Francci Lunguinho editor

  • A meia do Juju

    As pintinhas vermelhas pelo chão eram de sangue. Rex havia quebrado uma unha e deixado um rastro pelo terraço. Se doeu, não reclamou. Ele quase nunca late.

    Apenas continuou andando em círculos pelo terraço, deixando o piso cada vez mais marcado. Por causa da demência, ele não sabe parar. Talvez nem tenha percebido o machucado. Nem a dor.

    Deu pena vê-lo assim.

    Paty tentou fazer um curativo, mas as ataduras não paravam no lugar. Foi quando me lembrei de uma meia que havia sido do Júnior, nosso outro cocker.

    Juju usava aquelas meias quando ficou velhinho e começou a ter dificuldade para descer as escadas. Eram antiderrapantes. Na época, pareciam apenas mais um daqueles pequenos gestos que fazemos por quem amamos quando a velhice chega.

    Depois que Júnior morreu, uma das meias ficou guardada.

    Às vezes fazemos isso. Guardamos pequenos objetos de quem se foi: uma fotografia, uma coleira, um brinquedo, uma roupa, uma meia. Coisas que perderam a utilidade, mas que, por alguma razão, não conseguimos jogar fora.

    O tempo passa. Elas permanecem quietas dentro de uma gaveta, até que, um dia, voltam para nossas mãos. E então deixam de ser simples objetos. Transformam-se em lembranças, em boas histórias. Em breves sentimentos entre aquilo que passou e aquilo que ainda está aqui.

    Hoje, anos depois, a meia do Juju saiu novamente da gaveta. Dessa vez, para proteger a pata machucada do Rex.

    A mesma meia que um dia ajudou Juju, velhinho, a não escorregar pela casa, agora protegia outro cão que também envelheceu e precisava de cuidado.

    Fiquei pensando em como a vida é curiosa.

    Uma coisa deixa de ser necessária, é guardada e parece ter chegado ao fim de sua utilidade. Até que, um dia, alguém precisa dela outra vez.

    Juju morreu em 2018. Mas hoje, de algum modo, uma parte dele voltou a caminhar pela casa.

    Não para que pudéssemos vê-lo. Mas para nos lembrar, mais uma vez, da sorte que é ter um cão.

  • O mal-entendido

    Ela tinha oito anos. Voluntariosa, engraçada, decidida, solidária. Ficava horas a desenhar. Implorava aos pais que parassem na rua e dessem de comer aos cães abandonados. Alma caridosa e artista por vocação. Tinha uma cadela, a Princesa, negociada em seu aniversário de seis anos.

    — Já que não vão me dar um irmão no meu aniversário de seis anos, desejo um cachorro.

    E assim foi. 

    Defensora fervorosa dos animais, e confiante nas palavras do ser humano, não imaginava sofrer por uma galinha.

    Numa tarde, em casa com o pai, este a convida:

    — Filha, vamos comprar uma galinha?

    Ela logo entusiasmou.

    — Oba! Vamos!

    Se arrumou cuidadosamente. Penteou os cabelos ondulados e nada de chinelos. A ocasião pedia belo calçado.

    Lá foram os dois. O aviário ficava a poucos minutos a pé, de casa. Que aliás, tinha um enorme quintal à volta.

    Enquanto caminhavam, a menina pensava como seria a vida com a nova amiga.

    Que nome darei à nova mascote? Tem que combinar com o nome da Princesa. Pororoca? — grande demais na hora de chamar. Pérola. — não combina. Penélope? — gostei! Igual ao desenho da “Corrida Maluca”, “Penélope Charmosa”. Vou escolher uma galinha bem branquinha e colocar um laço rosa.

    Chegaram.

    — E aí, boa tarde! — cumprimentou o vendedor. — O que vão querer?

    A menina serelepe, imediatamente respondeu:

    — Uma galinha bem bonitinha.

    — Pode escolher. — autorizou o homem sorrindo, apontando para um cercado enorme no chão, na lateral do recinto.

    Local de azulejos que um dia tinham sido brancos e o chão emitia cor indefinida entre o cinza, marrom e preto. O cheiro forte de fezes aviárias incomodava a menina.

    Retorcendo o nariz a filha só queria escolher a nova amiga e sair dali.

    Esse lugar não é para bicho nenhum morar.

    Prestes a ter mais uma mascote, extasiada, se aproximou das penadas.

    Tem que ser bonita. Penas branquinhas. Cara de brava pra se defender da Princesa. Não muito grande, pra pegar e abraçar. 

    — Aquela ali que tentou voar. — falou apontando o dedo para a eleita.

    — A mocinha é quem manda. — disse o homem que exibia um palmo de barriga, incapaz de ser acolhida pela camiseta.

    Passado alguns minutos…

    — Tomem a galinha.

    O homem entregou dois sacos grandes onde jaziam a morimbuda penada e um saquinho com o sangue da vítima, que viraria molho pardo.

    A menina empalideceu.

    — Você matou a minha galinha. — desandou a chorar. — Assassino! — e tentou socar a saliente barriga.

    Sem entender a atitude da filha, o pai a deteve. 

    — Que isso, filha! 

    — Ele matou a minha Penélope! — chorava, dolorosamente.

    O pai, sem graça e atrapalhado, não sabia se pedia desculpas, segurava os sacos com a vítima ou acalentava a filha.

    Na caminhada de volta o pai tentou, inutilmente, explicar o motivo do assassinato da penosa. 

    — Filha, você entendeu errado.

    Apegada a ideia da mascote-galinha, a menina aos prantos gritava: 

    — Assassino! Assassino! Assassino!

    E os pedestres olhavam interrogativamente para o pai.

    Explicações em vão.

    Palavras precisam de clareza e intenções inconfundíveis, principalmente ao serem ditas às crianças.

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

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