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Crônicas
Nota de abertura
(nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo. DIIIIIIIIIIIIM. (Silêncio) Sura Berditchevsky parou
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Crônicas
Caos contraproducente
Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais. Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente
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Crônicas
Ode aos meus 3.7
Quero-me a mim como nunca antes,como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…– Crrrrr…..[o reconhecimento é recíproco pelo cheiro] Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder c
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Crônicas
Uma pitada de sal, não basta
É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto: quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar. Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitada
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Crônicas
Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta
Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – v
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Crônicas
Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados
É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora. Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira
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Crônicas
uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?
A vida é um eco, não é mesmo? Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos. Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos. O vazio é repleto de t
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Crônicas
um outro sentido humano, não apenas sentimento
O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência. O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo. O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada. O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final. Tanto se fazer por nada. O suor total por um gesto que o
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Prosa Poética
………….|….|…|…|.|.|…|.
Uma penaRubra, rubor – ruído ruivoFeito item desejadoJaz – ainda que repleta de vidaNo papelão bonito de onde veio NuncaSequerDaliSaiu Enquanto observa o líquido – mesma corrubra, rubor – ruído ruivoDançar serelepe em cristal humanoApaixona-se e queixa-se da sina que lheCabeAbreFechaResta O rubo
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Crônicas
Oscilações
Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de
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Crônicas
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta al
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Crônicas
Acaso e correlações à brasileira
Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office: Uma joanin
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Crônicas
Testemunho de um incêndio criminoso
Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto i
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Crônicas
Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos
Inspira… Expira… (por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira… Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega.
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Crônicas
“Felicidade se acha em horinhas de descuido”
Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram. E foi neste des
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Crônicas
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta al
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Crônicas
[com]penetrante:
Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo. […] Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo? Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas
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Crônicas
Gestuais domingueiros
Inequívoco: É pleno e gélido outono, o sol perpassa a concentração de nuvens brancas, total unificação de cor, reflexo intacto da luz no rebatedor que se faz teto do dia. Olívia espreguiça e se deixa ficar, é domingo, ela pode ser toda preguiça. O amanhecer vem calmo em quase tudo. Quase. Pouco a pouco, as árvores exib
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Crônicas
As joaninhas é que nos humanizam
De tempos em tempos, uma joaninha aparece perto de mim. Não importa aonde eu esteja: dentro de um carro, sempre ao meu lado, em uma viagem qualquer; imersa em um centro de cidade, onde esse tipo de vida parece improvável; dentro de casa – apartamento citadino que insisto, feliz, em preencher com plantas, em todos
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Crônicas
Nossa vida entre vermes e insetos
A vida acontece entre o instante em que respiramos aliviados pelo fim de mais uma jornada de estudos ou trabalhos e uma falha na observância dos nossos planejamentos financeiros, estratégicos de vida, de sonhos, de status de relacionamento. A vida acontece literalmente no ato de respirar.Às vezes, coisas terríveis acon
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Crônicas
Guizos, cafés e indelével tinta da vida na pele: dia das mães
2024 revolucionou a minha forma de encarar a vida.O Dia das Mães de 2024, para ser mais precisa. Todos os preparativos — que já eram esperados — estavam engatilhados: as tradicionais flores do campo que o Rodrigo já aguardava o “alô” do papai (sempre reservando umas últimas borboletas decorativas que eles j
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Crônicas
Dons de domingo
Frestas na janela forrada com tecidos nobres, trilho suspenso, que corre e fica. Luz matinal que avança, intrépida, vaporosa, deslumbrante. É manhã de domingo, os pássaros conversam, uma ou outra garagem desperta, eu também. Alguns dormem. Tantos tomam café, outros fazem cooper, yoga, amor, nada. Alguns compram jornais
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Crônicas
bolhas opacas em sinais de trânsito
Intuição é um troço engraçado. Às vezes, quando nos deixamos ser por ela guiados, pode dar bom, pode dar samba — ou crônica mesmo [bem melhor, convenhamos, que uma história crônica na bagagem da vida]: […) Sempre se sentava nos assentos dos veículos públicos, por segurança, por melhor vista da pista, “n” mo
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Crônicas
Lambuza-te da tua fatia de tempo
Uma casualidade remeteria um leitor comum a uma pizzaria. Embasbacar-se-ia, pois, com o sentido literalmente delicioso de uma plaquinha assim, despretensiosa assim, alocada aleatória ou propositalmente junto a três relógios de paredes com o mesmo design, mesmo compasso, horários diferentes. “Lambuza-te ou te devo
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Poesias de 1 a 99
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Crônicas
pausas: cotidiano em . p.o.n.t.o.s .
Bateu. O passarinho no vidro imóvel do topo da porta da varanda. Reflexo de algo ou transparência que não parecia obstáculo? Não se sabe. O barulho foi intenso e assustou a menina, que estava naquela casa, sozinha com seu cachorro. Ambos prestaram atenção, alertas. Silêncio. Bateu. Uma mão contra a outra. Uma vez. Duas
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Crônicas
Quando o tempo para: instantes de giz e asas
“O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”. Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada human
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Crônicas
Caçadores de eclipses
Chuvas atrapalham planejamentos. Na realidade, chuvas atrapalham expectativas, e estas, nos frustram. [Aqui, chuvas podem se tratar de chuvas. Ou não. Use-a como metáfora, os textos pertencem a quem os lê, no momento da leitura]. Hoje em dia é simples assistir eventos astronômicos com uma meteorologia ruim; eu, por exe
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