Em boa hora

  • Em boa hora

    Fui arrebatado por aquele olhar. Nem sabia que sentimento algum podia me pegar. Profetizei, seguro, que não me “juntaria” com alguém até estabilizar a minha vida financeira. Depois que acabei o namoro com Daniela, com quem achava que iria casar (um namoro morno e regular), resolvi me dedicar aos estudos e à profissão. Sou recém-formado em Odontologia (faz três anos que concluí o curso) e estou fazendo das tripas coração para montar um consultório no centro da cidade, pois a movimentação lá é grande. Ainda atendo por consultórios terceirizados, incansavelmente, dia e noite, para juntar a minha grana e montar o citado consultório. É o meu sonho, e é nisso que me fio. Acreditava que não tinha tempo para pensar em coisas diferentes disso. Liana fez com que eu quebrasse a promessa. Ela é inteligente e sensível, duas características que me atraem. Logo senti uma tranquilidade no coração. Já não era movido por tantas obrigações, para um fim que poderia ser incerto. Eu estava apostando todas as fichas no lugar errado, somente na profissão. Liana, então, quieta, chegou aos poucos, sem se afobar. Parece que ela sabia que eu era uma onça cismada. Tomou a iniciativa de falar comigo quando pegamos o elevador no seu sexto andar, no dia 16 de janeiro. Ela, ao contrário, era aberta, expansiva, e não tinha dificuldade de se relacionar; tanto que provou ser uma mulher encantadora. Depois de muita conversa no WhatsApp, combinamos de tomar um vinho no restaurante Santi. Foi uma noite maravilhosa, onde em que pudemos mostrar os nossos defeitos e qualidades, rindo bastante de alguns comportamentos que os dois tinham, algo parecido. Éramos bondosos e prestativos, duas qualidades que distinguimos no ato. Ela cuidava da mãe viúva, e eu, do pai viúvo. Rimos até da possibilidade de apresentá-los um ao outro, para ver se dava rock. A conversa sempre fluía lindamente. Nunca tinha acontecido isso na minha vida: me “juntei” com quatro meses de relacionamento. Não podíamos viver afastados. Diminuí o trabalho para ficar mais um pouco admirando a sua beleza. A mulher tem uma aura inebriante – sou suspeito para falar. Antes, morávamos sós (essa informação privilegiada ela deve ter conseguido com o Jorge, o porteiro bocão). Hoje, moramos juntos, no meu apartamento, já todo montado e estruturado, com cama de casal (sim, o meu subconsciente já previa um relacionamento). O dela está alugado (renda extra para uma jornalista freelancer). Formamos uma linda família, com quatro gatos (juntamos nossos dois pares). Ela espera o nosso neném e está deitada à minha frente, dormindo, sonhando, com leves espasmos; com as pernas estiradas e as mãos postas embaixo da cabeça, deixando-se bela, como um anjo de candura. Nunca esperei um amor assim.

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