jornalzinho Nonevar

  • Augusto dos Anjos, clássico da língua

    No próximo dia 12 de novembro, comemorou-se o centésimo décimo segundo aniversário da morte de Augusto dos Anjos. O poeta morreu em 1914, aos 30 anos, e sua obra é cada vez mais discutida e estudada. Augusto tem sido objeto de ensaios, artigos, dissertações e teses – e pode-se dizer que o seu coroamento crítico-editorial ocorreu em 1994, com a publicação da Obra Completa pela Editora Nova Aguilar.

    Tive um modesto papel nos bastidores dessa edição e presumo que, aos admiradores e estudiosos do poeta, interesse o que narro a seguir. Era um meio-dia de abril de 1994, estou almoçando e o telefone toca. Atendo. Um moço de nome Alexei Bueno, ligando-me do Rio de Janeiro, me pede “um favor”. E que favor? Ele primeiro me explica que trabalha na editora Nova Fronteira e, no momento, está organizando a obra completa de Augusto dos Anjos. A seguir, informa-me o que lhe falta para a edição “sair mesmo completa”: os exemplares do jornalzinho Nonevar referentes aos anos de l908, l909 e 1910.

    Esse jornalzinho circulou na Festa das Neves, tradicional evento com que se homenageava (e ainda homenageia) a padroeira da cidade. Segundo o historiador Humberto Nóbrega, Augusto escrevia no tabloide por boemia, desfastio de provinciano e até por necessidade econômica, revelando uma faceta oposta à dos seus poemas ditos sérios. Ao invés da angústia, da melancolia e das imagens escatológicas, a colaboração no Nonevar revela a jocosidade e o ludismo de um poeta mundano, atento ao ridículo dos amigos e à beleza das mulheres. Imaginei que só havia um lugar onde eu pudesse encontrar os exemplares dessa publicação: a biblioteca do referido historiador.

    Prometi a Alexei Bueno fazer o possível e tratei de me mexer. Graças a um parente comum, tive acesso aos filhos de Humberto Nóbrega – D. Nitinha e José Francisco, que me receberam com bastante cordialidade e me introduziram na biblioteca do pai. Por força de recente mudança de local, o acervo ainda estava sendo catalogado. Impossível descobrir, naquela provisória confusão, os exemplares do Nonevar. Recomendei às bibliotecárias o pedido, quase lhes implorando que se empenhassem em nome da Paraíba, do nosso amor a Augusto, da própria literatura brasileira…

    Feita a recomendação, esperei. Estava confiante e, ao mesmo tempo, cético. E cético sobretudo pelo que me dissera D. Nitinha: durante a doença do pai, “amigos” se infiltraram na biblioteca e levaram muita coisa. Teriam esses ladinos surripiado também os exemplares do jornalzinho? Diante dessa possibilidade, senti um calafrio. Eu imaginava esse material, de que se tinha apenas fragmentos no livro de Humberto Nóbrega, para sempre perdido. Com isso perdia-se significativa amostra do múltiplo talento de Augusto, que também soube (e fez) rir.

    Três, quatro dias depois, toca o telefone (sempre o telefone). E Ana, uma das bibliotecárias, me informa que os exemplares foram encontrados! Não acreditei, até manusear as folhas coloridas (um cor para cada noite), ainda bem conservadas graças ao zelo do Dr. Humberto. Apressei-me em providenciar as cópias e enviá-las a Alexei Bueno. Cerca de três dias depois ele me escreve, entusiasmado: “Recebi hoje, ao meio-dia, os dois envelopes com o Nonevar, em perfeito estado, e você pode avaliar a minha alegria!” (31/05/94).

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