A arte de não se levar a sério por Guilherme Backes

  • Conversa de elevador

    Em meio à correria de nossas rotinas, costumamos ser presenteados com boas e instigantes conversas. Com o condão de provocarem a reflexão, muitas delas podem até mesmo incitar em nós a revisão de nossas opiniões e de nossos atos. Mas existem também aqueles momentos mais descontraídos, perfeitos para a descontração de um bom chiste ou para a leveza de um bom causo. Afinal, a vida não é feita apenas dos acidentados e pedregosos terrenos da filosofia e da política.

    Também importantes são aquelas conversas mais protocolares, as quais convencionamos serem necessárias e indispensáveis para uma saudável convivência em sociedade. Logo, não ignoro que a superficialidade e a frieza das convenções escondem, por vezes, um propósito social maior. Com frequência, a harmonia e a concórdia requerem pequenos sacrifícios de cada um de nós em nome da coletividade. Mesmo assim, a rabugice de minha precoce velhice não me deixa calar e consentir. E é a partir dela que me insurjo contra um tipo especial de interação social protocolar: a insensível conversa de elevador.

    Antes de tudo, advirto que quem aqui vos fala não é um misantropo! Palavra recentemente descoberta por quase todos os mortais que não se dedicam à lexicografia, a tal misantropia descreve uma aversão à sociedade. Ainda que a fadiga social possa dar suas caras de vez em quando, creio estar bem distante dessa repulsa melancólica e niilista pela sociedade. No entanto, com a famigerada conversa de elevador não há meio-termo tampouco margem para acomodação. Julgo difícil resistir passivamente a um rito que foi, de modo arbitrário, criado para dar a aparência de urbanidade a um mero encontro casual entre duas ou mais pessoas.

    — Bom dia! Tudo bem? — saúda-me por volta das 7h uma cerimoniosa e bem-intencionada vizinha.

    Imaginem vocês o que seria dessa situação se, abrupta e levianamente, eu decidisse romper o protocolo previamente estabelecido. Dessa forma, eu poderia responder-lhe com um rol de reclamações que perturbam a cabeça de qualquer pobre trabalhador que se obriga a sair de casa numa modorrenta e chuvosa manhã de segunda-feira. Obviamente, minha gentil vizinha não buscava saber como eu estava nem se eu precisava de alguma ajuda.

    Então, qual seria a utilidade prática de sua pergunta? Pergunta retórica! – dirão os mais sociáveis. Todavia, não seria mais honesto apenas desejar-me um bom dia? Honesto e polido, diga-se de passagem!

    — E esse tempo? Será que chove? — arrisca um simpático e tagarela desconhecido.

    De fato, a maldita etiqueta dos elevadores permite extravagâncias desse tipo. Antes de sair de casa, eu até costumo verificar qual é a previsão meteorológica para as horas seguintes. Porém, a inconstância do tempo em uma primavera marcada por um tal El Niño dificulta o trabalho dos mais competentes meteorologistas, sobretudo em uma cidade como São Paulo. Se a missão dada a quem se dedica profissionalmente a compreender as minúcias do tempo e do clima pode resultar, não raramente, em prognósticos errados, quem sou eu para dizer se choverá ou esfriará nas próximas horas?! Jamais aceitaria o risco de exercer, ilegalmente, uma profissão para a qual não estou capacitado.

    Entretanto, nada supera um tipo especial de diálogo que usualmente bordeja o limiar do tensionamento social. Quando o conteúdo de tal interação envolve questões políticas, ainda que implícitas, escuto o forte e alarmante som das trombetas da prudência. Em nome da harmonia social, convém não esticar ainda mais essa corda puída e desgastada. Se os cidadãos da Grécia Antiga debatiam sobre política nas famosas praças públicas chamadas de ágoras, por que eu entabularia uma arriscada conversa em espaço tão exíguo como um elevador?

    — E agora até os EUA resolveram taxar nossos produtos, né!? — provoca-me um transeunte que costumo ver a cada dois ou três dias no mesmo elevador.

    Acreditai, senhoras e senhores! Não vale a pena tentar deduzir a posição política do interlocutor para amenizar as diferenças ou conquistar a simpatia dada pelas convergências. Porquanto a cilada pode estar armada justamente sob as vestes da ambiguidade, mais vale a contenção do que a exposição desnecessária. Se algumas regras precisam ser respeitadas para que a sociedade continue funcionando a contento, louvado seja o respeito à sagrada conversa protocolar e insossa de elevador!

    — Pois é… Mais essa! Complicado, né… — é o que devolvo, relutantemente, a meu impertinente interlocutor.

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    — Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

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