Editor Francci Lunguinho

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old school & fashioned , propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

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