Ainda que criada em uma família católica, não fui incentivada à tradicional celebração do Dia de Finados. Não visitávamos túmulos nem levávamos flores. Íamos à igreja, e minha mãe acendia uma vela para seus mortos, porque nós, seus filhos, só achávamos o dia triste e ruim para brincar na rua. A tristeza dos adultos à nossa volta não chegava a nos tirar o desejo comum a qualquer criança: viver.
A vida demorou a nos impactar com a “Indesejada das gentes”. Quando o fez, usou o argumento da velhice. Levou-nos o avô e, tempos adiante, o bisavô. Nunca é fácil, mas é mais suave quando conseguimos racionalizar.
A morte do meu bisavô levou-me pela primeira vez a um velório, lugar que eu pensava ser um espaço de tristeza e choro sem fim. Não era. Pelo menos, não aquele. Encontrei ali parentes desconhecidos, velhinhos carecas ou com cabelos algodoados, mas, principalmente, encontrei deliciosas histórias e um riso solto de quem tinha sabedoria suficiente para entender que, naquela cena, todos, em algum momento, seriam os personagens principais. Chorando ou não, a vida seguia e eles, diante do inexorável, escolhiam rir.
Meu biso foi sepultado na terra. Voltou ao pó coberto por pétalas de rosa. Um de seus amigos, completamente bêbado depois da noite no velório, reclamou:
— No meu, não quero flores! Joga cachaça.
Tempos depois, seus filhos atenderam ao pedido. Seu Zé Rodolfo, um baixinho divertido e cheio de histórias, voltou ao pó ensopado por sua branquinha preferida.
Acreditava, acima de tudo, que continuaria sua festa do outro lado.A tradição popular diz que Finados é dia de festa dos mortos. Imagino as piadas picantes e a gargalhada aguda do Seu Zé, já trocando as pernas, amparado por outros.
Meu biso tentando pregar peças ou fazendo seu café retinto para comemorar. Talvez acompanhado por Ringo e Brigite. Vô Zé cruzando o salão, dançando com vó Vita, enquanto ela reclama que ele não está dançando direito. Tia Laura e tio Alfredo implicando um com o outro enquanto assistem a uma partida de futebol. Tio Hélio aproveitando para vender picolé e Creuza fazendo seu doce de banana com suspiro.
— Oxente, oxente, oxente! — Vó Maria se espanta quando Seu Sebastião, meu pai, chega e a chama para dançar.
Embora a imaginação viaje e tente trazer à nossa memória aqueles que se foram, viver é para os que aqui estão.
Afinal, a vida é daqui para adiante!