Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. É, tem lá sua razão. Mas eu vou adiante umas casas no tabuleiro e adapto o que ele disse: a vida é a arte do encanto embora haja tanto desencanto pela vida.
Encantar é uma arte. Exige muita atenção, percepção e disposição. Precisa de muitas doses de criatividade e jogo de cintura. Afinal, encantar alguém é envolver a pessoa em uma dança quase ritual de enlevo e, porque não dizer, acasalamento sim. Encanto é sedução.
Por seu turno, estar encantado é ser seduzido, é permitir-se receber tanta atenção, é deixar-se levar por esse enlevo. É confiar. É passo a passo mostrar que cada gesto, cada palavra e cada ação da pessoa que decidiu nos encantar está dando resultado. Mexe com o ego porque, afinal, nada como ser o centro das atenções de alguém. Os dias escorrem preguiçosamente.
Mas…. E se o descompasso toma o lugar do ritmo harmônico? E se os passos erram a direção? E se, mesmo sem querer, o encanto dá lugar ao desencanto?
Nada é repentino. Começa aos poucos, sutilmente.
Aqueles gestos e palavras tão carregados de sentido não encontram mais eco. São recebidos com indiferença e, tristeza maior, vistos como rotina. Cada movimento que um dia era original e especial agora são nivelados. Nada que faz é seu, alguém fez antes ou pior: todos fazem, e daí?
Na sequência os atrasos, esquecimentos, gestos irritados, impaciência, cobranças disfarçadas, má vontade… O que antes era charmoso, se torna piegas. O gesto amoroso se torna possessivo. O interesse genuíno muda para insegurança. A palavra que causava sorriso, agora provoca sarcasmo.
E os olhares apreensivos tentando entender o que está fora do lugar, onde foi que se tomou o caminho errado.
O que faltou? Ou foi excesso?
Será que a palavra dita na hora errada causou isso? Ou foi o silêncio quando era o momento de falar?
Fui eu? Foi você? Fomos nós? Não foi ninguém?
As pessoas não são culpadas pelo desencanto umas das outras, mesmo sendo de alguma maneira responsáveis por ele. É uma situação curiosa de responsabilidade sem culpa. Era inevitável, ia acontecer, não é intencional. Mas acontece. Nem sempre, mas acontece.
No desencanto não há briga. Ninguém diz nada que possa se arrepender.
Porém, fica tudo em suspenso, um tanto indefinido. E agora?
Dá para apelar para aquele samba do Caetano Veloso, “Lealdade”: “Se o teu corpo cansar dos meus braços/Se teu ouvido cansar da minha voz/Quando teus olhos cansarem dos meus olhos/Não é preciso haver falsidade entre nós” ?
A sensação de desencanto é como estar diante de um lindo campo vasto e profundo em um dia morno de sol, a tarde. Espera-se não se sabe bem o quê. Ou se sabe mas se evita.
Fica-se ali. Diante de um vazio enorme, silencioso e triste.