Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei. Fazia frio e o vento a me bater no rosto como se quisesse me despertar. Não sei. Fazia frio e, ao longe, um barco pesqueiro, um horizonte gigantesco a me engolir. Pensei na morte talvez porque tenha perdido alguém conhecido e não… Talvez pelo modo como as folhas caíam ao chão, ressequidas, enrugadas.
As árvores vermelhas balançavam como os meus braços ao redor de Ana. O desejo dela era simples: viajar somente. Cabelos curtos, pretos, olhos vivos e um pescoço macio protegido pelo cachecol azul. Ana falava de terras distantes, mais frias que o frio, e, ao me contar as histórias (eu nunca soube contar histórias) a lua parecia espreitar cada movimento, quase a nos cobrir de estrelas. Um riso e um calendário eram o sopro de vida, o que levava na mochila surrada. Não gostava de vermelho (e eu a olhar, a amar e desprezar as árvores vermelhas), adorava o azul. Sempre fechava os olhos por instantes, um período curto, porém intenso e depois admirava o céu e ria para mim. Ana escrevia poemas, lindos poemas. Nunca os li, mas eram belos porque Ana assim também o era.
O vermelho parecia sangue a denunciar tristeza e melancolia. Sinal aberto e pouca atenção um grito e o desespero e ninguém ouvia ou fazia coisa alguma… Muitos gritos muitos gritos muito sangue e o sol a arder o coração e o cachecol azul vermelho e o sol o gosto ruim amargo na boca. Não sei contar histórias, nunca soube. Adorava ouvi-las da boca de Ana, uma boca enorme como o mundo que sorria no seu sorriso.
Lembrava do sol pela janela estreita do quarto branco e via um mundo maior, muito maior que todos nós. Nós não víamos.
Um rapaz passa com uma bicicleta laranja.
Segundo parágrafo…Ana sorria… Duas mulheres olham confusas o garoto do skate.
Segundo parágrafo… Ana sorria, tudo escuro e o vermelho das árvores tomava os meus olhos. Tudo era vermelho, solitário, vazio. Um dia resolvi ler um dos poemas escritos pela doce Ana. Palavras confusas como o trânsito da cidade…
Um horizonte gigantesco a me engolir…
e não sei contar histórias
e não sei desenhar nos muros
muito menos nas janelas.
Palavras ao vento, jogadas, todas elas
como um brinquedo de viagem.
Nunca soube contar histórias
Porque as histórias sempre contavam a mim…
Um casal se senta ao meu lado e escuto o balançar dos galhos e o cair das folhas. É outono. É outono a cobrir o caminho de folhas mortas, a desenhar no céu um cinza pesado e a rir de mim como ria Ana. Não sei contar histórias, nunca soube.
Página nove.
Uma bola escapa do campo de areia, bate nos meus braços e derruba o livro que lia. Estava no penúltimo capítulo, quase a descobrir o segredo. Pensei comigo: “o que importa?”
As árvores frescas, robustas na estrada, balançavam com o forte vento. Guardei o livro de capa vermelha como as árvores vermelhas da história quando um cachecol azul-vermelho veio parar aos meus pés. Ria de nervoso. Se soubesse contar uma história.
“Depois termino.” — Pensei.