A sorte está lançada

  • A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis?

    Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis, que já nem sei mais as minhas senhas. Postar vídeos curtos, contactar amigos e conhecidos, exibir minha rotina, sobrevalorizar meu currículo, expor meus pensamentos, compartilhar minhas fotos. O importante é fazer parte dessa grande comunidade virtual. Ser seguido e seguir quem está no hype. Quantas visualizações? Quantas curtidas? Será que vai viralizar? Quantos seguidores já tenho? Criar conteúdo! Mas que tipo de conteúdo? Engajamento! Mas engajar para quê? Sei lá! Não há tempo a perder. O feed é infinito e quem desaparece pode ser, totalmente, esquecido. Não quero ter minha existência negada. Precisamos de reconhecimento. Afinal, vivemos em sociedade.

    Quanta alegria, quanta saúde, quanta riqueza! Seria eu um pobre desafortunado diante de tão bem-aventurados seres? Aqui não há sermão, pois não há montanha à vista. Quando a ansiedade aperta, recorro ao fast food – algo bem mais mundano. Pouco romântico, mas visceralmente prazeroso. O cardápio de opções é tão grande, é tanta coisa saborosa! Batata frita, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, refrigerante… Minha nossa, não sei o que escolher! Paga-se com o cartão de crédito. Que delícia! Mas foi tão rápido! Fugaz como um cometa que desaparece diante de nossos olhos. Ainda preciso de um doce! Passa-se o cartão, novamente! Depois a gente vê como pagar a maldita fatura.

    O colesterol está alto. O bom ou o ruim? Não sei, acho que o tal de LDL. A glicose também não está muito boa. Ah, a culpa é daquele docinho! Digo, daqueles docinhos, no plural. Tudo bem, tem um remedinho bom que você pode achar na farmácia mais próxima. Só precisa de prescrição médica. Fácil conseguir! E tem outro também para a sua insônia! Já aproveita para pegar aquele que lhe sugeri para a sua lombalgia. E a enxaqueca? Olha que ela pode voltar, hein! Melhor prevenir do que remediar. E haja organismo para tanto medicamento! Da farmácia para casa, de casa para um médico. Acho que exagerei na automedicação.

    O dinheiro está curto? Melhor recorrer a um empréstimo consignado. Os juros não são tão baixos, mas é o melhor que se consegue. O cartão de crédito estourou o limite, e do cheque especial nem se fala. Como vou pagar tanta dívida? O déficit é fiscal, mas a aflição é física. O drama é coletivo, mas o sofrimento é individual. O salário não chega sequer à terceira semana do mês. A culpa é sua, pois não sabe administrar o dinheiro. Mas está tudo tão caro! Calma, eu sei. Tenho um amigo que consegue esse dinheiro. Agiota? Não diria isso. Prefere penhorar suas joias? Todos estamos no mesmo barco. Sei não… Está vendo aquele transatlântico ali?

    Big Tech, Big Food, Big Pharma, Big Money. Perdoem-me pelo anglicismo, mas dizem que a globalização derruba fronteiras. Nossa amada Flor do Lácio pode ficar enciumada. São tantos os termos criados pelo Tio Sam que já não dou mais conta de levianas traduções. Conseguiremos fugir de tamanha distopia? Pode apostar que sim! Sonhar é necessário e a sorte está lançada. Aliás, já tentou alguma bet?

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