Francci Lunguinho editor

  • O mal-entendido

    Ela tinha oito anos. Voluntariosa, engraçada, decidida, solidária. Ficava horas a desenhar. Implorava aos pais que parassem na rua e dessem de comer aos cães abandonados. Alma caridosa e artista por vocação. Tinha uma cadela, a Princesa, negociada em seu aniversário de seis anos.

    — Já que não vão me dar um irmão no meu aniversário de seis anos, desejo um cachorro.

    E assim foi. 

    Defensora fervorosa dos animais, e confiante nas palavras do ser humano, não imaginava sofrer por uma galinha.

    Numa tarde, em casa com o pai, este a convida:

    — Filha, vamos comprar uma galinha?

    Ela logo entusiasmou.

    — Oba! Vamos!

    Se arrumou cuidadosamente. Penteou os cabelos ondulados e nada de chinelos. A ocasião pedia belo calçado.

    Lá foram os dois. O aviário ficava a poucos minutos a pé, de casa. Que aliás, tinha um enorme quintal à volta.

    Enquanto caminhavam, a menina pensava como seria a vida com a nova amiga.

    Que nome darei à nova mascote? Tem que combinar com o nome da Princesa. Pororoca? — grande demais na hora de chamar. Pérola. — não combina. Penélope? — gostei! Igual ao desenho da “Corrida Maluca”, “Penélope Charmosa”. Vou escolher uma galinha bem branquinha e colocar um laço rosa.

    Chegaram.

    — E aí, boa tarde! — cumprimentou o vendedor. — O que vão querer?

    A menina serelepe, imediatamente respondeu:

    — Uma galinha bem bonitinha.

    — Pode escolher. — autorizou o homem sorrindo, apontando para um cercado enorme no chão, na lateral do recinto.

    Local de azulejos que um dia tinham sido brancos e o chão emitia cor indefinida entre o cinza, marrom e preto. O cheiro forte de fezes aviárias incomodava a menina.

    Retorcendo o nariz a filha só queria escolher a nova amiga e sair dali.

    Esse lugar não é para bicho nenhum morar.

    Prestes a ter mais uma mascote, extasiada, se aproximou das penadas.

    Tem que ser bonita. Penas branquinhas. Cara de brava pra se defender da Princesa. Não muito grande, pra pegar e abraçar. 

    — Aquela ali que tentou voar. — falou apontando o dedo para a eleita.

    — A mocinha é quem manda. — disse o homem que exibia um palmo de barriga, incapaz de ser acolhida pela camiseta.

    Passado alguns minutos…

    — Tomem a galinha.

    O homem entregou dois sacos grandes onde jaziam a morimbuda penada e um saquinho com o sangue da vítima, que viraria molho pardo.

    A menina empalideceu.

    — Você matou a minha galinha. — desandou a chorar. — Assassino! — e tentou socar a saliente barriga.

    Sem entender a atitude da filha, o pai a deteve. 

    — Que isso, filha! 

    — Ele matou a minha Penélope! — chorava, dolorosamente.

    O pai, sem graça e atrapalhado, não sabia se pedia desculpas, segurava os sacos com a vítima ou acalentava a filha.

    Na caminhada de volta o pai tentou, inutilmente, explicar o motivo do assassinato da penosa. 

    — Filha, você entendeu errado.

    Apegada a ideia da mascote-galinha, a menina aos prantos gritava: 

    — Assassino! Assassino! Assassino!

    E os pedestres olhavam interrogativamente para o pai.

    Explicações em vão.

    Palavras precisam de clareza e intenções inconfundíveis, principalmente ao serem ditas às crianças.

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

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