Geovanna Rodrigues Mendes

  • Lendas

    Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos.

    Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). Assim como as dríades, elfos e fadas se despertam, também as bruxas más, os monstros e as bestas afastam-se da hibernação.

    — Vamos, filha. Já está tarde — Grita a mãe.

    — Estou indo, mãe. Estou indo — A criança respondeu enquanto apertava alguns brinquedos na mala estufada.

    A pequena Bartira estava a caminho da casa de sua avó que morava em uma cidadezinha no interior de Goiás chamada São Patrício.

    Ela, o irmão e primos sempre planejavam e imaginavam todas as aventuras que viveriam no sitio.

    Na estrada, Bartira se imaginava pulando pelas árvores que corriam em grande velocidade através da janela do carro. Por fim , adormeceu agarrada a Bilbo, seu coelho de pelúcia marrom.

    Interrompendo seu sono — não muito confortável — escorada junto à janela do carro, Bartira quase caiu quando Rita, não conseguindo conter a ansiedade, abriu a porta do carro sem aviso prévio.

    Ignorando o constrangimento (e os gemidos mal-humorados de Bilbo) ambas saíram saltitando com gritinhos, contemplando todas as possibilidades que viveriam no próximo mês.

    Na primeira semana as cinco crianças ( na realidade, eram seis, mas Ana não era contada por ser muito nova para a aventuras), se mantiveram investigando dentro dos arredores da casa da avó, coisa que era tradição entre os primos. Não encontraram muito mais que alguns parafusos que o avô havia pedido e roupas velhas de gerações que eram guardadas, o que lhes rendeu alguns dias de muita risada e entretenimento.

    No início da terceira semana, durante a noite se ajustaram ao redor de uma fogueira montada no curral do avô para contar seus medos em formato de histórias, era quase como uma competição sobre quem causaria o maior assombro no grupo.

    Bartira foi escolhida para protagonizar a primeira noite, contou-lhes todas as histórias que conhecia sobre o temido curupira.

    Nesta, voltaram em silêncio conferindo os lados da estrada de terra, para prevenir qualquer aparição.

    A segunda noite foi a vez de Tito Tavares tentar a sorte. O rapaz amava os animais, em especial, admirava os equinos. Como uma contradição que carregava, contou a todos a história do personagem que mais temia, e depois daquela noite também temido por todos ali, a mula sem cabeça.

    Na Quarta feira, os gêmeos Andrade dividiram o conto de feitos da caipora, amiga das florestas e inimiga dos caçadores. Ivan detalhou a aparência animalesca e suja da personagem, já que, este morria de medo de tudo que possuía um rosto que não fosse familiar a sua vista. Enquanto Ravi descrevia os assobios que caipora cantarolava ao passo que enrolava a crina dos cavalos desavisados das fazendas, o calor do fogo que carregava aceso em sua tocha e, por fim, os roncos do javali, em que montava. Ravi, que por sua vez, detinha um medo mortal de barulhos sem rostos, concluiu o terror com maestria.

    Na quinta choveu e não houve o encontro, então se contentaram em remarcar para o próximo dia. Todos suspiravam aliviados pela noite sem pesadelos, mas ninguém ousou dizê-lo, pois poderiam ser taxados de covardes pelos primos, que em secreto, também tremiam.

    A noite de sexta foi a pior de todas, a tempestade do dia anterior deixou a aura ainda mais sombria. A lua, por mais cheia que estivesse, era por hora tapada pelas nuvens que passavam e as estrelas piscavam como pequenas bombas prestes a explodir.

    Ventava bastante o que dificultou a montagem da fogueira, mas desta vez não a fizeram no curral, pois o avô naquele dia recebeu gado novo.

    Se a noite pudesse falar, diria a eles para não saírem de casa, quem dera pudessem ter ouvido antes de ser tarde demais.

    Os cinco recorreram ao milharal do tio que ficava a pouca distância da casa. Aquilo mais parecia um labirinto, mas Tito era bom com direções e guiou o grupo até o meio, onde alguns peões descansam em época de colheita. Todos chegaram pingando encharcados pela umidade que as folhas guardaram, a chuva se estendera até a tardinha e havia estiado a pouco.

    Ravi alimentava a fogueira com os galhos mais secos que o irmão havia recolhido, resultado: fogo fraco, amarelo. Todos irritados com o vento frio e a garoa que ainda secava.

    A oportunidade da noite estava com Rita, que preparou seu enredo por dois dias. O monstro escolhido foi o Boitatá, a cobra guardiã dos animais e inimiga de invasores. Durante a história não havia som ambiente, todos os roedores e animais noturnos resolveram se refugiar — a não ser por um.

    A voz da garota de cabelos cacheados se tornou mais séria, em conjunto com a luz fraca do fogo que dançava em suas feições, era impossível taxar todos os acontecimentos narrados como uma invenção.

    Rita se empolgou na descrição das escamas que refletia as fortes chamas que crepitavam em sua cabeça, quando somado a imaginação dos ouvintes, a raiva personificada dos olhos do réptil se tornava palpável.

    Ao decorrer da história, todos abaixo da lua que subia no céu abafado, tremiam, não responsabilizando as rajadas de vento que criavam mais força a cada hora. Em alguns momentos as crianças  pensaram escutar barulhos de passos na estrada ao longe.

    Quando, chegando próximo ao fim da história um ronco se ouviu no meio do milho, Ravi soltou um grito cortado pela mão de Ivan que estava ao lado observando o negro da escuridão junto a Tito.

    Bartira congelou onde estava. Não se atrevendo a mover um músculo sequer.

    — Ele não sabe onde estamos — Cochichou Rita após mais alguns ruídos se afastando.

    — Se mantermos o silêncio, ficamos invisíveis — Concluiu Tito um pouco mais alto que um sussurro.

    Com a ajuda de Ivan, Tito jogou terra úmida na brasa já fria e todos se sentaram quietos. Bartira se agarrou ao braço de Ravi no centro do pequeno círculo, ansiava com todo seu ser estar na casa da avó abraçada a Bilbo.

    Assim que pensaram ter dissipado o-que-quer-que-fosse, uma labareda em movimento se acendeu não muito distante dali, juntamente com um assovio cantado.

    Bartira foi a primeira a notar, e tivera a certeza de ser o moleque de cabeça quente e pés torcidos que falara a dias atrás. Tapou a boca com a mão e se atirou no milharal em desespero.

    Os gêmeos Andrade se entreolharam, seus olhos quase saltando das órbitas, correram juntos na direção oposta a de Bartira. No caminho foram atropelados por um porco gordo que disparava sem direção. O desespero de Ivan foi tanto que vomitou ali mesmo, ambos saíram tagarelando sobre como a caipora os enredou de jeito.

    Rita, ficou algum tempo congelada, apenas o lamento preenchia sua pequena mente de grande imaginação, pensara ter lançado uma maldição sobre todos com seus exageros sobre a pobre cobra. Suada em desespero, seguiu os outros.

    Tito, o mais velho e o único que sabia sair do labirinto, tentou sem sucesso conter a turma antes que se separasse. Ele mesmo chorava, ao notar o fogo da mula sem cabeça perseguindo os vultos que deviam ser os pequenos desesperados. Mergulhado no horror começou a andar em círculos. Ainda tentava chamar para perto os outros com cochichos embargados.

    Aos poucos, cada criança acabou achando a estrada por si mesma, algumas mais rápido que outras, ignorando a dor das pequenas pernas nem sequer olhavam para trás ao rumar a toda velocidade em direção a casa da avó.

    Já era tarde da noite, o satélite noturno já se encontrava em seu ápice e Tito acabou vencendo o medo, não o suficiente para adentrar novamente ao milharal, mas permaneceu a beirada da estrada esperando sua irmã.

    — Bartira, vamos. Está tarde. — Gritava

    Por fim, após alguns minutos — que mais pareceram horas — Bartira respondeu em desespero:

    — Estou indo, Tito, estou indo.

    Assim que sua irmã apontou na estrada, toda suja e molhada, o menino agarrou sua mão e disparou.

    Durante toda a terceira, e última, semana nem a luz do sol pode convencer os miúdos a saírem de casa.

    Um fato engraçado é que no dia anterior aquela sexta-feira, eles não imaginavam — nem sequer poderiam. Durante a tempestade,

    Capitão, o porco de estimação do tio José havia quebrado o chiqueiro e fugido junto com os outros, deixando um rastro de bagunça por todo terreno.

    Quando o José ouviu ruídos tarde da noite no meio do matagal achou ser seus porcos. Agarrou a lamparina e correu para alcançar os fujões. Foi com isso que os pequenos, eufóricos, confundiram com o fogo mítico e o assobio era a forma do tio se comunicar com sua vara.

    A cena era cômica para quem assistia, o tio correndo atrás dos vultos dos leitõezinhos e os pequenos correndo de sua sombra. A noite ia caindo e o fazendeiro finalmente se cansou, oferecendo a trégua que as crianças precisavam para fugir.

    Quando mais velhos, cada um contava a história de sua própria maneira. Sempre que confrontados pelas novas crianças sobre divergências na história diziam ter ocorrido em ocasiões diferentes quando cada divindade apareceu, mas no próprio peito cada qual tinha a certeza do que viu — ou o que achou ver. Todos ainda se lembram até os dias de hoje com a nitidez dos dias de ontem.

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