Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para ela, o que importa é que, quando pequena, criou dois huskies siberianos, e tem uma saudade danada daquela época. Só que, convenhamos, ela morava numa casa de, talvez, 300m², que tinha inclusive um canil, pois meu sogro amava os cachorros. Ou seja, morava com gatos, cachorros e passarinhos, sem comprometer o espaço – hoje, sobre pássaro enjaulado, ela tem repugnância. E eu não posso abrir o bico, porque estou “botando catinga” para as coisas de seu interesse; sou uma espécie de mal agouro para os seus arroubos de felicidade. Agora, passa o dia a procurar nos anúncios o bendito cachorro, e vem me mostrar o resultado, toda contente. Minha expressão, no entanto, é de aceitação, sem vibração. E, perceba, essa ideia é antiga, mas voltou com força total depois da morte de sua mãe, dona Aglais; daí o porquê de ser um assunto tão delicado. Enquanto ela efetivamente não compra, penso que isso é somente um sonho. O pior é que não posso abandonar o amor que sinto por ela, jamais. Na verdade, é uma paixão avassaladora que nos une, e quero sempre vê-la feliz – contanto que não me comprometa. Não é por acaso que estamos casados há vinte anos. Optamos por não ter filhos, porque sabemos que ser pai e mãe é uma responsabilidade tremenda. E, também, não temos aptidão para sermos pais, viajamos muito, trabalhamos muito, e tudo isso inviabiliza a criação. Então, hoje somos somente pais de pets. Não sei como vou lidar quando esse cachorro chegar. Nem ela quer saber se o condomínio aceita um animal desse porte – pelo menos, nunca vi um animal aqui maior que o Shin Tzu da minha vizinha Renata, do 601. Mas ela quer, e, quando quer, não há jeito que mude o fato sacramentado. A mulher, além de toda a força que tem, é opiniosa. Ela fala em se candidatar a síndica, possivelmente para viabilizar as suas vontades. Na última briga que tivemos, por causa do cachorro, ela sugeriu que preferia o cachorro a ficar comigo – culpa do Lucky e da Brigitte, seus antigos cachorros, que iluminaram os seus dias, quando criança. Falou isso como se dissesse que os incomodados que se retirem. Fiquei magoado, principalmente por não poder divergir dos assuntos de sua autoridade. Nara promete que vai buscar o cachorro até a próxima semana. Enquanto isso, preparo o coração para mais uma emoção fora de hora.
Cachorros
-
Emoção fora de hora
-
Uma Crônica Canina – Parte 1
Como escrever uma crônica canina?
Lambidas, olhar pidão, um rabo que tem vida própria e muitas alegrias!
É a minha primeira crônica canina! Experiência com cães eu tenho, desde pequeno! Lembro de um dálmata lindo que tive quando era criança! Duquesa! As lembranças são poucas porque era muito criança!
Mas do primeiro cachorro que levei pra casa (sem contar obviamente para os meus pais) eu tenho as primeiras memórias afetivas que marcaram a minha vida! Apolo era o nome de um vira-lata baixinho, troncudinho e esperto que adorava lasanha, pizza e espetinho de frango! Corria atrás de bola, fugia de casa com frequência e matava as galinhas da casa da minha avó com uma patada só!
Apolo viveu bem sua vida: correndo, brincando e viajando. De todos os cães que tive foi o que mais viajou, embaixo do banco do carona onde sentava a minha mãe, ficava ali quietinho até uma parada! Quando parávamos, ele atacava dois espetinhos de frango e estava pronto para seguir a estrada…
Infelizmente, como todos os bons cães, ele não pôde ficar aqui nessa vida com a gente e nos deixou por causa do coração!
A outra experiência foi com um cão fofoqueiro! Sim, fofoqueiro! Ele passava muitas horas do dia pendurado no portão da garagem olhando a rua e prestando atenção a todos os movimentos. O nome dele era Baggio! Sim, o nome do jogador italiano que perdeu o pênalti e deu o tetra ao Brasil. O nome quem deu foi o meu pai e nunca entendi o porquê do setter irlandês nunca ter sido chamado de Dunga, Bebeto, Romário, enfim… Ficou Baggio mesmo!
Baggio viajou pouco! Ele não curtia ficar muito tempo dentro de um carro e, por isso, perdeu algumas oportunidades que o Apolo soube bem aproveitar!
Mas, a despeito das viagens e das estradas, tanto Apolo quanto Baggio mostraram em cada olhar e em cada lambida a intensidade que todo cão vive a vida. A intensidade de todas as esperas! A intensidade de fazer a criatura humana feliz…
Continua…