Bem que na hora em que abri a boca pra falar, alguma coisa me cutucou por trás, como se dissesse em meus ouvidos: “Não fala nada não, fica calado”. Mas não me contive quando vi o homem gordo vendendo saco de lixo e pano de chão ao meio-dia, o sol de trinta e oito à sombra estalando no crânio do sujeito e sendo rebatido ainda pior do que era pelo asfalto em uma esquina da Edgard Romero, ali naquele ponto de Madureira, onde, dizem, começou o aquecimento global. Minha língua coçou e eu mandei a brincadeira. “Que dia bom para trabalhar debaixo do sol, hein, camarada?”
Assim que disse, comecei a me arrepender de ter dito e de não ter obedecido minha intuição. O gordinho era daqueles que parece viver permanentemente no púlpito de uma igreja pregando a salvação dos outros, achando que não precisa se salvar, porque já está pra lá de salvo no reino dos céus.
“Qualquer dia é bom quando se traz a palavra de Deus no coração”. Eu só queria brincar com ele, e desse modo demonstrar minha admiração em vê-lo trabalhar dentro daquela churrasqueira. A última coisa de que eu precisava naquele momento era de pregação, mas ele começou o culto, a missa, sei lá mais o que, não entendo nada de igreja, e a depender daquela situação, eu continuaria sem vontade de entender.
“Com a graça do senhor, que acolhe o justo e castiga o pecador, estou aqui em meu trabalho digno e honesto”, e, repentinamente empolgado, não reparava o sinal fechado permitindo que ele pudesse correr os carros parados, mostrando a mercadoria. “Aqui não há calor, não há frio que impeça esse coração cristão de cumprir com alegria a vontade de Deus. Enquanto tantos se perdem nos vales escuros dos vícios e nos prazeres enganosos da libertinagem, eu vendo, com a alegria de estar em Jesus, esses sacos de lixo e esses panos de chão para estar em paz com os céus. Na Bíblia, em João capítulo três, versículo dezesseis…”
Ficando irritado, apressei o passo quando ele meteu a Bíblia naquela doideira de ficar bancando pastor no micro-ondas. Citar a Bíblia sempre torna maior a encheção de saco. Nada mais torturante do que um fanático com a ladainha daqueles versículos na primeira pessoa do plural, sem nos dar qualquer direito de discordar. A gente nem sabe se foi mesmo Jesus quem disse aquilo tudo, ou se quem escreveu colocou ali o que pensava e o que achava da história toda. Fui me afastando, deixando aquele barril em forma de gente conclamando os céus com sua mercadoria nas mãos naquele calor terreno.
Descobri, debaixo do sol cruel de Madureira, que há algo que pode ser pior do que a tal positividade tóxica. É quando ela surge abraçada ao fundamentalismo, à carolice ou fanatismo. Então não é apenas tóxica, é insuportável, é enraivecedora, e feito assombração pode aparecer, inclusive de dia, já que podemos topá-la numa esquina vendendo saco de lixo e pano de chão sobre o asfalto amolecido.
O calor do El Niño levou dias para recuar. Em um desses, passei pelo gordinho, mas dessa vez calado e procurando me esquivar para que não me visse. Eu não era um cara bom de se tentar converter, não reagia bem a isso. Ele estava lá, seus panos, seus sacos e sua barriga indecente, fugindo da cintura da calça, imensa e pontuda, como se houvesse engolido uma bigorna. As laterais arredondadas de seu corpo impediam que tocasse os quadris, suas mãos e braços ficavam soltos ao longo do corpo, sem encostá-lo.
Discreto, passei junto a ele, rumo ao meu destino de todos os dias. Ele suava e uma mancha molhada tomava boa parte do tecido na altura do umbigo. Do rosto, desciam filetes de um suor poroso, como chuva na vidraça. Erguia os produtos na esperança de que alguém dentro de algum carro o chamasse para comprar. Era louvável seu afinco em trabalhar ali, naquela representação do alto-forno da CSN.
“E aí, abençoado?”, me reconheceu e se dirigiu a mim nesses termos, quando me viu.
“E aí, gordinho?”, respondi com a cara fechada. Quem chama os outros de abençoado? É católico ou crente? Eu nunca soube, mas já estava com raiva de ser tratado assim.
“Pronto para ouvir a palavra de Deus? Você quer encontrar Jesus?”. Acho que ele seria capaz de trocar a venda do estoque inteiro de saco de lixo e pano de chão pela conversão de um pecador feito eu.
“Olha só, gordinho, sabe o que eu quero?”, perguntei imaginando seus olhos se arregalarem de expectativa por trás dos óculos escuros. “O que, abençoado?”. Foi quando eu destravei a língua, agora não haveria intuição que me segurasse. “Eu quero que tu vire torresmo debaixo desse sol, gordo infeliz, e que esse Deus que inventaram para você acreditar derreta essa sua banha toda nesse asfalto como se estivesse numa frigideira”.
Antes de me virar para seguir meu caminho, consegui ver sua expressão de espanto e indignação. “Que o diabo leve essa alma do mal, seu perdido”, ele gritou.
“Fique tranquilo, já está sendo providenciado”, respondi, pegando meu rumo e decidido a evitar essa modalidade de pastor que vende saco de lixo e pano de chão debaixo do sol. Aliás, evitar pastores de todas as modalidades.