Coluna Crônicas

  • Bubbaloo tutti-frutti

    Reunião de pais e mestres.

    — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua.

    A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de semana.

    — Mas, filho, a professora disse que dá pra melhorar as notas se você prestar mais atenção nas aulas. Que tem horas que parece que você vive no mundo da lua.

    A mãe disse que, se ele não melhorasse as notas, iria proibir o videogame. Ela ouviu outro dia que esse aparelho anda tirando a atenção da garotada. “Um mal do século”, disse a vizinha. “Isso vicia”, disseram os tios do garoto à mãe dele. Era o assunto da semana. Anderson ficou puto da vida com esse negócio. Nunca gostou de estudar, tampouco ficar sem videogame.

    Era mais um dia de aula e faltavam poucas semanas para uma nova reunião. Anderson sentava na quarta fileira, à esquerda da parede. Números difusos se espalhavam pela lousa, a voz da professora ecoava ao fundo junto com as hélices dos ventiladores. Seus olhos de azeitona, longe, brilhavam com o reflexo do centro de uma luz lunar. Era Raquel na primeira carteira. Enquanto, naquele momento, os sábados e domingos se projetavam para um destino amargo e relutante, ele tirava mais um chiclete de sua boca, colocando-o debaixo da carteira. Havia dezenas de aulas matadas por ali. De segunda a sexta, Raquel costumava ter um intenso e sutil sabor de Bubbaloo tutti-frutti, nas manhãs de lua nova, crescente, cheia e minguante.

  • Poder desarmado

    Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir. Seu poder está no tilintar metálico quando caminha, no gesto de tocar o bolso como quem confirma uma arma secreta. Ele fala pouco, mas quando fala, as pessoas se inclinam levemente, como gravetos sob um vento súbito. Do outro lado da rua, na sombra de uma árvore, está a Menina do Livro. Não é mais criança, mas carrega no rosto a perplexidade perpétua de quem está sempre descobrindo algo. Seus livros são velhos, emprestados, com anotações nas margens. Ela não tem chave alguma, mas sabe coisas: sabe por que o musgo cresce no lado norte dos troncos, conhece a história da rua antes do asfalto, decifra os padrões das nuvens antes da chuva. Seu saber é silencioso, despretensioso, como o zumbido de abelhas numa colmeia distante.

    Por anos, achei que poder e saber eram duas ruas paralelas que nunca se cruzavam. O poder era barulhento, imediato, concreto. O saber era paciente, acumulativo, às vezes invisível.

    Até o dia em que a chuva forte alagou nosso bairro. O Senhor da Chave saiu à porta, tilintando seu símbolo, dando ordens. “Fechem as comportas!”. As pessoas corriam, mas a água subia, desobediente, sem hierarquias. Foi então que a Menina do Livro, de calça encharcada, apontou para o beco dos fundos. “A água não vem só do rio, vem das antigas galerias romanas que passam debaixo do mercado. Estão entupidas com entulho da obra nova. É por ali que ela força a passagem.” Ela sabia da história que os mapas não mostravam, da rede subterrânea que os tubos modernos ignoravam. O Senhor da Chave parou, olhou para a chave no bolso, e pela primeira vez, seu poder parecia pequeno. O que se seguiu foi uma dança curiosa. O poder desarmado, precisou se inclinar ao saber para se materializar. Precisou do poder de convocar pessoas, máquinas e recursos. Juntos, o homem com sua autoridade e a menina com seu conhecimento, dirigiram o esforço para o lugar certo. A água recuou. O Senhor da Chave agora conversa com a Menina do Livro. Pergunta sobre histórias, sobre os nomes antigos das ruas. Ela, por sua vez, aprendeu algo sobre o peso das decisões, sobre a solidão de quem precisa escolher por muitos, sobre como uma chave simbólica pode abrir espaços para que o saber chegue onde é necessário. O verdadeiro mistério talvez não esteja em escolher entre um e outro, mas em reconhecer que eles são irmãos separados na infância. Quando vejo o Senhor da Chave e a Menina do Livro conversando na esquina, percebo que a maior sabedoria seja saber quando ceder o poder. A vida é um permanente aprender quando tilintar, e quando ficar quieto, apreciando a paisagem.

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