jingles

  • Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim.

    Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação completa da Rádio Atlântida. De domingo a domingo, todos os horários, programas, apresentadores, intervalos e até os jingles das propagandas. Estou certo de que centenas, talvez milhares, de outros adolescentes também sabiam. Naquela época, além de acompanhar a rádio, a gente comprava CDs, copiava CDs, emprestava CDs e decorava as músicas tão fortemente que eu poderia recitar muitas delas com detalhes agora, lembrando inclusive das versões cortadas para o rádio, das versões ampliadas para os shows e das acústicas.

    Sendo sincero, a gente não tinha muito como firmar nem garantir aquela experiência. Hoje, falar em experiência ao ouvir uma música parece nostalgia besta. Mas é o que tínhamos. Se gostássemos de alguma canção, ou comprávamos o CD, ou conseguíamos uma cópia e a regravávamos, ou ouvíamos no rádio, vez ou outra, contando com a sorte de encontrá-la na programação.

    De fato, era um negócio intenso. A música pulsava, arrepiava e surpreendia. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Foi na formatura do meu primo, num agosto gelado do fim do século. Eu estava a poucos metros das caixas de som quando aquela música apareceu, inundou o salão e fisgou sem dó os meus sentidos todos por quatro ou cinco minutos. Por acaso ou não, é a minha única lembrança da festa. Só descobri o nome da música e da própria banda meses depois, quando já havia desistido de procurá-la.

    Tenho a impressão de que não conseguir as coisas tão facilmente era algo extraordinário. Impressão tardia, claro, é sempre assim. Acho que fomos enganados com aquele papo de que a tecnologia facilitaria a vida, de que a internet, por meio das infinitas conexões e blábláblá, nos daria mais tempo para ficar com a família e fazer o que gostamos. Na real, o que ocorre é o contrário. Somos escravos dos celulares até nos momentos mais pujantes. Veja: há inúmeros shows das nossas bandas preferidas no YouTube, com captação perfeita de som e vídeo, num trabalho profissional para ninguém botar defeito. Mas quando vamos a qualquer show, grande parte das pessoas filma tudo, no meio do público, mesmo suadas, espremidas e de braços erguidos. Com o desodorante em dia, espero. No geral, elas sabem que estão perdendo tempo ao registrar uma quase experiência. Sabem também que o vídeo ficará trêmulo, com o som estourado, e que o arquivo mofará em alguma pasta esquecida nos seus computadores. Mesmo assim, não deixam de gravar. Numa situação dessas, só consigo pensar que a pessoa estava, mas não estava lá. Aliás, ao gravar produziu provas de que estava; mas, de fato, não estava, entende? Confuso esse negócio de estar e não estar, né?

    Ou não. Na verdade, todo mundo sabe o que é estar e não estar em algum lugar. Lembra daquelas aulas de química que você ficava contando os minutos para acabar? Pois é. Eu mesmo era mestre nisso. Meio avoado, meio perdido, reprovei com méritos duas vezes no segundo ano do Ensino Médio. Veja só. Mas a questão não é exatamente sobre a minha gloriosa trajetória acadêmica. O problema é que a nossa vida virou um completo estar e não estar. E isso não se relaciona com a disposição para uma reflexão ou outra.

    Acho que parte das pessoas perdeu a capacidade de viver a vida, de ter experiências das mais diversas, de se distrair, de curtir uma música, de se encantar com uma paisagem, com uma pintura ou com uma fotografia. Até num ambiente preparado para uma experiência imersiva, como o cinema, há quem fique no celular. No fim das contas, a gente parece sempre atento a outra coisa, como se nossa vida dependesse de uma resposta rápida, mesmo sabendo que nada daquilo é urgente e que, do outro lado, há alguém que pouco se importa com as nossas questões. Pois é, a tecnologia acelerou as coisas, conectou as pessoas, mas também pasteurizou a realidade. Talvez o ponto seja justamente a realidade.

    Talvez a gente sinta falta de conexão real, de vida real, de coisas analógicas e palpáveis. Talvez essa nostalgia morna só ateste que estamos demorando a perceber que tudo o que temos está aqui e agora. E que quando a noite finalmente cair, quando soarem os últimos acordes, já não haverá mais tempo. E aí? Bebéu, já era, tchau, acabou…

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