André Guisti no Crônicas Cariocas

  • O Filósofo da Vila Kennedy

    Duas moças vestidas de recepcionista chegam e pegam a mesa que fica bem na porta do bar do Taiguara. Sentando-se ali, talvez queiram, não posso dizer, conferir quem entra e quem sai. Pedem uma cerveja e dois copos. É fim de tarde de uma sexta-feira, é fim de expediente, todo mundo ali precisa despressurizar. Trocam meia dúzia de palavras, se tanto, e antes que o garçom traga o pedido, mergulham no mundo paralelo dos celulares. Com os olhos agarrados às telas, é como se estivessem sozinhas. No planeta em que estão neste momento, não há a presença da outra no lado oposto da mesa, muito menos quem passa pela porta a caminho da rua, ou quem vem da rua rumo ao fundo do bar.

    “Para que saem juntas? Para ficar isoladas com companhia? Um pouco difícil de compreender, ao menos para mim”.

    Sentado comigo à mesa, está Helinho Bagulhinho, o filósofo da Vila Kennedy, em Bangu, Rio de Janeiro, onde moramos, onde fomos criados.

    “Se é para ficarem no celular, sem olharem na cara da amiga, para que vieram juntas?”, e minha insistência na pergunta é muito mais uma crítica retórica do que propriamente um questionamento.

    Helinho Bagulhinho pigarreia, prepara-se para falar com autoridade. Ele sempre faz questão de mostrar autoridade em tudo.

    “Solidão a dois, meu caro, não é invenção, descoberta da modernidade. Tenho dito que o homem é um ser social, mas pode ser insocial dentro do convívio. Gerações inteiras de famílias se arrastaram trocando apenas as palavras estritamente necessárias, e quando precisavam falar mais do que costumavam, geralmente havia confusão. Meus avós eram assim. Eram quase um desconhecido do outro. Falavam tão pouco entre eles, que não me espantaria se tiverem morrido esquecidos de como o outro se chamava. Qual a diferença dessa para a solidão a dois moderna, seja marido e mulher, irmãos, colegas? É que agora taca-se um aparelho na frente, enfia-se a cara na tela e fica mais fácil se manter no isolamento presencial. A solidão a dois dos meus avós era analógica. A dessas duas – e apontou a moças – é digital, hightech”.

    Entenderam por que o chamavam de filósofo?

    Era um homem de dissertação fácil, fácil e de amplo leque, sobre todos os assuntos, fosse o combustível usado pela Nasa, fosse o ponto do lagarto redondo na panela. Era autor de frases de efeito, quase ditos populares, embora em alguns casos sua autoria fosse discutível. ‘Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas’ era um exemplo clássico. Ele garantia que era dele, mas eu escutava aquilo dos meus pais desde moleque. Éramos da mesma idade. Eu deixava pra lá, era divertido e não fazia mal a ninguém que ele inventasse.

    Helinho Bagulhinho tinha um primo, o Ademilson, que se arvorava em frequentar as boates de Ipanema e Leblon. Dizia que Bangu só tinha inferninho que até o diabo pensava se entraria ou não. Então, se enfiava no ônibus, descia a Avenida Brasil, chegava à Central e de lá encarava outra Mercedez Benz coletiva até a zona sul. Um dia, apareceu dizendo que descolara um convite “pra festa do ano no Rio”. Seria numa mansão no Alto Gávea. Ninguém sabia explicar como ele descolara o convite pro rega-bofe, mas no dia ele estava lá, descendo a rua a caminho do ponto, porque táxi não se aventurava por ali com o dia escurecendo. “Tira pelo menos a etiqueta da C&A da gola da camisa”, e Bagulhinho deu-lhe uma trava quando o primo saía de casa.

    Ademilson disse com o ar de uma expectativa deslumbrada que a festança iria até seis da manhã. Estava em casa bem antes disso, pouco depois de uma da madrugada, e só não chegou antes porque àquela hora ônibus para Bangu “tem menos do que filé mignon na minha casa” (by Helinho Bagulinho). Deve ter levado mais tempo na viagem do que na festa. No domingo, no boteco do Taiguara, nossa igreja, ele confessou que “fiquei com medo de perder o último ônibus da Central pra cá”. “Mas e aí? Qual foi a dessa festa? Você conseguiu mesmo entrar?”, Bagulinho quis saber, eu do lado, só ouvindo. Ademilson disse que conseguiu entrar, os seguranças olharam assim meio torto, mas liberaram. Pegou uma taça de espumante, porque não tinha cerveja. “Aquele povo é de outro planeta”, considerou, chegando à conclusão de que até para respirar os bacanudos fazem diferente. Bagulhinho olhava com um sorriso de quem queria rir, mas que ainda não era a hora. Ademilson contou que ficou longe do movimento, quase escondido “naquela sala maior que as casas de nós três juntas”. “Ficou mais de canto do que bandeira de escanteio”, e Bagulhinho mandou a pérola, e um riso cínico tornava ainda mais engraçado o que dizia. Eu ri. Ademilson não riu nem reclamou; cabisbaixo, ainda alegou “Eu tentei tirar uma onda”. “Tentou ser um cara lascado que mora no fim do mundo enfronhado no Grand monde”, Bagulhinho sintetizou, e ainda arrematou a conversa, naquela tarde em que estava inspirado: “Peixe de rio não entra no mar”, e fez pro primo uma cara de “vê se aprende, mané”.

    Por que seu apelido era bagulhinho? Os outros perguntavam. Eu, que o conhecia há anos, sabia a explicação de trás para frente. “É por que eu tenho uma relação de encontro íntimo comigo a partir da fumaça”, respondia, sonso. “Mas é qualquer fumaça?”, às vezes perguntavam para lhe darem uma espetada. Claro que não era, “de caminhão, por exemplo, é que não é”, e sorria um sorriso calmo e mole, quase cínico, deixando o motivo do apelido subentendido no ar.

    Eu havia ficado desempregado pela quarta vez. Estava no Taiguara às custas da minha mulher. Me deu dinheiro para três cervejas, tudo para se livrar de mim por algumas horas e descansar de me ouvir reclamando da vida. Ao passo que eu colecionava pé na bunda nos empregos, Helinho Bagulinho jamais ficara desempregado, simplesmente porque nunca trabalhara. Enquanto ansioso eu contava tempo para me aposentar, ele estava aposentado desde a idade em que um sujeito começa a procurar emprego. Não contava tempo de aposentadoria. Sua aposentadoria permanente é que contava seu tempo de desocupado. Enquanto o país fervia discutindo escala de serviço e de folga, para Bagulinho tanto fazia a escala 6 X 1 ou a 5 X 2. A sua escala sempre fora a 0 X 7. “Que diabos tu faz da vida, bagulho?”, um dia não resisti e perguntei, noite alta, quinze cervejas ou mais na mesa, o Taiguara querendo fechar. Ele sorriu o mesmo sorriso calmo e mole, agora ainda mais, por causa daquele dedo de bebedeira. Eu sabia de quatro ou cinco lojas em Parada de Lucas, herança da madrinha. Ele nem aparecia por lá, mas a renda certamente era o que sustentava a fumaça. Então contou ser fiscal da natureza e observador da mecânica da relação dos seres humanos entre eles e com o ambiente.

    Só fui entender o que isso significava quando em uma tarde de sábado, no Taiguara, obviamente, encostou uma Mercedez Benz de verdade, um modelo que fazia jus à marca. Dela desceu um casal que parecia casal milionário de novela das oito. Talvez se um disco voador pousasse ali, não teria causado tanto impacto. Arrancaram todos os olhares do bar e arredores. Passaram pelo Taiguara e se dirigiram a uma portinhola uns dez metros depois. “É a casa da Zefa”, Bagulinho explicou. Eu Sabia. Zefa era costureira antiga por ali. A madame pegou um embrulho e agradeceu, enquanto o marido abria a carteira, de uma marca que certamente era a Mercedez das carteiras, e entregava na mão de dona Zefa um punhado de notas, notas altas, sem dúvida. Eu levaria dez anos juntando dinheiro, e não teria uma carteira recheada daquele jeito.

    Voltaram, passaram por nós novamente, e agora nos cumprimentaram com sorrisos largos, abertos, e que até lhes fizeram simpáticos. Entraram na nave espacial e zarparam. Bagulinho deu um gole na cerveja, limpou os lábios e sentenciou: “Rir com dente é mole; eu quero ver é rir sem dente”.

    Ele estava certo, era isso mesmo.

  • A loja

    “Ainda existe a Lobrás?”

    “O que é Lobrás?”. O outro, mais novo, não sabia do que se tratava.

    “Lojas Brasileiras”

    “Existem as Americanas, ainda, apesar dos balanços Mandrake”.

    “Eram concorrentes”.

    Aí o mais novo se ligou no que se tratava.

    “Ah, agora eu meu lembro. Eu era bem pequeno, passava de ônibus aqui com a minha mãe e via o letreiro da janela”.

    E foi exatamente por causa disso que a memória do mais velho foi buscar lá no fundo a lembrança de uma marca há anos falida.

    “Ficava exatamente aqui nessa galeria, eu também passava de ônibus por aqui”, e apontou, braço estendido, para a entrada do centro comercial. Estavam na Conde de Bomfim, quase na esquina com a Rua Uruguai. “Eu gostava de vir aqui com a minha mãe. Enquanto ela fazia compras, eu subia até o Maeda para ficar vendo as corridas de autorama”.

    O outro sorriu. Apesar dos anos que os separavam, chegou a pegar a pista, também ficava olhando os pequenos carrinhos correndo, com inveja dos donos, moleques iguais a ele.

    “Você teve autorama?”

    “Nunca”

    “Nem eu, nem aquele vagabundo com a cara do Emerson”.

    Sorrindo, o mais velho contemplava o lugar em que ficava a Lobrás, e era como se estivesse contemplando a própria lembrança, porque na verdade olhava sem ver. Suas vistas se desocupavam do presente e se enchiam da infância e da adolescência.

    “Aqui era legal por causa da pista de autorama, mas eu gostava também de ir nas Lojas Americanas, minha mãe me dava um pedaço de pizza com laranjada. Não era suco; era suco misturado na água. Era muito bom”, e pode sentir, revisitando o paladar, o sabor do molho de tomate e o da muçarela e o gosto do refresco.

    “Quando eu era menor, ela comprava também aqueles carrinhos de plástico, bem vagabundos. Eram tão vagabundos, que na outra semana já não prestavam para brincar”.

    “Eu tive um que o plástico era tão fino que uma dia esqueci no quintal, debaixo do sol, e o carrinho ficou todo molenga, quase derreteu todo”.

    Sorriram juntos da graça que alguns acontecimentos não perderam e jamais perderiam.

    “Lá em Brasília agora tem uma tal de Casas Brasileiras. Acho que abriu não tem tanto tempo, não tinha quando eu fui morar lá. Tem aqui no Rio?”

    “Não sei, se tem, eu nunca vi”, parado, o outro voltou o rosto para o chão, como se assim pudesse responder se havia ou não na cidade a tal loja.

    “São as mesmas cores que eram da Lobrás, as cores da bandeira, óbvio. Acho que vende o mesmo tipo de coisa. Não sei”.

    Mas ele sabia que vendia papel celofane, o que a loja da infância também vendia. E foi nesse momento, que um filete de reminiscência trouxe à tona um ar saudoso que ainda não se declarara em seu rosto. Seu sorriso, que era céu claro, nublou-se em décimos de instante, e em um estalar de dedos, seus olhos deixaram ir embora a vivacidade. Sabia que a tal Casas Brasileiras, de Brasília, vendia papel celofane porque em uma tarde de sábado, seis anos antes, Sabrina desceu apressada do bloco em que morava, com os cabelos ondulados sacudindo ao ritmar de seus passos inquietos e um vestido verde de flores alaranjadas escondendo pouco abaixo dos joelhos. Sabrina tinha um ar retrô de moça que viveu a juventude na virada dos anos setenta para os oitenta, e sempre que aparecia nos pilotis do prédio, era como se os maquinistas do passado puxassem uma antiga alavanca e o comboio desviasse para trilhos antigos.

    Tomando-o pelo pulso, correu com ele à loja da comercial da 708 norte. Eram quase quatro da tarde e os funcionários já encaixavam as estruturas verticais de metal para cerrar as portas. Ela entrou e saiu feito um relâmpago da loja, carregando dois rolos de papel celofane. “É para embrulhar o bolo”, explicou, o bolo da festa surpresa da Luciana, que fazia geografia com Sabrina na UNB.

    Ela o chamou para a festa, os dois torcendo para que acontecesse o que cada um queria, mas que não tinham certeza ainda se o outro queria realmente o mesmo. Quando viram e sentiram, os quereres eram siameses. Ficaram juntos, começaram a namorar e um amor imenso inundou suas vidas durante dois anos.

    Até que Sabrina se formou.

    E ganhou uma bolsa de pesquisa na França.

    E viajou para ficar três anos.

    E já se passaram seis, que pelo jeito chegarão a nove e logo serão doze, até que tudo se transforme em nunca mais.

    Nunca mais Brasil, nunca mais Brasília, nunca mais ele.

    Fica parado em frente à loja de sua meninice. Sem esforço, enxerga a mãe e suas sacolas, com o braço estendido segurando sua mão. Compondo a periferia da visão, estão o autorama, o carrinho de plástico vagabundo, a pizza e a laranjada. E sem que espere, surge Sabrina, com seus cabelos, vestido colorido e adereços que se coadunam com a imagem da mãe saindo com ele da loja que não existe mais. O imenso amor que resiste à distância e à falta de expectativa de que ela volte desenha em seus olhos abertos o movimento contente de Sabrina trazendo dois rolos de papel laminado e um sorriso apressado de que a vida é linda e pede a urgência da juventude.

    Ele dá dois passos à frente e gira o pescoço na direção contrária, de modo que o outro não o veja chorar.

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