Crônicas

  • Ao mestre com carinho

    Dia 15 de outubro sempre foi uma data importante para as crianças, momento de demonstrar o carinho por seus mestres. Para alguns a escolha é simples, pois com pouca imaginação podem comprar um presente convencional que certamente agradará.

    Não foi o caso de Lucas, não. Naquele ano, queria muito homenagear seu professor preferido, o de biologia. Um homem apaixonado pela profissão e que tinha uma vida bastante solitária depois da morte da esposa. Por esse motivo, o menino queria que o presente fosse algo que pudesse preencher esse vazio.

    Depois de muito queimar as pestanas, teve uma ideia inusitada, certo de que ninguém na sala o superaria no quesito surpresa. Sabendo da predileção do mestre pelos répteis, começou a pesquisar como poderia presenteá-lo com um espécime que fosse adaptável ao ambiente doméstico. Inicialmente pensou em um jacaré, pois já tinha ouvido falar de pessoas que criam crocodilianos em tanques na residência. Como não sabia se ele teria espaço para um réptil desse porte, descartou a ideia.

    Fez então uma lista de requisitos que o rep-pet deveria atender: não fazer barulho, não atacar, não defecar grandes quantidades, não precisar ser alimentado, não destruir móveis, não comer roupas ou livros e, por último, não necessitar de atenção permanente.

    Passou dias pensativo, passando em revista a lista de répteis que tinha no material de aula e suas características. Sapos foram descartados direto por conta do barulho. Cobras nem pensar pela agressividade. Jabutis seriam simpáticos, mas têm que sernalimentados. A escolha estava difícil. Até que, finalmente, numa noite quente, ao olhar para a parede viu algo se movimentando. Com o coração aos pulos, percebeu que tinha encontrado o pet-rep ideal: uma lagartixa! Sim, perfeito!! Ela passou com louvor na prova, atendendo a todos os requisitos da lista.

    Teve uma certa dificuldade em captura-la, mas com muito cuidado conseguiu encurralar a bichinha e coloca-la numa caixa com furinhos, para que tivesse condições de sobrevivência até o grande momento do presente. Ao entrar na sala de aula, Lucas teve até um lampejo de dúvida — Como seria a reação do professor a esse presente tão estranho?

    Quando chegou sua vez, com uma certa ansiedade ofereceu a caixinha com os seguintes dizeres gravados em cima: Ao mestre, com carinho, um companheiro fiel para suas noites solitárias. Olhos mareados, o professor abraçou Lucas, sem conseguir proferir uma única palavra. Desconcertado, o menino voltou para casa sem saber se tinha atingido ou não seu objetivo.

    Dizem que as lagartixas vivem por cinco anos, e pelo visto isso é uma verdade. Um dia, já formado, Lucas encontrou com o professor de biologia que, sorrindo, lhe disse: “Sabe que o Lucartixa continua me visitando todas as noites?”


  • Panqueca

    Pai vamos fazer panqueca? A pergunta-convite me acendeu os olhos de alegria!

    Chequei se tinha tudo que ela precisava. Sim, nada faltava. Peguei um avental para cada um e fomos à cozinha. Estava radiante, afinal cozinharia com uma de minhas filhas. Prometi ser seu assistente.

    Abri o livro com a receita, ela se inclinou sobre a página, concentrada. Separou os ingredientes, testou os ovos (Não sabe como faz? Põe na água, se boiar joga fora). Se enrolou um pouco com aquela estória de colher de café, de sobremesa e de sopa.

    Mas quando começou a operação percebi que estava diante de alguém de padrão muito elevado. A farinha foi medida no copo medidor com uma precisão de deixar qualquer câmera de trânsito, daquelas que flagram os infratores, no chinelo.

    E os ovos? Nem na próxima encarnação serei capaz de quebra-los com aquela eficiência. Nem um caquinho da casca caiu no liquidificador.

    Depois de misturar a massa – o que é mesmo homogênea, papai? – chegou a vez de aquecer a frigideira. De primeira, ligou o fogão com uma intimidade de chef de cozinha.

    E veio o toque especial: com um gesto quase diáfano estendeu uma camada fina de massa na frigideira. Eu ali, em silêncio reverencial, porque as minhas são grossas como sola de sapato. Fez umas seis panquecas, fininhas, deliciosas. A irmã comeu, gostou, elogiou pouco, levantou da mesa e sumiu. Ficamos nós dois. A chef e seu assistente.

    Eu comi encantado. Enebriado. Afinal, cozinhar com filha pré-adolescente não tem preço.

    Já ela, compenetrada, comia avaliando sua obra recém concluída.

    Quando terminou me mirou com olhar blasé e soltou: ficaram boazinhas. Eu prendi o riso.


  • A razão da crônica

    Escrevo esta crônica pensando na razão de escrevê-la! Por que escrever uma crônica? De que me serve a crônica?

    Mas qual seria a razão de todas as crônicas?

    Dizem que a crônica é metida a besta porque ora é prosa, ora é poesia, ora é ensaio, ora não é nada…

    Dizem os estudiosos que a crônica é o testemunho de um tempo, o registro dos homens e seus conflitos.

    Dizem ainda que a crônica é o texto do dia, da linguagem do dia, das questões do dia…

    Muitos concordam que a crônica está intimamente ligada ao calendário, aos fatos corriqueiros…

    Mas, se for assim, a crônica nasce inevitavelmente velha, fadada ao nada, ao ostracismo. Como um número, um dia um mês, um ano…

    No entanto, creio que a crônica é muito mais que o dia! Ela é uma voz, ou melhor, as vozes de todos os cronistas que, atentos ao mundo e aos outros, escrevem sobre o amor e a tristeza, sobre os sucessos e os fracassos, sobre a vida e a morte, o trânsito, a rua cheia e a rua vazia, o beijo dos namorados, os encontros e os desencontros, os sabores e os dissabores, o que é eterno e o que é finito, o que é sagrado e o que é profano, o que se usa e se diz e o que não se usa e não se diz…

    O pequenino gesto de uma criança, uma nuvem no céu, o nascer ou o pôr do sol, a lua, as canções do vento e o vento das canções, todas, todas as sensações, o corpo suado de espanto, os olhos marejados de expectativas, ora concretizadas, ora destruídas…

    A crônica é o estalo e o espasmo, a grande surpresa de estarmos aqui neste mundo!

    A crônica é, em suma, o melhor texto para nos apresentar como somos, seres transitórios e contraditórios, mas cheios de ideias e talentos!

    Por isso, quando as pessoas falam da crônica como um texto menor, elas estão enganadas, na verdade, ela, a crônica, é o maior dos textos justamente porque fala, de maneira simples, da nossa essência: a essência que reside nas pequenas coisas.

    Então, respondendo ao que foi colocado no início deste texto, escrevo porque a escrita é a minha maneira de entender o mundo e a mim… Escrevo também porque, a despeito de todas as provas ao contrário, acredito no humano e sigo teimosamente nesta crença…

    Esta a razão da crônica! Continuar acreditando, apesar de tudo…


  • O tamanho de seu ressentimento!

    O ressentimento nasce dentro da culpa que o indivíduo criou, em detrimento de algo que alguém pretensiosamente provocou para chegar em sua condição atual inaceitável. O mais difícil é entender porque isso não passa. A versão provável desse drama é a de que essa queixa se mantém porque ele terá que assumir que foi ele quem fracassou em algum momento, e não os outros que provocaram o problema.

    A pintora Maud Lewis, foi retratada no filme “Maudie”, que narra sua vida de artista em Nova Scotia no Canadá, passada com muito sofrimento até sua morte aos 67 anos. Ela vivia com a tia que a tratava como inválida, não deixava Maud sair, era muito grosseira e a escravizava nos serviços domésticos. Maud então vê a oportunidade de se livrar dessa tia, quando encontra um anúncio em uma loja, para contratação de doméstica, e se candidatou para assumir os serviços a um homem rude, de poucos recursos, que veio a ser seu marido.

    A artista se manteve pobre em grande parte de sua existência, e permaneceu em uma pequena casa ao lado do esposo.

    Ela foi uma excelente pintora, porém, sua condição de saúde reduziu a mobilidade de suas mãos, que eram o principal instrumento nas pinturas. Sua mãe Agnes foi quem influenciou a menina a se apaixonar pelas artes desde cedo. Na infância, ela incentivava a filha a pintar cartões postais para vender no Natal. Mesmo com todo pacote de problemas, Maudi persistiu sem reclamar da falta de ajuda dos outros, muito menos culpar sua família pela genética complicada, e tampouco recriminou a Deus a dificuldade em subsistir. Ela conquistou um enorme reconhecimento entre os anos 1964 e 1965, quando foi destaque no Telescope da CBC-TV, tornando-se uma artista popular e amada, e muito conhecida por suas obras. Duas das pinturas de Maud foram encomendadas pela Casa Branca na década de 1970, durante a presidência de Richard Nixon, mas a artrite limitava sua capacidade em concluir muitas encomendas.

    Quantas limitações você carrega que lhe mantém sem ação e com mau-humor frequente por não ter sido acolhido(a) de braços abertos pelo mundo?

    Qual é o tamanho de seu ressentimento ao conhecer suas reais limitações que foram decididas e desenhadas ao longo de seu caminhar.

    Assim como a literatura, alimente-se com a capacidade de observar o mundo a sua volta, do contrário, pode matar de fome sua alma.


  • Relações fluidas

    Situationships, termo que entrou na moda por volta de 2017, vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos anos. Ele se refere a relações que se baseiam em uma conexão emocional sem compromissos ou planos, sem rótulos.

    O termo se tornou popular a partir do crescimento dos aplicativos de relacionamento, que introduziram o conceito de match. No entanto, esse tipo de conexão vai além de uma simples “ficada” ou encontro casual, pois existe uma ligação emocional e íntima entre os que dela participam, mesmo que de forma fluída e não permanente.

    A possibilidade de relações intensamente mutáveis, como no situationship, remete ao conceito sociológico de modernidade líquida, desenvolvido pelo acadêmico Zygmunt Bauman. Sem me aprofundar no tema por ele desenvolvido, a ideia central do autor é de que a contemporaneidade vem transformando as relações sociais e interpessoais, em relações frágeis, fugazes e maleáveis.

    No âmbito amoroso, elas se tornam susceptíveis a transformações rápidas e imprevisíveis, dando origem ao conceito de amor líquido, que é caracterizado pela fragilidade, pela falta de compromisso duradouro e pela busca constante por novas experiências e conexões.

    Pensando em uma linha do tempo da vida amorosa, as relações fluidas parecem ser um caminho trilhado atualmente pelas duas pontas: as pessoas muito jovens e os que eu chamaria de muito adultos. Sim, pois a liberdade de não seguir padrões preestabelecidos torna esse modelo muito atrativo para as novas gerações, mas também vem ganhando espaço entre aqueles que já viveram relacionamentos mais sólidos e permanentes durante a vida e procuram, agora, alguma coisa mais “liquida”.

    Na prática, por significar um envolvimento flexível e volátil, viver uma experiência de amor líquido não é para qualquer um. Se por um lado ele gera uma maior autonomia na relação, para quem não está preparado o amor líquido pode provocar uma sensação de insegurança e ansiedade, uma certa inquietação emocional e, a busca constante pelo par ideal.

    Para não cair nessa armadilha, quem pretende se aventurar pelas trilhas do Situationship, como já cantou Gilberto Gil, tem que ter a alma e o corpo são. A condição pode ser resumida na sabedoria desse pequeno parágrafo de Fernando Pessoa (e quase sempre volto a ele):

    “Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”.


  • Baixo retrato

    Sou Cassionei Niches Petry, 45 anos (com corpinho de 44 e meio), trabalho como professor, pois nenhuma outra profissão me aceitou. Cabelos: ainda tenho, começando a rarear e clarear. Altura: alguma coisa entre 1,60m e 1,69m. Peso: entre 1kg e 105kg. Uso óculos de lentes grossas (que aumentam consideravelmente os números da balança), tenho miopia e um pouco de astigmatismo, os graus eu não lembro e não encontro a receita do oftalmologista, que ainda por cima escreveu com letra pequena, sacaneando o paciente. Quando nasci, a família morava num porão de um CTG, portanto vim ao mundo com o peso da tradição gaúcha sobre mim, mas bah!, logo me livrei, tchê!, e hoje sou um cidadão do mundo que nunca saiu da sua cidade, Santa Cruz do Sul, cidade inapropriada para um ateu viver. Tenho uma união estável com a mulher que me incentivou a continuar estudando e por isso me livrou de ser um rapper sem sucesso e ainda, o melhor, me deu uma filha, por sorte mais bonita e inteligente do que o pai.

    Prato predileto: prato fundo, de preferência com bastante carne de churrasco. Gosto de ler livros, ouvir música lendo livros, assistir à TV lendo livros, comer lendo livros e navegar na internet em busca de livros. Escrevo algumas coisas que chamei de contos e romances e algumas pessoas acreditam que são mesmo, chegando a dizer que sou escritor e, como sou do contra, digo modestamente, “não, não, que é isso, sou só um escrevinhador”.

    Queria era escrever crônicas de humor, como as de Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta e Leon Eliachar, mas como não tenho esse talento, pratico o plágio descarado desses autores, sem a mesma qualidade, é claro (é agora que o leitor comenta, “não, que é isso, você tem muito talento”). Na política, sou um “em cima do muro” assumido, vendo os dois lados discutindo e jogando pedras uns nos outros, mas quem é atingido sou eu, por não ter lado (aliás, como sou barrigudo feito uma bola, tenho dois lados, o dentro e o de fora). Sou uma metamorfose ambulante que muda de opinião a todo o instante, mas não deixo de opinar democraticamente sobre as coisas relevantes do país, como por exemplo, se se deve pôr o feijão por baixo ou por cima do arroz e afirmo: é lógico que é por baixo, quem pensa diferente deve ser fuzilado ou enforcado.

    No futebol, sou colorado não praticante, já assisti masoquistamente a todos os jogos do Internacional, mas hoje é mais emocionante assistir na TV de madrugada aos pastores da Universal exorcizando demônios. Já disse que sou ateu, mas tenho santos de devoção: São Kafka, São Cortázar e São Machado de Assis (este último é a prova de que santo de casa não faz milagre e que nascer no Brasil é uma merda). Tenho uma visão trágica e pessimista da vida, acredito que o ser humano não tem solução (inclusive eu, claro, pois sou um ser humano, até alguém me cortar e ver os fios e os mecanismos internos que me mantêm aqui), que não existe esperança (pelo menos não para nós, como escreveu Kafka, ops, São Kafka, amém) e não acredito e nem quero que exista vida além da morte (imagina ter que me aguentar a mim mesmo durante toda a eternidade). Por último, e não menos importante, quero ser cremando quando morrer e que minhas cinzas sejam jogadas no vaso sanitário ou no lixo mesmo, mas se eu fosse enterrado gostaria que estivesse escrito na minha lápide:


  • Labuta de um quase concurseiro

    Joguei meus cadernos no lixo três semanas antes de saber que o concurso ia sair. Foram dois anos estudando, minguando as horas de sono e deixando o lazer para depois. Fumava uma carteira de cigarros por dia e isso era toda a minha diversão. O restante do tempo, ou trabalhava na loja ou estudava. Alguns amigos com quem saía me abandonaram, parece que desertei da vida ou virei um alienígena. Se pensar bem, no nosso país, quase todo mundo que estuda a sério é meio alienígena.

    Sempre fui vidrado nos livros do Erich Von Däniken e confabular sobre os deuses astronautas é um dos meus assuntos preferidos. Eu gosto dessa coisa de alienígenas. Talvez pensar que exista algo mais inteligente que o homem (o que não é muito difícil) em algum lugar por aí, me faça ter um tantinho de esperanças de que a vida não seja só isso, sabe? Só esse negócio da realidade construí por boa parte da vida, que se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual uma jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar o domingo regado a chás e remédios, e recomeçar. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual um jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar um domingo regado a chás e remédios, e recomeçar.

    Sim, estou generalizando e aumentando. Nem todo mundo bebia igual uma jamanta e quase ninguém transava, mas sempre estava no cio. Eu curtia essa vida, mas acabava arrependido no domingo, principalmente depois dos quarenta. Essa história de que os cinquenta são os novos quarenta, de que os quarenta são os novos trinta e assim por diante, vai fazendo a gente achar que é jovem para sempre e isso é absolutamente irritante. Gente jovem é chata e tem energia para fazer a sua chatice ser estrondosamente incômoda. Percebi isso quando estava lendo o Viagem a Kiribati, do Däniken, e o meu vizinho lavava a sua saveiro rebaixada com o som absurdamente alto, tocando uma música tão pornográfica que fiquei de pau duro. Aquilo era patético, principalmente porque eu tinha brochado umas duas vezes no mês anterior.

    Na crise dos quarenta, comecei a pensar na vida e decidi que pararia de viver como um adolescente. Sim! Eu era o tio da balada que muito raramente comia alguém, mas que estava sempre lá, louco para gastar o dinheiro que os jovens não têm e pronto para qualquer parada, achando que essa fase nunca terminaria. A gente só enxerga o quão estúpida é essa situação quando a poeira baixa. Nessa época decidi que faria um concurso. Escolhi, comprei cursos, organizei meus horários, deixei as baladinhas, reduzi quase completamente as saídas para beber, me isolei, meti a cara nos livros, e o concurso não abria.

    Estudava dia e noite, não tinha tempo para mais nada. Comecei a ficar mais triste, ou mais culto. No fundo, sem admitir, acho que sentia uma ponta de saudades do tempo em que saía toda semana e não me importava com nada. Por outro lado, não queria voltar para aquele estado. Vivia um estranho paradoxo, mas continuei estudando.

    O concurso simplesmente não abria e, vez ou outra, batia a sede de uma cervejinha gelada e inflacionada numa balada sem graça com músicas horríveis, do lado de meninas desconhecidas e com idade para serem minhas filhas. Acho que isso vicia um pouco. Deveríamos talvez criar um grupo parecido com os AA para nos apoiarmos, poderia ser algo como o Tio Da Balada Anônimos ou coisa do gênero. No entanto, era melhor manter o foco no concurso de data indefinida. Ouvi várias vezes os professores dizendo para esperar mais um pouco e mais um pouco. Comecei a achar que só queriam o meu dinheiro. Talvez estivesse paranoico.

    Uma noite calorosa de sábado, cansado de estudar, fui até um bar perto de casa, jurando que tomaria uma única gelada e voltaria. Feliz ou infelizmente encontrei alguns conhecidos que não via há muito tempo. Bebemos até amanhecer, rimos muito relembrando histórias, falamos de futebol, mulheres e outras bobagens de gente bêbada. Que saudades. Nem percebi o tempo passar e aquilo foi realmente relaxante. Meus pensamentos rondavam a desistência e acabei diminuindo as horas de estudo. Parei de frequentar as aulas e de quando em vez dava uma conferida nas matérias em casa. Na verdade, só pensava no concurso quando limpava a casa e via os livros e cadernos um tanto quanto empoeirados em cima da escrivaninha. Fui aceitando a derrota.

    Fiquei sabendo, tempos depois, que o edital do meu concurso havia sido lançado, quando as únicas informações que rondavam a minha cabeça eram os deuses astronautas e a festa do sábado seguinte. Não adiantava mais, eu não lembrava do conteúdo e tinha me desfeito dos materiais. Aqueles dois anos, no fim das contas, seriam uma mancha na minha biografia.

    Passados alguns meses, acabei aceitando um bico em um domingo à tarde para ter alguma coisa a fazer e ganhar um dinheirinho. Por ironia do destino, fui um dos aplicadores da prova do concurso para o qual estudei durante tanto tempo. Dolorosa ironia. Tive pena daqueles muitos concorrentes. Sabe-se lá o que estavam deixando de lado para tentar aquela vaga. Inocentes, talvez. Pelo menos tinha conseguido uma transa na noite anterior. Gente fina, a menina, mas acho que roubou uma garrafa de vinho que estava guardando para uma ocasião especial. Do concurso tirei apenas os cento e cinquenta reais que ganhei para aplicar a prova. Daria outra garrafa de vinho. Ou nem isso.

    *Publicado originalmente em 16 de out. de 2022, 21:30

  • O vaticínio

    Um pouco de tradição e nostalgia guarda o que há tempos foi um clássico do futebol carioca: Flamengo x Bangu. Lembrando que craques como Zizinho, Domingos da Guia e Zózimo já vestiram a camisa dos dois clubes.

    O primeiro título do Flamengo no Maracanã foi em cima do Bangu, o Torneio Início (aquele do jogo em 15 minutos e no final a disputa por pênaltis) de 1950. Embora na estreia do Flamengo no estádio, o Bangu tenha vencido por inacreditáveis 6×0 – até hoje a maior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã (igualada uma vez, pelo Botafogo, em 1972, com direito a resposta digna e à altura no 6 a 0 do gol do Andrade, no Carioca de 1981).

    Exceção feita à briga generalizada, capitaneada por Almir Pernambuquinho na final de 1966, o Flamengo foi feliz em decisões com o Bangu. Em 1915, se sagrou bicampeão carioca, e em 1943 a história se repetiu, com o Flamengo conquistando novo bicampeonato ao vencer o Bangu. Em 1948, o Flamengo jogou com o Bangu na inauguração do Estádio de Moça Bonita e, como bom convidado, perdeu o amistoso por 4 a 2.

    Duas conquistas da Taça Rio pelo Flamengo foram em decisões com o Bangu, com igual placar e gols do mesmo jogador. Em 1983, o Flamengo conquistou a Taça Rio no Maracanã, com gol de Adílio; e em 1985, voltou a conquistá-la, vencendo o Bangu no Maracanã, coincidentemente com gol de Adílio.

    Deslizes, glórias e tragédias à parte, o retrospecto histórico aponta uma grande superioridade rubro-negra.  Assim, são 217 partidas, com uma larga vantagem do Flamengo, com 136 vitórias, 32 empates e 49 derrotas.

    A favor do Bangu o fato de ter sido um dos pioneiros do futebol nacional a contar com jogadores negros e operários em seu elenco, o que levou outros clubes a seguirem o exemplo, transformando a prática do futebol – até então um esporte elitista – num espaço bem mais democrático.

    Apesar de o Flamengo ser o clube das massas, e muitos atribuirem ao Vasco da Gama a primazia da inclusão de negros no time, na verdade foi o Bangu (mais um vice do Vasco). Em 1905, Francisco Carregal foi o primeiro jogador negro a praticar futebol oficialmente no Brasil, atuando pelo Bangu e depois se tornando tesoureiro do clube. O enfrentamento ao racismo não foi uma tarefa simples. O Bangu se retirou do Campeonato Carioca, em 1907, e só voltou quase dez anos depois, quando finalmente a federação aceitou os seus atletas negros.

    Como se vê, inescrupulosos e incompetentes no comando das federações de futebol vêm de longa data.

    Mas o jogo do Flamengo e Bangu que me interessa contar aqui, e que não decidiu nada e nem teve maiores consequências, é bem pouco conhecido e se passou numa esquecida noite de 19 de julho de 1973. Naquele tempo a televisão não transmitia as partidas porque os dirigentes temiam que isso retirasse os torcedores dos estádios.

    Era também época da novidade do videotape, e as tevês podiam apresentar o jogo horas depois do seu término. A opção do torcedor para asssitir ao jogo com mais emoção era não saber o resultado e ver pelo videotape, mais ou menos no começo da madrugada, quase no fim da programação. Naquele dia 19 de julho, eu fiz o recomendado: não liguei o rádio, tomei o cuidado de não saber o resultado e aguardei com paciência o jogo no videotape.

    A televisão que passava a partida, se não me engano, era a Tupi, tinha como comentarista esportivo o saudoso Ruy Porto. Gaúcho de Garibaldi, inicialmente locutor e que hoje é nome de uma rua na Barra, ficou famoso quando, na Copa de 70, chamou a bola de “leviana” ao comparar o seu peso, mais leve do que nas outras competições…

    O jogo transcorria e o primeiro tempo terminava com a vantagem rubro-negra de dois gols. Nos comentários de praxe no intervalo, nosso Ruy avisava que o Flamengo tramava bem, criando jogadas e finalizando, mas que o Bangu se encontrava vivo na partida e poderia reagir. Foi quando alertou os telespectadores, na maioria torcedores do Flamengo, tratar-se de um jogo parelho e que todos não se iludissem, esperando por um jogo fácil. Era aguardar a segunda etapa e certamente aquele jogo não viraria uma goleada, de cinco, seis, sete ou oito a zero, por exemplo.

    Vieram os anunciantes e o jogo reiniciava seu segundo tempo. O Flamengo, avassalador para desespero do Ruy, marcava um gol após o outro e, diante do locutor sem graça e de um comentarista agora calado, aplicava contundente goleada. Final: Flamengo 8 x 0!

  • Simplesmente Thogun!

    Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma.

    A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências.

    Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória.

    Crônicas Cariocas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?

    Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade. Mas reconheço que, se não fosse o mano Thales — produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca — eu não teria conseguido.

    Crônicas: Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles, o longa Notícias de uma Guerra Particular. O que esses dois filmes têm em comum?

    Thogun: Cara, eu assisti ao filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.

    Crônicas: Em Fala Tu, os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão, por exemplo — outro rapper que participou do filme — perdeu a mulher, vítima de eclâmpsia, durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?

    Thogun: É forte, e isso acontece com as mães de baixa renda em todo o território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto só de pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.

    Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?

    Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.

    Crônicas: Você filmou para Fala Tu no hospital onde seu pai estava internado por causa de um câncer, e ele faleceu antes do lançamento do filme. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?

    Thogun: Deu para alcançar o perdão. O meu de filho e o dele de pai.

    Crônicas: Como surgiu o convite para participar da série da HBO Filhos do Carnaval (que agora está sendo reprisada aos domingos)?

    Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem ao Fala Tu. Os diretores Cal Hambúrguer e César Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem. Fiz dois testes e passei.

    Crônicas: Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?

    Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois até Filhos do Carnaval eu não era ator.

    Crônicas: Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo, Henrique Diaz e o próprio Jece Valadão?

    Thogun: Senti-me premiado, e esses caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr. Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda! Muito bom ator.

    Crônicas: Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?

    Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG chamada Qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.

    Crônicas: Como é o convívio com outros rappers do Rio?

    Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático. Vale a postura de cada um.

    Crônicas: Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?

    Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.

    Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?

    Thogun: As faculdades que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!

    Crônicas: Você acompanha a política brasileira?

    Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.

    Crônicas: O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?

    Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente, com verdade, desse processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.

    Crônicas: O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?

    Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar à frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e ser protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam. Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber, verdadeiramente, se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes. Porque realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz! Saudações quilombolas!

  • Um pouco de felicidade

    Particularmente, eu gosto da Praça Mauá. Passo por ela quase todos os dias, indo ou voltando do trabalho. O trânsito é estressante, as pessoas se esquivam sem se olhar, e ainda assim me agrada. De manhã, o corre-corre assusta: passos apressados, buzinas impacientes, motoristas malcriados. Afinal, ali começa a Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas eu gosto. Gosto de saber que, no meio do caos, ainda sobrevive um restinho de boemia, um fiapo de solidariedade.

    À noite, tudo se transforma. É como se a praça trocasse de pele. A agitação continua, mas de outro jeito, paradoxalmente mais lento.

    Às vezes, sem motivo nenhum, sento num banco e fico ali, quieto, por horas. Observo o vaivém frenético dos carros, o tropeço dos transeuntes. E, no fim, o que me prende sempre é o ser humano.

    Foi assim que conheci a família de Zirão. Ele dizia ter vinte e seis anos, mas aparentava mais de trinta. Ainda assim, liderava sua pequena tropa com calma. A mulher, bem mais velha — quarenta, talvez quarenta e cinco — observava seus gestos com um ar de aprovação. O filho mais velho, um garoto de uns treze anos, a caçula de seis e dois cães vira-latas completavam o retrato.

    Zirão não se curvava à vida, mesmo vivendo na rua. Era ele quem dobrava os panos usados na noite anterior e os guardava na sacola. Era ele quem ralhava com o filho por “passear” pela Cinelândia e Praça 15, enquanto afagava a cabeça da menorzinha, choramingando inconsolável por não encontrar a boneca seminua e rabiscada, o único brinquedo que possuía. Pedia paciência à mãe, que resmungava sobre o café aguado, sem ser exatamente ríspida. E, no entanto, havia ali uma felicidade que não sei explicar. Realmente, talvez, felicidade não seja algo que se explique.

    Fiquei imaginando se aquela felicidade deles poderia, por encanto, se tornar a minha também. Sem perceber, já não apenas observava: me metia, opinava, aconselhava. Foi assim que ouvi fragmentos das histórias deles. Zirão, tão novo, já no terceiro “casamento” — como ele mesmo dizia, com aspas invisíveis para casamento — afirmava que, finalmente, encontrara a paz. Sonhava ver a filha veterinária, já que ela adorava cuidar dos bichinhos. Obedecia às Leis Divinas e dizia esperar nunca mais sair das ruas: queria a casa sonhada, mais uns vinte anos de vida para ver os filhos felizes. Ele mesmo fazia as contas: vinte e seis que tinha, mais vinte que desejava, cinquenta e seis. “Já dá pra ver os sonhos acontecendo”, repetia, embora reconhecesse que quem vive nas ruas, vive menos.

    Volta e meia, passo pela Praça Mauá à procura da família de Zirão. Às vezes, levo uma comida ou um brinquedo para a menina. Outras vezes, só vou para vê-los e não esquecer que a felicidade, quando verdadeira, custa muito pouco.

    Texto originalmente postado em 05/08/2026*

  • Sal ou doce? — Biscoito Globo, quem vai?

    Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade.

    As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”.

    Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais do que o próprio biscoito. A vontade do quero-mais é um vício que se disfarça de hábito.

    Semana passada, algo mudou. No lugar do velho Globo, um novo concorrente se impôs: o Biscoito Extra. Saquinho branco também, mas com outra estampa. Uma garotinha segurando a rosquinha no alto, o Pão de Açúcar desenhado abaixo, e atravessando tudo a palavra “extra”, azul turquesa sobre fundo amarelo. Por um instante, parece o mesmo. Mas não é.

    Gabriel, um dos donos, jura que a matéria-prima é a mesma. E talvez seja mesmo. Mas não é disso que se trata. Ao mastigar o Extra, sinto como se cometesse uma pequena traição. Globo é memória, é fidelidade, é aquilo que a gente carrega sem precisar explicar. Como quem bebe Coca-Cola e insiste que Pepsi não é igual. Pode até enganar, mas não convence.

    Não sei se o carioca vai trocar um pelo outro. Eu, pelo menos, não consigo. Talvez no fim das contas nem importe. Porque os ambulantes continuarão a impor seus produtos, e a cidade seguirá engolindo-os, distraída, como sempre foi.

    E lá se repete a pergunta, reformulada:

    — Doce ou salgado? Biscoito de polvilho Extra, quem vai?

    *Escrito originalmente em: Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2006

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar