Crônicas Cariocas

  • Revisitando “Alice”

    Alice desistiu de procurar a Rainha, mas não estava nada satisfeita com as mudanças de tamanho. Era muito doloroso não saber como ia acordar no dia seguinte. Caminhava pelo bosque com esses pensamentos tristes, quando viu ao lado da trilha um homem sentado diante de uma mesa sobre a qual havia um papel em branco. Era o Escritor. Resolveu lhe falar:

    – Senhor Escritor…

    – Vá embora! Não vê que estou me concentrando?

    A menina se desculpou e ficou em silêncio, observando a expressão do homem. Ele parecia olhar para dentro de si. Depois de uns dois minutos, dirigiu-se a Alice com um ar aborrecido:

    – Já falei que fosse embora. Preciso de concentração.

    – Mas eu estou calada!

    – Está olhando para mim, o que é pior. Não consigo pensar com alguém olhando para mim. Mesmo que seja uma menina como você.

    Alice não gostou do que ouvira, mas resolveu não se contrariar. Sempre que se contrariava, ficava um pouco menor. O pior não era diminuir de tamanho, era ver que os outros notavam isso.

    – Por que o senhor escreve?

    – Ainda não descobri. Na verdade, escrevo para descobrir por que escrevo – respondeu o homem. Ficou tão satisfeito com a resposta, que resolveu usá-la em seu próximo escrito. – E você, já escreveu alguma coisa?

    – Uma vez tentei escrever uma história, mas era muito triste e acabei chorando. As lágrimas manchavam o papel.

    – É verdade – concordou o Escritor – Não se pode chorar e escrever ao mesmo tempo. Além de manchar o papel, prejudica o estilo.

    – Estilo? Engraçado… minha mãe sempre diz que eu preciso ter estilo. E agora o senhor vem com essa. O que é mesmo estilo?

    – Estilo é o modo de fazer uma coisa. Cada um tem o seu.

    – Se cada um tem o seu, por que mamãe diz que eu… “preciso ter um”?

    – Sua mãe se refere a outro tipo de estilo. Quer que você se comporte bem.

    – Então estilo é bom comportamento?

    – Pelo contrário… Estilo é rebeldia – disse ele pensativamente.

    Alice ficou sem entender e resolveu mudar de assunto:

    – Posso lhe falar um pouquinho dos meus problemas?

    – Não tenho tempo para ouvir; estou escrevendo. Além disso, que problemas pode ter uma menininha como você?

    – Na verdade tenho um problema só, mas enorme. Eu até trocaria esse problemão por alguns problemas menores.

    – E qual é seu… grande problema? – quis saber o Escritor, imaginando se poderia tirar dali uma história.

    – Mudar de tamanho. Nunca ser muito tempo uma coisa só.

    – Fique tranquila, você não é a única. Esse é o problema de todo o mundo.

    – Isso não me faz sofrer menos. Nem todo o mundo aumenta ou diminui do mesmo jeito. Depende do… estilo de cada um.

    – O que você diz tem sentido, mas não muda as coisas. Você não é diferente dos outros, e nada do que me disser vai ser novidade.

    Desapontada, a menina resolveu ir embora. Não dava para conversar com alguém que só queria olhar para si mesmo e não tinha tempo de escutar os outros.

  • Karim, a alegria da feira

    Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê.

    Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo mais do que qualquer outra coisa. Seu campo de visão é restrito por sua altura de menino de seis anos.

    O sono é mais forte que sua curiosidade. Por isso segue comportado, sem explorar o mundo multicolorido e polifônico que o envolve. Caminha devagar quase desequilibrado, encostando de vez em quando a mão na perna da calça da mãe. Até que escuta seu nome ser gritado. Vira o rosto devagar, com um sorriso tímido. A mulher que vende bananas abre os braços para ele. A mãe sorri e dá um toque de leve no seu ombro para que vá até ela.

    A mulher sorri de orelha à orelha e o põe no seu colo. Karim dá um risinho tímido enquanto ela o enche de beijos. Pega uma banana e dá ao menino que, antes de aceitar, lança um olhar de consulta à mãe que abana a cabeça em aprovação. Karim não come mas segura firme a banana.

    A mulher circula com ele por trás das outras barracas de frutas. O menino é popular. A mãe o acompanha com o olhar. Pega Ana, sua irmã, e a segura no colo mostrando onde vai o irmão. Ela mexe no hijab da mãe que com carinho afasta sua mãozinha gorda do seu véu.

    Karim circular sempre no colo da vendedora de bananas. Mais mulheres sorriem e fazem festa para ele. A mãe acompanha e espera pacientemente que ele termine seu tour de afagos. Ela tem mais oque fazer e não veio à feira a passeio. Mas interrompe tudo por esse momento feliz. Para ela, para o filho e para as trabalhadoras da feira que todo sábado esperam a chegada dele. Karim, a alegria da feira.

  • A mão de pilão

    Era uma vez uma família que morava numa casa assombrada. Todas as noites apanhavam de um fantasma com uma mão de pilão. Cansados de tanto apanhar, de acordar todos os dias com as costas doendo, resolveram mudar-se.

    Contrataram um caminhão, puseram a mudança em cima, procurando não se esquecer de nada. O pai, a mãe, os filhos, cada um se encarregou de levar uma coisa. Quando o caminhão estava para sair, ainda no escuro da madrugada, ouviram o fantasma num canto:

    – A mão de pilão eu levo!

  • A Revelação dos Porquinhos da Índia

    Coautora: Letícia Hyppólito*

    Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender…

    Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revelação chocante: os porquinhos da índia não são porcos e não são originários da Índia! Eu fiquei extremamente chocado e desacreditado. Como isso é possível? Como alguém pode chamar “porco” e não ser porco e chamar “da índia” sendo que não vem do país indiano?

    Fui pesquisar mais sobre o assunto. Descobri que “da índia” vem por causa da confusão dos portugueses que ao chegarem no Brasil acharam que estavam “na Índia”. Já o motivo de se chamarem “porquinhos” é por causa do som que eles fazem que parecem guinchos de porcos. Na verdade, os porquinhos da índia são originários da América do Sul, nos países Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e também são encontrados na bacia do Rio Amazonas, no Brasil. Inclusive, em certas regiões da América do Sul, há pessoas que comem a carne deles (que desnecessário!). Outra coisa que pesquisei é que o nome científico deles é Cavia Porcellus e seus ancestrais eram maiores que um furão.

    Pesquisei, por fim, como se chamam em outros idiomas e descobri que em inglês se fala “Guinea Pig”, em francês “Cochon D’Inde” e em espanhol “Cobaya ou Cuy” – o “Cuy” vem do barulho que eles produzem, mas na minha opinião devia ser “Guí” porque é muito mais parecido com o som!

    Com todas essas minhas pesquisas, refleti que não deveríamos chamar mais de “Porquinhos da índia”, mas sim “Porquinhos da América do Sul”, para ninguém nunca mais se confundir!

    Colaborou com este texto: Letícia Hyppólito, professora de Literatura

    Colaborou com este texto:
    Letícia Hyppólito, professora de Literatura*.

  • Memórias gravadas nas paredes

    As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro.

    Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir do peso da própria rotina. Foi no verso daquela porta que ele deixou registrado o seu manifesto, numa época em que ele e minha mãe ainda tentavam engrenar a família que resolveram formar. “Queria viajar mas não tinha dinheiro, fumei um baseado e viajei o dia inteiro”, dita como de Bob Marley, dividia o compensado de madeira com a altivez de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

    Eu, bem criança, sem nem saber direito o que era poesia, já me fascinava pela destreza daquelas letras pintadas no refúgio dele. Soavam como um enigma poético. Havia um ritmo ali, uma rota de fuga imaginária e uma tentativa de grandeza no meio de tanta desestrutura. Anos mais tarde, o novo marido da minha genitora raspou aquelas frases da madeira, tentando apagar o fantasma e os vestígios do homem de antes. Mas a literatura tem essa teimosia: depois que entra na cabeça, não há espátula ou lixa que remova. Eu já guardava cada palavra de memória.

    Pouco adiante, na porta de entrada da casa dos meus avós, a terceira sentença marcava o território: “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha.” Muito provavelmente, obra do meu avô. O patriarca tinha o hábito quase ritualístico de culpar o oculto por qualquer fracasso pessoal. Se algo dava errado, não era imperícia ou desleixo; era “macumba” feita pelos outros. Afinal, jogar a responsabilidade para o mundo sempre foi mais confortável do que encarar as próprias falhas.

    Cresci cercada por essas inscrições de dor e fuga. Uma mistura surreal de brisa de banheiro, transcendência pessoal e defensiva de ditado popular.

    Hoje sei o que é poesia, mas aprendi a lê-la no lugar mais improvável: raspada do compensado de uma porta em Belford Roxo, gravada no meu coração e na minha mente para nunca mais sair.

  • O home e o neno

    Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco. O que ele capturou não foi pose teatral, foi a alma aberta de uma despedida. A fotografia, mais tarde chamada “O home e o neno”, se tornaria um dos retratos mais comoventes do êxodo europeu do pós-guerra. Na imagem, o jovem pai, Ángel Calo Marcote, de vinte e nove anos, desaba em lágrimas ao lado do filho, Juan Jesús, de apenas oito. Diante deles, Josefina López, esposa, mãe, coração da casa, embarcava no Juan de Garay, rumo a Buenos Aires. Ela viajaria com a própria mãe e o irmão, juntando-se aos que buscavam, do outro lado do Atlântico, trabalho, dignidade e esperança. Para Ángel e Juan Jesús, aquele adeus era definitivo. A fotografia eterniza esse instante, o segundo exato em que uma família se divide, não por falta de amor, mas pela violência silenciosa da necessidade. A história não registra números, mas a vida, guarda rostos, vozes, cartas tardias e ausências que nunca deixaram de doer. Para muitos, a migração não era viagem, era ruptura. O oceano tornava-se parede, o tempo, inimigo. As casas ficavam cheias de silêncio. As fotografias, de fantasmas. A Espanha dos anos 1950 ainda vivia sob a sombra severa da ditadura de Franco. Partir era uma ferida, mas ficar também era. Ferrol e sua câmera captaram não apenas o drama íntimo de uma família despedaçada, mas o retrato de um país aprisionado pela pobreza, pela censura, pela falta de horizontes. O nome do fotógrafo só veio à luz depois de 1975, quando o país voltou a respirar democracia. A composição é simples, e isso é que torna a fotografia tão poderosa, ela fala de migração não como estatística, mas como fratura do cotidiano, como amor posto à prova pela distância. Para Ángel e Juan Jesús, a partida de Josefina significava perder o ritmo da vida em comum. As refeições, os aniversários, a partilha dos dias, tudo se fragmentava no instante daquela fotografia. O que Ferrol capturou foi o nascimento dessa ausência.

    O legado de “O home e o neno” tornou-se símbolo do que fica, o vazio, o peso, a coragem silenciosa. Ferrol fotografou pessoas comuns pagando o preço extraordinário da mudança. Ele não roubou aquela dor, apenas testemunhou sua existência. E talvez seja esse o motivo pelo qual ditaduras temem fotografias, porque a verdade nelas escapa ao controle. O retrato lembra que a migração não é apenas jornada de quem parte, é também o luto silencioso de quem não tem escolha, senão ficar. “O home e o neno” não é apenas documento histórico, é um poema de perda e coragem.

  • O trapezista

    No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantamento.

    Som de tambores. Tensão. Suspense. Ninguém respira na plateia.

    O trapezista prepara o salto. A audiência reza em silêncio, as mãos postas. “Não tem rede de proteção, olha o perigo!”, um espectador notou. O que estava ao lado dele confirmou: “Não tem mesmo, o cara é corajoso. Meu Deus!”

    O trapezista gruda as duas mãos na barra do aparelho e lança o corpo no ar. Um oh! em uníssono explodiu por toda a arena. Parecia voar o homem de calça apertada de malha branca, indo e vindo como uma folha solta no ar sem peso algum. A cena era arrebatadora. “Agora ele vai trocar o aparelho e dar o triplo salto mortal, tá vendo o trapézio vazio que vem pelo lado contrário? Agora!”, uma senhora abraçou a neta e abafou o grito.

    Vinte metros abaixo, com um som seco, o corpo do atleta se choca contra o chão de concreto da área central do picadeiro. A malha branca tornou-se vermelha. Sangue por todo lado. Novamente o oh! em uníssono na arena. “Um médico, chamem um médico, tem um médico na plateia?”, gritou o assistente de palco. “Aqui, eu sou médico”, respondeu o senhor grisalho, correndo até o centro do picadeiro. O homem se debruça sobre o trapezista e constata o que todos suspeitavam. Olha em volta e faz o gesto de “acabou”, movimentando as mãos do centro para os lados, uma sobre a outra.

    A plateia, como se tivesse ensaiado a reação, soltou o ar retido nos pulmões e explodiu em aplausos e em urros de puro deslumbramento. O espetáculo foi um sucesso retumbante. Que noite, senhoras e senhores, que noite!

  • A Subversão de um Insone

    Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis aventuras pelo imponderável e pelo inexplorado.

    Talvez você, cara leitora, identifique-se com o protagonista deste relato. Talvez você apenas conheça alguma pessoa que não desfrute de um sono bem regulado. Mas nós dois sabemos o quão desafiante é conciliar o apreço por uma noite em claro e a necessidade de um trabalho diuturno. Mesmo aqueles que não sofrem de insônia já experimentaram o acre sabor de uma noite maldormida, ao serem enxotados da cama por um sádico e ruidoso despertador. É claro que nosso improvável herói não sacrifica, intencionalmente, um dia de trabalho pelo indescritível prazer de ver o sol nascer e a cidade acordar. Se diversas tarefas laborais acumulam-se sobre sua mesa e cobranças por seu lento e sofrível desempenho fazem-se ouvir da boca de seu chefe, ressalvo que Armando sempre tentou ser comprometido com seu trabalho. Não sou psicanalista, mas, a meu ver, essa relação caótica e subversiva com a noite é que coloca quase tudo a perder.

    Subversiva, sim! Não que Armando queira derrubar a ordem política vigente. Sujeito parcamente politizado, avesso a discussões ideológicas, nosso amigo nunca pensou em alternativas ao que lhe dizem ser o correto e o natural. No entanto, sustento que a subversão que sua insônia carrega é de um tipo muito mais sutil e engenhoso. Enquanto a maioria recobra suas energias para a jornada de trabalho seguinte, Armando teima, ainda que inconscientemente, em não se submeter aos ditames de um tirano e mordaz relógio. Para nós, acostumados a orientar nossos feitos e nossos desejos conforme uma só temporalidade, tal resistência pode parecer fútil e pueril. Mas, até mesmo Cronos, o titã grego do tempo, admirar-se-ia com o simbolismo e a resiliência de nosso nobre guerreiro.

    A noite foi feita para dormir, Armandinho! – advertia-lhe sua avó, para quem as esquisitices de seu neto eram apenas coisas de gente jovem.

    Armando tornou-se adulto, amadureceu como pessoa, empregou-se num escritório de contabilidade, mas essa singular esquisitice continuou a fazer parte de seu dia a dia. Só que, diferentemente de quando era jovem, nosso estimado subversivo passou a usar as horas disponíveis para enriquecer sua criatividade. Nutrindo-se do silêncio e da beleza noturnos, Armando começou a dedicar sua insônia ao deleite que somente a pintura é capaz de provocar-lhe. Até tentou trabalhar com escultura, mas os vizinhos reclamaram do barulho e seu verdadeiro talento direcionou-o para o pincel e as tintas. É naqueles momentos de solidão, quando seus monstros mais indomáveis e cruéis ameaçam atazanar sua existência, que ele se entrega de corpo e alma aos seus quadros. Como numa mágica transmutação, Armando esquece a aridez patrimonial dos endinheirados clientes de seu escritório e mergulha na imensidão de possibilidades que somente sua imaginação é capaz de criar.

    De dia, trabalho por obrigação; de noite, trabalho por prazer – costuma dizer Armando, em vãs tentativas de justificar-se, moralmente, perante olhares de incompreensão e de hostilidade.

    Não, minha cara senhora… Não incito ninguém à rebelião! Não tenho a pretensão de causar tumultos e desordens, visto que os tempos são difíceis e requerem prudência de todos nós. Mas o caso que aqui lhe conto parece ensinar-nos que somos muito mais potentes do que aparentamos ser. É verdade que estamos muito aquém de uma pretensiosa e arrogante onipotência. Tendo a acreditar que a maior parte de nossos sonhos esfacela-se contra a dureza de nossas existências. Mesmo assim, de seu antigo sofrimento crônico, Armando extraiu a seiva que enriquece seu ser e que fornece esperança a uma vida até então sem propósito. Nosso valente pintor complementa-se com sua arte, expressando por meio dela suas dúvidas e suas inquietações.

    Claro está que ele continua precisando cumprir uma estafante e modorrenta carga horária no escritório. Mas as descobertas que apenas as noites permitem-lhe fazer servem como um anteparo contra a frieza de uma vida dedicada, exclusivamente, à sobrevivência. Diferentemente de tantos por aí, Armando cria, reflete, pergunta, desafia e sorri. Suficiente? Creio que não! Porém, enquanto estiver sozinho, o que mais poderá ele fazer?

  • Expectar

    A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons tempos em que a casa era cheia de filhos, primos, amigos, afilhados, e quem mais pretendesse se chegar. Maroca acolhia como uma mãe, tanto que Joelma, amiga de Daniel, nas férias, ficava dias em nossa casa, porque eles “precisavam” brincar muito, juntos. A rua toda usava a nossa casa como ponto de encontro à noite, para ficarem na calçada, e boa parte do tempo eu e Maroca ficávamos e brincávamos com os nossos vizinhos. De lá para cá, tudo mudou. Hoje, moro em um “apertamento”, porque nossos digníssimos filhos arranjaram a desculpa de que apartamento é mais seguro; mas se perde a liberdade… Finjo que não me importo em estar só, em plena quinta-feira – dia em que meu apê, em tempos áureos, estava abarrotado de filhos e netos. Transito entre o quarto e a sala, para acompanhar os noticiários, sempre ruins – o Brasil, então, vai de mal a pior. Pela manhã, três vezes por semana, tenho a companhia da Alzira, a diarista, que me faz um bem danado, com o seu jeito leve de viver, mesmo diante de tanta dificuldade, morando em uma zona perigosa da cidade; mesmo tendo perdido um filho para a marginalidade; mesmo sendo mãe solo de quatro filhos; faço questão de ajudá-la no que precisar, ela é a minha amigona do peito, que me tira da inércia de viver por viver, assim… Daniel foi para o Canadá, e se estabeleceu muito bem como músico, baterista (já mora lá há quase dez anos; daí, não sei sequer o cheiro das minhas netas). Fernando, o mais novo, primeiro foi à Inglaterra, mas, por conta do rigor das leis também, se mudou para o Canadá com a família. Não vejo os meus netos há, pelo menos, oito anos. Maroquinha faleceu há dois anos, de câncer, muito rápido; ainda estou sem entender. É uma perda irreparável, insuportável, mas tem de se viver. Meu apê, agora, é um mausoléu que me abriga, tímido e ferino. Ressoa a voz da escuridão. Meus filhos dizem que vêm me buscar para passar um bom tempo com eles. Essa é a única alegria que me mantém em pé. Não vejo a hora de beijar Sofia, Mariana e André. Todos grandes, já encaminhados na vida. Mariana é a mais apegada: liga, e passamos horas conversando. Ela afirma que arrumou o meu quarto; que em setembro tudo vai se resolver. Daniel já comprou as passagens. É questão de tempo, se ainda houver tempo para viver.

  • Tule preto

    Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.

    Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.

    Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.

    Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros.  Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.

    No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede…

  • Poema #78: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Escaneie para comer

    Fui almoçar com uma amiga. O garçom chegou sorridente, apontou um adesivo colado na mesa e disse:

    — O cardápio está no QR Code.

    Ela suspirou, sacou o celular da bolsa e começou a procurar o ícone da câmera. Fez uma cara de quem acabara de perder o apetite.

    — Esqueci os óculos de leitura em casa. Esses cardápios parecem bula de antibiótico.

    — Que saudade de um cardápio de papel. Bastava levantar os olhos.

    — Esse peixe é bom?

    — O risoto serve duas pessoas?

    — A sobremesa é muito doce?

    — Que saudade daquele cardápio já meio engordurado de tanto azeite.

    — Sim, retruquei, folhear as páginas virou “scroll”.

    — Em vez de escolher o almoço, parece que estou aceitando os termos de uso.

    Lá no fundo da sala, o garçom observa inquieto, pois já deveríamos estar prontas para fazer o pedido.

    Ele passa. Olha.

    Passa de novo. Olha.

    Já desistiu.

    Foi atender outra mesa.

    Minha amiga tentou aumentar um pouco a letra na tela e me perguntou:

    — Já descobriu a seção de “Massas”? era a minha opção, mas ainda não achei aqui.

    — Fecha a tela e escaneia de novo, sugeri. Que olhar no meu celular? Acho que já encontrei o que queria.

    Quando a mesa ao lado já estava no café, perguntei:]

    — E aí, amiga, já encontrou a seção de massas?

    — Ainda não.

    O garçom voltou.

    — Posso ajudar?

    Minha amiga respirou, aliviada.

    — Finalmente.

    — Onde fica o cardápio?

    Na volta para casa, me peguei cantarolando Noel Rosa: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa…”

  • Margarida à janela

    A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo.

    Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir.

    Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Estendia o braço para que pudesse acompanhar senhorinhas a atravessar as ruas. Se uma bola se perdia do limite de uma brincadeira infantil, ela apressava os passos para recuperá-la antes de atingir qualquer vidraça ou território vizinho. Andava com petiscos caninos nos bolsos. Nos dias mais quentes, espremia limões para quem atravessava a rua com sede. Para as tardes mais frias, maquinara uma pequena janela de madeira, instalada na moldura da sua própria janela. Dentro, uma garrafa térmica, um punhado de copinhos descartáveis e a seguinte inscrição: “Se o frio te apertar, aperte de volta aqui”.

    Da janela de uma casa em uma rua moderadamente movimentada, Margarida regava o seu jardim de pessoas.

    Na esquina, poucos metros à esquerda, havia um rapaz que parecia existir em voz baixa. Caminhava como quem ocupava pouco espaço no mundo. Trazia nos olhos, escondidos sob a aba de um boné com vontade de ser boina, aquela espécie de silêncio que alguns confundem com timidez. Timidez ou, quem sabe, excesso de poesia. Há sentimentos que compartilham a mesma aparência e só revelam seus verdadeiros nomes quando encontram alguém capaz de lhes falar na mesma língua.

    Toda rua só existe por adição de limites. Há a calçada, pública; há grades, privadas. O pequeno recuo entre a casa e o passeio. Árvores. Bancos. Lixeiras. O leito carroçável — curiosamente, a parte que todos insistem em chamar de rua. Sombras e luz.

    Marquises, beirais de telhados e vazios. A rua de Margarida tinha tudo isso. Tinha também um ipê de floração quase espontânea. Tinha a própria Margarida. E Pedro.

    Numa tarde de primavera, atenta ao cair sereno das flores rosas do Ipê então frondoso, Margarida viu, pela primeira vez, Pedro passar. Reparou os passos amiudados, reparou as mãos costuradas aos bolsos. As sombras projetadas pelo fim da tarde caminhavam ao lado dele, encolhidas junto às fachadas, como se soubessem ocupar ainda menos espaço do que o rapaz. Margarida sentiu uma ausência instantânea no peito. Entrou.

    Na cozinha, à procura de água gelada, depara-se com uma caixa de choconuts vegetal, um leite que não era leite, mas era, e todo produzido em seu apelo visual. Pegou a caixa. Ao rosquear a tampa plástica, leu

    “Por ser natural, pode sedimentar. Basta agitar bem”.

    Como a imaginação lhe crescia do coração e não da cabeça, passou a acreditar que tudo o que sedimenta merece ser agitado. A poeira da casa. O café antes de servir. As cortinas nas manhãs de primavera. Até os silêncios.

    Todos os dias, para compreender a origem do que sentira, Margarida passa a se fazer de namoradeira na janela, à espera do passar de Pedro.

    Passa a agitar a poeira da casa de uma flanela para fora da janela. Agitando as partículas agitaria o menino tão contido em si na esquina. Como um toque divino, uma brisa jocosa decidira participar do desafio; foi Margarida sacudir a poeira para que Pedro espirrasse. E, então, seus olhos se encontraram. O tempo entra em suspensão, frestas ensolaradas penetram o trecho entre beirais. Margarida perde a noção do mundo. Pedro começa a enxergá-lo na altura do horizonte. Margarida cora e enrola-se à cortina.

    O rubor da face permanece. “foi o vento, estou com febre!” Tenta se distrair; “preciso comer, saco vazio não para em pé”. Tateia o armário superior, seus dedos sentem o plástico grosso do saco de tapioca. Pega uma frigideira, liga o fogo, despeja os farelos peneirados. “é só uma tapioca, não tem mistério”. As manchas orgânicas do azulejo desenham um vulto com as mãos nos bolsos. Aperta os olhos, mais atenta. “não é possível… como nunca reparei essa mancha antes?” e assim, distraída, sente o cheiro de queimado e a nuvem esbranquiçada da tapioca, preta e encolhida. Abre as janelas para deixar sair as evidências, renovar os ares. Ao escancarar a janela da sala, Pedro passa, sorrindo. “preciso deitar, a febre está aumentando”.

    Quando alguém habita em demasia os pensamentos, não há um só remédio em toda a medicina e qualquer tentativa de se deixar levar pelo sono é vã. Uma mosca pousa no nariz de Margarida, ela enxerga a aba de um boné. O silêncio passa a perturbá-la, não acalenta mais, como antes. Um barulho constante, mas pausado, a faz desfocar-se daquele estado novo para um possível alguém costurando noite adentro. “Talvez seja Pedro”. Derrete-se ao pensar que costurar uma roupa é quase tão poético quanto costurar a vida, duas linhas de carretéis distintos em ponto zigue-zague.

    A luz do sol acorda Margarida, que suspira. Ouve o cantar dos pássaros misturado ao burburinho do raiar de um novo dia. “Pedro”.

    Corre à janela e olha para a direita. Desta vez permanece. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Pedro. Margarida. O Ipê regendo a manhã com o cair das flores.

  • A nora de REBECA

    Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava.

    Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava.

    Tinha recusado o convite do filho para ir morar com ele. Sabia que o filho a convidava por convidar, já que ela e a mulher dele não se davam. Desde que a nora dissera que ela tinha necessidade de monitorar e invadir a privacidade deles. A partir daí, desistiu de tentar alguma aproximação. Não ia levar avante aquela provocação. Seu filho a escolhera como mulher e mãe de seus filhos, paciência.

    Para ela, a nora necessitava de terapia e medicação.

    Rebeca notou que passara a cair com frequência. Havia a suspeita de sarcopenia. Foi ao médico que não constatou nenhuma anomalia. Mesmo assim, fez exame de densitometria óssea. Nada. Tinha os ossos em bom estado, em conformidade com sua faixa etária.

    Rebeca continuava caindo.

    A cada nova queda, mais medo de cair. Esse medo gerava ansiedade, restringia as atividades e começava a gerar um certo isolamento social.

    Imaginou que talvez lhe tivessem feito uma macumba. Imediatamente pensou na nora. Por precaução, procurou um lar espiritual para se benzer. Uns passes cairiam bem, literalmente a quem estava caindo a toda hora. Riu-se do efeito cômico inesperado. Podia perder o equilíbrio e dar seus tombos, mas mantinha o humor.

    Mesmo com os passes e as benzeduras, continuava tropeçando e caindo. Vivia com joelhos ralados, marcas roxas pelo corpo e alguns cortes nos braços e cotovelos.

    Uma amiga sugeriu, com todo o cuidado, que ela talvez estivesse fóbica, ou seja, com medo de cair. Rebeca achou graça: “quer dizer que vivo caindo e não devo ter medo de cair?”. A amiga desistiu.

    Ao visitar o filho, quando se queixou das quedas, ele disse que era comum as pessoas perderem, com a idade, um pouco a estabilidade corporal. Rebeca fingiu não notar que a nora prendia o riso. Procurou se controlar e respondeu ao filho que estava amedrontada, afinal morava sozinha, podia cair, se machucar e não haver ninguém para a socorrer. O filho não levou a sério, e a nora recomendou que ela andasse de joelheiras. Rebeca quase perdeu a calma e o controle.

    No dia seguinte, acordou com o celular. Era a nora, reclamando que ela parasse de criar problemas para chamar atenção. Havia deixado o marido dela preocupado e até as crianças estavam assustadas. Ela ouviu, calada, quase sem acreditar. A nora insistiu para que ela procurasse o que fazer: ler para cegos, praticar ioga, ir à missa, qualquer coisa. Também seria bom que arranjasse um homem! Rebeca desligou. Pensou seriamente em contratar alguém para matar a nora. Querendo explodir de tanta raiva, ao levantar para ir ao banheiro, caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa. A dor foi forte. Sentiu o sangue escorrer. Tentou levantar, foi ficando tonta e perdendo as forças. A imagem da nora lhe veio à cabeça. Caso não morresse, clicaria no Google por assassinos de aluguel. Com sorte, acharia um bem barato e discreto.

  • Somos Latino-Americanos

    Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul!

    Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. 

    Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos!

    Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades!

    México, Cuba, Haiti, República Dominicana…

    Somos a poesia de Neruda e a voz de Mílton Nascimento, o Bituca! Samba, salsa, tango!

    Somos latino-americanos! De sons e suingues, de mares e montanhas! Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela…

    Somos Latino-americanos, lutamos contra os vários enganos, de veias abertas e prantos, ouro, prata e histórias! Carregamos memórias! Uruguai, Paraguai, Equador…

    E só nós sabemos o tamanho da nossa dor!

    Costa Rica, Guatemala, El Salvador…

    De sombrero e guacamole, bolo mineiro e azeite de dendê, somos tempero, esteio, estrela e poeira!

    Honduras, Nicarágua, Panamá…

    E esta terra de montanhas e lagos, florestas e mares é onde o futuro haverá!

    Somos latino-americanos e somos a mais conflitante poesia!

    A prosa e a poesia de uma América Latina inteira! De bandeiras e olhares, de músicas e linguagens, de marcantes paisagens: Andes, Amazônia, Patagônia…

    Somos latino-americanos!

  • Era só uma brincadeira

    Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

    Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

    A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

    A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

    Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

    Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

    Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

    E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

    De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

    Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

    O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

    E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem…

    Cadê a liberdade de expressão?

  • O último dia

    O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café preparado por Amália, dei um beijo nela e saí na companhia do meu fiel companheiro. As últimas semanas estavam sendo desanimadoras. Dragas passariam a ser usadas na busca por ouro e diamantes nos trechos mais inacessíveis. O fato é que eu não vinha conseguindo achar nada realmente valioso, capaz de compensar o sacrifício de trabalhar em condições tão desfavoráveis. Alguns dos meus colegas já haviam abandonado aquela parte do rio. Outros estavam prestes a fazer o mesmo. Consumido por dívidas, Ronaldo se matou, Salustiano se afundou na cachaça e vivia vagando pelas ruas sem propósito, enquanto Jorge e Pedro decidiram perseguir a sorte numa cidade vizinha. Eu ainda insistia. Essa situação adversa está por terminar, acreditava. Por volta do meio-dia, resolvi parar para almoçar. Na bolsa, a marmita com feijão, arroz, ovo e um bife, além de pedaços de carne para Fubá. Pus-me a repousar embaixo de uma aroeira. O raciocínio remoía os acontecimentos, e o descanso não durou muito. Minhas costas doíam, a cabeça pesava… A certa distância, via Belmiro, peneira na mão, exercitando seu ofício enquanto cantarolava um samba antigo. Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar… Fubá começou a latir e a agitar-se em círculos. Demorou ao menos uma semana para que os fatos se esclarecessem. Meu corpo, processo de decomposição avançado, foi encontrado encoberto pelo mato por uns moleques que soltavam pipa. Eu havia sido atacado por um tamanduá. As garras do bicho golpearam-me o tórax, causando uma hemorragia fatal.

  • Quem falou?

    Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação.

    Uma delas sempre me intriga.

    — Descansou.

    Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias.

    Falo daquele outro.

    Morreu?

    Coitado… descansou.

    Morreu e descansou.

    Sempre me pergunto: quem decidiu isso?

    Quem garante que aquela pessoa estava cansada?

    Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sobre a mesa, alguém para reencontrar.

    É claro que pode acontecer.

    Há quem enfrente uma longa doença, um sofrimento sem alívio, um corpo exausto.

    Mas também pode não ser assim.

    Talvez estivesse cheia de vida, de projetos e de sonhos.

    Ainda assim, dizemos que descansou.

    Há muitas frases assim, que circulam de boca em boca sem jamais serem interrogadas.

    “Foi Deus quem quis.”

    “Era a hora.”

    “Tudo acontece por uma razão.”

    Expressões herdadas, repetidas quase por reflexo, apenas porque nos acostumamos a elas, chegando antes mesmo do pensamento.

    Diante do que não sabemos explicar, criamos  atalhos. 

    Ao não sabermos  lidar com a perda, recorremos a fórmulas prontas e entregamos frases feitas, como se pudessem preencher o espaço que a ausência deixou.

    Isso pode acontecer porque estamos assustados, porque a dor do outro também nos afeta ou simplesmente porque repetir é mais fácil do que refletir.

    Em momentos difíceis, buscamos apoio nas palavras.

    Ainda assim, surpreende que certas expressões atravessem gerações sem que nos perguntemos se ainda fazem sentido. Ou se fizeram um dia!

    Podemos adotar despedidas mais verdadeiras.

    Simplesmente um abraço.

    Um olhar demorado.

    Ou palavras simples, mas cheias de significado.

    “Vou sentir falta dele.”

    “Ela fará muita falta.”

    “Não sei o que dizer.”

    O abraço, o olhar, a companhia, o cuidado dizem muito mais do que as palavras conseguem dizer.

    Alguém que prepare um café, ofereça um copo d’água, sente-se ao lado sem a obrigação de preencher o silêncio.

    Gestos simples, quase invisíveis, mas que dizem: eu estou aqui.

    Talvez o desejo de encontrar uma frase para suavizar a despedida não devesse superar a disposição de cuidar de quem ficou.

    Diante da morte, o que consola raramente é o que dizemos.

    É o que fazemos.

  • Conversas picadas por aí

    Passo por uma mulher que fala ao telefone sobre alguém que lhe foi desagradável mas não escuto o motivo da reclamação. A voz dela fica na minha cabeça e imagino o que teria acontecido. E mais, se de fato ela tem razão em se sentir assim ou apenas recebeu de volta o que deu à outra.

    Não dá tempo de seguir adiante na elucubração porque a voz de um rapaz invade meus pensamentos e na hora sou levado a prestar atenção no seu drama universitário que ele expõe a uma moça. O barulho em volta não me deixa distinguir qual curso ele faz mas sem dúvida o assunto é recorrente: o eterno conflito entre alunos e professores. A moça escuta séria e balança a cabeça positivamente.

    Atravesso uma gargalhada de três moças que vem na direção contrária a minha. Me esquivo como peixe no cardume de pessoas ao telefone. Meus ouvidos captam fragmentos de uma reclamação, uma advertência e um pedacinho de declaração de amor. Silêncio por um instante quebrado por alguém, mais um ao telefone, que fala de trabalho, algum trabalho urgente.

    Avanço, dobro uma rua e paro para atravessar. Ao meu lado dois policiais, uma mulher e um homem. Ela escuta atenta o colega de farda passar uma receita. Ele afirma a ela que “não tem erro, toda criança nessa idade come”. Atravesso a rua sorrindo.

    Mais adiante, dois homens param ao meu lado e conversam entre si sobre algum serviço que precisam entregar mas, nas palavras de um deles, “vai dar ruim porque o Valdo está atrasado”.

    Penso comigo que é melhor o Valdo se apressar porque a dupla ali conversando não tem cara amigável.

    Sigo. Chego em casa, silêncio. Esquento a água para o chá. Imagino o desfecho desses fragmentos de conversas. E me arrependo de não ter pego a receita que toda criança nessa idade come. Qual idade seria?

  • Definições Heterodoxas

    Nem sempre o sentido de determinadas palavras está no que diz o dicionário. Por vezes a experiência que temos com elas nos encoraja a tentar redefini-las, acrescentando-lhes matizes que não se encontram na conceituação tradicional.

    Esse acréscimo nada tem a ver com polissemia; dicionário nenhum iria encampar os sentidos que apontamos abaixo. Relaciona-se, antes, com facetas do comportamento humano associadas a esses vocábulos.

    Daí ser necessário extrapolar o que sobre eles informa o (inadequadamente cognominado) “pai dos burros”. Se o leitor não concordar com as novas acepções, poderá sugerir outras. Vamos lá:  
     
    CANSAÇO – Estado de fadiga física ou mental que acomete sobretudo quem não faz nada.  
     
    CÉU – Prêmio que os pobres almejam ganhar em outro mundo, e os ricos preferem desfrutar mesmo neste.  
     
    CONFIDENTE – Pessoa que a gente escolhe para contar aos outros os nossos segredos.
     
    CONVICÇÃO – Certeza que temos de algo enquanto não nos convencemos da verdade oposta.
     
    COVARDIA – Manifestação envergonhada do instinto de conservação.
     
    CULPA – Dívida imaginária a um credor que se agiganta à medida que sentimos aumentar o débito.  
     
    EMPRÉSTIMO – Doação camuflada sob a promessa de retribuição do beneficiário.
     
    ECONOMIA – Prática que os ricos adotam por opção, e os pobres, por necessidade.
     
    ESPÍRITO PÚBLICO – Disposição que se manifesta nos políticos a cada quatro anos e desaparece nos intervalos.  
     
    FIDELIDADE – Compromisso de não trair o outro desde que outro não nos atraia.
     
    FUTURO – O que a gente sempre espera mas nunca chega, pois quando chega já não é mais.
     
    GOSTOSURA – O que os homens dizem de certas mulheres, e as mulheres dizem de certas tortas.
     
    IDEOLOGIA – Justificativa para escolher os candidatos em função dos grupos a que se filiam, e não das suas qualidades pessoais.
     
    MACHISMO – Desvario da hombridade, que no fundo mascara o medo de não ser considerado homem.
     
    PERFECCIONISMO – Impulso que nos tira o prazer de fazer bem feito pelo receio de não fazer melhor.
     
    POLÍTICA – A arte de prometer mundos e ficar com os fundos.
     
    PROMESSA – Garantia que damos, em determinado momento, do que não vamos cumprir depois.  
     
    SOLIDÃO – O preço da liberdade, que muito poucos se dispõem a pagar.

    TACOCARDIA – Aceleração dos batimentos cardíacos que vez por outra acomete os jogadores de sinuca.  

    TIMIDEZ – Receio que o indivíduo tem de se mostrar como é por medo de que o tomem pelo que não é.

    UTI – Lugar onde geralmente se morre depois de gastar os tubos.

    VERGONHA – Sentimento que falta a quem precisa e às vezes sobra em quem não merece.

  • O tio perdido

    Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos.

    Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada.

    – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia responder.

    – Muito sozinho, filha – ele disse.

    – Como sozinho, pai? E eu, e o João, e os meninos, nós não estamos aqui?

    – Meus irmãos, onde estão os meus irmãos? Todo mundo morreu… Eu estou tão sozinho!

    Logo chegaram os outros filhos, que moravam perto, vinham sempre, com as crianças, que adoravam o avô. E vieram os velhos do asilo, fraquinhos, cheios de dengues com o tio Pedro.

    – Eu estou tão sozinho – dizia o tio Pedro, sentado no meio de todos eles, os olhos perdidos no ar.

  • As folhas mortas caídas no chão

    Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar lá: vassoura na mão, tirava sacos e mais sacos cheios de folhas. A árvore soltava as folhas mortas e elas caíam diretamente sobre o meu chão. Então, eu tinha que varrê-las para fora e assim manter minha casa limpa.

    A toda hora, fosse dia ou fosse noite, eu estava tirando folhas secas do assoalho, e percebi que esse trabalho não trazia o resultado esperado. Por mais que varresse, minutos depois havia novas folhas velhas sobre o chão. Isso demandava mais esforço de minha parte, mas cuidar da minha casa me fazia feliz.

    Quando me casei, trouxe minha esposa para viver comigo em minha casa. Ela olhava com tristeza a minha obsessão por manter o chão limpo. Um dia, com delicadeza, apontou o dedo para o alto e me fez ver que minha casa não tinha teto, por isso as folhas secas caíam diretamente no assoalho, sempre mais e mais. Vi que ela tinha razão e coloquei telhas sobre as paredes. Hoje as folhas mortas não caem dentro de casa, mas não tenho a mesma alegria de tempos atrás, porque agora não sinto, como sentia antes, a sombra refrescante que a árvore me dava nos dias de calor.

  • O Tempo Dobrado na Gaveta

    Tenho visitado a geriatria onde mamãe está passando uma temporada. A sala de visitas tem cheiro de álcool gel e saudade. As poltronas são de plástico lavável, cor de abóbora, uma delas é laranja, que tenta ser alegre mas não engana ninguém. Ali, todo final de semana os filhos se revezam na cadeira ao lado de outros idosos acamados.

    Dona Alzira, a vizinha de quarto de minha mãe, já não pergunta que dia é hoje. Perdeu a conta do tempo, lá pelo segundo ano de internação, quando o calendário virou uma sopa de letras e os netos deixaram de ser crianças. As mãos, finas como papel de seda, percorrem os rostos que visitam seu leito em busca de relevos conhecidos: a cicatriz no queixo do mais velho, os óculos do neto do meio, o brinco da caçula. O filho mais velho chega sempre com o jornal debaixo do braço, lê em voz alta as notícias que ela já não entende, mas ouve como quem escuta música. Depois, dobra o jornal, guarda na gaveta do criado-mudo, e fica ali, em silêncio, vendo a mãe dormir. Aquele jornal nunca é levado embora, e a gaveta já tem uma pilha deles, todos dobrados do mesmo jeito, como se guardassem ali o tempo que não passou.

    A filha do meio, a que mora mais longe, traz potes de comida que Dona Alzira já não pode comer. Escorrega a mão por debaixo do lençol, aperta os pés frios da mãe, tenta aquecê-los com as palmas quentes. Fala das crianças, do marido, do cachorro, preenche o silêncio com a vida lá fora, como se a mãe ainda precisasse de notícias do mundo. Mas no fundo, quem precisa ouvir a própria voz para se convencer de que a vida continua, é ela mesma. A caçula deita na cama, acomoda a cabeça no ombro ossudo da mãe, como fazia quando era pequena e tinha medo de tempestade. Às vezes chora baixinho, sem fazer barulho, para não assustar. Dona Alzira, mesmo de olhos fechados, sente o tremor, e seus dedos começam a fazer movimentos circulares nas costas da filha, num reflexo que vem de muito longe, de quando embalava bebês no colo. Há uma inversão silenciosa ali naquele quarto. Os filhos agora são os pais, mas aprendem que cuidar de quem nos cuidou é aprender uma nova língua, a linguagem dos gestos pequenos, das unhas cortadas com cuidado para não machucar, do cabelo penteado bem devagar, da pele hidratada com creme cheiroso. É um amor que volta, misturado com medo de que um dia a cama vai estar vazia. Quando o relógio da sala marca o fim da visita, e o tempo fica dobrado na gaveta, eles se despedem um a um. Dona Alzira abre os olhos, e diz, com a clareza de quem nunca esteve ausente:

    — Cuidado na estrada.

    E eles sabem que, por alguns segundos, ela foi novamente a mãe que os via partir para a vida. Na saída, a caçula ainda olha para trás. Ali dentro, dobrado em folhas que ninguém mais lê, está o tempo que insiste em viver junto com as notícias, mesmo quando a memória já não obedece. 

    O amor é isso: aprender a ficar mesmo quando já não há o que dizer. É entender que, para quem nos deu a vida, a melhor forma de retribuir é não deixar que o silêncio apague a certeza de que, em algum lugar do mundo, ainda existe quem espere pelo nosso domingo.

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

  • Menino São

    Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “massagens curativas” em mim e na sua mãe. Não só, também tinha (tem) o poder de tranquilizar os ânimos. Quando Maria, que trabalhava com a gente, se estressava e botava tudo para os ares (ela era arretada!), ali estava Ricardinho para, tão pequeno, falar com sabedoria e doçura. Maria se acalmava e dizia que tinha feito isso ou aquilo porque estava com problemas em casa, com o filho usuário de drogas (isso já sabíamos); depois, beijava a cabeça do pequeno sábio e, como um mantra, dizia: “Deus que te dê muita saúde, meu filho!”… Sempre foi um menino exemplar. Nunca nos deu trabalho. Veja só, Maria teve um câncer de pele, que não tratou (escondeu da família e de nós), e, quando foi descoberto, já havia se alastrado para o corpo todo. Nessa época, Ricardinho ainda fazia faculdade e organizou todo o aparato de cuidados paliativos para que Maria não sofresse mais. Ela morreu como um passarinho, disse ele, reforçando que não sentira dor alguma, porque estava constantemente medicada. A equipe que lhe assistia foi extraordinária, e penso que cuidaram melhor de Maria porque gostavam muito de meu filho, que estudava com eles, colegas e professores. Bem sabiam do potencial de Ricardinho, ou mesmo de sua bondade infinita, quase um santo, um São Ricardinho (que Deus me perdoe da blasfêmia). Um fato interessante é que, de tanto se envolver com a igreja, quis por um tempo ser padre. Nós o apoiamos, mas logo, como disse, por inclinação, percebeu que precisava botar a mão na massa para cuidar de gente. Menino solto, como um pássaro, inventou a tal da liberdade depois que se formou. Não para quieto, nem mesmo para arranjar uma namorada – diz que não tem tempo. Ele ama mesmo é a medicina. Essa é a sua grande namorada, companheira, faz gosto de ver o zelo que tem com as pessoas, seus pacientes. E ele faz questão de trabalhar no SUS, porque diz que tem de devolver o seu conhecimento para a ajuda das pessoas carentes. Eu não posso mentir: morro de saudades de quando ele era pequeno e ficava com a gente em casa, brincando, curtindo a nossa vidinha a três. Para driblar a tal da saudade, vamos, eu e a minha esposa, para a China, conhecer aquele belo país e ficar uns dias com nosso menino. Ele ainda não sabe. Provavelmente ficará surpreendido. Sou capaz de qualquer loucura para ficar perto do meu filho. Isso é o que se chama amor.

  • Um dia qualquer na Cidade

    Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o tempo todo sem nos darmos conta da sua existência.

    Ando de graça no transporte público, migalhas em retorno pelos anos em que meu couro de cidadão comum – passivo e cabisbaixo – foi sendo arrancado dia após dia ao longo de uma existência de utilidade questionável. São as vantagens da idade, grita sempre lá do fundo meu humor amargo e esfarrapado, parceiro velho de caminhada. A moça que me abre a catraca depois de olhar minha identidade parece enfadada. Mas não me destrata. Apenas olha através de mim para algo que não está ali. Sabe-se lá com quantos demônios conversa nessa hora.

    Fico sentado na plataforma, deixo passar um ou dois trens, não tenho pressa. Às vezes folheio um livro que carrego apenas como muleta, para ter para onde olhar quando preciso fugir de certos espantos inevitáveis que toda caminhada traz. Ou para compor aquele ar intelectual de um leitor de longa vivência, que parece conceder a graça de sua presença numa manhã qualquer, olhando com desdém para aqueles rostos perdidos na tela do celular enquanto ele, um gênio da raça, está ali, com sua barba branca e rala e rosto magro e cavoucado, a mimetizar no seu ar circunspecto as perturbações dos grandes escritores, aqueles sim, arrastando as dores do mundo, enquanto constroem a grande literatura e nos elevam sobre seus ombros para a compreensão das pequenas e grandes aflições da humanidade.

    A moça me ofereceu o lugar no canto, e é nestas horas que costumo me dar conta da idade, sempre me esqueço. A culpa é do espelho, você sabe, o espelho de todo dia se torna cumplice no correr dos anos, a convivência o corrompe e ele passa a entregar as ilusões que você deseja enxergar, acho até que deve existir um lugar secreto onde os espelhos se reúnem para rir dessa fraqueza tão humana que é precisar o tempo todo cegar-se para não ver a própria miséria.

    Meu assento é de frente para o vagão, bem do jeito que gosto, de onde posso observar os mais variados tipos humanos, a maioria naquela luta interna contra a vida, espelhada no mau humor e enfado. E que faz todo sentido. Ninguém é obrigado a ser feliz às 7 horas da manhã dentro de um trem lotado. Meu julgamento deve ser descartado, tenho a vida tranquila, posso descer onde quiser, tomar meu café em qualquer quiosque ou boteco, bisbilhotar a vida alheia por tempo indefinido sem me preocupar se vou ter grana para atravessar o mês. Então é fácil.

    Desço na estação junto ao Masp e entro pelo grande vão do museu até a mureta de onde se vê os baixos da Bela Vista e do Anhangabaú. Era por ali, e dali para baixo que tudo foi acontecendo um dia, não foi assim de uma hora para a outra, foi um processo, um descuido. E eu me lembro dela me dizendo junto a janela,

    — Hoje eu vi um disco voador.

    Tem certeza?

    — Sim, mas era diferente dos outros.

    — Não era nem pratos nem caixas de papelão.

    — Não, parecia esses pacotes de salgadinhos, meio amassado, meio disforme, movia-se assim como se fosse um saco vazio empurrado pelo vento.

    — Onde estava?

    — Pelos lados da Zona Leste.

    — Sempre acontece coisas estranhas na Zona Leste. Quanto tempo durou?

    — Dois ou três minutos.

    Ficou assim, parada por alguns instantes, olhando o nada, o vento morno soprava seus cabelos.

    — Como estão seus projetos?

    — Esperando respostas, como sempre — respondi.

    — Admiro tua persistência.

    — Talvez um dia eu me canse ou faça algo diferente quando me aposentar.

    — A gente pode ir morar em outro lugar, ou sair por aí.

    Sair por aí? É a primeira vez que te ouço falar assim.

    Ela se voltou para mim, expressava uma alegria infantil, mas algo nervosa.

    — Tenho pensado. Mas não é uma coisa triste, como essas pessoas que abandonam a família, você nunca teve essa vontade?

    — Já, mas no meu caso seria essa coisa triste que você fala, deixar tudo para trás.

    — Até eu?

    — Não, você sabe que não, você é minha parceira, vamos ser parceiros sempre.

    Ela me olhou, estática, por alguns instantes. Depois sorriu, doce e resignada.

    — É uma pena que não.

    Depois saiu do quarto e nossa conversa terminou por ali. Nunca entendi o significado daquela última frase. Talvez porque nunca tenha sido honesto comigo mesmo e admitir o quanto fui pequeno nos momentos em que ela mais precisou de mim. Nós, machos, precisamos satisfazer nossas necessidades, está escrito nos estatutos gravados nas pedras do reino patriarcal, de nada adiantou o mundo ter saído da invenção da roda para a descoberta das partículas quânticas, tudo permanece igual na visão canhestra e miserável do ser masculino. E como todo bom cínico e desleal, passei a buscar outras mulheres, eu precisava extravasar. Um dia fui parar num lugar ali numa das esquinas da Brigadeiro Luiz Antônio, entrei por um corredor imenso, estreito, indefinido, cores vermelhas na maior parte do trajeto, algo estranho, pouco usual, uma música ao fundo como um eco, como se viesse de longe, mas que veio aos poucos se aproximando, até que adentrei um palco redondo, vazio, escuro. Uma luz se acendeu do lado, entrei por uma porta lateral e saí num puteiro, com mesas, sofás e um pequeno palco ao fundo onde uma senhora de roupas algo velhas e esgarçadas, justas e em cores estridentes, cantava uma música das mais tristes. Larguei-me sobre o sofá e duas mulheres se aproximaram e se jogaram sobre mim e penso que, durante alguns anos, nunca mais saí daquele lugar.

    Hoje olhando no retrovisor, nada justifica o que aconteceu, porque dali pra frente eu fui descendo, moral e geograficamente pela cidade até cair nos puteiros mais ordinários, como aquele, que acabei de descrever. E então, na tela do grande vão, aquela imagem recorrente: eu a vi, depois de rasgar em desespero o paredão de corpos que se aglomeravam para assistir ao espetáculo. Ela estava de pé no beiral, do lado de fora de uma das janelas do quarto, seus braços colados a parede e as mãos, trêmulas, tateavam de maneira aleatória algum lugar longe dali, como se ela buscasse algo palpável que a fizesse retroceder. Os policiais que faziam um cordão em volta do edifício tentaram me conter e eu gritei, tão alto quanto meu desespero desencavou forças que eu não tinha, mas não chegou até ela, vigésimo segundo andar e o alarido em volta, sirenes, gritos, buzinas. E ela, aos poucos, na lentidão das minhas esperanças e incredulidade, alçou voo com sua camisola branca de todos os últimos dias e noites, que ela não tirava mais, por entrega e um grito de socorro, e flutuou em câmera lenta por uma eternidade, pelo tempo em que a congelei com meus olhos, rezando por alguma força mágica que rebobinasse aquela imagem como uma velha fita VHS ou que eu despertasse de um pesadelo. Até que o baque, surdo e entre ossos que estalaram ao mesmo tempo, como a batida final da orquestra, tudo silenciou. Entre o assombro e o desespero, a sensação de fim dos tempos. Como se eu não tivesse nada a ver com aquilo.

  • Poema #09: Exercício para um ausente

    Falemos da esperança.
    Sim, da velha andança
    Da chuvosa lembrança
    Onde te sondavas.

    Vamos, falemos em novidade.
    Digamos que vai tudo indo, sim.
    Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
    Fora tempo de espera. E te lembravas.

    Este, foi-se?
    Não soubera.
    Tentaste um rumo, fostes sem manual
    Sem estradas, fostes sem-terra.

    Pois que era um domingo.
    E que já não lhe haveria numa segunda
    Para mais saudade.
    Talvez na quarta.

    Ai, quem me dera!

    Esqueça, pois que já vens tarde.
    Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
    Sobre ti tens a sombra do mundo
    Lançado fostes à toda verdade.

    Sem dizer-lhe qual.

    Ao oposto cercaram-te.
    Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
    Trouxeram-no à enseada, despido.
    Deram-te, como uma cena, por encerrado.

    Pôs-te ao que te vinhas falto
    Te tens liberto, filho, e não sabes.
    Já não vias com teus olhos
    Mas creste.

    Tu lhes enxugava, já secos.
    Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
    Eras jovem, batido. Podias tudo.
    Tinhas em ti a tolice dos sábios.

    Pelo que vibravam.
    Te retirastes.

    Ataviaste um ponto.
    Carregava-te um pensamento
    Sob a alta margem.
    O dissipaste em luzes.

    Te deitaste.

    Dando-lhe o assopro de toda a vontade
    Anseia-me ver-te de novo.
    Como quem te anseia, querida, lhe digo
    Ah, que saudade.

    Ainda que a figura mude.
    Ainda que o vento mude.
    Anseio-te, pois que venhas cedo.

    Aprendeste, enfim, a dizer.
    Fizera um convite.
    Escreveu-lhe poesias,
    Não deixaste um recado.

    Te partias.

    Pois que tudo o que sabia
    Lhe tinha. Sabias nada.
    Como bom servo ao coração, lhe obedecera
    Assim escrevia, e sonhavas.

    Ah, que saudade que sentia.

    Que te chegues ao meio dia, que venhas.
    Que surjas como astro-rei, que ardes
    Se por caminhar pela cidade te demores,
    Não te apresses, mesmo que te atrases.

    Também vou-me indo, pois que é dia.
    Pois que andei a dizer-me
    Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
    Nestes outros mesmos lugares.

    Sob a torpe volta deste mundo ocluso
    Ainda que vagueie noite sem rumo,
    É a você quem procuro
    Desejos mil de meus olhares.

  • Poema #77: A Aranha e o Sonho

    Havia uma aranha lá fora
    que tecia sua rede
    a despeito da chuva
    e do desânimo dos homens.

    Era uma aranha
    que tecia a sua rede fora do mundo,
    e eu miseravelmente preso a ele
    perdia-me em conjeturas sobre o amor
    e sobre um livro que acabara de ler.

    O Acaso das Manhãs

  • Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem?

    A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

    Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e formalidades. Cortavam a carne feito lâminas.

    Os contra-argumentos vinham em um português formal que nada devia aos melhores oradores, mas, naquele momento, não conseguiam convencer ou responder à pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores, como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensar nela.

    Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade, mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo, cuidar das próprias atitudes e assumir suas consequências.

    — Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

    Ainda que o outro quisesse, não podia discordar. Na sua impetuosidade juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convencia como ninguém.

    Tu é sujeito homem, moleque, como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

    Ao amor antes de tudo. À verdade, sempre.

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

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