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Crônicas
Solas
Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneira
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Crônicas
vida [e mundo] como um sopro
Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – pou
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Crônicas
Looping quotidiano
O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam: — Data de nascimento?— CPF…?— CEP..?— Telefone, com DDD:— Sabe seu pe
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Crônicas
Palavras nem tão bonitinhas assim
Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O
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Crônicas
Entre
A arte salva momentos.A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum —
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Crônicas
Nota de abertura
(nota de abertura – curta, decisiva) Esta crônica acontece no intervalo.Quinze minutos entre um ato e outro.DIIIM. As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco. DIIIIIIM. Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo. DIIIIIIIIIIIIM. (Silêncio) Sura Berditchevsky parou
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Crônicas
Caos contraproducente
Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais. Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente
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Crônicas
Ode aos meus 3.7
Quero-me a mim como nunca antes,como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…– Crrrrr…..[o reconhecimento é recíproco pelo cheiro] Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder c
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Crônicas
Uma pitada de sal, não basta
É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto: quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar. Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitada
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Crônicas
Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta
Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – v
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Crônicas
Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados
É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora. Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira
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Crônicas
uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?
A vida é um eco, não é mesmo? Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos. Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos. O vazio é repleto de t
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Crônicas
um outro sentido humano, não apenas sentimento
O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência. O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo. O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada. O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final. Tanto se fazer por nada. O suor total por um gesto que o
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Prosa Poética
………….|….|…|…|.|.|…|.
Uma penaRubra, rubor – ruído ruivoFeito item desejadoJaz – ainda que repleta de vidaNo papelão bonito de onde veio NuncaSequerDaliSaiu Enquanto observa o líquido – mesma corrubra, rubor – ruído ruivoDançar serelepe em cristal humanoApaixona-se e queixa-se da sina que lheCabeAbreFechaResta O rubo
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Crônicas
Oscilações
Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de
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Crônicas
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta al
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Crônicas
Acaso e correlações à brasileira
Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office: Uma joanin
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Crônicas
Testemunho de um incêndio criminoso
Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto i
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Crônicas
Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos
Inspira… Expira… (por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira… Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega.
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Crônicas
“Felicidade se acha em horinhas de descuido”
Foi o Guimarães quem disse. O Rosa, que não é flor, tampouco cor. Ele disse, eu refleti. Me perdi nas horas, horas longas e não pequeninas, que atravessaram meu corpo, minhas ideias e minhas versões, desde o nascimento. Me descuidei, por um fio, horas a fio, fios de cabelos que ainda não embranqueceram. E foi neste des
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Crônicas
O crítico perfeito
Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos. Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário. São chaves que não abrem porta al
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Crônicas
[com]penetrante:
Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo. […] Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo? Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas
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Crônicas
Gestuais domingueiros
Inequívoco: É pleno e gélido outono, o sol perpassa a concentração de nuvens brancas, total unificação de cor, reflexo intacto da luz no rebatedor que se faz teto do dia. Olívia espreguiça e se deixa ficar, é domingo, ela pode ser toda preguiça. O amanhecer vem calmo em quase tudo. Quase. Pouco a pouco, as árvores exib
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Crônicas
As joaninhas é que nos humanizam
De tempos em tempos, uma joaninha aparece perto de mim. Não importa aonde eu esteja: dentro de um carro, sempre ao meu lado, em uma viagem qualquer; imersa em um centro de cidade, onde esse tipo de vida parece improvável; dentro de casa – apartamento citadino que insisto, feliz, em preencher com plantas, em todos
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Crônicas
Nossa vida entre vermes e insetos
A vida acontece entre o instante em que respiramos aliviados pelo fim de mais uma jornada de estudos ou trabalhos e uma falha na observância dos nossos planejamentos financeiros, estratégicos de vida, de sonhos, de status de relacionamento. A vida acontece literalmente no ato de respirar.Às vezes, coisas terríveis acon
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Crônicas
Guizos, cafés e indelével tinta da vida na pele: dia das mães
2024 revolucionou a minha forma de encarar a vida.O Dia das Mães de 2024, para ser mais precisa. Todos os preparativos — que já eram esperados — estavam engatilhados: as tradicionais flores do campo que o Rodrigo já aguardava o “alô” do papai (sempre reservando umas últimas borboletas decorativas que eles j
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Crônicas
Dons de domingo
Frestas na janela forrada com tecidos nobres, trilho suspenso, que corre e fica. Luz matinal que avança, intrépida, vaporosa, deslumbrante. É manhã de domingo, os pássaros conversam, uma ou outra garagem desperta, eu também. Alguns dormem. Tantos tomam café, outros fazem cooper, yoga, amor, nada. Alguns compram jornais
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Crônicas
bolhas opacas em sinais de trânsito
Intuição é um troço engraçado. Às vezes, quando nos deixamos ser por ela guiados, pode dar bom, pode dar samba — ou crônica mesmo [bem melhor, convenhamos, que uma história crônica na bagagem da vida]: […) Sempre se sentava nos assentos dos veículos públicos, por segurança, por melhor vista da pista, “n” mo
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