um filho, mulher, netos.

    Aí, de repente, me veio ao pensamento a pergunta: “O que não pode esperar?” Às vezes, ao sair de casa para trabalhar ou dar um simples passeio, somos engolidos por uma pressa que nem nos damos conta. Quando é assim, sempre me lembro de um ensinamento do meu pai: “A gente não existe no mundo sozinho.” E, para existir, a gente precisa entender que nem todo mundo vive no mesmo tempo, que, na vida, cada um se vira do jeito que dá.

    De repente, aquele homem que cresceu num mundo de telefone fixo, papéis, guias, boletos, carnês e carimbos acorda e dá de cara com um mundo feito de QR Codes, Pix, inteligência artificial.

    Existimos, sim, no mundo; mas não sozinhos — sempre com os outros. Por isso, do meu canto, tento entender aquele homem, a aparente tranquilidade com que confere os papéis que entrega para a recepcionista. Ela pega um dos documentos das mãos dele e explica calmamente:

    — Não, este aqui é o de terça-feira. Mas o senhor tem que trazer junto com o exame, tá bom?

    A voz da menina é calma, vem acompanhada de um sorriso, um tom afetuoso, de quem fala, talvez, com um pai ou com um avô.

    — Agora o senhor entendeu?

    — Entendi sim, minha filha.

    — Não perde não, tá bom?

    Ele coloca, um a um, todos aqueles documentos numa sacola, devidamente dobrados, dentro de uma pasta.

    Ouvi, certa vez, não me lembro de quem, a seguinte frase: “Quando a gente envelhece, a mochila fica mais pesada.” Naquela idade do homem na fila, os pais já se foram, muitos amigos morreram, talvez ele seja viúvo, aposentado. E, com essa “mochila” que chamo de bagagem de vida, ele foi ali, junto com a atendente, achando um jeito de fazer as coisas do seu próprio jeito, no seu tempo, sem ligar muito para a pressa dos outros.

    Fico pensando que, no passado, ele pode ter sido alguém que organizou a vida de muita gente. Um porteiro? Talvez. Garçom? Pode ser, claro. Fico ali, tentando descobrir — ou inventar — uma profissão para ele. Manobrista, dono de um bar, caseiro. Alguém que, em algum momento da vida, organizou a vida de muita gente, tornou tudo mais fácil, não deixou nada fora de ordem. Agora, ali, com aqueles documentos.

    Ao sair de casa, você e eu — é comum que, ao atravessar a rua, tenhamos aquela sensação: “Puxa, aquele cara anda tão devagar” ou, em determinados dias: “Meu Deus, onde ela vai com essa pressa toda? Precisa?” É como se todo mundo quisesse um mundo só seu, uma rua só sua, um trânsito só seu, um guichê de atendimento próprio.

    Ninguém fala nada. Uns olham o celular, outros fingem conferir uma receita qualquer, gente olhando para um lado e para o outro. Mas todos querendo um mundo só seu.

    Mas, infelizmente, não é assim. Quer seja numa fila de banco, hospital, qualquer lugar, o negócio é encontrar a nossa cadência com a dos outros. Por isso, olho para o velho que estava na fila. O mundo não anda devagar demais nem rápido demais. Afinar nosso tempo com o dos outros — sempre. Não é fácil, mas é o que faz a vida valer a pena.

  • A escova de dente que não era de ninguém

    Os atritos começaram quando ela, aos dezesseis anos, se recusou a tirar o título de eleitora.

    Vestia uma camiseta desbotada dos Bad Brains e disse que teria o título apenas quando fosse obrigada, aos dezoito anos.

    Dizia sempre que jamais votaria, em quem quer que fosse.

    Desprezava todos os políticos.

    Dizia para quem perguntasse: “Tanto a direita quanto a esquerda cheiram a merda, e são as duas pernas de um esqueleto moribundo.”

    Seu tio estava em campanha para vereador e vinha se sujeitando a todas as presepadas que só um político profissional é capaz, e naquele momento, não contar com o apoio irrestrito da família era para ele uma derrota e um insulto.

    Muito antes das questões relativas à sustentabilidade virem à tona, impulsionadas pelas catástrofes ambientais agora visíveis até pelos mais desprezíveis defensores de falsos conceitos de desenvolvimento, que envolvem lucro sujo e imediato, ela criticava o descaso por consequências de médio e longo prazo para que se mantenha a possibilidade de vida humana no planeta.

    Ela vivia questionando também se a vida humana no planeta de fato valia a pena.

    Sabendo que a máquina estatal é um moedor de sonhos populares e sucumbindo às vaidades do poder e às suas ambições materiais, o tio finalmente foi eleito vereador.

    Temia o repúdio eterno da sobrinha, mas aquele propósito era um projeto de vida que para ele visava a garantia de um futuro sem preocupações materiais, uma aposentadoria precoce e o resto de sua vida contabilizando dividendos que fariam a preocupação com os temidos boletos da vida se transformarem numa lembrança pálida e distante.

    Quando viu seu adesivo de propaganda eleitoral com sua cara retrabalhado pela sobrinha fazendo de sua imagem um meme para o avacalhar diante de todos, e fazendo dele um motivo de chacota para a família, soube como nunca que seu caminho não tinha volta.

    O escárnio por parte da família ainda era discreto e corria às suas costas, exceto por parte da sobrinha, cuja opinião sobre políticos em geral ele conhecia bem.

    Os outros parentes ainda sustentavam resquícios de reconhecimento pelos seus esforços para atingir aquele objetivo, que uma vez atingido, se revelou ser menos relevante, sobretudo do ponto de vista ético.

    Agora eleito e cumprindo protocolos que garantiam seu salário vantajoso, podia desfrutar acima de tudo do esquecimento de seu eleitorado, que desesperado a cada dia na luta pela sobrevivência, não cobrava por promessas eleitorais feitas enquanto ele cinicamente comia pastel na quebrada dizendo que a vida do povo iria melhorar.

    Esse distanciamento vantajoso era contrastado com o vazio familiar antes anestesiado pela sede de poder que o acompanhava ao longo da vida e que durou até pouco depois da eleição.

    A sobrinha era o pivô dessa sua nova inquietude existencial, já que era impossível fugir dos noticiários que, mesmo mostrando de forma parcial e editada toda a vergonha que representa a máquina estatal, ainda assim apunhalava agora a sua consciência.

    Isso passou a atormentá-lo cada vez mais à medida em que o tão desejado objetivo foi se mostrando oco e opaco diante de um cotidiano permeado por relações corruptas que invariavelmente se sobrepunham a qualquer fagulha de boas intenções inerentes à sua essência humana.

    O carro luxuoso, a dispensa cheia de importados e o terno cortado sob medida eram agora tão cotidianos, que a tão sonhada aposentadoria precoce e sem problemas financeiros logo se tornaram uma confusa perspectiva, uma névoa sobre qual seria seu legado deixado quando sua finitude natural começasse a se aproximar e pesar muito mais que seu poderio financeiro.

    A sobrinha ingressou na faculdade, mudou-se para o interior e seu distanciamento com o tio era apenas uma molécula de desprezo se comparada ao sentimento que ela tinha pela classe política como um todo. 

    As conversas sobre política que ela ouvia quando entrava em qualquer padaria faziam tanto sentido quanto a existência dos envolvidos.

  • Poema #61: Portal da Dor

    Cap. I – Da Doença

    Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos.

    Cap. II – Da Morte

    Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença, paramentos religiosos, cinco anúncios na rádio local, translado de até 70 km e locomoção até a morada final.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências


    Agradecimentos ao Augusto dos Anjos, à D. Ester Fialho e ao Pax Ervália que funciona em frente ao necrotério.

  • Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.

    Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.

    Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:

    Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?

    Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.


    “Esquisito:
    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.

    Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.

    E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.

    Aquilo que foi procurado com cuidado.

    Escolhido. Refinado. Raro.

    Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.

    E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.

    Escorregou.

    Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:

    1. O que era raro passou a incomum;
    2. O que era incomum, estranho;
    3. O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.

    Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.

    Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.

    Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.

    Senti-me… esquisita.

    Nada elegante.
    Nada refinada.
    Nada desses termos que se provam com deleite.

    Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
    Mais próxima de um desalinho.
    Mais próxima de todas as dúvidas.

    Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:

    E se eu não estiver mais aqui?

    Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.

    Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.

    Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.

    E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.

    Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.

    Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.

    Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.

    Em lapsos de presença.

    Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.

    Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.

    Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.

    Não se deixar reduzir.

    Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.

    Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

  • A Bomba

    São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
    Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
    humano se parece com uma bomba…

    A bomba está prestes a explodir!

    Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

    A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

    Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

    Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

    Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

    A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

    Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

    A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

    Numa briga de trânsito, ela explode.

    Numa esquina incerta, ela explode.

    Numa discussão em família, ela explode!

    Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

    Na discussão política, ela explode!

    Nos discursos de ódio, ela explode!

    A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

    A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

    À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

    A bomba está prestes a explodir!

    Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

  • Feliz no simples!

    A frase acima vem sendo usada, não sei se por deboche ou pelo sentimento que alguém expressou, de encontrar felicidade, nas coisas cotidianas e simples da vida.

    Um papel e uma caneta, o aplicativo de notas, a tela com o word.

    A observação despretensiosa, um conto relido, uma cena ou dialogo interessante, um espanto, uma frase solta, enfim. Me sinto motivada a escrever, narrar, contar os fatos como a minha imaginação propõe. 

    A vida mostrada com diálogos que prendam o leitor, que o coloca como se fosse o protagonista, que o incomoda ou alegra, pode ser considerado simples. Mas não deve envergonhar o escritor, uma vez que ele nao se prenda a modismos, nem tenha a pretensão de fazer literatura esnobe e muitas vezes vazia.

    A simplicidade não é um defeito, mas sim uma forma de narrar usando os instrumentos de que a escrita se utilizou e utiliza ao longo dos tempos.

    O simples é lindo, e está sempre a nossa disposição, como um dia de domingo.

    Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados e socados com um martelinho de madeira, num quase ritual pela busca da carne branca e rija dos crustáceos.

    Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma família alegre, típica, que viera aproveitar um domingo à beira-mar.

    “Queijo coalho!”, ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia com fogareiros acesos, garrafinhas de melaço e saquinhos de orégano, levando a iguaria justamente onde sabiam reconhecer seus prováveis clientes. Onde há crianças, a venda é quase certa. Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas se avivavam com o vento. Com destreza, giravam o palito entre os dedos e, num instante, o cheiro do queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.

    “Olha o amendoim!”, gritava outro, passando a xicarazinha com três ou quatro amostras de amendoim torrado ou a castanha de caju, docinha de tão boa, servida num fundinho de copo plástico. Vai querer? O saquinho de papel pardo mudava de mãos, o garoto recebia o pagamento e seguia adiante.

    “Olha o picolé!”, repetia mais um, aproximando-se e juntando a gurizada em volta do carrinho.

    Além das guloseimas, surgiam vendedores de bijuterias, cangas, tatuagens de henna, camisetas e brinquedos que fariam sucesso apenas naquele verão, mas que, ali, eram tesouros indispensáveis.

    Quase onze horas. Lá vinha o menino com o peixe vermelho cru, temperado e vistoso, oferecendo aqui e ali. O almoço desfilava entre os banhistas: “Num instantinho estará assado acompanha farofa e vinagrete. Tamanho? Dá para até seis pessoas. Se a madame quiser trazemos uma porção de batatas fritas enquanto o peixe fica pronto.” O garoto passava com a sua cantilena, na certeza que na volta a venda seria certa. Faro de vendedor…

    O desfile de ofertas não tinha fim.

    — Esse menino não passou aqui agorinha?

    — perguntou a senhora à sobrinha.

    — Não, não era esse. Aquele já foi, esse está vindo. Tia, quantas cervejas a senhora já tomou?

    — Ah, mas é praia. E só uma vez ao ano — interveio o tio.

    — Que é isso, menina? Me respeite!

    Domingo na praia.

    O mar em seu balanço constante, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora recolhendo-se à própria imensidão.

    Parecia participar da festa, da comilança, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, do gurizinho ranhento, da mocinha orgulhosa do biquíni novo, da senhora feliz com a cerveja na mão e a folga da cozinha, os pés afundados na areia fofa ao lado do marido, dos netos e da sobrinha.

    E ele assistindo tudo. Alegrava-se com os garotos que plantavam bananeiras, com os rapazes que improvisavam um futebol, com os senhores que caminhavam carregando os tênis nas mãos. Naquele vai e vem paciente, era o astro do grande cenário que sustentava o espetáculo.

    O domingo foi indo. Guarda-sóis se fecharam, cadeiras se dobraram, sacolas foram recolhidas até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.

    A lua subiu no céu e prateou a imensidão da água, que tomou um tom de chumbo iluminado. As ondas murmuravam baixo, deixando trilhas de espuma branca sobre a areia ainda morna.

    No vai e vem tranquilo, pareciam guardar ecos do dia. Um resto de riso espalhado no vento, passos descalços marcados e logo apagados, cheiro de queijo assado que já não estava ali.

    O mar ali… Sereno.

    Como quem sabe que amanhã haverá outra família, outras vozes, outro domingo inteiro para acontecer. Qualquer que seja o dia, estarão “Felizes no simples”

  • A ira do Irã

    O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

    Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

     A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

    Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas trascorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

    Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

    Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

    Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

    De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

    Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

    A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com partidas programadas para o território do país que perpetrou o ataque.

    Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA deveriam ser desqualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

    É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

    Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, de envenenar bebidas de desafetos políticos.

    Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

    Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil permanente, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

    A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

    No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

    A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

    Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.

  • Um velho amigo me deixou

    Meu velho amigo parou de funcionar. Estava em plena atividade quando simplesmente apagou. Uma tristeza.

    Estou falando do barbeador elétrico aí da foto. Sério. Estamos juntos há mais ou menos 45 anos. Mais para mais do que para menos. Ganhei do meu pai quando a barba encorpou.

    E desde então ele está comigo. Me viu na puberdade, escutou meus resmungos pelos mais variados motivos. Não poucas vezes, testemunhou minha animação em frente ao espelho me arrumando para encontrar aquela garota bonita que me causava taquicardia. Mas nunca soube da minha frustração na volta do encontro depois de escutar as palavrinhas amargas “você é legal, mas quero ser só sua amiga”. Vida que segue.

    E seguiu e você, meu velho amigo, periodicamente estava lá, comigo, me ajudando a ficar melhor apresentável. Há quem discorde mas como gosto de fazer a barba, o barbeador sempre teve lugar de honra no meu banheiro.

    Mesmo quando, por muitas vezes, o troquei pela lâmina de barbear nunca deu qualquer demonstração de ciúme. Ao contrário, cada vez que era convocado para enfrentar minha barba cerrada, herança do meu pai, nunca recuou ou mesmo engasgou. Cumpria sua parte com admiração transformando lixa em bumbum de neném.

    Enfim, mas nada é para sempre. Nem as pirâmides e muito menos meu barbeador elétrico.

    O que me resta? Lamentar? Ou buscar algum arqueólogo de apetrechos elétricos capaz de reviver meu amigo?

    Não sei, não me decidi. Por ora, olho meu velho camarada deitado inerte. Mas, se há um fio de esperança quem sabe ele não volta à ativa? Porque a gratidão pelos serviços dele é grande.

    Afinal, ainda lembro naquela vez, lá no século passado, quando aquela moça, uma das que povoam minhas doces lembranças, sorriu para mim. Tenho certeza que foi depois de ver meu rosto bem barbeado. Ela até disse algo como “olha que ele se arrumou mesmo só para mim” e não foi ao sentir o aroma do poderoso RogerGallet. Não foi mesmo, meu velho amigo…

  • A armadilha do lugar-comum

    Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso.  Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem.   

    É comum alertar os redatores contra o vício das gírias, que na linguagem formal devem ser evitadas, mas por vezes se esquece de adverti-los sobre um inimigo bem mais perigoso e sorrateiro – o lugar-comum. Prevenir-se contra a gíria é fácil. Bem orientado, o redator evitará palavras como “bacana”, “maneiro”, “barato”. Ou construções do tipo “A polícia levou em cana o traficante”, “O presidente não está nem aí para o aumento dos juros”, “A prova foi beleza”.

    Mais difícil é escapar dos clichês. Eles são frequentes, por exemplo, no vocabulário dos comentadores esportivos. Quantas vezes não lemos que um time conseguiu o empate “ao apagar das luzes”? Ou que a contratação de certa pessoa vinha “preencher uma lacuna”, porém a sua atuação “deixou muito a desejar”? Para se “reverter um mau resultado”, é preciso “garra e determinação”. Time que “não faz o dever de casa” pode se deparar com o “fantasma do rebaixamento”. Quem sofre algum tipo de revés não tem outro remédio senão, a duras penas, “correr atrás do prejuízo” (é curioso que, mesmo tendo sido prejudicado, ainda se deva perseguir o prejuízo, e não dele escapar!).   

    A política, com a sua retórica surrada, é outra fonte de lugares-comuns. Uma das marcas dos clichês políticos é tentar compensar a ausência de ações com o uso de palavras ocas, demagogia verbal. Muitos dizem se candidatar por um chamado da “voz rouca das ruas”. Se, eleitos, não fazem mais pelo povo, é por “falta de vontade política” dos correligionários. Quem não promete em campanha um “combate implacável à corrupção”? Se o governo é acusado de não “fazer o dever de casa”, é por “intriga da oposição” (expressão que de tão frágil naquilo que pretende mascarar – a incompetência da situação –, já se incorporou ao anedotário nacional).

    A par dos lugares-comuns, há os modismos. Estes são como uma enxurrada – vêm com força mas, felizmente, logo vão embora. Alguns aparecem no rastro de programas televisivos, como o famigerado “Me poupe!”. Outros se ligam ao ambiente acadêmico, a exemplo do intragável “fazer uma colocação” em vez de simplesmente “manifestar um ponto de vista”.

    Sempre que trato deste assunto, lembro-me do tempo em que fui aluno do escritor Cyro dos Anjos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A disciplina era Oficina Literária, e o autor de O amanuense Belmiro, Abdias, Montanha e outros bons romances de linhagem machadiana frequentemente nos alertava para o risco das “chapas” – expressões batidas, frases feitas que se tornaram previsíveis e desgastadas pelo uso contínuo.         

    Certa vez Cyro nos entregou uma relação com várias delas. Por exemplo: implacável destino, esposa exemplar, insidiosa moléstia, virtudes imarcescíveis, radiosa manhã, irresistível impulso, olhar glacial, perigoso meliante, nobre colega, vasto repertório, etc. etc. Guardei esse papel, que utilizo para prevenir os alunos contra a armadilha do lugar-comum.

    É preciso fugir deles… como o Diabo da cruz! Como o leitor pode ver, nem sempre é fácil.

  • A menina e a caixa de sapato

    A menina encontrou uma caixa de sapato na soleira da porta de casa. Era uma caixa enorme – devia ser um homenzarrão, pensou a menina. Dentro um bebê, com um gatinho recém-nascido no meio das pernas. O bebê era minúsculo, peladinho, a pele quase transparente, esticadinha. O gatinho era molinho, parecia que a gente ia esmigalhar, só de pegar.

    A mãe gritou lá da cozinha:

    – Que é, Cidinha?

    – Nada, mãe.

    – Essa menina, disse o pai.

    E a menina – só a menina, sem nome mesmo; essa menina! –, a menina toda ansiosa correu esconder a caixa de sapato. Apertava no peito – é minha! Queria esconder nas costas, debaixo do vestido, dentro da boca, dos olhos enormes. Escondeu embaixo da cama, até que o pai e a mãe fossem trabalhar.

    – Cuida da porra da casa, disse o pai. – É só uma criança, disse a mãe. – A casa é a porra da casa, disse o pai. E bateram a porta.

    Enfim sós. O coraçãozinho apertado – ver meus bichinhos, uh!

    Pegou a mamadeirinha da boneca, encheu de leite, tomou um pouquinho – um golinho só, para experimentar. Ficou olhando para os dois bichinhos na caixa de sapato – para qual primeiro? O gatinho, está chorando mais alto. E enfiou a chupetinha entre os dentes do gatinho, que virava os olhinhos pingando remela. O nenezinho só soltava um gemido, fino, fraquinho, nem se ouvia.

    Logo é a sua vez, disse a menina. E olhou bem: – Você é macho ou mulher? Não tinha nada no meio das pernas – xi, será…? Vai que não nasceu ainda o pintinho dele. Enfiou a mamadeira na boca do coitado – bebe, tonto! E o tontinho não bebia. Nem chorar não chorava – será que morreu, essa porcaria?

    O gatinho se virava de lado, miu, miu, soltava um miadinho sem graça. O nenezinho, nada! A menina fez beicinho – e agora? Fez cosquinha na barriga do gatinho. Depois fez a mesma coisa no nenezinho; ergueu, escutou o peitinho, depois o nariz – encostou o nariz no nariz dele. Pô, jogou o nenezinho na caixa de sapato. Ai, logo se arrependeu – e se cai em cima do gatinho?

    Arranhou o dedinho – esse ainda está vivo. Mas como está lambuzado! Pegou o pano de prato e esfrega, esfrega, quase mata o gatinho – ou será que não está morto não? Aperta bem – nem um gemido! Está mortinho da silva, ela disse. E foi apertar o nenezinho, mais mortinho ainda. Aperta que aperta, bem no pescocinho – se não estava morto, agora está!

    E agora? Que é que eu faço com essas duas coisinhas? Enfiou na caixa de sapato, socou bem – pareciam maiores agora – e foi botar na porta da vizinha. Pensou em chorar, só um pouquinho – estavam mortos mesmo, disse, e foi varrer a casa.

  • A peça mais preciosa

    A senhorita Mariquinha Penaleve era tão pequena que nem se dava ao trabalho de usar salto alto; sabia que nem assim seria notada. Quando caminhava pela calçada todos a confundiam com uma menina. Nem sequer pensavam: “Mas que mulher pequena!” Era só uma menina o que todos viam.

    Se, por um lado, ser confundida com uma menina compensava seu complexo de estatura, por outro trazia um problema: nenhum homem a olhava como possível namorada ou esposa. Como formar uma família com uma mulher tão pequena? Tampouco o senhor Arturo, o dono da loja de antiguidades, dava atenção a ela, mais ocupado em limpar e lustrar as peças de metal dourado que adornavam sua vitrine. A senhorita Mariquinha passava horas na frente da loja observando como o senhor Arturo mimava os objetos, com que delicadeza os acariciava!

    Uma manhã, Mariquinha acordou decidida: era hora de empurrar o destino e mudar sua sorte. Marcou hora no cabeleireiro, na manicure e na maquiadora. Saiu do salão de beleza com os cabelos parecendo fios de ouro e os olhos como duas bolinhas azuis de gude. Foi para casa e tirou do armário o vestido rosa de tule. As sapatilhas de bailarina e um pequeno chapéu com fita lilás completaram o efeito que desejava: agora ninguém mais a confundiria com uma menina, nem o senhor Arturo. Todos teriam certeza de que se tratava de uma boneca, dessas de fina porcelana. Hoje o antiquário dedica horas de cuidado e carinho para a senhorita Mariquinha e a expõe na vitrine como a peça mais preciosa de sua loja.

  • A mágica aparece!

    Às vezes a vontade de desistir não é só uma ideia passageira, porque já acordamos cansados, sem saber o porquê. Tudo parece inútil e cada passo é arrastado, cada dia, um fardo. As pessoas falam, o mundo gira, mas dentro de você tudo está parado, escuro e frio. É como se ninguém visse, é como se ninguém soubesse que por trás do “Tá tudo bem”, existe um grito preso na garganta, implorando para ser ouvido.

    Mas aí, mesmo, no fundo do poço, algo pequeno ainda pulsa, quase imperceptível, uma lembrança, um rosto, uma promessa, e por um triz você se segura, não por força, mas por instinto, porque por mais-que-tudo esteja desmoronando, ainda existe uma parte de você que recusa a morrer, uma parte que não entende o caminho, mas sente que precisa continuar.

    Com tanta dúvida e indisposição eventual, fica fácil entender que não somos normais para decidir quem aceitamos em nosso mundo social, e quem rejeitamos. É hora de reconhecermos que o normal é uma ilusão prejudicial, como escreveu Roy Richard Grinker, PH.D em antropologia social, em seu livro “Ninguém é Normal”.

    Ele desmonta os mecanismos de exclusão e as práticas de silenciamento psicológico que, em diferentes épocas, oprimiram seres humanos em função de gênero, raça, classe, religião, sexualidade ou deficiências físicas. E aponta o poder criativo e transformador da cultura como caminho para reduzir cada vez mais o medo, a vergonha é a dor.

    Quando ficamos mais velhos a impressão que nos dá é que necessitamos justificar nossas vidas e escolhas feitas no passado, por isso acabamos por buscar erros que nos trouxeram até aqui. Porém, a esperança é a coisa mais jovem que existe e ela nos questiona a cada instante querendo saber qual é o tempo que é mais importante.

    Quando você reduzir a velocidade vai entender que o mundo funciona ao contrário do que imagina. Você solta o apego a vida te dá mais. A inspiração surge quando você se permite descansar. Quando você parar de querer se encaixar em alguma turma, vai encontrar sua tribo. E passa atrair muito quando deixa de precisar demais. E quando você se atreve a ser você, a mágica aparece. Saiba aprender a conviver com a solidão, e nunca mais se sentirá só, e ao passar a se sentir em primeiro lugar, os outros vão te tratar melhor. As coisas e pessoas passam a te encontrar quando você para de procurar e a vida acontece quando você está ocupado fazendo outros planos.

  • Posso ser escritor

    O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo percebeu e pediu para eu me sentar novamente, que ele iria no meu lugar. Logo retomei a consciência e fui ao chamado urgente, urgentíssimo. Cambaleante, tinha de seguir. Então, fui pé ante pé, devagar. O chefe, como sempre, me disse que era urgente – me alertando – o que teria de ser feito. Eu deveria olhar três grossas pastas e atualizar a movimentação dos processos – era, como é de fato, o pior serviço do mundo, em que tenho de olhar cauteloso e constrito, longe do mundo ao redor, para não perder o fio da meada. Já estava decretado, eu teria um dia difícil e pouco aprazível. Não faria minhas intimações com vontade, como o gosto de fazer. Teria, a meu ver, de me preocupar com o supérfluo. E o chefe atentou para o fato de que eu não deveria dividir as funções, porque eu era o responsável por aquele tipo de ação. Voltei ao computador, já com as pastas em mãos, deixei-as no birô e peguei a xícara vazia – sempre que há algo de que eu não gosto no trabalho, tento me desviar um pouco, vou ao banheiro, vou à copa para pegar um café, mas não fico parado; isso serve para recobrar as forças. Fui rapidamente à copa, para pegar mais café – a verdade é que preciso de café constantemente, para viver, para ficar alerta durante o dia. Ali, me detive um instante-eternidade, para recuperar as forças – é o que faço independente do gosto do chefe, que fica resmungando à sua mesa porque não comecei a trabalhar. Já não podia mais, de cansaço desmedido – de uma noite mal dormida, para completar –, e a tarde se arrastava. Maurinho, meu filho, tinha vomitado a madrugada toda, estava enjoado e mal. Não foi ao colégio e ficou com a avó. A todo instante pensava nele, e que por ele me submeteria a qualquer abuso – ainda que não pudesse chamar o meu trabalho de abusivo, era somente chato e repetitivo. Peguei o café e bebi desalentado. Minha mãe ligou, dizendo que Maurinho não tinha melhorado e que iria ao hospital com ele. Tive pena e medo do que pudesse acontecer ao meu filho. É justo ficar pensando no filho e não poder fazer nada para ajudá-lo? Pensei: “os dias parecem ser todos iguais; mas uns piores que os outros”. Levemente, na minha mesa, baixei a cabeça e, por um descuido, tirei um leve cochilo. Sonhei, furtivamente, que estava na Bulgária, tomando um vinho e escrevendo. Paulo, meu colega, me deu uma leve tapa no rosto e tornei à realidade, pensando em ler Viktor Frankl – um livro que me agradara muito – e o sentido da vida, além de pagar boletos e coisas comezinhas. Viktor Frankl, por um dia, me salvou, porque sei que, nalguma adversidade, posso ser escritor.

  • O Céu de Suely

    O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos.

    O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance…

    No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar.

    Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por gerar a necessidade de cuidar de um ser humano e gerar sustento para o lar, e cruel, mas que mostra a força dessas mulheres diante desses desafios injustos impostos pela vida.

    “O céu de Suely” nada mais faz do que narrar uma realidade. Aquela que se constrói por meio de sofrimentos, mas também muita esperança. Nesse sentido, merece destaque a trilha sonora do filme que é carregada de regionalismo e mostra a riqueza cultural que o Brasil tem.

    Tudo isso que foi comentado, faz dessa uma obra muito interessante para ser lembrada como uma das grandes produções brasileiras. Esse é apenas o segundo longa-metragem de um dos diretores que considero, na atualidade, um dos grandes do cinema brasileiro. Vale a pena conferir.

    O Céu de Suely
    2006 | 16⁩ | Drama
    Sinopse: Para conseguir dinheiro, uma mãe decide rifar o próprio corpo para uma noite de paixão, chocando a cidadezinha onde vive com seu empoderamento feminino. Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel, Zezita Matos, Mateus Alves, Gerkson Carlos. Direção: Karim Ainouz.

  • A alegria dos outros incomoda

    Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”.

    Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol.

    Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo.

    Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente que sempre tem um problema novo pra contar. Parece parte do DNA dela – esse jeito de levar a vida, como se o mundo devesse alguma coisa. Pra esses, a alegria da gente pode ser irritante mesmo.

    Gente assim costuma ficar de cara feia quando os outros estão felizes. Eu, da minha parte, acho que quando não tá num bom dia a pessoa devia pelo menos fingir que tá. Pra gente não precisar esconder o sorriso quando ela passa com a dor dela.

  • Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox:

    “O seu destino é criar, não cumprir.”

    Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita.

    Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles.

    Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista.

    Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. 

    Zími respondeu:

    “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, ganha mais peso, por mais contraditório que possa parecer. Na música, nos manifestamos contra a barbárie e o fascismo, e quem está no sentido contrário terá problemas com o mundo e com a vida, não será comigo. Mas nunca recebi mensagem de ninguém que se declarasse hater. De qualquer forma, se existirem, quero que se fodam.”

    Mila Cox respondeu: 

    “Perguntei só pra ouvir o que você responderia. Eu sei que você não tem haters, eu saberia se tivesse.”

    Zími falou:

    “Quando esse tipo de coisa surgiu, de ter haters ou ter seguidores, eu já tinha idade pra não levar essa merda a sério. Antes da internet já havia a noção geral de que não devemos nos animar com elogios e nem desmoronar com críticas. Mas ao longo desse tempo, o que mais me choca é que existem os “influenciadores”. A pretensão de quem se autodenomina influenciador é algo  que até hoje eu não sei nem mesmo se quero entender. E se formos falar do influenciados, estaremos revisitando as músicas que fazemos, sobre como as massas são teleguiadas e precisam desesperadamente de um líder, que surge em alguém que simplesmente se autoproclama líder. Qualquer picareta com certa audácia é capaz de fazer enormes estragos sociais.”

    Cox foi a primeira garota vista por Zími a usar uma camiseta do Van Der Graaf Generator. Agora ela reclama da domesticação do rock e tripudia a absorção do gênero pelo corporativismo. Critica a auto censura, o silêncio e a conformidade da cidadania diante de escândalos bizarros da elite. Tem vinte e um anos e seu combustível é literatura beat, rock obscuro e tensão urbana. Mas ela nunca saberá como era o mundo antes da internet, e não se importa com isso.

    Ela diz:

    “Isso foi no século passado. Agora é tempo de tentar impedir a agonia da esperança de que estejamos não apenas em um novo século, mas também em uma nova era. Infelizmente estamos em meio à terceira guerra mundial. Pelo menos não falta assunto para novas músicas.”

    Estava com um caderno aberto escrevendo sobre como a sociedade é mais desagradável do que uma noite dormida num terminal de ônibus. Zími dizia que Cox parece a mistura de Lydia Lunch com Harriet Wheeler.

    Ela diz que Zími é a mistura de Slim Jim Phantom com Jello Biafra.

  • Poema #60: Poema retirado de uma lápide

    No cemitério de Perdões
    Laura Alvarenga descansa.
    Moça bonita de 19 anos,
    falecida em 1920.
    Sentada numa cadeira,
    com um grande laço
    de fita nos cabelos
    e uns braços que talvez
    nem mesmo Machado
    sonharia descrever em
    seus contos de Assis.
    Laura Alvarenga
    de 19 anos de idade
    e seus olhos de Capitu.
    Uma fisionomia pensativa
    e meio triste de quem não
    antevia a sua própria morte,
    que chegaria tão cedo.
    Na sua lápide está escrito:
    “Saudade eterna de seus Paes
    e irmãos”. 87 anos depois
    eu contemplo sua fotografia
    num livro de pesquisa e penso
    que gostaria de tê-la conhecido.
    O que sabemos nós da vida?

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

    Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

    O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

    E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

    Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

    Sou vítima frequente dessas três modalidades.

    E vocês, o que acham?

    Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

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