Engravidou em uma de suas primeiras relações sexuais aos 14 anos. Até sabia que devia ter usado preservativo, mas não tinha em casa nem na bolsa. Havia o medo dos pais encontrarem quando revistassem suas coisas e descobrissem o que ela fazia. O namorado tampouco se preocupou em usar camisinha. Dizia que atrapalhava a foda.
Quando não dava mais para esconder a barriga, instalou-se o caos. “Meu Deus, o que você fez… E agora?”.
Os pais queriam impor um casamento. Esse tipo de união funciona como uma forma de resolver o problema. Pouco adiantaria, já que o casamento civil entre jovens de menos de 16 anos era proibido por lei.
Com 15 anos, cursando o primeiro ano do ensino médio, era apresentada ao estigma de uma gravidez precoce.
Faltavam semanas para o bebê nascer e ela nem tinha enxoval. A criança ficaria no quarto com ela. Um colchonete improvisado ao lado da sua cama. Larissa nasceu saudável, pesando 2,8 quilos. Cabelos lisos do pai e a pele morena da mãe. Uma semana após o parto, o namorado terminou. Ela já esperava. Não estava mesmo contando com ele.
Sua vida virou um tormento. O bebê chorava a noite toda, sem parar. O leite materno não a saciava. Estressada, perdia a paciência facilmente e não conseguia criar afeto pela filha. Queria viver sua vida, voltar a estudar, ter lazer. A raiva era ver o pai da Larissa saracoteando por aí e ela trancada dentro de casa, cuidando de uma criança sozinha, sem um minuto de paz. Como era uma adolescente, não tinha voz ativa. Ninguém a respeitava. Era como se ela não soubesse o que estava fazendo. Uma maternidade idiota, com sobras de culpa: “você já fez a besteira, engravidou, agora aguente”.
Foi levando. Cambaleante, resignada. Sem perceber, naturalizava o sofrimento. A ansiedade, a tristeza e o cansaço extremo eram a sua rotina. O desânimo era tanto que, quando chorava, nem vertia lágrimas. Chorava para dentro.
Só quando Larissa completou cinco anos ela conseguiu terminar o ensino médio. Deus sabe como.
Larissa completou 13 anos e sua mãe adotou uma postura diferente sobre educação sexual. O inverso daquilo que havia vivido: conversava com ela e se colocava como exemplo. Como se fossem colegas de rua ou da turma da escola. A pouca diferença de idade ajudava. Eram diálogos francos e claros. Ficaram muito parceiras. Alguma coisa teria de jogar a favor.
A vida seguia amiga e sorria para Larissa. No colégio, as colegas a tinham como modelo. Mais charmosa que bonita, conselheira e presente, Larissa era a tal, sem ser a maior. Razoável nos esportes, satisfatória nos estudos e admirada pelos garotos. Não repetia de ano e os professores a adoravam. Larissa era a compensação de todas as renúncias e privações pelas quais a mãe havia passado. No final, o certo pelas linhas tortas. Tinha valido a pena.
Perto de fazer 14 anos, Larissa conheceu um menino mais velho, paixão repentina. Tudo ia bem. Antes de decidir ter relações, começou a tomar pílulas. Para garantir, escolhia os dias anteriores à menstruação para transar. Não satisfeita, e alertada mil vezes pela mãe, pedia para o menino colocar a camisinha. Se possível que gozasse fora. O namorado queixava-se de que ela era neurótica. Com razão.
Alguma coisa, no entanto, não se encaixava. Larissa, comportamento padrão, orgulho da mãe, exemplo de aluna e namorada precavida, no íntimo, sentia falta de algo que não sabia explicar. Sofria e era perseguida por um desejo íntimo e quase irrefreável de fazer algo errado, falhar, pisar na bola ou cometer um deslize. Queria ser menos admirada e mais temida. Segurava o quanto dava.
Na festa de aniversário de uma prima, Larissa se encantou por um dos convidados. Bebeu além da conta, fumou escondida e dançou sem parar, sempre pensando no tal rapaz. No fim da festa, ninguém viu Larissa sair abraçada com ele. Naquela noite, ninguém nem o diabo iria segurá-la.
De alguma forma, se sentiu aliviada. Feliz como há muito e sem motivo.
Larissa viu sua menstruação atrasar. Pensou no pior. Mais dois dias e o teste de urina da farmácia confirmava a gravidez.
O namorado, ao saber, sumiu. Alegou ser impossível ele ser o pai. Com razão. Depois de tantas precauções…
Larissa chegou a pensar em entrar em contato com o menino da festa, mas não teve coragem. Nem se lembrava direito do nome dele. Uma noite só bêbada, livre e solta e, no fim, grávida? Só podia ser uma praga lançada sobre sua família. Nem imaginar contar à mãe. Ela não entenderia.
Optou pelo aborto clandestino. Após o procedimento, uma hemorragia. Além da infecção, uma lesão uterina agravara seu estado e, como consequência, o veredito de que dificilmente voltaria a engravidar.
Ao receber a notícia, Larissa não se abateu. Quando revelou a sua mãe que não poderia mais ter filhos, viu-a feliz e apaziguada com a notícia. Dos males, o menor.
Para Larissa, a partir de agora, a vida começaria a ficar realmente animada…