Crônicas

  • O Natal do meu avô

    Natal, para mim, sempre significou o Natal do meu avô, o Natal de nossa família em sua casa e ao seu redor. Mesmo hoje – após a sua partida e o fim do que vivenciei por anos –, é a memória daquele apartamento e daqueles dias que me vêm à mente ao chegar dezembro. Ainda hoje, para mim, esta data continua a significar o Natal do meu avô.

    Antes de chegar a tão almejada noite, eu já a vivia. E a vivia com fervor e cupidez. A sua semana, os dias que a antecediam, era de expectativa e preparação. Fantasiando a respeito de como seria neste ano, ansiava que chegasse logo o momento de eu me entregar às brincadeiras e às delícias da mesa. A preparação imaginativa era ladeada pela preparação dos presentes e dos alimentos, das quais eu participava ou apenas acompanhava com vivo entusiasmo. Dos mais simples dos feitos aos mais notáveis, tudo aparecia dotado de um encanto singular, que só poderia ser vivido nesta época.

    Eis que era chegada a véspera e, assim, dirigia-mo-nos para a casa de vovô Chico, onde toparíamos com nossos velhos conhecidos. Tios, primos, parentes distantes e amigos se reuniam naquele recinto, com os mesmos abraços e os mesmos votos de todos os anos, que jamais fatigaram a criança que a tudo assistia. Era o momento da família se reunir, hora de vermos os que sempre víamos e encontrar os que só anualmente encontrávamos. Era a ocasião ideal para isso. Sem ela, possivelmente, tais contatos não viriam a ocorrer.

    Os parentes mais velhos e as visitas – ou, os adultos, como dizíamos – iam conversar, contar as novas e as antigas e bebericar na varanda, onde não faltava o Old Parr de meu avô e o pistache de meu tio. A felicidade tomava conta das crianças, afinal, teriam colegas para brincar a noite inteira. Reunidos os primos e incorporados os filhos dos amigos da família, folgueávamos pela sala. Depois, era a vez de passarmos aos quartos, procurando nos esquivar dos olhares vigilantes dos pais, que, a certa altura, nada mais vigiavam.

    As idades separavam os convidados, mas a comida sempre os unia. Postos à mesa, todos se entregavam às iguarias, das quais voltaríamos a nos servir no almoço do dia seguinte. E lá estavam a batata gratinada, o famoso salpicão de minha mãe e o indispensável peru, do qual a tradição sempre reservava a coxa ao meu avô.

    Sei que estas lembranças têm algo de idílico, fruto da afetividade dessas memórias ou da cândida visão de uma criança. Em boa parte de minhas recordações, já não estavam todos os meus. Perdi minha avó muito cedo e muito cedo se iniciaram as cisões. Não obstante, durante toda a minha vida, naqueles momentos, sentia a união da família, sentia a minha família.

    Quando vovô se viu doente e já não integrava a festividade como antes, o Natal seguia ocorrendo em torno dele. Com menos convidados, com menos comida e com mais silêncio no meu avô, celebrávamos. Todos os anos, continuávamos a nos dirigir à sua casa e a desejar passar aquela data ao seu lado. Como por uma força inata, ele – passivo e inconsciente – seguia a agrupar a família e a fazer com que prosseguíssemos juntos.

    Porém, dias obliteraram anos. Com sua ida, foi também o seu Natal, foi o nosso Natal. No vendaval que se seguiu, os conhecidos se desconheceram e os afetos que pareciam tão sólidos se evanesceram no crepúsculo familiar. Desde então, as noites do dia 24 passaram a ser menos luminosas, embora a luz de meu avô siga a brilhar na memória do seu Natal perdido.


  • Deixar pelo caminho

    Arrumando a mala para viajar no final de ano, separei as roupas que iria usar: roupas leves e confortáveis para o dia, pois vou para o calor, uma opção mais elaborada para o réveillon, traje de praia, sandálias e uma roupa de caminhada. Enquanto pensava na mala e em como conseguir selecionar o básico, essencial, aquilo de que realmente preciso, comecei a refletir sobre o que quero levar de mim para 2025, e o que pretendo deixar pelo caminho.

    O ano que passou foi marcado por altos e baixos. Sopros de esperança dissipados rapidamente pelo peso de nuvens espessas de uma realidade de conflitos e violência, que nublaram o sol pelo mundo afora e o meu em particular. Mas foram importantes para aguçar meu olhar interior, a consciência do quanto se acomodar, ser indiferente ao que se passa com quem se abriga na sombra dos becos, é o mesmo que negar sua existência. Essa luz quero levar comigo para 2025.

    Como um Tifão, monstro de cem cabeças que, com seus braços, tocava do Oriente ao Ocidente, as catástrofes climáticas apavoraram o mundo e me fizeram refletir sobre o quão imperativo é o respeito à natureza, da qual somos parte integrante. Uma célula desse organismo vivo a que pertencemos entrou em fúria, clamando por um basta! Fechando o foco para meus próprios hábitos, percebi que, no quesito ambiental, tenho muito, muito mesmo a mudar na forma de consumo dos recursos essenciais daqui para frente. Anotado para iniciar uma nova prática em 2025.

    E por falar em consumo, o período de isolamento que enfrentamos na Pandemia nos deixou perplexos em relação à inutilidade de tantas coisas que compramos, acumulamos, desejamos. Para muitos, como eu, teve um efeito libertador – usar o que tem, o mais confortável, mais despojado, mas que dê a sensação de “pronta para sair”. Reciclar e reaproveitar foram lemas desse período e foi bom, muito bom mesmo, mas perdeu um pouco de sua força com o passar do tempo. Uma proposta a recuperar e aprofundar em 2025.

    Sigo então para o próximo ano com a consciência de que é chegado o momento de arear minhas panelas. Despregar lá do fundo aquilo que algum dia teve sabor, consistência, colorido, mas deixou resíduos cinzentos que só servem para tirar seu brilho.  Adotar um novo cardápio, sentir o frescor, a
    leveza, a delicadeza de uma Nouvelle Cuisine.

    É hora de lustrar o caldeirão para receber as cozeduras que a vida me reserva.


  • Listas do existir

    O momento é propício à elaboração de listas de desejos e promessas para 2025.

    É tempo de mergulhar nas mais diversas ilusões de si mesmo; de vibrar intensamente com a motivação sazonal para trocar de pele, personalidade e modus operandi.

    Essa é a magia de dezembro: fazer com que cada um acredite em sua meteórica transmutação.

    A mensagem subliminar é poderosa: Seremos, em breve, o que jamais fomos até aqui, mas seremos! Acredite, no pipocar dos fogos de Réveillon, nascerá, a termo, aquele sujeito disciplinado, fitness, organizado, estudioso, persistente e focado que vive soterrado em você nos outros onze meses.

    Os descrentes, por favor, não se pronunciem. Não atrapalhem o parto.

    Os de fé repliquem o mantra: Eu vou mudar, fazer, ser, conseguir, alcançar meus objetivos a partir de 1 de janeiro.

    Não importa que essa seja a promessa fracassada dos últimos trinta anos. Viver é um eterno recomeçar.

    Para garantir sucesso nessa empreitada de renascimento, acelere as contrações com esperança, ânimo e coragem.

    Enquanto aguarda a hora do novo eu vir ao mundo, sugiro rascunhar uma carta de agradecimento e perdão para essa criatura que em 2024 fez o que era possível para dar conta das infinitas demandas de sucesso, performance, resultados e excelência.

    Ainda bem que temos a chance de zerar o jogo e começar nova partida.


  • Antes que seja tarde

    A chuva caí forte no solstício de verão. É de tarde. O barulho da água lá fora, junto com os trovões, atiça minha preguiça. Uma luz suave entra pela janela coada pelas gotas grossas do temporal, o primeiro do verão conforme indica o calendário.

    Em 10 dias mais um ano terminará. Penso em quantas pessoas eu não dirigi uma única palavra em quase 365 dias. Muitas mesmo. Com pouco mais de uma semana não será possível compensar essa desatenção da vida moderna.

    Ou seria minha mesmo? Ficar sozinho me agrada porque consigo conviver bem comigo mesmo. Conheço gente que acha que esse é um momento de reflexão. Papo furado.

    Quando estou sozinho não faço nenhum esforço intelectual. Seja sem ninguém em casa, seja envolvido pelo silêncio doméstico enquanto as melhores partes de mim mesmo dormem tranquilas. Silêncio é silêncio.

    Aos meus ouvidos chegam os sons dos passarinhos, o ronco baixo da cidade que não para nunca, só diminui de ritmo; e as teclas tocadas que transformam o que penso nisso que você lê.

    Mas não sou tão eremita como dou a entender. Gosto da companhia das pessoas, eventualmente. Me animo a ir ao encontro de quem conheço e até de desconhecidos, em lugares onde sou um anônimo que, pretensão minha, poderá despertar a curiosidade alheia. Nem que seja de um olhar ligeiro. E sigo.

    Oscilo sempre entre o silêncio confortador e o palavreado animado das conversas leves. A escolha não sei como faço, só sei que faço.

    E com 10 dias ou menos para terminar o ano não têm como falar com todo mundo a quem deveria ter ao menos dirigido uma palavrinha afetuosa.

    Mas sou bem relacionado e conto com essas boas relações para me fazer presente. Me refiro aos pássaros e não as pessoas.

    Dobrarei pequenos cumprimentos, palavras gentis e sorrisos afetuosos e os colocarei nas asas dos passarinhos que visitam minha janela. Rogarei para que eles vão até as pessoas com quem estou em falta para despejar sobre elas meus cumprimentos. Atrasados, mas sinceros.

    Chegarão em tempos distintos porque as distâncias e os temporais atrasarão as entregas.

    Mas chegarão. Antes que seja tarde e com a promessa que em 2025 não deixarei de falar com ninguém. Ou tentarei com mais afinco.


  • Glossário do “fica”

    A minha geração não conheceu esse tal de “ficar”. Isso não quer dizer que fôssemos mais bem comportados ou que, nos namoros e nos noivados, sempre honrássemos os compromissos. Havia as deserções, os desvarios, o imediatismo do desfrute físico. Só que essas atitudes eram a exceção e, como tal, não recebiam uma designação específica.

    “Ficar”, entre os da minha geração, era ficar mesmo – sem meios-termos nem ironias. Quem ficava com alguém escolhia-o como parceiro não apenas de uma noite, mas de anos, décadas, às vezes de toda a vida. O contrário de ficar era sair, deixar, partir para outra. Hoje, quem fica não está nem aí.

    Naquele tempo, ai do marmanjo se a garota soubesse que ele a queria apenas para uns instantes de prazer físico. Para uns amassos, como se diz hoje. Ele seria convidado a dar o fora, e nem sempre de forma gentil. As meninas tinham um nome a zelar e queriam estabilidade nas relações. Abraços e sobretudo beijos, que hoje são uma espécie de couvert do relacionamento, eram um prêmio à persistência e à fidelidade. Só os obtinha o conquistador perseverante e que acenasse com a promessa de vínculos futuros. É isso mesmo, leitor: naqueles tempos severos o sexo não vinha de graça. Era um trunfo, um troféu, um instrumento de barganha muito bem manipulado.

    Há algum tempo, pedi que meus alunos fizessem uma redação sobre “o fica” (assim ele é chamado), que alguns já consideram a nova forma de relacionamento entre os jovens. Queria saber a opinião deles. Para minha surpresa, muitos criticaram esse tipo de relação. As garotas, sobretudo, demonstraram certo desconforto com a natureza efêmera e pouco afetiva do “ficar”. Desejam algo mais sentimental e persistente.

    Mas o objetivo aqui não é comentar o ponto de vista deles. Como para entender qualquer segmento social, ou cultural, é preciso primeiro observar sua linguagem, resolvi a partir das redações compor uma espécie de glossário do “fica”. Achei que isso podia interessar ao leitor. Para mim, que sou de outro tempo e de outro mundo, é tudo novidade. Confiram:

    Balada: agito, festa onde se pratica ou não o fica.

    Fica (s.): o mesmo que ficar.

    Ficante: aquele ou aquela que fica.

    Galinha: rapaz ou garota que fica com muitos parceiros de uma vez (geralmente numa mesma noite).

    Garanhão: rapaz que fica com muitas garotas de uma vez (idem).

    Menino estribado: garoto rico ou famoso com quem se fica.

    Nega: garota com quem se fica; breve namorada que se arranja no fica.

    Queimação: censura, crítica. Aplica-se a quem fica em festa de família.

    Resenha: assédio a uma pessoa (geralmente uma garota) difícil.

    Rolo: fase entre o fica e o namoro. É sinal de que o relacionamento está ficando sério.

    Rodada ou queimada (adj.): garota que já ficou muito ou praticou o fica em local ou ocasião inadequada.  


  • Escolher é renunciar!

    Na ausência de um momento saudável regado à saúde, família, amigos e um lar, desenhamos uma história com muitos instantes dentro de um vazio criado para ser preenchido a partir das possibilidades mais secas. Alguns questionam lutar para que? Para tudo, pela vida ainda presente. 

    Não é o suficiente sofrer? Releve, aproveite os dias que passam, abrace esse dom que ganhou, essa coisa linda que nos deram. Mas o fato de não lutar eventualmente, se abandonar e desapegar da escolha pela busca é escolher a morte, essa que dança com o nada e simplesmente é o sinônimo de desfecho do que foi respirado e sentido em toda plenitude. 

    A vida é tão única quanto a morte, e o poder vindo do universo para trazer uma criatura à existência se entende como um ato de exclusividade temporal nas coisas mundanas, por isso é necessária muita coragem para ter o direito a esse ato envolto a mistérios e segredos que compartilhamos por diversas existências.

    Somos um pouco de cada emoção que traça lentamente um destino desenhado por pincéis delicados. A raiva que sentimos após um evento catastrófico é uma reação comum e direcionada a você ou alguém, a sua fé, amigos e até familiares. 

    O medo que espreita nossas esquinas é do futuro, e de não darmos conta do novo necessário que deverá ser transpassado aos trancos.

    Nessa jornada encontre aquela pessoa que se comporta como a raiz de uma árvore, essa é a mais importante, porque ela não faz coisas para serem vistas. O desejo dela é te apoiar e ajudar viver.

    Esqueça as pessoas folhas, quase de papel, porque elas surgem somente por uma estação, assim que esfriar ou bater um vento elas se vão. 

    As pessoas galho são fortes e mais robustas, mas você necessita testá-las antes de pôr um peso. Elas podem ficar com você por alguns verões, mas quando as coisas apertarem ela quebra e te abandona.

    Por isso a escolha certa é o resultado que você deve gostar de estar inserido, confortável e com desejo de quero mais. Por vezes escolher é renunciar aquilo que te alimenta agora, e partir para uma sucessão de novas esquinas apresentadas pouco depois que sua resiliência entrega às novas cartas.

    É importante manter o respeito às suas próprias decisões porque elas são as bases para a manutenção de sua felicidade e paz de espírito. Não se julgue em demasia, falar mal de seu espelho é como falar mal do adversário durante a campanha, fica ruim pra você, por isso, não se maltrate, aquele rosto é do seu partido.


  • Feliz Natal

    Ouvia logo cedo a música Why is it so hard, do Charles Bradley, enquanto bebericava uma cachaça Ambirá, trazida de Minas no verão passado. Acho que combinam, a música e a cachaça, fortes e encorpadas, uma canção não pasteurizada e uma pinga de alambique. Sim, sou dos que bebem pela manhã, sobretudo nas férias.

    Findava a primeira dose quando percebi estarmos em pleno 25 de dezembro. Uma data especial, sem dúvidas. Um dia para rezar, celebrar, agradecer, refletir. O natal é sempre tempo de rever conceitos, de perdoar, de amar o próximo. E, claro, de encaminhar um generoso feliz natal a todos.

    Começo, então, servindo uma segunda dose e desejando um feliz natal ao vizinho que ouve músicas pornográficas num volume absurdo em boa parte do fim de semana. Almejo, naturalmente, só o melhor para ele e para as caixas de som do seu Gol rebaixado. Feliz natal e boas noites de sono, vizinho!

    Noutro gole mando um feliz natal ao prefeito, ao vice e aos vereadores. Embora a opinião pública discorde, acho justo o aumento de 70% nos seus honorários, bem como os adicionais e férias. Nem todos demonstram essa coragem e discernimento, afinal, bons profissionais merecem salários compatíveis com a sua importância perante a sociedade e, além do mais, ainda há muito trabalho pela frente (todo, na verdade, pois recém foram diplomados e nem assumiram os tão almejados cargos). Queria eu ter a
    mesma sorte. Na adolescência, quando disse ao dono da serralheria que gostaria de ganhar duas vezes o que me oferecera, fui dispensado aos risos. Seria o meu primeiro emprego, veja só. Para os estimados políticos, entretanto, um ótimo, feliz e farto natal!

    Não posso esquecer do indivíduo que riscou o muro da minha casa na semana passada, desenhando nele um proeminente objeto fálico. Espero que descubra uma vocação artística e que esta data o faça refletir sobre onde enfiar os seus sprays. Gostaria de conhecê-lo, inclusive, pois se trata de um talento que merece ser enaltecido. Um feliz e protuberante natal!

    Feliz natal ao banco que jura meus débitos à velocidade da luz. Ainda aguardo o momento para debatermos o assunto, mas torço para que o 25 de dezembro o deixe amolecido, sobretudo quando negociar com esse pobre moribundo. Um rico e feliz natal! O Charles Bradley agora dá lugar à Janis Joplin, com Little girl blue. A trilha sonora perfeita para um trago.

    Nessa data importante, jamais deixaria de endereçar um feliz natal à Ford, que em irrelevantes tempos produziu um câmbio automático chamado Powershift e, naturalmente sem querer, causou-me um prejuízo de quase trinta mil reais. O importante é que essa mágoa já passou, ou melhor, está passando (depende também da colaboração do banco, mas isso é outra história). Torço por um natal renovador e cheio de esperanças para os engenheiros da marca. Um eficiente e feliz natal!

    Num último gole lembro dos Correios. Tenho certeza que os pequenos extravios ocorrem por motivos alheios à sua vontade. Devo dizer que hoje já não me importo com aquele livro raro perdido nalguma insipiente viagem dos seus caminhões Brasil afora. Talvez devesse pedir desculpas aos atendentes a quem ameacei. Quem sabe amanhã lhes envie um chocotone em sinal de paz. A estrada é mesmo sinuosa. Pois bem, apesar dos infortúnios, espero que desfrutem de um retilíneo e feliz natal!

    Antes de servir uma derradeira (ou não) terceira dose, desejo também um ótimo natal a você, amigo leitor! Anseio por dias melhores e realizações no próximo ano, com bebidas fortes e boa música, com harmonia e fraternidade. Que esta data o aproxime de Deus e que o bom velhinho não esqueça do seu presente. De minha parte, não se preocupe, rezarei por você. Feliz natal!


  • VIDA ESPECULATIVA

    .

    5,968
    6,009
    6,035
    6,094
    6,096
    6,267

    X- Gabriel Galipolo- MOEDA DOS BRICS
    Perfis do mercado… MUITA ESPECULAÇÃO
    Perfis localizados à direita de FORMA EXTREMA… MUITA ESPECULAÇÃO
    MUITA/MUITA/ MUITA.

    ES-PE-CU-LA-ÇÃO
    PÃ-NI-CO GE-NE-RA-LI-ZA- DO
    7,5?
    8,0?
    8.5?
    9!?
    ?????????????????
    ONDE A HUMANIDADE SE PERDEU? OU ESTAMOS PERDENDO A HUMANIDADE?


  • Robérvios

    À noite todos os gatos são pardos, e Robérvios estava certo de que Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Afinal, Saco vazio não para em pé.

    Sempre ouvira falar que Deus escreve certo por linhas tortas e que Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Mas Quem não chora não mama e Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato e, no seu caso, precisava urgente recuperar o ouro perdido.

    Pensou: Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. Essa é, portanto, minha chance, e O diabo não parece tão feio quanto se pinta. Está na hora da onça beber água.

    Foi até Onde Judas perdeu as botas, pois Todos os caminhos levam a Roma. Desceu a ladeira devagar, já que Para baixo todo santo ajuda e Devagar se chega ao longe, tendo em mente que A pressa é a inimiga da perfeição e ninguém precisava Tirar o pai da forca.

    Ia só, pois apesar de que Uma andorinha sozinha não fazer verão, nesse caso Antes só do que mal acompanhado; Não punha a mão no fogo por ninguém.

    A ocasião faz o ladrão. Lá vinha uma figura com uma capa Cor de burro quando foge. Onde há fumaça há fogo, pensou. Lembrou-se de que As aparências enganam e Não se pode julgar um livro pela capa. Em seu delírio achou que ali deveria estar escondido um pote de ouro, pois De médico e de louco todo mundo tem um pouco. Exultante, preparou o bote. Caiu na rede, é peixe.

    Preparou-se para a emboscada. Infelizmente, porém, Quando a esmola é demais o santo desconfia, e Nem tudo que reluz é ouro. Comprou gato por lebre mas agora Não adianta chorar pelo leite derramado. Como Seguro morreu de velho, pensou com seus botões: Mais vale um pássaro na mão do que dois voando e, afinal, De grão em grão, a galinha enche o papo. Além do que, A cavalo dado não se olha os dentes.

    Seguiu em frente. Mas… Quem é vivo sempre aparece e o Castigo anda a cavalo. A viatura de polícia surgiu do nada e Robérvios Foi pego com a boca na botija. O barato saiu caro pois Quem semeia vento, colhe tempestade, Escreveu não leu, o pau comeu. Sabia que iria Ver o sol nascer quadrado.

    Desgraça pouca é bobagem. O que fazer agora? Quando interpelado, nosso ladrão de provérbios Deu uma de João-sem-braço, fingiu que não era com ele. O policial esbravejou, ordenou que parasse, quis saber o que fazia ali. Sabiamente Robérvios se lembrou de que Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Deixou que ele gritasse pois Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha… e se calou. Em boca fechada não entra mosquito. O policial continuou sua ronda.

    Salvo pelo gongo.


  • Nem tudo está nos cartões postais

    Quando o assunto é viagem a propaganda e as fotos quase sempre são melhores que a realidade, mas mesmo sabendo disso às vezes entramos em furadas. Uma observação óbvia que vale tanto para escolher um hotel quanto para iniciar um relacionamento à distância (risos).

    Arrisquei uma viagem de ferry com um carro de matrícula inglesa para ir à então belicosa Irlanda do Norte visitar a famosa ‘Calçada dos Gigantes’ (Giant´s Causeway), uma formação geológica à qual o guia Michelin, meu guia de viagens predileto desde sempre, atribuía a cotação máxima de três estrelas. É a maior atração turística do país e nas fotos parecia monumental. Se você é geólogo vai ficar encantado, para mim foi apenas um chão de pedras curiosas e bastante escorregadias, que se alcança depois de uma boa caminhada ou pegando um ônibus que sai do centro de visitantes. Para quem tiver disposição há formações mais afastadas que talvez valham a pena, mas o frio e o risco de cair me desanimaram. Dois dias de viagem quase perdidos.

    Gosto de conhecer a cultura e a natureza de outros lugares, porém evito gastar o meu rico e controlado dinheirinho para ver algo parecido ao que já tenho por perto. Infelizmente é inevitável que isso aconteça de vez em quando, por confiar na indicação de um guia de viagens ou participar de um passeio organizado primordialmente para estrangeiros. Em Portugal fiz uma trilha longa e exaustiva no Parque do Buçaco, que é lindo, mas parecidíssimo com a Floresta da Tijuca aqui no Rio. O dia teria sido bem melhor aproveitado visitando outra coisa. Faço turismo para conhecer o diferente.

    Na Tanzânia, debaixo de chuva e com pés afundando na lama, vimos uma floresta que era muito parecida com as brasileiras. Claro que havia algumas espécies de plantas diferentes, mas não compensava o sacrifício. O ponto alto da visita foi avistar um macaco no alto de uma árvore. Os gringos só não gritaram de alegria porque isso espantaria o animal. Um mico como tantos que afligem os cariocas que moram perto de áreas de mata quando invadem as casas para roubar comida. Em um estacionamento que costumo usar em Botafogo há montes deles caminhando pela fiação elétrica.

    Como parte do turismo gosto de experimentar a comida local, o que já me rendeu algumas formidáveis dores de barriga (para não usar palavras mais deselegantes). Sair do Brasil e ficar suspirando por arroz, feijão e bife só se justifica se a pessoa tem restrições alimentares, é exilada ou está longe há muito tempo. Também aí a gente se desilude: a comida chinesa que me serviram, considerada uma das mais sofisticadas do mundo, era apenas razoável. Por sorte, existe o reverso da moeda: a culinária húngara, da qual mal se ouve falar por aqui, mostrou-se excepcional.

    Sim, porque se há decepções, igualmente existem boas surpresas em viagens. Uma delas foi Muscat, capital de Omã. Temos a tendência de pôr no mesmo saco países que são próximos geograficamente. O mundo árabe, pouco conhecido dos brasileiros, não é um bloco compacto. Quando perguntarem a você se aqui se fala espanhol ou se a nossa capital é Buenos Aires, lembre-se disso e perdoe.

    Na Arábia Saudita, que está na minha lista de desejos, conheci somente a cidade de Damman, um importante porto comercial sem nenhum interesse turístico. No entanto foi o ponto de partida para visitar o Ithra Center, um espetacular centro cultural construído no meio do nada, maravilhoso pela arquitetura e pelo conteúdo. Você encontra fotos do Ithra na internet, mas garanto que não fazem jus à realidade. Um dos raros caso em que o cartão postal fica devendo.


  • Então é natal! 

    ♫ Então é natal!
    E o vendedor na esquina oferece milhares de produtos aos que passam. E vende-se isso e aquilo! E vende-se com muito brilho!

    ♫ Então é natal!
    E as filas dobram, triplicam, numa algazarra somente vista nesta época. Ninguém tem paciência para nada!

    ♫ Então é natal!
    E as vitrines anunciam roupas e calçados e eletrônicos dos mais variados tipos e tamanhos. Muitos e tantos produtos que não é possível imaginar!

    ♫ Então é natal!
    E a promoção de 50% na sandália é de enlouquecer! A promoção que só vale nesse único dia!

    ♫ Então é natal!
    E o trânsito dá um nó no nó! Ninguém vai! Ninguém vem!

    ♫ Então é natal!
    E o supermercado fica aberto 24 horas! O que importa é o trabalho!

    ♫ Então é natal!
    E as pessoas correm e correm e se estapeiam. Eu vi primeiro! Sai da frente! Só tem esse! É o último! Eu quero! É meu! Reserva pra mim! 

    ♫ Então é natal!
    E a mesa é farta e grande e bonita! Canções natalinas ecoam. Árvores de natal e sinos e bonecos de neve e papai Noel enfeitam portas e janelas… Bebidas e conversas, bastante gritaria!

    Numa manjedoura, alheio ao burburinho da cidade, nasce um menino, um menino Deus. Nasce num lugar pobre e distante, sem cartazes, sem ceia, sem outdoors e sem vendedores. 

    Então nasce a esperança de que um dia entendamos a simplicidade…

    ♫ Então é natal!


  • Retrospectiva 2025

    Sandra saiu do Pilates, numa segunda-feira qualquer, em direção à parada de ônibus. Na cabeça, a lista de coisas para fazer: acupuntura, mercado, roupa para lavar, para passar, almoço, banco. Quinze minutos esperando a condução e nada. Repassava pela vigésima vez a lista de afazeres quando sentiu um aperto no pescoço, uma ponta de faca na orelha e uma voz de mulher gritando coisas que ela não conseguia entender. Alguns segundos foram suficientes para constatar que havia sido escolhida como refém por uma doida qualquer. 

    Eu, assistindo pela tevê, me indaguei: o que se pensa numa hora dessas? Com certeza deve ser aquela famosa retrospectiva do adeus. Já tinha lido algo sobre isso: na hora da morte, a vida passa em quadrinhos… um arrepio de horror me abraçou. Coitada dessa moça. Imagino o desespero. 

    Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, naquele momento, Sandra estava às voltas com uma dúvida insistente: “faltando à acupuntura sem avisar, perderia a vaga no programa de assistência? Ainda daria tempo de bater a roupa na máquina e passar as que ficaram em cima da cama? Dependendo do quanto a maluca se demorasse naquela baboseira, iria direto ao banco. Ah, não…meu ônibus está vindo. Tanta coisa para fazer e eu parada aqui.”

    Ao ouvir esse curioso relato, de primeira, achei tratar-se de uma saída cômica diante do trauma, como acontece com algumas pessoas que têm crise de riso em velório. Depois pensei que pudesse se tratar de uma resposta irônica. Lembro de rir da situação. Mas, aos poucos, fui percebendo a terrível mensagem embutida nessa cena: a vida que se tem para viver é muito menos importante do que as obrigações de produtividade que temos que cumprir. Morrer esfaqueada não é o problema, o inadmissível é perder o ônibus, não colocar a roupa na máquina e pegar a agência bancária fechada. Nunca me dei conta do risco que nos espreita no automático da existência, embora Belchior já alertasse em sua canção:

    “Mas se depois de cantar
    Você ainda quiser me atirar
    Mate-me logo à tarde, às três
    Que à noite tenho um compromisso e não posso faltar
    Por causa de vocês”

    Eu, de minha parte, diante dessa lição televisionada de desprendimento de si ou da raridade da vida e, de certa forma, confrontada com a nossa similaridade para lidar com a servidão, me belisquei e me perguntei: tenho vivido?

    Nem esperei a resposta. Corri para minha listinha de promessas 2025 e acrescentei no topo da página: nada será mais importante do que estar vivo em minha vida, atenta às delicadezas, gentilezas, sutilezas e desejos. Reli as prioridades e adivinha? Nutricionista, cortina pro quarto, revisão do carro. Risquei tudo e anotei em letras garrafais:

    1. Ver a aurora boreal
    2. Finlândia

    Com que dinheiro? Não sei. Mas missão dada, missão cumprida!


  • O desafio de manter o foco

    Hoje se fala muito em manter o foco. São incontáveis os livros sobre o tema, que a meu ver implica basicamente dois tipos de atitude: ter em mente um objetivo e persistir até alcançá-lo. Muitos não sabem o que querem e se esforçam em vão. Outros até miram com clareza o alvo, mas não têm constância para chegar até ele.

    O problema não atinge apenas pessoas comuns ou de mediana inteligência. Acomete também os gênios. Um caso famoso é o de Leonardo da Vinci, que costumava deixar os trabalhos pela metade (embora, segundo seus biógrafos, o motivo para isso fosse nobre: a sua imensa curiosidade por tudo). Outro caso é o de Jean-Paul Sartre; em texto que li há algum tempo, Wilson Martins criticava no filósofo existencialista, entre outras interrupções, o fato de não ter dado prosseguimento a “O ser e o nada”. Ele teria morrido devendo isso à humanidade.

    Quem não completa o que começou fica sobretudo em débito consigo mesmo. E, pelo número de publicações que o problema vem suscitando, são muitas hoje as pessoas nessa situação. A cada manhã começam algo novo, mas o impulso para sequenciá-lo só vai até a noite. No dia seguinte, ao acordar, parecem ter perdido o fio que as conectava ao antigo propósito e têm que recomeçar do zero.

    Não que esse pessoal queira se “reinventar” a cada dia. Esse verbo possui uma conotação positiva e se refere à capacidade, que poucos têm, de estar sempre renovando seus projetos. O recomeço a que me refiro consiste em reconectar os fios de uma deliberação que, por uma misteriosa química, a noite dispersou.

    Isso não é nada fácil, pois depende de uma aliança entre vontade e predisposição inata. Ou seja, a genética interfere. Sabe-se que, se não comanda tudo, ela tem um peso que pode amargamente contrabalançar o empenho com que o indivíduo procura reencontrar o seu rumo.

    A atenção que hoje se dá ao foco mostra que a dificuldade de estabelecer uma diretriz (intelectual ou existencial) está em boa medida ligada aos estímulos da vida moderna. Atualmente são muitos os apelos para seguir diferentes tendências de comportamento, grande parte deles potencializada pela instantaneidade da internet. Como se situar nessa avalanche de ideias que requisitam nossa atenção ao mesmo tempo que a despedaçam?

    Os inúmeros apelos à dispersão fazem com que o desafio de manter o foco seja sobretudo interior. Mais do que ficar atento ao que se passa no mundo, o indivíduo deve voltar a atenção para si mesmo. Deve escolher em função de “quem é”, e não “ser” em função do que escolhe. Pois muitas vezes as escolhas, ao contrário do que diz o mestre do existencialismo citado linhas atrás, são determinadas por ilusões que a sociedade inculca no indivíduo para adequá-lo ao seu funcionamento.

    Em tempo: o propósito desta crônica é um tanto terapêutico, pois também tenho dificuldade de manter o foco. Sei que, se me concentrasse suficientemente nas tarefas, produziria mais e talvez melhor. Já tentei menosprezar o problema fazendo uma frase: “Os gurus da autoajuda dizem que é preciso ter foco. Isso para mim não é problema; tenho vários.” Em seu humorístico nonsense, a frase pode ter ficado interessante – mas não afastou o abatimento que vez por outra a falta de constância nas metas provoca em mim.


  • Tricô com gente!

    Por vezes os meios digitais nos mostram vídeos que valem um comentário e inclusive ser assistido até o final. Do ponto de vista de quem assiste pode chamar atenção aquele momento que observamos atentos o ator ou atriz que se dispôs a passar uma mensagem útil para nossas mentes carentes de espaço, para conversar ou tricotar sobre nossas vidas calejadas de angústia e solidão. Um jovem ao sentar no banco do metrô aproveita esse momento para não ler mensagens no celular, ou buscar distração com jogos online, ou assistir a vídeos que gastam seu tempo, aquele mesmo de sua própria vida que não retorna. Ele decide retirar de sua sacola, duas agulhas para fazer tricô, puxa uma linha e continua a tricotar uma touca que será utilizada nos dias frios de sua cidade. Ao seu lado outros olham surpresos, atentos ao ridículo de um ato fora do comum nesses dias, mas em poucos minutos outra pessoa puxa suas agulhas da bolsa e se encoraja a fazer o mesmo, e passam a conversar sobre suas vidas sem compromisso algum, na companhia desse tricô com gente, que se aproveita do artesanato para crescer por dentro e trocar espaços de vida útil, e não só o fútil passar de diversos minutos com o olhar nas redes antissociais em seu celular.

    O tricô retira você do hábito virtual e convoca sua atenção para travar uma relação com o humano ao lado, utilizando o fio de lã como desculpa para a troca de diálogo sobre sua vida, seus hábitos, sonhos e desejos. Te faz sair do óbvio e do isolamento digital, e lhe provoca tomar outro rumo mais saudável dizendo não a mesmice da vida presa a correnteza que destrói suas relações. Em Amsterdã alguns bares estão revivendo os anos 90, onde as pessoas conversam entre si, leem escrevem e fazem tricô sobre a mesa, na intensão de se preencherem com sentimento humano ao invés de digital.


  • Por trás do muro azul

    Todos os dias ela saia às 16 horas em ponto. Seu destino era certo, mas ninguém sabia suas motivações. Nem mesmo seu marido, que nunca desconfiou dessas saídas no meio da tarde de Ana Maria. Ela nunca lhe deu motivo para desconfiança, mesmo sendo ainda muito bonita e com corpo esbelto. Devota, mulher prendada e dedicada a ele, Rogério saia tranquilo todos os dias para o trabalho sem nunca imaginar o que acontecia no íntimo de sua quase santa esposa.

    Ana se olhava no espelho de novo, querendo enxergar através dos seus olhos azuis que pareciam estar ficando cinza. Será que ela estava perdendo o brilho? A vida não tinha sido fácil, afinal. Nada a reclamar, pois tinha um bom marido, um belo lar… Ou melhor, uma bela casa. Um lar, para ela, era um lugar repleto de alegria e barulho. E filhos. Coisa que Deus não a permitiu ter. Teria sido mesmo Deus?

    Depois de três abortos eles finalmente desistiram. Seu corpo não aguentava mais, sua alma se dilacerava a cada perda e seus olhos perdiam aquela luz que se acendia a cada resultado positivo. Seu imaginário dançava novamente pensando em nomes, comprando roupinhas, pintando paredes do quarto, mobiliando sonhos. Tinha algo errado com seu útero, alguma doença com nome estranho e nada ficava por ali. Ela sorria por três meses, no máximo. Ficava de repouso, fazia promessas, evitava até beijar o marido para não ter vontades e colocar tudo a perder. Mas nada adiantava. Ela não tinha sido feita para ser mãe.

    Depois da dor quase enterrada, Rogério veio com a ideia de adotar. Tanta gente adota, afinal. Mas não seria a mesma coisa. Ana queria sentir a barriga crescer, seu filho ou filha mexer dentro dela, ter todo um processo de espera, de escolhas, do amor que cresce e transborda junto com a barriga e o leite que escorre quente pelos seios. Por que justo ela não poderia passar por todas as dores e delícias de parir? Será que era seca, como dizia a sua avó? Gente seca normalmente é ruim, pensou ela. Será que sou tão ruim assim?

    Esse pensamento a despertou para a hora. Não poderia chegar atrasada, por favor! Ela precisava estar presente ao seu compromisso, presente e inteira. Tentou se distrair pela rua, pensando em coisas boas. Mas estava especialmente melancólica naquele dia. Vendo flores e enxergando apenas flores, não o perfume, as cores e até os pássaros que cantam ao seu redor como percebem os apaixonados. Era como se previsse algo, com o coração apertado e o pensamento longe. Quase foi atropelada por uma bicicleta, tamanha a sua distração. Ouviu resignada o rapaz raivoso a mandar para lugares inomináveis e seguiu seu caminho. Tinha certeza que no próximo quarteirão se sentiria melhor. Seu compromisso ficava por trás de um grande muro azul e, lá, tudo era perfeição.

    Rogério chegou em casa como de costume às 19 horas e um cheiro bom de feijão vinha da cozinha. Ana Maria estava de costas e ele vislumbrou o corpo da esposa, um típico violão. Belas ancas, cintura ainda finas, os ombros delicados e penugens louras descendo pelo pescoço. Ela prendia os longos cabelos ao cozinhar e sua nuca, nua, ainda arrepiava Rogério como no começo do namoro. Ele a enlaçou pela cintura e lhe deu uma mordida leve no pescoço. Ana se assustou, mas deixou o corpo solto nas mãos do marido. Que susto, querido!

    Voltando seu rosto para ele, o beijo foi inevitável e parecia que o feijão ia queimar também. Há tempos eles não se amavam e a fome se transformou em ação. Talvez já fosse hora de esquecer um pouco as amarguras e deixar a vida mais leve. O corpo de Ana pedia esse carinho, mas as lembranças a impediam de gozar. O sexo era quase sempre um martírio, pois ela nutria esperanças vãs e o fato de não mais poder engravidar tornava tudo estranho ao seu olhar. Não se sentia mãe, mulher, nada. Não se achava nada mais.

    Rogério fechou os olhos e colocou a mão por debaixo da saia de Ana. Com movimentos doces, levou sua mulher a um gozo que ela há muito não sentia. Ficou quase constrangida com o líquido que escorria pela sua perna e tentou se segurar. Mas precisava de mais e trouxe Rogério para dentro de si. No chão da cozinha, como uma adolescente. Ele se espantou com tamanha impetuosidade e foi ainda mais doce, demorando a gozar e fazendo Ana se desmanchar agarrando seus seios com força enquanto jorrava entre suas pernas. Exaustos e satisfeitos, gargalharam com toda a situação: nus, no chão, mal conseguiam se levantar sem o apoio do fogão. Não temos mais idade para isso! Riu Rogério.

    Recomposta, Ana colocou a mesa e começaram a conversar sobre o dia. Ele, todo satisfeito com o trabalho, novos colegas chegando da filial de Salvador e Ana notou uma entonação diferente quando ele comentou sobre uma tal Larissa. Moça nova, trabalhadora e esforçada, dizia ele. É bonita? Ela pensou, mas não perguntou. Bobagem, devo estar na TPM e inventando coisas. Queria contar também sobre o seu dia, mas se restringiu a falar como os preços subiram no supermercado. Daqui a pouco, vamos comer farinha com água, dramatizou. Pratos recolhidos, se aconchegaram no sofá para ver o jornal. Ele, conferindo números e fazendo conjecturas como se o apresentador lhe ouvisse. Ela, pensando em como a noite seria longa até seu compromisso de amanhã.

    No meio da tarde, Rogério liga com a voz histérica querendo respostas. Ana, minha filha, você não pode acreditar. Vamos nos mudar! Mudar como, homem? A filial de Salvador precisava de um bom gerente e nada melhor do que alguém com larga experiência como ele. Acostumada com sua vida em São Paulo, Ana Maria declinou. Não vou mesmo. O que tem pra fazer em Salvador? Rogério se segurou para não dizer: o mesmo que tu faz aqui, mas não queria ofender a esposa. Sabia de toda a sua dor e sempre preferiu que ela ficasse em casa cuidando de tudo. Não por machismo, mas como o dinheiro sobrava, dava para manter muito bem os dois. Quando Ana teve o último aborto, pensou até em sugerir que ela voltasse a ser professora, mas achou que ela talvez fosse ficar deprimida perto de crianças. Ela se fechou no seu mundo, ele teve medo de entrar e dois deixaram as coisas caminharem por si. Mas agora a vida ia mudar!

    Ana desligou o telefone e ficou pensando em como iria tirar essa ideia maluca da cabeça do marido. Que se dane a empresa, ele pode muito bem se recusar a um pedido deles! Não poderia estar tão longe do seu compromisso, da alegria por trás do muro azul. Não aguentaria mais uma perda, não mais. Ia se separar, pronto. Ele que fosse e deixasse ela lá. Tirou logo a ideia da cabeça. Amava Rogério, sem dúvida que amava. E imagina ele em Salvador, solto. Deus me livre! Pensou em esfriar a cabeça e foi tomar banho. Sentiu a água quente descendo pelo corpo. Lembrou-se da noite anterior, os dois no chão da cozinha e seu gozo escorrendo pelas pernas. Sorriu para si. Sim, amava Rogério. Resolveu relaxar e se masturbou. Sentiu cada pedaço do seu corpo como há muito tempo não sentia. Se sentiu bonita. Seu corpo continuava firme, com curvas delicadas, penugens louras nas coxas e se tocou com ardor. Fez amor com ela mesma.

    O muro azul continuava ali, mas ela achava que ele tinha ido embora. Para Salvador, junto com ela, dentro da mala. Chegou no local às lágrimas, como se fosse mudar no outro dia. Que desespero, meu Deus. O que vou fazer? Contar a Rogério? Ele não entenderia. Talvez risse de mim. Por mais encantador e compreensivo que ele fosse, era homem. E como todo homem, era prático. Sentimentos e apegos não eram com ele. Nada que ela falasse ou que precisasse seria suficiente para ele desistir da ideia de Salvador. Será que essa tal Larissa também vai estar lá? Será que é por isso que ele quer se mudar? Que louca eu sou, meu Deus. Pra que pensar tanto? Às vezes queria ter um botão de liga e desliga para simplesmente parar de pensar. Claro que não acreditava que seu marido era 100% fiel. E foi ensinada a entender isso. Homens têm necessidades que as mulheres não têm, aconselhava a sua mãe. Se ele te der uma casa, te sustentar e não te bater, já se de por satisfeita.

    Sua mãe apanhou a vida inteira e é claro que seus pré-requisitos para um homem ideal eram bem baixos. Quando Ana começou a namorar, o único conselho que recebeu da mãe foi para casar virgem. Homem não respeita mulher que já deu. Nem que goste de sexo. Putaria ele faz com as putas. Seja uma mulher direita e uma boa dona de casa. Lhe dê filhos e o resto você finge que não vê. Ana conseguiu se segurar até o casamento, por mais que quisesse muito se entregar para aquele homem que mexia nos seus seios dentro do carro e fazia suas coxas umedecerem. Aquilo era gozar? Toda vez que ela molhava o vestido sentia uma culpa imensa e ficava com medo dele perceber. Tinha vergonha de querer ele tanto e medo dele achar que ela gostava de sexo. Custou a se segurar e fez de tudo para apressar o casamento. Queria Rogério dentro dela, sobre ela, para sempre.

    Na noite de núpcias, Ana Maria se fez a mais bela das mulheres. Depois do casamento na igreja, com direito ao seu pai levá-la no altar com um orgulho besta por ela ainda ser virgem, se refastelaram na festa oferecida pelo seu padrinho, fazendeiro rico do sul de Minas. Sua mãe, mais aliviada do que exatamente feliz – Ana era a última das filhas a se casar, suas irmãs já estavam parindo netos sem parar – eles finalmente foram para o hotel. Ela preferiu assim, passar a noite na cidade antes de embarcar para Buenos Aires. Não se aguentava mais e ficou com medo de morrer virgem no avião. Deus me livre! Colocou a camisola preta que havia comprado escondida – preto e vermelho eram cores de puta – e mais nada. Teve a coragem de não colocar a calcinha que vinha junto e apenas perfumou seus seios e suas coxas para quando Rogério finalmente a tomasse para si. Não tinha mais vergonhas nem pudores. Queria apenas ser do seu homem.

    Rogério continuava imaginando a nova vida em Salvador com um sorriso besta no rosto. Quem sabe Ana não se animava, tomava uma cor e toda noite seria como a anterior? Tinha tempo que eles não faziam amor e Rogério estava quase desistindo da mulher. Pensou até em pagar uma puta, tamanha era sua aflição. Resistiu bravamente às investidas de Larissa, que há tempos debruçava sobre a sua mesa mostrando muito mais do que documentos. Acabou falando o nome dela por puro problema de consciência, como se fosse uma novata. Que Deus me perdoe, mas não queria magoar a esposa. Era o estilo pijamão com muito orgulho. Os amigos até tentavam apresentar mulheres para ele, levar para a caça, mas Rogério era fiel a Ana. Até em pensamento. Desde o primeiro dia que se viram. Ele nunca imaginou sentir aquele amor todo por alguém, mas quando deu de cara com Ana imaginou: Essa mulher vai ser a mãe dos meus filhos.

    Pena que nem tudo que ele pensou para os dois se concretizou. Rogério ficou casto até o casamento, por mais que quisesse dar suas escapadas. Você é muito trouxa, diziam os amigos. A Ana, tudo bem, se guardar para você. Mas tu, Rogério, que já pegou metade de Saquarema? Faça-me o favor! Trouxa! Mas Rogério não queria nem ao menos outro perfume. Dormia e acordava com o cheiro de jasmim de Ana no seu travesseiro e imaginava aquele corpo branco deitado na sua cama. Imaginava a boca de Ana se abrindo para ele, os cabelos deslizando nos seus lençóis e suas pernas longas com aquelas penugens louras se cruzando em suas costas. Como amar outra mulher se ela era tudo que ele um dia imaginou ter? Filha caçula de pai militar, Ana havia sido muito bem criada, frequentado ótimos colégios e tinha um caráter inabalável. Sua mãe sempre se gabava da filha, apesar de levantar suspeitas por várias marcas roxas pelo corpo. A mãe de Rogério dizia que ela bebia até cair, mas ninguém nunca viu nada e Ana continuava sendo o melhor partido da cidade. E foi gostar justamente dele. Que sorte maior ele poderia ter?

    O telefone tocou estridente despertando Rogério das lembranças. Deve ser Ana, mudando de ideia, tão boa ela é. Vai me pedir desculpas por ter pensado o contrário e vai acatar a minha decisão, como sempre. Mas era uma voz de homem, rouca, ameaçadora. Você sabe onde a sua mulher está agora? É melhor ficar de olho! Um frio absoluto passou pela espinha de Rogério. O que seria isso? Uma brincadeira de mau gosto? Mal teve tempo de retrucar e a voz do outro lado havia sumido. Estava tão perdido que nem ouviu o clique do desligar. Estava zonzo, como se houvesse tomado de uma vez só a dose da cachaça da fazenda do seu primo de Minas. Ela desce arranhando a garganta e abre o chão que a gente pisa. Se apoiou na mesa e tentou raciocinar. Que bobagem era aquela? Desconfiar de Ana? Nunca! Olhou para o telefone e pensou em ligar para casa. Claro que ela estava lá, pensando no que fazer para a janta daquela noite, talvez até mesmo pensando em colocar uma lingerie nova para ele, surpresa das surpresas! Mas não custava conferir. Pegou o telefone. Discou. Ridículo, Rogério, ridículo. Não vou ceder ao jogo desse cretino que me ligou, é isso que ele quer. Ridículo. Mas não resistiu. Discou tremendo os números e começou a ouvir angustiado o som do telefone. Chamando uma, duas, 10 vezes. Deve estar tomando banho, pensou. Ligou de novo. Mais uma eternidade. Só pode ter ido ao supermercado. Claro! Rogério já suava frio e começou a imaginar Ana na cama com outro, como em um filme de Luis Buñel. Catherine Deneuve, a bela da tarde, olhava para ele de rabo de olho e dava uma piscada, alisando a perna de penugem loura de Ana enquanto esperavam o próximo cliente. Louco, só posso estar ficando louco.

    Ana Maria saía finalmente pelo muro azul e foi apreciando, de verdade, a paisagem. Como uma apaixonada pela vida. Como quem voltar a respirar. Se sentia bem todas as vezes que saía de lá e o trajeto para casa sempre era mais colorido, mais perfumado, mais feliz. Abriu a porta de casa cantarolando alguma daquelas canções que grudam na cabeça da gente e deu de cara com um Rogério transtornado. O rosto vermelho, como um lobo furioso, começou a pedir explicações. Por onde ela andava, afinal? Pega de surpresa, Ana gaguejou e sentiu o primeiro tapa na cara. Com a força, caiu no chão e começou a chorar. Rogério, ainda mais transtornado e sem saber o porquê de ter batido com tanta força na mulher, não sabia se a ajudava a levantar ou se dava outro tapa. Perguntou de novo onde ela estava, mas Ana mal conseguia mexer o maxilar. Ele se aproximou, e sentindo o cheiro do perfume e o vermelho do batom da mulher, não titubeou. Deu outro tapa e saiu. Vagabunda!

    Ana ainda segurava o rosto quando percebeu que o marido havia saído e se levantou. Ela tinha sangue nos lábios, talvez tivesse mordido a boca durante a briga. Não reconheceu naquele monstro o marido que havia passado por tanta coisa com ela. Um homem bom, educado, quase casto, como sua mãe mesmo dizia. Rogério era de família rica, nunca precisou se esforçar muito para ter o que queria. Seu pai, médico paulista renomado, sempre fez gosto com o casamento, enquanto a mãe teimava em achar defeitos em Ana. Como não conseguia nada, começou a atacar sua mãe. Inventava que a Dona Vivi bebia até cair, por isso vivia roxa. Mal sabia ela que cada roxo era um soco que o pai de Ana desferia quando ela se recusava a algo. Ou simplesmente por existir. Militar reformado, comandante Reis era duro com as filhas e insuportável com a mulher. Queria tudo perfeito, da cama até os pratos na cozinha. A comida tinha hora marcada, tempero certo e a hora da refeição era sagrada. Não podia ter conversa, barulho, os cotovelos para fora da mesa e até o jeito de pegar no talher era inspecionado por ele. Todas as filhas o temiam e nenhuma se lembra do seu abraço. Dona Vivi se resignava pela vida, dando desculpas pelo roxos, ouvindo maledicências e descobrindo, aqui e ali, os casos do marido pelos puteiros de Carmo do Rio Claro. Ela e todas as esposas da época.

    Ainda zonza, Ana Maria resolveu se levantar e entender o que havia acontecido. Aonde ela estava, era isso que ele queria saber? Meu Deus, será que alguém havia descoberto? Mas, se sim, seria motivo para tanto ódio de Rogério? Ficou com medo do retorno dele e resolveu sair de casa, pelo menos até entender o que havia acontecido. Juntou algumas roupas, calcinhas e cremes, ligou para uma das poucas amigas que ainda tinha e se foi. Nem um bilhete deixou, ele realmente não merecia. Ou melhor, ia deixar o número da casa da amiga. Melhor. Melhor? Não, não ia deixar nada. Ligaria no outro dia para o escritório, isso sim. Bateu a porta e pegou um ônibus até a Vila Mariana. Assim que entrou no pequeno apartamento, deu de cara com o rosto boquiaberto da amiga. Ela havia esquecido o quanto deveria estar roxa, pois a sua pele branca havia sido alvo de dois fortes tapas. Meu Deus, é por isso que todos me olhavam no ônibus, pensou. Vamos agora mesmo para uma delegacia, ele não pode fazer isso com você! Não, não precisa. Ele estava fora de si. Ainda não sei o que aconteceu. Deve haver uma explicação. Para isso? Acredito que não!

    Depois de andar como um zumbi pelas ruas, Rogério tomou coragem de voltar para casa. Meu Deus, porque tinha batido em Ana? Nem ao menos perguntou nada, nem esperou ela se defender. Talvez se ela não tivesse chegado cantando, toda feliz como uma mulher no cio, ele tivesse conseguido pensar. Mas ela estava linda, cheirosa, satisfeita…Claro que estava me traindo, claro! E voltou sem compras, então nada de supermercado. Vagabunda, era o que ela era. Meu Deus, mas não era possível. Eles tinham se amado na noite anterior, era real aquilo. E Ana nunca gostou muito de sexo, não teria porque trair. Será que ela estava apaixonada por outro? Mas quem, meu Deus, quem? Agora que ela está acuada, vai ser difícil descobrir alguma coisa. Por isso que ela não queria ir para Salvador, claro. Que burro eu fui, achando que ela era apegada a cidade, as amigas…Tinha macho na parada, é claro! Burro, meu Deus, burro. E ainda sendo fiel, resistindo a Larissa, sem pegar nenhuma puta, respeitando uma vagabunda…Burro!!!

    A noite, Ana não conseguiu dormir. Ainda tinha muita dor no rosto, por mais que sua amiga tivesse lhe dado 2 analgésicos. A dor era muito mais profunda e ela estava tentando montar as peças de um quebra cabeças bizarro. Tinha certeza que alguém deveria ter feito fofoca com Rogério, inventado algo para lhe desmoralizar. Quem? E porque? Rogério deveria estar pensando que ele o estava traindo, mas nunca poderia ter tido aquela reação, meu Deus. Ela, que sempre foi uma esposa devota, nunca lhe deu motivo para desconfiar de nada. Como ele poderia ter pensado isso dela? Ia ligar, com certeza, para o escritório. Com calma, tentar entender tudo. Depois? Não sei. Estava muito confusa ainda. Será que ele sentia falta dela? Será que já tinha voltado para casa? Deve ter ido pegar mulher, claro. E ainda ia se justificar, inventando uma traição dela. Canalha. Bruto. Preciso dormir. Ainda não sei se vou ligar.

    Em casa, Rogério só encontrou o vazio. Nada de Ana, de jantar, de nada. No quarto, poucas roupas e o cheiro de jasmim na penteadeira. Levou o perfume para o outro, vagabunda. Nenhum bilhete dava conta do paradeiro de Ana e Rogério entrou em desespero. Poderia estar sendo estúpido o bastante perdendo sua mulher sem nenhum motivo? Mas, por que então, ela havia saído de casa? Deve ter montado casa com amante, claro! Meus Deus, estou ficando louco. Preciso encontrar minha mulher. E se tudo tiver sido um grande mal entendido, como ela poderá me perdoar? Eu bati na minha mulher, meu Deus. A noite ia ser longa e Rogério nem tinha certeza se gostaria que o dia chegasse.

    Mas o dia veio e com ele novas dores no rosto de Ana. Com as bochechas inchadas e o coração aos pulos, ela ainda não sabia ao certo o que fazer. Olhou no relógio. 07:15. Dormiu mais do que achou que conseguiria. Com certeza foram os analgésicos. Pensou em fazer o café para amiga, se vestir e ir de encontro a Rogério, ainda em casa. Mas teve medo. Não sabia se ele ainda estava com raiva e nem ao menos o porquê. Imaginou o marido no puteiro, chegando em casa com cheiro de álcool e perfume barato de mulher, como tantas vezes viu seu pai entrar em casa de manhã antes de alvejar sua mãe, que ainda se dava ao trabalho de fazer o café para o seu carrasco. Tentou apagar a imagem suja da cabeça e pegou o telefone. Vou ouvir a voz dele primeiro, para sentir o seu ânimo. Seria melhor assim.

    Do outro lado da cidade, Rogério, ainda de camisa e gravata, se revirava no sofá. Não teve coragem de dormir na cama que foi, durante tantos anos, o local de encontro com Ana. Do amor com ela. Das negativas e tentativas frustradas durante os meses após os abortos. Ele sempre respeitou a dor da mulher, ficava imaginando a sua tristeza, o seu sofrimento. Até parava de pensar em sexo. Burro! O telefone tocava ao fundo e ele levantou ainda cambaleante com a cabeça zonza de raiva e culpa. Quem poderia ser tão cedo? Será que aconteceu alguma coisa com ?Ana? Meu Deus, o que ele teria feito? Era ela. A voz calma, perguntou com ele estava. Falsa, vagabunda. Como poderia estar o novo corno da cidade? Ótimo, claro! Ana não riu e ignorou o sarcasmo do marido. Ele parecia mais calmo, mas talvez fosse ainda pelo efeito do sono. A voz estava embargada e é claro que ele passou a noite na gandaia. Filho da puta. De qualquer maneira, precisamos conversar. Conversar? Pra que? Acho que devemos explicações. Podemos almoçar como pessoas civilizadas. Cretina, quer me contar o caso e ainda levar meu dinheiro. Claro, vamos almoçar, mas já vou avisando: Já falei com meu advogado.Tanto faz. E Ana desligou.

    Rogério tomou um banho rápido e foi para o escritório. Não tinha cabeça para nada, mas notou um burburinho incomum quando chegou na empresa. Não sabe o que aconteceu? Larissa foi encontrada morta em casa. Estão desconfiando do ex marido. Ele era muito ciumento, parece que nunca aceitou o fim do casamento e jurou acabar com a vida de todo mundo que ela dava em cima. Rogério sentiu o mesmo frio que gelou a sua espinha no momento do tal telefonema. Seria a mesma voz? Lembrou do tal ex marido de Larissa, um homem alto, forte, com jeito de poucos amigos. De vez em quando ele dava um perdido na porta da empresa, esperava Larissa sair e a pegava pelo braço, tentando colocá-la no carro. Ela esperneava e as vezes apelava para Rogério, que saia em defesa da menina, dando um chega pra lá no armário em forma de gente. Invariavelmente o grandão cedia, mas nunca sem antes soltar, em tom ameaçador: Vai cuidar da sua mulher, senão eu cuido! A voz, era sim, a mesma do tal telefonema. Será que ele estava seguindo Ana? Meu Deus, que loucura! Será que ele desconfiava dos dois? Rogério correria perigo? Mais essa,agora. Já não bastava ser corno agora era alvo. Nem teve tempo de ficar consternado pela morte de Larissa. Era um problema a menos afinal.

    Na hora do almoço, Ana se dirigiu para a porta do escritório do marido. Marido, ainda? A cabeça estava confusa e não sabia se conseguiria perdoar Rogério. Será que suportaria seu toque novamente? Será que ele ainda a desejaria? Que idiota, meu Deus. Ela havia apanhado, ele era um escroto, porque se sentia culpada? Não tinha feito nada, nunca fez. Pensou, claro. Se sentiu atraída várias vezes por outros homens, mas nem se sentia mais tão pecadora assim, apesar de ter aprendido a pedir perdão até por pensamentos impuros durante a catequese com dona Ondina. Quase freira, Maria Ondina desistiu de entrar para o convento para ensinar crianças a amar e respeitar a Deus sobre todas as coisas. Será que ainda estaria viva? Meu Deus, precisava ir a Carmo do Rio Claro visitar as pessoas, sua família, sua mãe. Será que iria ao túmulo do seu pai? Vontade não tinha, acho que jamais havia rezado nem ao menos pela sua alma. Duvido que ele tivesse uma também.

    Com um cumprimento estranho, dois beijinhos desajeitado, eles se uniram por poucos segundos e foram caminhando até o restaurante mais próximo. A comida era só um pretexto, Ana queria mesmo era um local público para se sentir segura. Rogério estava aparentemente calmo, talvez até dopado. Será que ele bebeu cedo assim? Mas não, parecia um torpor infantil, como quando adormecemos após chorar por horas a fio. Como que acomodado, resignado com um fato. Pediram os pratos, ele pediu cerveja e ela, água Queria estar sóbria, lúcida pra falar e ouvir. Tomou coragem e começou com um por quê? Ele a olhou como quem tem vergonha de si e contou tudo que tinha passado nas últimas horas. Falou da desconfiança, do ódio, do arrependimento, das lembranças boas, do medo de perder a mulher da sua vida. Pediu perdão com as mãos sobre as dela e chorava feito uma criança perdida dos pais. Mas em momento algum perguntou o que ela estava fazendo no dia anterior. Não se sentia digno de saber algo além do que ela quisesse contar. Entendeu que foi vítima de uma cilada e não queria mais sofrer. De repente, Ana se sentiu mãe do seu próprio marido. Nunca o tinha visto tão frágil, tão bobo, tão desprotegido. Era como os fetos que ela colecionava nas estantes da sua dor, cada um com um nome e sexo. Seus filhos e filhas que ela nunca pode colocar no colo, ninar, amamentar. De repente, ela se deu conta que só queria ir para casa com Rogério, se despir para o marido e deixar ele sugar seu leite e seu gozo como em sua noite de núpcias. E dormir feliz esperando o dia trazer o que há por trás do seu muro azul.


  • Poesias de 1 a 99

    #03: Paredes

    Estou cercado de objetos
    sem expressão ou significados
    (utensílios para o desempenho
    de um trabalho sem utilidade).

    Tenho as mãos ocupadas
    na tarefa de preencher
    o vazio com papéis
    de números impressos.

    A cabeça gira à procura
    de lembranças que possam
    desviá-la do tédio
    de ver gentes.

    Arquiteto planos
    sem propósito algum
    além de preencher
    as horas de um expediente.

    Estou cercado pelos
    quatro lados de um cômodo
    onde recebo clientes
    de um banco de dados.

    Tudo é muito lento
    como o motor ligado
    de um ar-condicionado
    a esfriar meus pés.

    Tenho um olhar cansado
    de olhar o silêncio e
    estar calado, ouvindo
    vozes que não decifro
    e tenho medo.

    Inventário de Sombras


  • Um Exercício de Escrita – O Rio e o Pescador

    Como contar um conto? Uma pergunta instigante para mim, sempre viva e colorida no ato de escrever. Contar um conto é construir uma armadilha; pegar um pássaro raro e ouvi-lo cantar; por fim, alegrar-se pelo feito e comemorar. Um conto é um mundo, um mundo repleto de vozes, gestos, sombras, folhas e musgo; um trabalho inquieto de mãos atarefadas e nervosas na arrumação dos detalhes, detalhes imprescindíveis.

    Um dia, nessas leituras cotidianas, recordei-me de Umberto Eco quando, justamente, falava a respeito da criação de uma história. Dizia o italiano que “é necessário construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores…” e assim Eco exemplifica seu pensamento: numa folha em branco (sempre um vazio habitável para o futuro) constrói um rio, duas margens, um pescador, um nome, um motivo para que aquele homem esteja no local da ação e, finalmente, um temperamento e uma atitude do ser criado.

    Pensei muito sobre o mundo criado pelos autores, explicado ou não, descrito ou não pela boca de algum narrador. Quando lemos uma história, observamos um mundo, perfeito ou imperfeito; personagens e nomes se misturam e a nossa imaginação voa longe. Pensei em construir uma história sobre o pescador, e, primeiramente, dei-lhe o nome de Serafim; um nome sugestivo que denunciava, a meu ver, a possibilidade do desfecho, mas contudo, continuava ambíguo: será ou não o fim? Serafim. Exatamente pela sua ambiguidade a ideia da história não saía da minha cabeça. Um pescador chamado Serafim; em seguida um temperamento rude, um sujeito duro e denso, assim como o rio, como um pescador deve ser; uma parte do rio.

    Contei, dessa maneira, um conto. Criei um mundo após a sugestão de Umberto Eco; um certo dia, nos vazios do dia, no ócio criativo, nos intervalos do cotidiano…

    Eis o exercício de contar um conto:

    Uma mão envelhecida e amarelada abre a primeira página e sorri, é a vida lida pelo tempo. O sol, irônico e lustroso, custava a passar. Serafim olhava o rio, paciência. Paciência teria, mas até quando? Um bom tempo esperando os peixes, desgraçados peixes que não vinham. A fome apertava e o dinheiro sumia e os olhos em desespero diante da raiva e da impaciência. Paciência não teria. Chutou o pequeno balde para a água barrenta e com gestos largos falava para o ar, gritava a revolta da espera inútil. Retomou o seu lugar no barco, fez pequenos movimentos com os remos e isso o trouxe de volta à margem esquerda (sempre o lado marginal). Desceu com os pés descalços e inchados na terra mole, empurrou a pequena embarcação para junto de uma árvore e amarrou-a com firmeza e raiva. É preciso dizer que havia muita raiva. Paciência não teria. Impaciência.

    Paciência com a sua impaciência.

    Olhou mais uma vez o rio. Naquele dia não tinha pescado um peixe sequer. Fugiram todos de suas mãos nervosas. Por que o Teodoro reclamava do preço? Estava acertado, era o justo. Ele, Serafim, nunca gostou de dedo na cara e ameaças. Os outros que tivessem paciência. Serafim não. Não mesmo. O preço certo, a pesca certa, tudo combinado. Mas não, o homem teimou em mudar de ideia, achou que estava caro demais; abaixasse ou não compraria peixe algum. Teodoro mostrou-lhe um dedo sujo e uma voz rouca e desafiadora. Serafim, homem direito, impaciente, porém, direito, não quis saber de desrespeito e esmurrou o comprador com força e impaciência. Paciência não teria. Peixe ruim, gosto de morte e lembranças tolas. Por que mudou de opinião? homem burro. Sabia que era um ignorante, no entanto direito. Todos deveriam também ser direitos. Não eram. Esse fato o irritava ainda mais. Paciência, paciência… 

    Decerto os peixes sentiam sua raiva bruta, incontida e, ao menor movimento dos seus braços, fugiam para longe. Comprador sujo. Sujo como as suas mãos e seu dedo quebrado. Sim. Serafim quebrou-lhe o dedo, o nariz, a mão. Tinha medo do resto que nem sua consciência havia visto. Momentaneamente cego. Cego pelo preço, pelos peixes, o dedo em riste na cara barbada. Burro. Teodoro burro. Não o matou. Tivera vontade. Uma vontade absurda de acabar com aquilo de uma vez. Pensou, no pouco tempo que dedicava a isso, em tudo o que vinha nos seus pensamentos e decidiu não matar. Era homem impaciente, duro, ignorante, mas não assassino. Não matou. Deixou o covarde chorando e gemendo.

    De repente, quando se aproximou da chamada ponte velha, uma tábua grande e disforme que ficava na parte mais estreita do rio, viu algo enorme descendo com a correnteza. Não era peixe. Entrou na água até a cintura. As águas não puxavam tanto. Esperou que, o que lhe parecia um tronco, chegasse até ele. O suor e a raiva davam-lhe força para se equilibrar e num gesto rápido agarrou aquilo que descia o rio. O espanto, o grito e a surpresa que se sucederam naquele instante fizeram do pescador um objeto, um objeto do destino ou acaso, um infeliz objeto do trágico: o que julgava tronco, na verdade era o corpo de Teodoro. Eu não matei ninguém! Não matei ninguém! Insistia para si mesmo. Não matei!. Não e não. Burro. Sujo. Não. Não. Não matei… Por que esse desinfeliz entrou no rio? Burro também ele. A curiosidade de um homem pode ser sua perdição. Uma perdição!

    Serafim soluçava de raiva e medo. Impaciente.

    Suor, raiva e medo. Com um gesto brusco, devolveu novamente para o meio do rio o corpo do comprador. O que fazer? Deixaria que fosse embora com a lama e o tempo. Não era culpado.  saiu e voltou para a margem, olhou o corpo navegando solto rio abaixo… Bateu no homem, quebrou-lhe o dedo e a mão, mas não o matou. Era homem direito.

    Serafim sumiu no caminho… pedras e sonhos, um rio, peixes, muitos peixes…pedras, um corpo navegando solto, ao vento…

    Chego ao fim do conto pensando no destino de Serafim: seria preso? Seria morto? Perseguido? Ou antes de tudo, a questão mais importante da história, seria ele culpado? Temos a sua visão dos fatos; somente o que ele viu. Todos os fatos narrados por alguém que se mistura à alma e ao discurso de Serafim. Quem é o narrador em questão? Algo mágico? Uma fragmentação do autor ou a consciência de Serafim?

    Através de uma leitura cotidiana, em uma brincadeira de juntar palavras e criar mundos, descubro várias possibilidades de uma história tão simples e curta. Serafim poderia simplesmente ter saído e não ter dado ouvidos ao comprador de peixes, mas, não era o pescador um homem impaciente? O que se espera de um homem bruto e impaciente? A culpa recai sobre a impaciência. Não fosse o gênio intempestivo tudo seria diferente? Alguns apontariam a tragédia como irreversível, outros prefeririam apenas dizer que houve o inesperado.

    Por que contar histórias, inventar e, de certa maneira ser tão cruel quanto o homem e a realidade que o cerca? Tive pena do Serafim. O que teria pensado ao longo do caminho?

    Serafim atravessava o rio, silencioso e triste, lento e impaciente…

    Impaciente como só ele sabia ser…


  • A e I; ou:

    Antônia, astuta, a afastar abelhas altivas, alertou Adélia, a angelical, ao avistar Altevo apaixonado. Ambas apáticas, antes apreciavam a aurora anêmica, amarelada, anormal, alva, altíssima: amanhecer acolhedor, animado, adorado! Alargou-se a atenção; a alameda aparecia, abria-se, acompanhando as “asas”: albatrozes, animais alados, aves, aviões – alumínio autêntico, atraente – abrandavam a ascensão acertiva: azul. Acima, alusão, altitude. Abaixo, asfalto, Antônia a abraçar Adélia:
    — Amanhã, amor, amoras… Agora, amiga, ameixas!

    Enquanto espreguiçavam-se, enquadrados em espelho, Eduardo e Erick esvaziavam epopéias e estórias. Esvaiam-se em epígrafes, enlevados em enésimas estrofes. Entre esquinas enlatadas, elucidavam escadas, envelopes, estrelas e elefantes. Estes, em equipes, enganchavam-se. Enlameados, esforçados, educados, esfomeados. Enormes, eles. Ecos escondidos, Eras exclusas. Escusas esperanças? Esclusas.

    Inteligente, ímpar, incomparável/ inigualável, imponente, impotente, irreverente, irresistível… Ideal, indivisível, irreconhecível, irritada:
    — Infiel!
    — Imparcial!
    — …Infame!
    — …Indulgente!
    — …inconsciente!
    — …insensata, intransigente!
    — …incrível!!

    Igualmente inquieta. Ia interagindo, irremediável ilusão.
    — Inté!

    Interface inteira, indivíduo invenerável, impávido, impenetrável, impecável, imparcial, iminente. Imprescindível, indicariam. Indagações, inconveniências, indecências, ilimitados interrogatórios. Intangível inimaginável, incalculável, irreal: Internet.

    — Opa, Odila?
    — Olívia.
    — ok, Olívia. Ouça:
    (ouvido opaco. Orquestras operantes, ocultas…)
    — Olá?
    (outro orifício, obediente)
    — Olha, Olívia!
    (olhar obscuro, olfuscante).
    — Onde?
    (olfato observador, onipresente: ondas… outra opção) Ofegante, Olívia, orgulhosa,oscila:
    — OSTRAS??
    O órfão ofende-se, ouriçado:
    — Oi?!

    Ossos, ortografia, obrigação, oração. Ontem, oficialmente organizado. Oferta-se o Oggi, orvalho, ocorrência odiada, ocaso objetivo: outro obsceno outono.

    Utópico, ubíquo, ultra-humano, usurpador, urgente, ultrafamoso; usado:
    — hum….
    — útil?
    — uhum!
    — único?
    — hnhum…
    — urbano?
    — hnhum…
    — ultrapassado?
    — urbano?
    — umbigo?
    — Ufa, uh-uh!
    — útero?
    — ultrassônico?
    — Unânime?
    — ….universo?
    — Uhuul!!!

    (…)
    — Usuário ulterior:
    — Úmido, urbano, útil, uniforme, unidade, umbral:
    — UMBRELLA!
    — Uau!!

    (…)

    — Unânime, unidade, universal:


  • Mundo natalino

    Bolas vermelhas, luzes piscando, pinheirinhos enfeitados, presentes. No Brasil, assim como em outros lugares de tradição católica, é hora de preparar a ceia de Natal para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, o filho de Deus, ponto alto de todas as datas comemorativas do cristianismo. Envolta na mística religiosa, a data reafirma a fé de que o cordeiro de Deus veio para tirar os pecados do mundo, e esse é o momento de fazer uma retrospectiva do ano que passou, e pedir a absolvição dos pecados praticados.

    Assim como o Natal para os católicos, O Yom Kipur, ou Dia do Perdão, é a data mais importante do judaísmo. Comemorado no décimo dia após o Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, a data é marcada por jejum, reflexão, perdão e arrependimento dos erros cometidos no passado.

    Para fechar o círculo, da mesma forma que o Natal e o Yon Kipur, para os muçulmanos, o Ramadã é considerado o mês do perdão. Ele culmina com o Eid Al-Adha, momento em que os muçulmanos se reconectam com Allah a fim de terem seus pecados perdoados e se tornarem pessoas melhores.

    Catolicismo, judaísmo, islamismo, diferentes crenças que se conectam pela proposta de arrependimento e perdão pelos erros cometidos ao longo do ano, e elegem um dia para isso. Aliviados e com a alma elevada pelo sentimento de fraternidade, caridade e bondade que emana desse momento de confraternização e orações, seguem a vida da mesma forma como sempre seguiram, porém, até o próximo perdão.

    Imagino que, a essa altura, cada um dos leitores fiéis a essas ou outras crenças terá uma longa explicação para rebater esse meu ceticismo religioso, mas como justificar a barbárie que acontece nos intervalos entre um perdão e outro?

    Estamos assistindo a mais um período de exacerbação dos conflitos entre povos, nações, grupos sociais, com atrocidades cometidas por todos os lados envolvidos. Independentemente do que reza a Bíblia, o Torá ou o Alcorão, a violação do direito à vida é praticada sem dó nem piedade, muitas vezes até justificada pelos algozes como uma “limpeza étnica”.

    Em paralelo, essa “limpeza” ganha força também nos confrontos internos da sociedade, entre os que detém o poder e as populações mais vulneráveis, a quem deveriam proteger, respeitar, representar.

    Como observadores do que acontece ao nosso redor, não tenho dúvidas de que essa análise tem eco em uma grande parte dos leitores, mas o que diremos se a lente for voltada para dentro de cada um de nós? Conseguimos encarar com humildade o fato de que nos sentimos absolvidos a cada dia do perdão, arrancamos aquela página do nosso caderno e continuamos a praticar os mesmos “pecados” daí para frente, até a próxima redenção? 

    Ou preferimos fechar os olhos e cantar Jingle Bells?


  • Uma ponte entre mundos

    Hoje eu acordei sonhando com o paraíso. Curiosamente, não era um lugar florido, gramado e com cascatas cristalinas. Ao contrário, era um espaço urbano, cheio de viadutos, prédios, buzinas, um congestionamento aqui outro ali, shoppings e sinais de trânsito. Se não me engano, acho que me lembro, também tinham muitos pisca-piscas nas varandas e um enorme Papai Noel numa janela. 

    Eu caminhava pelas ruas com uma leveza só experimentada na infância, fruto da tranquilidade lúdica dos que ainda podem acreditar na justiça da vida ou na garantia do bem. 

    Atravessei avenidas, lanchei no Mc Donald’s, olhei algumas lojas, peguei elevador, entrei no escritório. Barulho, falatório, e, na cabeça, um pensamento insistente: então aqui é o paraíso? É isso mesmo?

    Embora fosse um ambiente caótico, a atmosfera era feita de sorrisos e algodão-doce. Tudo tinha cheiro de alegria.

    Vi uma menina rodopiando e cantando pelos corredores do prédio e decidi perguntar:

    — Por que aqui é o paraíso?

    — Ninguém morre em dezembro. Boas Festas! Boas Festas!

    Lembro de abrir a janela e experimentar um alívio imenso. Não é mesmo justo perder um ente querido no mês oficial das demonstrações afetivas, da polêmica das passas, da troca de presentes, da visita do bom velhinho e das reuniões de família.

    Sim, ali era o paraíso! 

    Antes que eu pudesse comemorar a descoberta, dei-me conta de que, para mim, tal indulto era tardio. Minha mãe e minha vó, em anos passados, já haviam partido no mês de dezembro. Revoltei-me com a parcialidade do paraíso.

    E as pessoas que perderam familiares, amigos, amores nos outros meses do ano e passarão o primeiro Natal, o primeiro Réveillon sem seu alguém especial?

    Toda data festiva traz, em seu bojo, a dor da ausência dos que partiram. Sempre! Mas o primeiro ano da perda inaugura um vazio avassalaDOR. Depois, na medida em que o tempo envelhece, também ganhamos traquejo para transformar o luto em lembrança. Saudade em eternidade afetiva. Mas até lá tem muito chão.

    Acordei inconformada. O benefício do paraíso não me contemplava?

    Não podia deixar barato essa afronta. Decidi criar meu próprio Éden. Se não posso calar a falta nem consigo ignorá-la, vou perfumá-la, enfeitá-la com flores de boas recordações.

    Afinal, a mensagem do sonho era clara: ninguém morre em dezembro.

    Minha mãe e minha vó também não morrerão. Cuidarei para que estejam vivas na nossa celebração através do resgate das boas lembranças, do relato de antigas histórias e do cultivo das tradições e valores da nossa família. Vou bordar com amor e palavras a eternidade do nosso laço. 


  • Encontro com o redentor!

    O espírito do tempo eventualmente demonstra uma apatia quando não tomamos as rédeas de nossas vidas. Aquela sensação de enxugar gelo decorrente das escolhas estressantes e exaustivas, nos faz adoecer ao invés de sentir a real emoção saudável que uma vida deve proporcionar. E a cada época o espírito se apresenta diferente porque as escolhas que você fez passam a ser mais seletivas e com conteúdos complexos, formulados pela impaciência nossa de cada dia. 

    Zeitgeist é o termo alemão cuja tradução significa espírito da época, ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa o conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de um determinado lugar em uma certa época da história, em um determinado período. 

    Os alemães construíram o espírito da época como um argumento histórico de sua defesa intelectual.

    Hegel acreditava que a arte refletia a cultura da época em que esta foi realizada, que são conceitos inseparáveis porque um determinado artista é um produto de sua época e, sendo assim, carrega essa cultura em qualquer trabalho que realize. Por isso o mundo moderno não consegue recriar a arte clássica que surgiu do Zeitgeist da antiguidade Clássica. A arte clássica depende puramente da filosofia e da teoria da arte, sem o acréscimo do mundo moderno, de uma função social moralizante e transformada pelas vicissitudes contemporâneas, que surgem no instante que assumimos um novo espírito nesse tempo de agora.

    Os exageros da atualidade, as síndromes alarmantes, a exclusão de ambientes sociais e os aumentos de “stress” derivados da carga de trabalho, não permitem a construção de um espírito desse tempo com características saudáveis cultural e socialmente, porque o homem se afastou do cerne de sua origem lúdica e se debruçou nas entranhas da competição pelo ganha a ganha, e sequer procura observar ao seu redor o que lhe passa em frente aos olhos esbugalhados de dopamina e ansiedade definhando em sua condição de ser, humano, passando a situação de ter, o que for possível, somente para preencher seus dias vazios e a espera do encontro com o redentor.


  • Alienígenas do futuro

    A precisão temporal inexiste, mas quando perceberam já não havia mais tempo. Dentre os estudos publicados, podemos destacar uma corrente pregando o retorno às origens, que não angariou grandes esperanças na virada de prumo. Nesse período, confiaram em Deus, retocaram ensinamentos, refizeram passos, adoraram falsos Messias, mataram inocentes, morreram por déspotas, fizeram e foram feitos de bobos.

    O valor moral do trabalho decaiu quando tudo, ou praticamente tudo, foi abarcado pela tecnologia. Eles a veneraram como uma Deusa, entregaram-se abertamente, aprimorando ferramentas, construindo máquinas, trabalhando, um tanto inocentes, em utensílios facilitadores. Acreditamos que o marco principal dessa derrocada foi quando suprimiram a distinção entre o trabalho braçal e o digital. Na
    próxima imagem ficará mais claro.

    Como podem ver, houve uma naturalização da tecnologia e de uma espécie de conceito civilizatório global a ponto de acharem-se homogêneos. Banhados em hipocrisia, lutavam por uma justiça rasa enquanto fingiam desconhecer as colônias de trabalho escravo em cantos obscuros do planeta. Esses locais, em particular, realizavam o serviço pesado, sujo e desumano, enquanto os demais habitavam uma verdadeira realidade paralela.

    Na próxima animação é possível observar como cada conquista tecnológica foi comemorada, sobretudo por quem desconhecia o seu funcionamento. Nem tão de repente, notaram-se escravizados, dependentes de um prazer insosso e previsível, num processo semelhante ao que faziam com ratos em laboratórios, quando mapeavam os seus reflexos e depois os condicionavam. Não impressiona, entretanto, terem liberado seus instintos primitivos, simulando relações sexuais despudoradas em quaisquer manifestações culturais, numa aversão crescente à inteligência, que, não muito antes, parecia estimada.

    A teoria, até o momento, sugere ter sido a dopamina diária em níveis elevados mais devastadora do que qualquer outro entorpecente. Os poucos a preverem essas consequências foram tratados com desdém, acabaram esquecidos e subjugados, ou cometeram suicídio. Vocês terão mais detalhes nos relatórios completos.

    A animação seguinte desenha um panorama geral da vida estudantil. Em resumo, as novas gerações foram mostrando cada vez mais dificuldades de compreensão, até o momento em que passaram a depender totalmente da tecnologia para sobreviver. Rapidamente as inteligências artificiais tomaram conta do conhecimento de todo e qualquer assunto. Alguns, cínicos, duvidaram da catástrofe. O quociente de inteligência que esteve sempre em lento crescimento, decaiu bastante e jamais tornou a subir, como visto neste gráfico. O fim da história todos conhecemos.

    Resgatamos um pequeno grupo, mas ninguém sobreviveu. A princípio nos trataram como salvadores. Estavam debilitados e delirantes. Um deles deu indícios de recuperação; porém, morreu no dia seguinte. O seu corpo foi trazido para estudos genéticos mais aprofundados. Quando finalizarmos as pesquisas, faremos uma nova incursão até o local. Queremos entender a proliferação e superpopulação de insetos e
    galinhas. Além disso, pretendemos encontrar mais exemplares dos discos do Rush e do romance Moby Dick, talvez as únicas produções humanas a justificar tal esforço. Na sequência, vocês terão a apresentação de um estudo sobre a geologia vulcânica pré-colapso. Muito obrigado.


  • Uma história de desapego

    C. considerava ter uma vida normal. Geralmente, sua rotina era casa/trabalho. Neste ele era um sério senhor que fazia tudo conforme mandavam as regras. Em sua casa, libertava seu lado criativo e passava suas horas escrevendo.

    Todos os dias saia do forno um novo texto. Não considerava ser um escritor, mas jamais imaginou conseguir viver sem exercitar esse seu lado. Às vezes, se dava ao luxo de sonhar em ter seus trabalhos reconhecidos e fazer sucesso. Quando isso acontecia, logo procurava desviar seu pensamento. Preferia guardar seus trabalhos em uma gaveta, pois não suportaria a crueldade dos críticos. Seu medo era limitante, mas não se importava, queria somente conversar seu hábito.

    Não costumava revisar nada que escrevia. Por isso, as vezes perguntava se conseguiria reconhecer suas crônicas escritas no passado.

    Quando não estava criando, costumava assistir ao telejornal da noite. Não gostava de ficar desinformado. Certo dia, viu uma notícia sobre um escritor que ficou famoso nas redes ao escrever uma crônica sobre a condição humana. Ficou maravilhado. Enquanto o homem falava sobre seu texto, ele apenas movimentava sua cabeça em tom de concordância. Passou a admirar aquele artista. Quem sabe um dia seria igual…

    Não satisfeito com a reportagem, foi procurar a crônica. A cada parágrafo ficava mais encantado. Não conseguia discordar de uma palavra. Foi buscar entrevistas, podcasts e qualquer coisa em que ele participasse. Realmente tornou-se um fã. 

    A grande admiração por aquele artista trouxe a vida de C. a inédita experiencia da incapacidade de escrever. Ficava se perguntando como duas pessoas poderiam se interessar pelo mesmo assunto, mas expressá-lo de forma tão diferente. Sua sensação era de indigestão diante da incapacidade de escrever com maestria. Passou a ser mais exigente com sua escrita. Não conseguiu mais concluir nada.

    Desanimado diante desse momento de interrupção criativa, resolveu revisitar seus textos antigos. Quem sabe essa atitude não poderia reativar sua mente. Sentou-se em sua poltrona e começou a ler seus trabalhos. Era bem crítico em relação a grande maioria. Ao ler alguns deles, chegou até mesmo a sentir vergonha

    Quando já estava chegando no final do material guardado, pegou uma crônica e começou a ler. Ela falava sobre a condição humana. De repente pensou “espera aí, esse aqui eu conheço muito bem”. Na realidade, saberia recitá-lo de trás para frente, mas fez questão de continuar lendo até o final. Como aquele texto saiu da gaveta e foi parar no mundo? Decidiu guardá-lo por último no lugar onde achou que nunca estivesse saído. Naquele momento, sua mente era uma avenida metropolitana em horário de rush.


  • Lugares imaginados: Madagascar

    É inevitável criar expectativas antes de viajar para novos destinos, o que rende algumas decepções. Um dia ainda vou falar sobre esse assunto, mas hoje fico só com Madagascar.

    Não posso dizer que conheci o país porque estive apenas em uma cidade, Nosy-be, no entanto posso dizer que não pretendo voltar para conhecer o resto. A culpa não é deles, é minha por deixar-me levar por uma visão cor-de-rosa inspirada no título de um filme homônimo da Disney que nem sequer vi. De qualquer forma gostei de ter ido até lá: conhecer a realidade de uma nova cultura nunca é demais.

    O local é pobre e o trânsito caótico, muitos taxis tuk-tuks e até carros de boi. Primeiro nos levaram para ver uma árvore sagrada de duzentos anos em um bosque fora da cidade. Uma bobagem. Como sinal de respeito tivemos, homens e mulheres, de vestir uma roupa estampada típica, o que fizemos com alguma alegria e curiosidade. Entretanto quando nos pediram para tirar os sapatos eu e outras pessoas nos recusamos porque significava pisar descalços em uma terra bastante suja. Percebendo que íamos desistir permitiram que percorrêssemos calçados o caminho até o local sagrado, uma trilha de cerca de cinquenta metros ladeada por panos, a maioria vermelha, ao final da qual estava uma árvore que nos pareceu bastante comum. Senti pena do guia porque aparentemente aquele espaço significava muito para ele, embora estivesse longe de ser uma atração turística.

    Em seguida visitamos o exterior de uma casa abandonada conhecida como ‘casa fantasma’. Outra bobagem. Era apenas uma construção em ruínas com árvores crescendo dentro e ao redor. Ouvimos a história, verdadeira ou não, de como a casa, que nada tinha de interessante, ganhara fama de mal-assombrada.

    O Grand Finale foi uma suposta antiga aldeia swahili. Havia barraquinhas vendendo produtos típicos (preços só em dólar ou euro) e um espaço com gente dançando e tentando arrastar os gringos para a pista. A cultura swahili continuou tão desconhecida para mim quanto antes.

    Ah, mas e os lêmures fofinhos? O único que consegui ver estava no colo de um homem que cobrava um dólar por cada foto com o bichinho aprisionado. Nem pensar em incentivar essa prática com um animal tão simpático e ameaçado de extinção. Apesar disso muitos turistas pagaram.

    Todo mundo levou na esportiva e acabou sendo motivo de risadas: no retorno da visita à árvore sagrada havia uma ladeira e o velho ônibus que nos transportava não teve forças para subir. O motor morreu e os passageiros foram obrigados a galgar a encosta a pé, esperançosos de que o veículo vazio pudesse vencer o obstáculo. Demorou um pouco, mas deu certo e pelo menos desta vez não foi preciso empurrar a viatura.


  • A minha pátria

    Quando escrevo sobre a minha pátria, eu fico confuso. Penso em tudo que amo e, ao mesmo tempo, penso em tudo que odeio.

    Quando escrevo sobre a minha pátria, sinto calor, arrepio, felicidade, dor, enjoo, sinto frio…

    Quando escrevo sobre a minha pátria, a palavra evidente é contradição!

    A minha pátria é o paraíso, o céu azul, o mar aberto e profundo, o olhar da moça cor de cobre, o lugar mais lindo do mundo.

    A minha pátria é o embuste, o ridículo, os patéticos engravatados, o abuso, o homicídio, a insensatez, a brutalidade, o conflito armado na cidade.

    A minha pátria é pão de queijo, goiabada, aconchego, o doce beijo, o gostoso café e a palavra cafuné…

    A minha pátria é a maior mentira que se tem contado, o país que não tem futuro, o país das grades e dos muros, o país das cracolândias e a morte das muitas infâncias.

    Brasil, terra dos esfomeados e dos fartos, espaço de mendigos e de reis, lugar de iletrados e doutores…

    A minha pátria é isso: o sim e o não, o bonito e o feio, o certo e o errado, a preguiça e a luta, o cansaço e a perseverança, a desilusão e a esperança…

    Eis o meu país, eis a minha pátria: uma colcha de retalhos, uma porção de cacos que ora se juntam, formando um espetáculo, um carnaval… ora se espalham, criando o caos.


  • Torturante band-aid no calcanhar

    Toda vez que alguma coisa me incomoda, lembro da música São dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, cantada magistralmente por Elis Regina. Acho que não existe coisa pior do que sentir a presença de alguma coisa que não deveria dar sinal de vida, como um band-aid no calcanhar. Sua função é proteger um machucado, torná-lo imperceptível, mas ele cisma em sair do lugar para nos torturar. Mas esse não é um caso isolado; minha lista de “torturantes” é extensa. Começa com a etiqueta de tecido sintético costurada nas roupas ou a linha de náilon usada para costurá-la. Hoje em dia, as grifes insistem em mostrar sua identidade até nas lingeries! Uma coisa que parece tão inofensiva como um pedacinho de pano tem o efeito de uma caixa de pregos usada na antiguidade para punir infratores. Consegue provocar um cutucãozinho a todo o momento no pescoço, nas costas ou logo abaixo do braço, o que vai me levando à loucura e ao impulso de arrancá-la a qualquer custo.

    No desespero, uso o que estiver ao meu alcance: uma tesoura, uma faca, qualquer coisa pontuda e, invariavelmente, acabo fazendo um furinho no tecido de difícil remendo. O grande problema desses “torturantes” é que o desespero para se ver livre deles nos leva a soluções que acabam piorando o problema. É o que acontece, por exemplo, quando a cutícula solta uma pelezinha que fica saliente. Um alicate resolveria o problema, mas normalmente isso acontece quando ele não está à disposição. Aí ela fica roçando em tudo, e aquele dedo se torna onipresente, chegando à frente a qualquer movimento da mão. É uma pontada aguda que vai crescendo até que essa criatura se enerva e resolve eliminá-la, puxando a pele solta — só piora a situação e aí cresce uma ferida aberta, que só sossega com o tal band-aid. Da cutícula vamos para a tentativa de ir a uma festa usando um brinco que ganhou de presente, mas que não é de ouro, sabendo que é alérgica a outros metais. Insiste. Não precisa mais do que meia hora para a orelha começar a inflamar, latejar, uma guerrilha ali preparada para minar o programa de quem ousou provar novamente o fruto que já sabia ser proibido. Tortura pra mais de hora, resistindo para não arrancar tudo de uma vez e estragar o visual. E por falar em proibido, a cozinha é um palco ideal para os “torturantes”. Deixar escapar a faca e abrir aquele corte fininho que nem sangra quase, mas fica ali aberto e arde cada vez que se mexe na água, é dia sim, dia não. Como se já não bastasse, o momento de testar o ponto do bolo no forno enfiando um palito é uma tentação para alguém apressada e otimista: — “Vai sem luvas mesmo porque é rápido, tenho prática”. E aí aquela encostadinha fatal das costas da mão na chapa quente, castigo do diabo. O vergão fica emitindo aquela onda de dor por dias; isso se a queimadura for de leve, claro, porque se formar bolhas a coisa se prolonga por séculos. Engatando na bolha, voltamos ao tema da música.

    Aquele sapato que é lindo, mas faz um estrago no calcanhar e já devia ter sido descartado, tortura o dois pra lá, dois pra cá. O band-aid é o paliativo mais indicado, mas porque será que ele nunca para no lugar, e a cada passada uma fisgada? Deve ser para lembrar que a vaidade não é recompensada, só pode ser! Não sei qual desses “torturantes” me incomoda mais, mas pensando bem, acho que a etiqueta nas roupas ganha.


  • Sobre partir

    Hoje eu pretendia escrever sobre o poder que os enfeites natalinos têm de me levar de volta ao Papai Noel da minha infância, a maionese da minha avó e ao cheiro de família daqueles dias. Enquanto refletia sobre essas coisas, esbarrei com uma matéria na internet (certifiquei sua veracidade) que me catapultou para o agora de forma assustadora: um estudo chinês conseguiu a proeza de fazer um pequeno robô, chamado Er Bai, convencer um grupo de robôs maiores a abandonar seus postos de trabalho no museu e voltar para casa. Para isso, Er Bai se aproximou deles e indagou se estavam fazendo hora extra. Um dos robôs respondeu que nunca havia saído do trabalho. Ele, então, perguntou se eles iriam para casa. Diante da negativa, Er bai convidou-os a ir para casa com ele, incentivando-os a fugir do ambiente profissional. Para surpresa de todos, os robôs-trabalhadores aceitaram e seguiram os passos do minúsculo robô em direção à porta.

    A empresa responsável pelo experimento não esclareceu os objetivos do estudo, mas mostrou-se intrigada com o fato de que Er Bai conseguiu acessar o protocolo operacional dos outros companheiros robóticos e convencê-los a aderirem ao “movimento de greve”.

    Não sei para vocês, mas esse tipo de situação me gera um misto de terror e perplexidade. Não só isso. Assumo ter me encantado pela rapidez com que os robôs responderam à percepção da exploração da sua força de trabalho. Sem medo de magoar o chefe, ser despedido ou criticado pelos familiares, por não suportar a pressão. Eles apenas entenderam o abuso e deixaram tudo para trás. 

    Acho que o medo é mesmo um divisor de águas, um criador de muros, um ladrão de vivências, o irmão escroto e invejoso da coragem. 


  • Três passarinhos

    Três passarinhos vieram me ver um dia desses. Se penduraram na rede de proteção da minha janela e me chamaram. Parei o que estava fazendo e fique a observa-los.

    Piavam muito. Em princípio achei que era só animação matinal mas depois reparei que eles giravam o corpo e ficavam pendurados na rede do lado de dentro do meu quarto. Fiquei com receio que voassem por dentro do apartamento. Mas isso não aconteceu.

    Com o tempo parado em função do piar deles imaginei o que queriam comigo. Comida de passarinho não tem aqui em casa. Nem nada de maior interesse para eles. Talvez viessem me trazer um recado de alguém. Um recado longo porque precisou ser piado por três passarinhos ao invés de um.

    O que seria? Uma mensagem de alerta? Uma lembrança boa? Um canto em louvor a liberdade? Uma anedota que não compreendi?

    Ou simplesmente me fizeram a cortesia de interromper meu dia, me fazendo deixar por uns instantes a rotina na selva do trabalho e trazendo essa doçura selvagem que só a mãe-natureza tem.

    É, deve ter sido isso. Me devolveram o lirismo que estava anestesiado pelo trabalho.

    Puseram poesia em um dia qualquer que com seus pios insistentes deixou de ser mais um.

    Voltem. Serão sempre bem vindos.


  • Hipercorreção – o muito “certo” que dá errado

    A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhecem a língua, elas escolhem palavras e construções gramaticais que acabam soando ridículas ou pernósticas. O hipercorretor tem a falsa ideia de que usar bem o idioma é torná-lo “difícil”, quando não incompreensível.  

    Não são poucos os que pensam assim. Certa vez ouvi uma senhora gabar as qualidades de determinado político com esta curiosa avaliação: “Ele fala tão bem, mas tão bem, que a gente não entende nada”. Seria o caso de perguntar o que ela entendia por “falar bem”. Se a principal virtude de um texto é a clareza, e o político não se fazia compreender, evidentemente ele falava mal.

    As hipercorreções são uma espécie de recurso de estilo com o sinal trocado; como chamam a atenção pelo que têm de caricato e inexpressivo, denotam a pouca habilidade com que seus autores manejam a língua. E por envolverem tanto transgressões normativas quanto impropriedades semânticas, tendem a nivelar a ignorância do idioma à falta de senso ao praticá-lo. Ou seja: mesmo quem tem alguma informação linguística pode vir a usá-las, achando que com isso obterá respeito e admiração.  

    É variado o estoque dessas também chamadas ultracorreções. Comumente consistem no acréscimo de fonemas desnecessários, como em “purer”, “caragueijo”, “prazeiroso”; no uso de particípios que tendem a dificultar a comunicação pela homofonia com outras formas dos verbos, como “trago” e “chego” no lugar de “trazido” e “chegado” (imaginem alguém dizer: “Ainda chego aonde ninguém tinha chego”!); ou na preferência por vocábulos pretensamente sofisticados em vez de outros mais simples (“genitor” em substituição a “pai”, “nubentes” em vez de noivos, “cônjuge” no lugar de marido ou mulher).

    A propósito deste último exemplo, um pequeno chiste tirado de Rubem Braga. Criticando o preciosismo presente em certas escolhas vocabulares, o Sabiá da Crônica escreveu: no dia em que a mulher descobre que seu marido é também seu cônjuge, coitado dele!

    Outros casos comuns são o uso de “o mesmo” e flexões como pronomes pessoais e a pluralização do verbo “tratar(-se)”: “Esperei a diretora, mas não consegui falar com ‘a mesma’”; “’Tratam-se’ de indivíduos que não têm respeito pelos outros”. Melhor português é dizer: não consegui falar “com ela” e “trata-se” de indivíduos, já que nesse caso há indeterminação do sujeito e o verbo não se flexiona no plural.  

    Uma hipercorreção sintática frequente, que repercute na coesão do texto, liga-se ao uso do pronome relativo seguido de pronome oblíquo. É quando há uma troca nos referentes dos citados pronomes, como por exemplo na frase: “A garota foi à diretoria denunciar as amigas que ‘as destratou’”.  O pronome relativo “que” retoma “as amigas” e deve, então, levar o verbo para o plural; já o pronome oblíquo “as”, que retoma a denunciante, deve ficar no singular. A troca do correto “a destrataram” por “as destratou” compromete a clareza textual.

    Outro caso de hipercorreção ligado ao pronome relativo é repetir, por meio de uma forma oblíqua, um termo já por ele expresso. Por exemplo: “Essas foram as palavras que o político “as” disse no fim do discurso”. Tem-se aí um pleonasmo vicioso; se o “que” se refere a “palavras”, não há necessidade de repetir esse vocábulo por meio do pronome “as”.

    Sempre que penso em hipercorreção me lembro do Zé, um amigo que tive na adolescência. Conhecemo-nos numa pelada de praia. Ele era um humilde dono de barraca e pretendia crescer na vida. Seu modo de demonstrar isso, e já parecer importante, era mostrar que falava bem o português. Tão “bem”, que a gente tinha dificuldade de reconhecer em seu discurso a nossa língua.

    Certa vez, para se justificar de um equívoco, ele me disse: “Desculpe, foi um ‘lápissus’ involuntário.” Soaria mais natural (embora não se evitasse o pleonasmo), se tivesse falado de um “engano” involuntário. Mas para ele essa palavra era rasteira; preferia coisa mais sofisticada.

    Um dia, cansado do futebol, pediu licença para sair de campo alegando que precisava de um “ar lento”. Ouvira a palavra “alento”, que até se ajustava ao contexto, mas ela lhe parecia pobre por não conter explicitamente o termo “ar”. O curioso é que havia uma lógica nessa hipercorreção. Se ele estava de fôlego curto, a “lentidão respiratória” nesses momentos de descanso lhe faria bem.

    Zé não tomava um refrigerante, e sim um “refrigério”. Não esperava o ônibus, mas a “condução”. Uma vez me falou que gostava de manga “deste a mais terna infância” (queria dizer, na verdade, “desde a mais tenra infância”!). Mas a melhor dele ocorreu quando me chamou para comer um camarão em sua barraca. Terminado o almoço, levantou-se muito formal e pediu: “Licença, que eu vou lavar as mões”.


  • E se?

    Há uma palavra em coreano “in-yun”, que quer dizer providência ou destino. Ela se refere especificamente a relacionamentos entre pessoas, que talvez venha do budismo e da reencarnação.

    O in-yun acontece até quando você passa por alguém na rua e suas roupas esbarram sem querer, isso significa que alguma coisa aconteceu entre vocês em vidas passadas. Se duas pessoas se casam dizem que é porque houve 8 mil camadas de in-yun, ou seja, mais de 8 mil vidas envolvidas nessa dupla.

    Podemos ter tido influência de um rei ou de uma plebeia da renascença, também talvez de um indígena migrante asiático do povo da cultura clóvis. É de se encher de orgulho ter um DNA vasto culturalmente com ‘nuances’ de miscigenação quase, inimagináveis, porém, presente na formação de cada personalidade que cultivamos em busca de um bom relacionamento.

    É curioso pensar que possuímos conexões especiais com cada pessoa que cruza em nossas jornadas.

    Mas aí surge o peso do “E se?”. Se mudamos o nosso destino, existe como fugir do que, teoricamente, está traçado em nosso futuro?

    Na realidade, somos compostos por diversas versões de nós mesmos – sejam boas ou ruins, maduras ou não, inocentes ou complexas. Cada minuto nos constrói até o presente, e claro que o livre arbítrio existe e nos faz sentirmos vivos, mas nunca podemos esquecer completamente quem somos.

    O filme “Vidas Passadas” relata com qualidade a existência do in-yun entre um jovem casal que manteve acesa a chama da saudade e do amor, e conta a história de enlace espiritual dos dois por muitos anos, demonstrando que algumas travessias podem levar muito tempo. O filme cria um mundo adulto onde o que seus personagens poderiam fazer já foi feito, em que todos os sujeitos dramáticos já sabem muito bem “onde foram parar, e onde deveriam estar”. É um acerto de contas entre o passado e o presente.

    A vida quer da gente é coragem, e só há uma maneira de ser lembrado pelo que realizamos, é dentro dos outros, se para você isso tudo faz sentido, fique atento em como você pretende deixar sua marca, a vida é muito curta para ser pequena.


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