Crônicas Cariocas

  • Satanásio

    O aluguel do mês estava pago, e quando isso é alcançado, Mila Cox e Zími têm piadas sobre o sonho da casa própria.

    Faziam piadas sobre como conseguiam pagar contas sendo copywriters, mesmo com a inteligência artificial devastando as oportunidades da área.

    Eles não tinham esse sonho.

    As incertezas que eles tinham eram as mesmas do resto da humanidade, nesse momento macabro da história.

    Zími olhava da janela para ver Satanásio, um vizinho desempregado vadiando na rua, gastando o dinheiro da feira com bebida, enquanto a esposa dele está na seis por um, como caixa no mercado, e com a gravidez avançada.

    Havia outro vizinho no prédio deles que era pastor. 

    Antes de saber disso, Mila Cox disse a ele: “A religião serve para  impedir o conhecimento, e promover o medo e a dependência. É uma forma grotesca de adestramento.”

    Eles estavam no elevador, e o sujeito a indagou sobre crença em deus, por conta da camiseta do Venom que ela vestia.

    Cox falou para Zími: “Agora só desço de escada, pra não encontrar aquele cara. Prédio é melhor pra mim do que uma casa, mas eu ainda não acostumei com esse tipo de chateação.”

    Zími falou: “Essa gente é polarizada nas bolhas tóxicas da direita e da esquerda, brigam por isso, mas ambos os grupos gostam de ser governados. Não há muito diálogo possível.”

    Cox falou: “É um tempo em que essa bizarrice pode ser varrida a qualquer momento, com destruição em massa. Donald está muito empenhado nisso.”

    Zími: “Vai ter show do Redd Kross aqui perto, em breve.”

    Cox: “Sim, no Cine Jóia. Nosso bairro é bom.”

    Ficaram atualizando notícias de geopolítica, torcendo para dar merda logo.

    Sabiam que independente de qualquer coisa, não haverá recompensa celestial depois da extinção.

  • Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

    A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

    Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

    Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

    “Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

    Sete.

    Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

    O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

    E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

    Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

    Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

    Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

  • Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas escurecidas.

    A caneta largada no meio.

    No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
    Sob os travesseiros, um único pijama

    não se sabe porquê; não se sabe para quem.
    Clareou.
    As plantas espreguiçam-se:
    um girassol retorce lentamente
    pétalas, amarelas, miolo, marrom
    em direção à promessa
    De sol
    De luz
    De felicidade com prazo de validade
    Vencida

    De repente
    Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
    Um, dois, três, um dois, três… gira!
    Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
    Madrugada infinita
    Há barulho – feliz idades
    Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas manuscritas.

    Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
    Nômade, sem ser, sendo.
    Desiste-se; retorna.
    Pacote 2×1.
    Repensa.

    Compras todas amarelas:
    Banana.
    Limão siciliano.
    Milho.
    Angu.
    Girassol e gelosia…

    Alba dal balcone
    Água de coco, rega da vida
    Eis o vento acalmando as turbinas
    Eu te amo
    Eu também.

    O lado esquerdo da cama.
    Criado mudo.
    Coração.
    Uma pera.
    Mordida pera.
    Religiosa pera.
    Compartilhada à distância.

    A cama desarrumada.
    O livro desaberto.
    Páginas escritas.

  • Tenho medo dos idiotas

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque os idiotas são todos extremistas!

    A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles têm a voz e a vez!

    E não têm vergonha da medíocre pequenez!

    Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes!

    Podem apertar botões e iniciar a terceira guerra mundial! Tudo é banal!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque posam de autênticos quando, na verdade, abrem a boca para destilar preconceitos e muita aberração! Sem nenhuma
    preocupação!

    Os idiotas, sempre eles, idolatram a fúria, o fuzil, dizem até que a ditadura nunca existiu!

    Os idiotas também se candidatam pra tudo quanto é função: vereador, deputado, senador, presidente… Não importa se o que
    falam é indecente!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles mandam e desmandam em tudo!

    Gostam de jogar bombas e de erguer muro!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles não entendem poesia!

    Não têm sensibilidade nem melodia!

    Tenho medo dos idiotas porque eles são muitos!

    Os idiotas performam o tempo todo nas redes sociais! Dizem as maiores bobagens e se transformam em símbolos nacionais!

    Os idiotas não têm pudor ou culpa da própria idiotice, ao contrário, se vangloriam da triste fanfarronice! É o culto à ignorância! Sem cerimônia e com muita militância!

    Uma pena que cada vez mais idiotas se sentem no direito de tudo mandar!

    Os idiotas não gostam da natureza, não gostam de verde e não gostam de amar!

    Tenho medo dos idiotas!

  • O amor de Cristo

    São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

    Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

    A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

    Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

    A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados. O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

    Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

    Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

    Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

    Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

    Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

    Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

    Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

     Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

    Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

    Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

    Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

    Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

    Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

    *Opiniões dos colunistas não representam necessariamente a visão do Crônicas Cariocas.

  • Reabastecer o Amor

    Há pessoas que nos ensinam sem perceber.

    Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer.

    Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos.

    Era uma mulher linda.

    Casada com um homem igualmente bonito. Tinham dois filhos que poderiam ser modelos, atores e estampar páginas de revistas. Formavam aquela família que costumamos olhar e pensar: “Parece um comercial de margarina.”

    Mas não foi a beleza deles que ficou registrada em minha memória.

    Certa vez, numa conversa sem importância aparente, ela me contou algo que nunca esqueci.

    Disse que, de vez em quando, surgiam aqueles momentos de desânimo que atacavam sem avisar. Independente de riqueza, de beleza ou dos acontecimentos. Dias em que a rotina pesava mais do que deveria. Ou as dúvidas incomodavam e apareciam sem motivos. Ou a vida parecia descolorida e sem graça. 

    Quando isso acontecia, ela tinha um ritual.

    Pegava seu álbum de casamento.

    Sentava-se sozinha e folheava as páginas lentamente.

    Observava os rostos, os sorrisos, os abraços. Revivia a alegria daquele dia. Reencontrava nos olhos dos noivos a esperança, os planos, a emoção e a certeza que haviam sentido ao iniciar uma vida em comum.

    Segundo ela, aquelas fotografias tinham o poder de reabastecê-la.

    Não porque a vida tivesse permanecido igual àquele dia. Pelo contrário. Havia contas para pagar, filhos para criar, preocupações e cansaços. Como em qualquer casamento.

    Mas as imagens a ajudavam a lembrar por que tudo havia começado.

    Ela dizia que, ao fechar o álbum, sentia-se mais forte. Como se tivesse voltado a beber água numa fonte antiga que existia dentro dela mesma.

    Na época achei curioso.

    Hoje acho sábio.

    Talvez todos nós devêssemos possuir um álbum assim.

    Não necessariamente de casamento.

    Pode ser uma caixa de fotografias, uma carta guardada, um bilhete antigo, uma lembrança de família ou qualquer coisa que nos reconecte ao melhor de nós mesmos.

    Porque a vida, às vezes, nos afasta dos sentimentos que um dia nos construíram.

    E talvez a arte de seguir em frente esteja justamente nisso: voltar de vez em quando ao lugar onde o amor começou, apenas para lembrar que ele ainda mora ali.

  • Queda livre

    Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…

  • A segunda morte de Lázaro

    Quando estava para morrer a sua segunda e definitiva morte, Lázaro teve uma visão. Uma mulher morena apareceu na porta de sua casa. Mal a viu, ela desapareceu.

    Lázaro sentou-se na cama, sentiu nos pés o eco dos mortos, como um tambor muito longe. Depois que voltou do Xeol, costuma ouvir os mortos. Trouxe-os na cabeça, no peito, na alma. Encosta a mão na parede, apoiando-se, e sente a presença dos mortos. Anda cambaleando, e pensa se já não é um morto. Aliás, esse pensamento nunca o abandonou. Quando você desce ao reino dos mortos, é para sempre. Como Lázaro voltou, trouxe os mortos com ele. E seguramente ele já é um morto.

    “Avô!” Uma jovem lhe estende um prato de frutas. Ampara-o com a outra mão e o conduz a uma cadeira. “Sara”, diz o avô e lhe passa a mão pelos cabelos, olhando-a com os olhos baços. “Sara, você viu a mulher que estava aqui?” A menina não tinha visto ninguém. Estranhou a pergunta. Viviam poucas pessoas na pequena cidade, todos se conheciam, nenhum desconhecido costumava aparecer por ali. Era um lugar entre o deserto e o mar. Havia ainda a montanha. Era um lugar de grande beleza, se você olhasse bem. Mas você não olhava bem: tinha o peito opresso pela solidão.

    Lázaro amava a solidão. Montara ali a sua tenda para usufruir da solidão. Depois construíra uma casa, e uma família para habitar aquela casa. Mas todos já tinham morrido. Restara ele com a sua solidão. Sim, havia os netos. Várias vezes por dia vinha um neto trazer-lhe comida, ver se ele estava vivo. Lázaro era um monumento. Todos queriam que ele contasse o que tinha visto no reino dos mortos. Como se calasse, dizendo que estava dormindo e não vira nada, cansaram-se de perguntar. Mas contemplavam-no como a um monumento. Era o marco de um outro mundo.

    Quanto mais o tempo passava, mais Lázaro se distanciava das pessoas. Na realidade, todos que o conheceram quando jovem, antes de sua partida para o Xeol, tinham morrido. Lázaro sobrevivia a si mesmo. Tocava-se: seria ele mesmo? A sua pele era cinza e quebradiça, como se fosse desfazer-se. Não estaria morto? Não, ele não alcançara a graça de morrer. Passou por essa experiência uma vez, para voltar como um estranho entre os homens. Atormentado por essas ideias, adormeceu. Sara cobriu-o e retirou-se. O avô parecia um morto.

    Quando acordou, a mulher morena estava na porta outra vez. Tinha o mesmo ar estrangeiro de antes, mas sorria. Tinha a areia do deserto na pele dura, mas sorria com doçura. Lázaro levantou-se e caminhou em direção à mulher, dando-lhe as boas-vindas. Mas ela novamente desapareceu. Era como se sumisse no ar. Como uma bolha de ar que se apagasse. Lázaro admirava-se: a mulher era tão real, era mais real do que ele. Como poderia ter se evaporado assim?

    Caminhou até a porta, sentindo nos pés os mortos que não o abandonavam jamais. Era como um eco, prolongando-se em espirais infindáveis, cada vez mais distantes e cada vez mais próximas. “Avô!” Agora era Judith que o amparava. “Os mortos já morreram, avô.” Ele admirava-se da sabedoria da menina, mas continuava sentindo a presença dos mortos. Os mortos nunca morrem de todo, ele pensa. Judith caminha alguns passos com o avô. Mostra-lhe o mar, as ondas calmas e misteriosas, os pescadores preparando-se para partir. Ele também precisa partir, Lázaro pensa.

    Senta-se num banco de pedra e fica olhando a água azul, algumas nuvens, algumas aves. Aos poucos uma sensação de nostalgia apodera-se dele. Aliás, dia e noite ele sente nostalgia. Do passado, simplesmente? Do outro mundo? Lázaro nem sabe de quê. O dia passa como uma modorra sem fim. Lázaro distinguiu o significado da vida quando distinguiu o significado da morte. Só não sabe as palavras para dizer. Tudo que conhece é a música que vem do fundo da terra.

    Dias depois acordou de um torpor. Era como se flutuasse no espaço. Lázaro tornara-se uma luz, um corpo de ar flutuando na luz. Fez força para abrir os olhos. Precisava ver a realidade, tocar as coisas com as mãos e com os pés. Precisava ter certeza de que existia. Lázaro fez força para levantar-se. Queria ver a mulher morena na porta de sua casa, precisava sentir a sensualidade da pele morena da mulher no seu corpo.

    Quando percebeu a mulher estava ao seu lado, um corpo contra o outro, acariciando-se, excitando-se. A mulher beijou-o na face, nos lábios, na língua. Lázaro sentiu-se rejuvenescer. Estava na sua força de homem, um frêmito corria-lhe pelo corpo, sob a pele, no sangue, nos músculos. Os dedos da mulher lhe acariciavam o peito, a barriga, o membro. Quando percebeu, a mulher estava sobre o seu corpo, o seu membro intumescido dentro do corpo da mulher, ela o possuía, ele a possuía. Estava cada vez mais dentro dela, os seus corpos se completavam, num êxtase.

    Lázaro quis gritar, mas estava sem voz. Quis tocar o corpo da mulher, mas ela já não estava ali. Quis dizer-lhe o nome, mas não sabia e nem tinha mais voz para falar. Lázaro nem percebeu que já não existia.

    Jesus e Ana encontraram-no com os olhos abertos e um sorriso nos lábios. Estava feliz como nunca em sua vida.

    Ana disse: “Adeus, avô.” E Jesus fechou os olhos do avô, enfim liberto.

  • As uvas

    A cortina se abre. No palco, um homem come uvas. O público aguarda. A publicidade anunciou que era a melhor peça da temporada teatral da cidade. O homem chupa uvas. Os críticos elogiaram a engenhosidade do diretor, a sutileza da atuação, a trama tão bem engendrada. O homem mastiga uvas. “Impressionante!”, publicaram os jornais, revistas e sites da internet. “Ação sem limites, com ritmo e intensidade”, declarou a seção de teatro do Jornal da Manhã, logo após a noite de estreia. O homem termina de chupar as uvas, restando apenas uma. Ao levá-la à boca, a uva reage. Em saltos frenéticos, atinge o homem no rosto, na virilha, na nuca. Voa para longe, estanca para tomar impulso e, com a velocidade de um raio, dispara na direção do ator e perfura o seu crânio entrando pelo olho direito. Silêncio. O público reage, levanta-se e aplaude freneticamente. Cai o pano. Da uva rebelde nunca mais se ouviu falar.

  • Poema #05: a vida é um doce

    em frente à rua
    um senhor passa
    com seu carrinho de doces
    e um radinho tocando:
    “doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
    os olhos de minha lembrança
    rolam
    feito bolinha de gude encaçapando
    o buraco mais fundo chamado
    túnel do tempo
    e percebo
    há quanto tempo
    já não saboreio mais
    o doce

  • Noites sem fim

    Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei reprimendas do patrão, que nunca está satisfeito com o trabalho – e ter de suportar isso com insônia é a pior das dores. Aliás, penso que a insônia é uma combinação, desta vez, com os esporros que levei e a saúde desregulada. O Dr. Josias não tem apreço pelo bem-estar da sua equipe. Não trabalha como os novos advogados, que, na sua maioria, prezam pela saúde mental. Estamos cheios de colegas com depressão, burnout e ansiedade. É o maior sacrifício para que ele conceda férias. Gianini está há mais de um ano sem tirar, e o pior, ela vai vender parte das férias agora, para, depois, passar alguns dias em casa. Tudo isso só me complica, porque vira uma bola de neve. À medida que deixo de dormir, penso que o organismo se acostuma. Só me lembro, nessas horas, do desespero de meu pai, doente de câncer, por não ter conseguido dormir durante a noite. Quantas ele passou em claro… Chorava ao perceber que o sol nascia e não tinha dormido nada. Estou no mesmo caminho. Já tomei melatonina e relaxante muscular, e nada. São pelo menos três noites seguidas de insônia; desta vez, porém, nem mesmo conseguir pregar os olhos por uns instantes. O dia não rende. Você pode ser, inadvertidamente, um sujeito mal-educado e ranzinza. Peço desculpas quando um fato assim acontece. Ontem mesmo, ao dormir cerca de três horas à noite, fui ríspido com um colega que queria tirar uma dúvida processual. Logo me arrependi profundamente e pedi-lhe desculpas, colocando a culpa na falta de sono – só não sei se surtiu efeito. Agora, no tempo em que escrevo, já se passou meia hora. Devo estar em pé já, já, e disposto, às 6h30min. Meu filho vai demandar a minha atenção, como todos os dias o faz pela manhã: “Papai, me ajuda nisso ou naquilo!”. Tenho de preparar a sua farda, a lancheira e a mochila, para que ele, sim, passe um dia ameno e sem percalços. Minha esposa acordará em cima da hora de ir para o trabalho, com a desculpa de ter dormido mal – quando percebo que ronca ao meu lado. Nesse momento, penso na existência, nas possibilidades de mudança, de como poderia ter uma vida mais tranquila e sem preocupações exageradas. Além do mais, sei que viver assim é não viver. É passar pela vida, simplesmente. Meu organismo não desliga. Não paro de pensar, a mente é inquieta, desde a juventude. Dormir, então, está fora de cogitação. Quando o faço, por descuido, é como o céu que se abre para eu deitar, solene, absoluto. O sono é uma espécie de nuvem fugaz. Há uma maneira de agarrá-la? Quero, ainda, quando puder, me derramar na minha rede e dormir sem fim.

  • Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.

    O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.

    A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!

    Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.

    A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!

    Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.

  • Carona

    O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.

    Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.

  • Poema #72: Um momento… todos os momentos

    Um momento cristalizou
    todos os outros momentos
    de espera e indagação.
    Um momento trouxe à tona
    todos os outros momentos
    de sublimação dissimulada.
    Um momento estabeleceu o paradoxo
    de todos os outros momentos
    entre o que se quer concretamente
    e o que se assume perante a consciência
    para fugir do inevitável.
    Um momento levantou questões
    de todos os outros momentos
    dos quais buscava-se o refúgio
    na indiferença e no não-sinto.
    Um momento mostrou claramente
    aquilo que os outros momentos,
    todos eles, deixavam transparecer.
    Um momento revelou o arrependimento
    por todos os outros momentos, e, no entanto,
    esse próprio momento foi abjurado
    diante do não-poder.
    Um momento trouxe consigo a culpa
    de se ter detonado a bomba existente
    e oculta de todos os outros momentos.
    Um momento revelou o medo de como-ser
    nos momentos que virão, contudo
    veio a certeza de que não será
    como foram todos os outros momentos.
    Um momento levou com ele
    todas as certezas anteriores,
    e agora a dúvida se generalizou
    diante do entrelaçamento de valores
    de todos os outros momentos.
    Um momento exigiu a coragem de encará-lo
    e avaliar o que de perdido ficou
    em todos os outros momentos.
    Um momento deixou claro que também ele
    deveria ter sido evitado, como o foram
    todos os outros momentos.
    Pois na medida em que aconteceu
    despertou coisas novas
    que não se poderia ter descoberto,
    uma vez que depois de o ter feito
    ficou implícita a necessidade de conduzir
    o que iniciado foi; mas que é escusado
    perante conceitos e medos tradicionais
    que, em última análise, determinaram o afastamento
    característico de todos os outros momentos.
    Um momento e a vida estancou de repente
    tornando difícil todos os outros momentos
    sem aquele em que houve a revelação e a descoberta
    de um prisma novo e em si mesmo fascinante.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #02: Involuto

    Quero a involução
    A proteção contra os ventos
    Útero da mãe
    Turbulência amniótica.

    O desequilíbrio de voltar
    O ser ainda sem ser
    Todos os caminhos por andar
    Todas as guerras por vencer

    Quero o grito de mãe
    Na hora de parir 
    O choro engasgado
    A dor de nascer

    Coragem para voltar
    Tudo feito novo
    Certeza de não errar
    Leite materno como sustento

    Quero vida inteira
    Apagadas as besteiras
    Quero vento novo
    Soprando semente verdadeira.

  • Manteiga ou margarina?

    Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos.

    Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês.

    Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefira?

    Só aventar essa possibilidade já me dava vontade de sair da mesa – margarina, para mim, era a versão tabajara da minha desafeta, algo inventado por alguma mente pervertida.

    Ocorre que em determinadas situações fora de casa eu me via, inúmeras vezes, obrigada a aceitar o famoso pão com manteiga que me ofereciam, não só por cerimônia, mas também porque na maioria dos casos ele já vinha pronto para a mesa.

    Em outras, me vinham com a pergunta: manteiga ou margarina? Ou seja, não havia a terceira opção – nenhuma das duas. Era, então, obrigada a optar pelo menos péssimo, no caso a manteiga, mesmo que isso me desse ânsias de vômito.

    Essa encruzilhada gastronômica da infância me fez lembrar que, na vida, somos constantemente obrigados a optar pelo menos ruim, também. Isso serve para decisões prosaicas como escolher a mesa de fora em um restaurante e enfrentar o frio, ou ficar nas mesas de dentro ao lado do piano e ter dificuldade para conversar.

    Serve também para o cinema: poltronas da ponta para poder entrar e sair com mais facilidade, mas com menor visibilidade, ou no meio da fila, com vista panorâmica, mas no meio de duas pessoas comendo pipoca?

    Pensando um pouco mais a fundo, muitas vezes nos vemos frente a esse dilema na hora da decisão sobre quem serão nossos dirigentes, ou do apoio que daremos a uma ou outra corrente política, do partido que tomamos frente aos conflitos mundiais e assim por diante.

    Infelizmente muitas de nossas escolhas dependem de colocarmos na balança não o que é melhor, mas o que é menos ruim… e aí a consequência gastro-econômico- social é pior do que engolir margarina, não acham?

  • INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.

    Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.

    A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.

    No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.

    O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.

    Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.

    A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.

    E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.

    À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.

  • Um homem, um barco e um tempo

    Havia um barco, um homem e um tempo.

    Um barco de madeira, pequeno e velho.

    Um homem cansado, derrotado e velho.

    Um tempo desgastado, encrustado e velho.

    A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo.

    Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes…

    Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem.

    Ondas enormes como jamais sentira aquele barco.

    Um tempo sem tempo como o próprio tempo jamais fora.

    E o medo do fim.

    Do homem, do barco e do tempo.

    Agitação e horror e sal e vento.

    A escuridão da escuridão tomou o espaço.

    O homem, o barco e o tempo.

    No entanto…

    E as histórias também são cheias de no entantos…

    A força, que o homem supunha não existir, passou a ter.

    O barco, que supunha o homem não suportar, se segurou.

    O tempo, que supunha o homem não mais haver, nunca deixou de ser!

    E então, surpreendido por si mesmo e pelas circunstâncias, atravessou o mar e o vento.

    Seguiu firme até que o dia e o sol pudessem dar vista de coisa ou de gente.

    Enfim, quando assim sucedeu, o homem já estava próximo da terra, vivo e refeito.

  • Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.

    — Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.

    — É o trânsito — tentei ser engraçado.

    — Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.

    — Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.

    — Ontem eu estive lá no centro…

    — Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.

    — … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.

    — Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.

    — E pra quem é a mensagem?

    — Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.

    — E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?

    — Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.

    — Erro, que espécie de erro?

    — Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.

    — Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.

    — Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.

    — Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.

    — Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.

    — Quando? — continuei.

    — Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.

    — Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.

    — E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.

    — Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.

    Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.

    ***

    Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.

  • O gordinho do STF

    Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.

    Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.

    Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.

    Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!

    Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as mordomias que usufrui.

    Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.

    Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.

    O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.

    Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.

    Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.

    Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.

    Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.

    Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.

  • Noites frias

    Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação.

    Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia.

    Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com excesso moderado – se é que isso existe.

    Conversas boas, a meio tom de voz. Ninguém fala alto, quase sussurros. Como se o frio exigisse esse diálogo contido. Falamos nesse tom para não perturbar o frio, acho.

    Nenhum assunto polêmico. Só se fala sobre amenidades ou profundidades estéticas. Cinema, literatura, escultura, pintura, poesia. Uma citação de um autor elegante surge no ar acompanhado de um gesto circular. Ou afirmar algo com pouco embasamento mas muita vontade de ser verdade, com o que todos concordam e pouco se importam. Se é fato, tanto faz, mas o vinho das noites frias ajuda a sedimentar essa certeza efêmera.

    Ninguém segue com debates depois das noites frias. Nas manhãs frias, o tom é outro, a disposição é outra e a vida é muito outra. Tudo assume seu papel à luz do sol, chamado há muito tempo de astro-rei, mas ao redor do qual nossa vida gira. Literalmente.

    E girando segue seu curso, horas após horas, até que o entardecer se aproxima. Não precisando nem conferir o tempo no relógio. Basta sentir a temperatura cair. Sinal inquestionável que o sol vai se por.

    E teremos mais… noites frias.

  • A medida do viver

    Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro corre o risco de morrer em uma de suas aventuras. Os que vivem no limite (físico, emocional ou intelectual) consomem a “reserva de vida” em nome da intensidade. Têm a morte como um risco calculado ou um subproduto da paixão. Ernest Hemingway, por exemplo, viveu de forma viril e perigosa. Sua morte por suicídio, após o declínio da saúde, foi o desfecho escolhido por um homem que não suportava a ideia de uma vida cotidiana e banal. A ausência de aventuras o tornou desventurado.

    Por sua vez, aqueles que se preservam a ponto de nada ousar morrem em casa por tédio ou inação. Na tentativa de evitar o fim, acabam por anular o próprio percurso. Como dizia Millôr, quem se cuida demais não morre – mas também não vive. Mesmo porque o tédio e o sedentarismo não são apenas estados mentais; são agentes patogênicos. Quem fica demais na cama, livre de estímulos, rapidamente começa a definhar.

    Não há escapatória, por isso o ideal é procurar o equilíbrio: nem os excessos, que precipitam o fim; nem as omissões, que tendem a retardá-lo mas da mesma forma levam a ele. Com a desvantagem de tornar meio insossa a vida.  Não existe, contudo, uma lógica que determine o efeito de uma ou outra escolha. O Universo é indiferente à nossa orientação existencial. O aventureiro pode morrer de um engasgo doméstico ou de um tropeço no meio-fio (a chamada “morte boba”), e o homem prudente pode ser vítima de um desastre natural ou de uma bala perdida. A morte nem sempre faz jus ao estilo de vida.

    Uma das razões para isso é o fator genético. Muitas vezes, o destino biológico ignora nosso comportamento. Alguém que fuma e bebe com frequência pode chegar aos 90 anos (foi o caso de Winston Churchill, que tomava uísque no café da manhã), enquanto que um atleta vegano pode desenvolver uma patologia fulminante.

    O fato é que todos passam pelo dilema sobre a escolha do modo como querem, ou devem, viver. Mesmo os que trabalham em casa (teoricamente, o lugar mais seguro) têm que decidir entre excesso e prudência. É claro que os excessos no contexto doméstico são diferentes dos que ocorrem fora de casa (se bem que certas brigas de casal não estão longe das escaramuças urbanas).

    Mas dormir tarde, estender-se mais tempo do que o devido diante do computador, esquecer-se de tomar água ou estirar o corpo para reativar a circulação – tudo isso atenta contra as prescrições contidas nos manuais de bem viver. Eles mandam não apenas selecionar a comida, abolindo gorduras e açúcares, como também cultivar hábitos saudáveis. Enfim, mandam viver com a consciência de que se vive.

    Tais regramentos são difíceis de cumprir. O mais das vezes nos alheamos deles, empolgados com uma ideia, uma meta, uma atividade prazerosa. A cada alheamento desses morremos um pouco, mas só nos damos conta disso quando as costas, as articulações (as velhas “juntas”) ou os olhos começam a doer.

    O verdadeiro dilema é: viver espontaneamente, despreocupados do que a cada dia vai nos matando? Ou ficar atentos aos hábitos ruinosos na busca de assegurar uma vida longa? Para a segunda alternativa é preciso desprendimento e sobretudo tempo. Ninguém vive se cuidando quando tem objetivos a conquistar.  E talvez a pior morte seja a que se insinua na vida sob a forma de limites e prescrições. A pessoa pode vir a descobrir, já tarde, que o que mais lhe fez mal foi a falta de alguns excessos.

  • A Caruta

    A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia.

    Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal.

    Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sentiu o coração estremecer. Lembrou-se do sonho de uns momentos antes: que estava morta – branca, fria, espremida num cantinho da cova, sobre umas folhas de taioba, como uma quarta de geleia, se desfazendo, se desfazendo.

    Gelou: e se não era, num aviso, mais que um aviso? Não seria que estava morta e ninguém sabia? Apalpa-se. Não representava que estivesse mais morta que sempre. Tinha cruzado a cumeeira da velhice, antiga de não se lembrar mais. Era um pouco morta, era, de verdade.

    Sacudiu a esquisitice de cima dos ombros. A velhice era um castigo de que não tinha salvação. Escancarou a janela e, arrastando as chinelas, virou para a porta da cozinha.

    Mal distinguia o vulto do dia. Deu dois passos no terreiro e estacou. Bem que não estava assim atrapalhada à toa: o mundo amanhecera diferente demais. Onde a estripulia do amanhecer, esse estrupício de todo santo dia?

    O silêncio reinando – como não pusera reparo nessa reinação estranha? Mas que era? Meu Nosso Senhor! Onde a passarinhada dos diabos? Pôs sentido nas coisas, estudou as redondezas.

    Quietude. Divulgava a cerca, as árvores, os cornos da serra, os beiços do bambual. E a quietude. Bicho nenhum. Seria que só ela de vivalma nesse fim de mundo? A Caruta começou a se enfezar. Embrulhada com o que não existia, gente! O silêncio, onde se viu? O mundo mais quieto que a morte.

    Que é isso, minha Santa Luzia! Enfiou os dedos nos vãos dos olhos, jogou a remela na poça d’água. A água barrenta se esguedelhou num remelexo. Estou viva, se disse a Caruta.

    Esgaravatou os ouvidos com os dedos nodosos. Não fosse esse silêncio! Um despropósito. Chamou: Dourado! Palerma! Chumbado! Boca-Preta! A cachorrada estava metida nalguma biboca perdida. Cachorrada sem préstimo, o diabo se serviu,
    comeu.

    A Caruta juntou nas conchas das mãos um punhado de quirera, semeou no tempo. As pombas? Nenhuma. As galinhas? Os bichinhos na disputa, nas pinicadas, brigando para encher o papo? Tudo deserto.

    Já não ouvira o galo, fugido da obrigação – acender a manhã. Estranhice. Será que eu estou morta e não sei? E morto sabe da morte? O mundo despovoado. Não posso eu sozinha ser o povo deste mundão. Sozinha e Deus! O Diabo não.

    Sozinha – e se eu for só um punhado de pó e eu nem sei? Creio em Deus Padre! E se benze, a Caruta. Será que ela está morta? Não é dada a essas pensamentações. Umas cismas trançadas.

    Mais um argumento: Só se estiver morta! Já vivi tudo quanto tinha para viver, gente! Pensava e pensava. Trançava as suas cismas. Devagar. O dia amanhecia de repente, atordoado, mais morto do que vivo. A Caruta atolou as canelas na lama do mangueirão. Onde o diabo dessas vacas? As amaldiçoadas das porcas?

    Sentou num tronco podre, os cotovelos ossudos nos joelhos, segurou os queixos com as mãos. Pois é, pois é! Sim, senhor! Não pode ser, mas é. Estou morta, mortinha que nem este pau, que já vai se decompondo.

    Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!

    Relanceou os olhos na casa, o paiol, a tulha, uma plantação deste lado, uma capoeira, depois o mato grosso na beira do morro. Tudo como sempre. Mas o silêncio. Que silêncio! Só se ouve o vento resmungar, inda que a contragosto, irritado, descompassado.

    A velha soltou um suspiro fundo. Pois é, nenhum sintoma de vida, em lugar nenhum. Observou o horizonte, e voltou às pressas para casa, chegou, deu um tranco na porta emperrada, na frente, e ficou zanzando na sala.

    Regular bem eu regulo. Louca não estou. Só se eu virei o morro, saí de fininho da vida no sono, no sonho. Ainda bem que eu não me desesperei de nervosa, tanta bobagem para escarafunchar na cabeça. Ainda bem que eu virei o morro sem perceber, como quem sacode o pó da estrada para retomar a caminhada. A estrada da vida não tem fim, continua até depois do sonho.

    Cismou e cismou. Nada mais a fazer. A vida se acabou, pronto. Valeu a pena? Isso não lhe competia. Arrazoar de Deus ou do Diabo. Estranhava o mundo deserto, isso era. Mas devia estar acostumada: a vida na Tapera da Onça sempre fora um deserto só. Quem se esquecera da vida numa furna como aquela, decerto que desertara do mundo.

    Mas, e os bichos? Não faz sentido um mundo sem bichos. Tinha só duas vacas, duas porcas e a cachorrada. Mas, e a passarinhada? Tinha uma égua que era só pereba, pele e osso. Onde a Gateada? Para onde fugiu o mundo todo?

    Só se o mundo acabou. Ora veja! Não era ela também uma mulher perdida no mundo? Deu com aquele buraco, ali se hospedou para o resto da vida. O Quim da Tapera botava nela os olhos sonsos, não dizia nada. Nem precisava. Foram se cheirando, como dois bichos. Quer ficar? Fique. Daqui não tem mais além – teria dito? Há muito tempo, sem conta.

    Muito antigamente a Caruta ganhou as estradas da vida, ave sem pouso, até pousar no estrado de varas do Quim da Onça, o Quim que um dia uma onça comeu.

    Enterrou o homem, os restos, no pé de um jequitibá. A onça, sapecou fogo na bicha, o cano grosso da espingarda goela a dentro. Ela se lembra. Coisas que pareciam ter acontecido há um século.

    Agora estava morta, embora desenterrada, oras. Mas quem iria enterrá-la? Ali ninguém aparecia, nunca, jamais. Morta, ufa! Já cansara de se dizer morta, em cima das pernas, pererecando entre as taipas.

    Destapou os caldeirões no fogão. Encostar o estômago? Que nada! Nunca fora de muito comer. E morto lá come? Arre! Isso de morto virou uma ideia fixa! Mas, se eu estou morta? Se não tem vivalma neste fim do mundo – por que eu?

    Olhou o picumã nos caibros da cozinha, que nem morceguinhos dependurados. Se ao menos houvesse morcegos! Só se isto for o purgatório, Deus e o Diabo disputando a minha carcaça.

    Mas ninguém se conforma com a própria morte. A Caruta deliberou tirar a limpo o acontecido, que só parecia doidice. Como? Não sabia. Desinventar a morte! Dependurou a espingarda, socou com raiva a pólvora e o chumbo, tomou o rumo do mato, desembestada. Uma plantação abandonada. O sujo da mataria escorada na serra.

    Gozado: quietude demais, como se fosse uma fantasia. Onde os veadinhos? Os macacos nos galhos que nem uns diabinhos pretos? A passarinhada? Santo Deus! É um silêncio dos infernos!

    Pegou numa trilha funda, alcançou o Ribeirão da Capivara, subiu a ribanceira à cata de vau. As águas claras gorgolejando num verde cheiroso. Peixe nenhum. Mosquito nenhum. Sozinha só. Nenhum bicho no mundo. Nem ela. A Caruta abre bem as pernas, para se equilibrar melhor, arregaça o vestido, para dentro d’água. Deus louvado! Apoia a espingarda no ombro, aponta para o alto, aperta o gatilho. Um estrondo trovejando, ecoando a solidão.

    Depois, nada. Barulho nenhum. Só as folhas bolem, caem. Passarinhos voando assustados? Nada. Bicho fugindo? Bulha nenhuma. Escorou a coronha numa pedra, despejou o polvarinho na boca enorme, socou, e atirou de novo. Como um trovão. Será?

    Quase nem se ouviu o eco do tiro. A velha desanimou.

    Voltou para casa às pressas. Virgem! E grunhiu, num riso destrambelhado. Não foi nada, não, só o mundo que acabou. Gingou o corpo para trás, rápido para casa. Que teimosia, gente! Morri, está bem. Vou resguardar o meu cadáver na minha cova. A par do finado, a cova aberta há quantos anos! Pegou com raiva o facão dependurado do ombro esquerdo e, no caminho, cortou umas folhas de taioba. Tal e qual no sonho, bem forradinho o leito da última jornada.

    Deitou o corpo no buraco, revirou-se, esperou. Não se sentia cômoda. Diacho. Não estava à espreita da morte, mas já mortinha bem morrida. Tinha que arejar a mente. Não tem cabimento tanta preocupação, lembrando os problemas da vida.

    Bem que gostaria do Palerma ali na cabeceira. Cachorro inteligente, sempre jurara que o bicho iria assistir a sua morte, se afogar na tristeza, ganir a dor do peito e, desalentado, se acabar junto dela. Peste! Tudo era uma peste, tudo tinha sumido. Por que o diacho da peste desse cachorro tinha que sumir também? Culpa dela, que partira sem aviso. Esquisitice. Morrer na sequela do sonho, sem nem reparar.

    Bom. Agora é se despedir de quanta bobagem se imagina. Imaginando as coisas da vida em cima de nada, oras! Quem diria que isto é o outro lado da vida? Tudo que é vivente se esfarinha no tempo – só resta você, alforje de nada?

    Morrer, o mundo deixar de existir? Só você de bicho. E não tem sentido chorar a miséria, você já era. Ah Caruta, sossega! Que esfrega, a vida! Essa cama não é de empréstimo, é para todo o sempre. E não cansa? Todo o sempre é tempo demais. Mexe e remexe na cova. Incomodada como o diabo. Esta casca de ossos é velha demais, não tem posição que aguente.

    Ela se encolhe, se põe de cócoras. Uma coisa fazia falta: o pito. Faz mal morto pitar? Amansa as iscas de fumo na cunha das mãos, enche bem cheio o cachimbo. E pita com gosto. Chupa no canudo com sofreguidão – e, a cada chupada, a cara mais chupadinha. A pele esticada, lisa, lisinha – parece pele de rã, rãzinha. Serenada, a Caruta cachimbava. De longe se distinguia a fumacinha se suspendendo da cova, bamboleando no ar.

    A Caruta morreu entanguidinha no resvalo da cova – uma geleia de carniça, comidinha dos urubus. Bichos do demo! Ao pé da velha, uma pelanca podre, uns ossinhos, decerto de cachorro – decerto o Palerma, vindo arrefecer seus dias junto da dona. Decerto um urubu lhe bicava o olho, outro urubu sugava o olho da Caruta.

    Vejam! Na caveirinha, os dentes cravados no canudo do pito – a Caruta fungou o derradeiro respiro no oco do pito. O canudo encravado na boca, não sai não. Nem o demônio preto do urubu roubou.

  • À Semelhança

    O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus.

    O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das coisas se acomodou. Os animais, com a cabeça baixa, sempre olhavam para o chão. Os homens e as mulheres, com a cabeça erguida, olhavam para a frente e, às vezes, olhavam para o céu. Para onde o Deus inventado olhava, não era possível saber. Sozinho, muito sozinho, ele frequentemente se queixava de que, depois de o terem feito tão semelhante aos homens e às mulheres, esses mesmos homens e mulheres o tivessem banido para longe de onde viviam. Passou então a vagar pelos ermos do céu e do horizonte, ensimesmado e muito apreensivo com a possibilidade de que um dia, por ser inútil, os homens e as mulheres o desinventassem.

  • Reflexo de si

    Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem minúscula, curvada, nos olhos castanhos dele. Ela estava buscando o outro e encontrou a si mesma, pequena e distorcida, na superfície espelhada da íris. Foi um começo desanimador. No ônibus olhou para a senhora com as sacolas pesadas. Nos seus olhos azuis desbotados pelo tempo, parecia haver um céu nublado de preocupações. A senhora notou o olhar fixo e franziu a testa, puxando as sacolas para mais perto. O que a narradora buscava como empatia foi recebido como uma ameaça. O fio não se conectou; foi um fio cortado antes do ponto.

    A frustração cresceu. Ela começou a ver olhos por toda parte. Olhos apressados, vidrados em telas, fechados de sono, abertos de tédio. Cada um parecia uma fortaleza com as pontes levadiças erguidas. Como encontrar a empatia no olho do outro, se o olho é justamente a fronteira, a porta que só se abre por dentro? Foi então, já no fim do dia, desistindo da busca ativa, que algo aconteceu. No corredor do prédio, esbarrou no vizinho do andar de cima, um homem reservado que sempre carregava um peso silencioso nos ombros. Ele segurava um vaso com uma orquídea murcha. O acidente foi banal: uma batida de ombros, o vaso se espatifou no chão de cimento. Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele, os dois juntando os cacos de barro e os pedaços da flor frágil. “Ela já estava morrendo”, disse o vizinho, com uma voz mais suave do que ela imaginava. “Minha esposa plantou. Faz três anos que ela se foi.” Ao ouvir, ela não olhou nos olhos dele imediatamente. Olhou para as mãos dele, tremulas, segurando o caule quebrado. E só então, quando ele suspirou, seus olhos se encontraram. E nos olhos dele, úmidos e sem tentar disfarçar, ela não viu um reflexo de si mesma. Viu um céu diferente, particular, de uma saudade que não era dela. E, por não ser dela, ela pôde respeitá-lo, acolhê-lo sem invadi-lo. A empatia não estava no olho do outro, estava no espaço entre o seu olhar e o olhar dele. A busca terminou onde não deveria ter começado: fora de si. A empatia não é um tesouro escondido na íris alheia. É a coragem de deixar seu próprio mundo em suspenso, para que o universo do outro, por um instante, possa brilhar com sua própria luz estranha, incompreensível e inteiramente digna de ser vista.

    Naquela noite, ao fechar os olhos, ela não viu mais imagens refletidas. Viu portas. E entendeu que a verdadeira conexão não está em arrombar essas portas com o olhar, mas em sentar-se respeitosamente na soleira, fazendo companhia à luz, ou à escuridão, que vem de dentro.

  • Poema #04: Oceano de estrelas

    o teu encanto de sereia
    levitou a serpente
    por entre minhas teias
    tua pele luxo de seda
    por cima de mim
    feito mágica de Aladdin
    sucumbiu com minhas destrezas
    teu palato de rio doce
    desaguou no meu remo
    este tão cansado e enfermo
    de navegações ocres
    e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
    & místicas
    no compasso do som das baleias   
    gozamos no alto do mundo
    um bilhão e duzentas mil estrelas

  • Passagem

    Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet os sintomas, acho que vou morrer a qualquer instante. Já me falaram que sou hipocondríaca. Claramente isso não corresponde à realidade. A doença silenciosa e fatal é ainda mais cruel dos três últimos anos para cá. A causa de tudo foi a morte repentina de Charlote, a minha gata. Ela tinha apenas oito anos. Gatos vivem em média quinze anos. Nunca achei que fosse perdê-la da noite para o dia. Primeiro, ela ficou muito quieta; depois, passou a não enxergar, batendo-se pelos cantos, desnorteada. Eu a levei à emergência. O médico-veterinário disse que havia características de envenenamento. Mas como, se não uso nada dessas coisas, nem mesmo inseticida? Ela teve uma hemorragia e depois uma parada cardiorrespiratória. Charlote foi cremada e suas cinzas ainda permanecem comigo, porque preciso de sua presença. Quando a peguei na rua, o fiz justamente pela proteção transcendental dos gatos às pessoas. Eles nos curam, é verdade!; puxam as energias negativas, dores e cansaço. E foi assim, durante os belíssimos oito anos: Charlote me ajudou muito. Na verdade, meu caso de enfermidade é crônico (e possivelmente degenerativo). Ora estou com dores nas costas, ora com enxaqueca. E eu só tinha a Charlote para me acudir nas piores horas. Pensei que ia abandoná-la antes do tempo, e foi ela quem me pregou uma peça. Me deixou desolada e mais doente (mas não quero que se sinta culpada por isso; ela tinha de ir por algum motivo, que ainda não decifrei). Já não controlo os meus músculos. Quando vou comer, derramo toda a comida. Ando desengonçada. Tropeço nas ruas por qualquer mínimo buraco. Semana passada caí, bati a cabeça e fiquei desacordada. Uma senhora muito idosa me socorreu, jogando água no meu rosto e dizendo, como um mantra, que todo o mal iria passar. Pensei na minha avó, que morreu há trilhões de anos, mas deixou o seu amor eternizado em mim. Quis pedir para a velhinha me carregar com ela, já que estava prestes a morrer; para cuidar de mim como a uma netinha. Quando disse que estava mesmo quase partindo desta para uma melhor (tenho fé!), a velhinha deu uma risada e me recriminou, depois, severamente. Que era muito nova para pensar nessas coisas de morte. Não sei bem como estarei daqui a algumas horas. Tomei seis remédios obrigatórios e mais dois para dormir. Espero morrer dormindo, como se não tivesse acontecido nada. A minha passagem, na verdade, é um verdadeiro nada no mundo. Decreto todos os dias o fim da minha existência, para encerrar logo esse martírio, mas esse troço parece estar contra mim.

  • Olhos de cobra

    Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.

  • Poema #71: Tratado de Anatomia

    A anatomia dos carros na rua
    revela a um homem que os vê
    (entre outras coisas)
    uma força neutra a interferir
    e modificar a paisagem desolada
    de quem anteriormente os criou.

    A anatomia das mulheres
    (independente dos lugares
    em que se encontram) remete-nos
    a uma forma viva de organização planejada
    onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.

    A anatomia do pensamento de quem
    (por exemplo escreve este poema)
    nada mais é do que uma consequência imaterial
    de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
    diferentes realidades projetadas na sombra
    do poste de observação.

    O Acaso das Manhãs

  • Voraz

    Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela.

    Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta.

    Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia.

    Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável?

    A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Livre  de qualquer opinião. 

    Sem vergonha nenhuma, deseja. 

    Dane-se todo o resto!

    De vez em quando me serviria ser uma lagartixa…  

    Completamente entregue aos meus desejos. 

    Grudada na tua janela despudoradamente.

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