Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar, abriu, entrou e se fechou nela por dentro. Minha mãe, depois de agradecer pelo presente, ligou a televisão para ver a novela. Passei o resto da noite tentando abrir a mala e tirar meu pai de lá, sem sucesso. De vez em quando ele dava pequenos golpes por dentro da tampa para dizer que estava bem e que eu ficasse tranquilo. Num acesso de nervos, empunhei um facão disposto a rasgar o couro novinho da mala e forçá-lo a sair, mas não consegui. Meu pai se mexia o tempo todo e fiquei com medo de feri-lo. Minha mãe continuava vendo televisão. “Não perca tempo com seu pai, ele sempre gostou de fazer fricote. Logo se cansa. Conheço essa história há vinte e cinco anos e sei como termina. Vai lá na cozinha, filho, tem bolo.”