Falou e Disse

  • Evite o abuso do verbo “fazer”

           — O que o músico faz em comum com o sapateiro?

           — Sola.

           No diálogo acima há um jogo de palavras que se apoia na homonímia da palavra “sola”. Ela é verbo e substantivo. Significa, no primeiro caso, o ato de “executar um canto ou solo”. E no segundo, a “sola do sapato”.  

         O jogo de palavras só foi possível graças ao emprego do verbo “fazer”. Ele significa “produzir, confeccionar” no que diz respeito ao ofício do sapateiro (“sola”, ou “solado”, é mesmo o que o sapateiro faz). No que tange à atividade do músico, “fazer” não tem sentido próprio; substitui o verbo “solar”. Ou seja: é um verbo vicário.

          Vicários são os termos que aparecem no lugar de outros. Pronomes, numerais, advérbios (sim e não) e o verbo “ser” também desempenham esse papel. Veja alguns exemplos: “Pedro desistiu de concorrer a uma vaga para medicina. Ele não tinha esperança de passar”, “Veio acompanhado de um irmão e um primo; o primeiro era mais educado do que o segundo”, “Você gosta de cinema? Sim (ou seja: gosto)”, “Se desistiu, foi porque não teve o estímulo da família (quer dizer: “desistiu porque não teve o estímulo da família)”.

          O verbo “fazer”, seguido ou não de pronome, pode substituir qualquer verbo de ação da língua portuguesa. Uma pergunta como “O que você faz?” admite como respostas frases do tipo: “Estudo”, “Construo prédios”, “Organizo eventos” etc. “Fazer” toma o lugar de todas essas ações.

              A amplitude semântica desse verbo pode levar a abusos no seu emprego. É quando, em vez de empregar uma forma verbal específica, usa-se “fazer” seguido de substantivo. Eis alguns exemplos retirados de redações: “Decidiu-se fazer a votação de duas propostas bem especiais”, “É preciso fazer uma avaliação honesta do que está ocorrendo no País”, “O governo precisa fazer uma sondagem na opinião pública”.  

              Devem-se evitar essas construções perifrásticas. O texto ganha em economia e expressividade quando elas são substituídas pelos verbos correspondentes. Por que não dizer “votar duas propostas” “avaliar honestamente” ou “sondar a opinião pública”?  Além de ter mais energia do que o nome, o verbo designa diretamente a ação. 

              Há casos em que o conjunto “verbo mais substantivo” é pertinente (como em “fazer um levantamento”), mas na maioria das vezes ele afrouxa a expressão.


  • Compulsões

    Vejo uma reportagem na TV sobre compulsão. A repórter entrevista alguns compulsivos, que falam sem pudor de suas manias. Uma mulher só se sente feliz quando faz compras. Mostra no guarda-roupa uma porção de vestidos, blusas, sapatos que jamais vai usar.

    Um homem expõe sua monumental coleção de CDs, que se empilha por vários cômodos da casa. Ele não dará conta disso nem que passe o resto da vida ouvindo música. E será que gosta mesmo de música? Quem gosta elege seus compositores preferidos e os ouve repetidas vezes, sem esse afã de substituí-los por outros. Gostar é resumir, selecionar. Mas o compulsivo não avalia méritos, qualidades; o que o motiva é a satisfação mecânica de seus impulsos.

    A psicologia cognitivo-comportamental associa os gestos compulsivos a obsessões de que o indivíduo procura se libertar. O pensamento obsessivo aponta para um perigo a que a pessoa fica exposta caso não pratique os rituais de repetição. Neste sentido, comprar sem motivo ou fazer ginástica sem limites seriam pequenas mortificações para afastar uma ameaça ilusória. Ou para apaziguar uma consciência culpada.

    Essa cadeia de mortificações constitui no limite um distúrbio sério, em que os gestos compulsivos ganham uma espécie de autonomia que faz a pessoa esquecer o que está querendo purgar. É como no tique nervoso, ou no cacoete, que são caricaturas de prece. O indivíduo ritualiza, com trejeitos corporais, uma reza sem sentido. Ou uma reza que, pelo menos no início, só tem sentido para ele.

    Quem não tem suas compulsões? Aquele que não as tiver atire a primeira pedra (os escritores têm as frases feitas, que são compulsões linguísticas). Alguns as disfarçam em atividades nobres, como a arte ou a política. Outros as sublimam nos rituais religiosos. Outros por fim as vulgarizam em jogos, vícios, exercícios físicos.

    Minha tese (nada original) é que o excesso de atividade física é uma tentativa de afastar o medo da morte. A consciência de que está exercitando coração e músculos, e com isso combatendo o exército mau de triglicérides e ácidos graxos, dá à pessoa uma ilusão de plenitude. Ou de inexpugnabilidade.

    Alguns dizem que o que leva a tal excesso é o acúmulo de endorfina, mas isso não invalida a tese. As preces são uma endorfina da alma, e também se justificam por nossa recusa em morrer.

    As compulsões mostram que é tênue o limite entre sanidade e doença mental. Mesmo o indivíduo “normal” tem, como diria Machado, seu grau de sandice. Curar os compulsivos seria curar o mundo, e quem tentasse fazer isso teria o destino de Simão Bacamarte – aquele personagem machadiano que, ao buscar distinguir os doidos dos sãos, termina recolhido sozinho a um hospício.

  • A voz da casa

    Ao chegar em casa, notou que alguma coisa estava errada. A mulher e um dos filhos, em pé na sala, empunhavam cartazes. O do rapaz dizia: “Agora é tudo ou nada! Aumento na mesada!”. A esposa não fizera por menos: “Basta de ladainha. Homem também cozinha!”. Tudo rimado, para soar mais forte.

    — Que é que está havendo?! Isso é brincadeira?

    — Brincadeira coisa nenhuma! Nunca falamos tão sério! — gritou um dos adolescentes, que tinha o rosto pintado de verde e amarelo.

    Pouco a pouco, ele foi se dando conta do que se passava. Sua família entrara na onda de manifestações que varria o País. Eis no que deu ficarem tanto tempo acessando o Facebook, o X, ou vendo televisão. Respirou fundo, imaginando uma saída:

    — Calma, pessoal. Vamos conversar.

    — De conversa estamos cheios! — rebateu a garota, que tingira parte dos cabelos de azul e mandara colocar um piercing na orelha esquerda — para simbolizar as algemas em que se sentia aprisionada. Uma de suas reivindicações era viajar sozinha com o namorado, o que o pai terminantemente proibira.

    — Está bem, vou pensar no assunto. Mas vocês não acham que a gente devia primeiro consultar outros membros da família? Seus avós, por exemplo. Eles têm experiência.

    — Um plebiscito familiar? — protestou o rapaz. — Nunca! Isso é uma manobra diversionista, um expediente protelatório para enfraquecer nossas reivindicações. O senhor tem que nos responder agora.

    — Está bem, vamos nos sentar. E podem baixar os cartazes. Sobretudo você, Elvira, que tem câimbra quando fica muito tempo com os braços numa posição só. Quero ouvir um por um.

    Quando o mais velho começou a falar, ouviu-se uma barulheira infernal no quarto do caçula. Correram para ver o que era. Lá se depararam com uma cena inédita naquele cenário até então doméstico e ordeiro: cama virada, roupas pelo chão, sapatos empilhados fora da sapateira, e no centro o menino segurando um cartaz onde se lia: “Fora Barrabás! Castigo nunca mais!”.

    Elvira ficou desesperada ao ver o quarto todo revirado. Quem iria arrumar?! Os mais velhos também não concordavam com aquilo. O pai aproveitou a deixa:

    — Acabou-se! Não vou mais ouvir nem atender ninguém.

    — O senhor não pode fazer isso, pai — implorou a menina. — A gente também não aprova o que ele fez. Ninguém aqui é a favor de quebra-quebra.

    — Isso, velho. Foi um ato solitário, individual. Zequinha é um vândalo.

    Não faz parte do nosso movimento. Merecia até ser dispersado com gás lacrimogêneo.

    — Gás lacrimogêneo?! Ele vai chorar, sim, mas por outra razão.

    Dito isso, foi ao quarto pegar o chinelo. Antes de ir se entender com o caçula, fez questão de dizer bem alto para que os outros ouvissem:

    — Por enquanto as manifestações estão suspensas. Até segunda ordem.

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