leitoa

  • A Porca

    Tem uma porca no escritório. Uma porca de verdade, uma leitoa, e parece estar grávida. Chegou de repente na agência de publicidade onde trabalho como se fosse mais um cliente querendo criar anúncios para um novo produto. Olha em volta estranhando o lugar e procurando, sem encontrar, uma maneira de cair fora dali. Fuça nas latas de lixo, mas ali só há papel. Não é violenta, não emite sons agressivos e não procura atacar ninguém. É apenas uma porca deslocada de seu habitat natural.

    É um bicho enorme, corpulento, deve parir uns dez leitõezinhos por vez. O formato retangular e cheio de mesas e cadeiras do escritório não ajuda em nada, já que a coitada deve sentir falta de um espaço aberto e cheio de lama onde se esparramar. E ela deve gostar de calor e de sol, não desse ambiente com ventilação sempre ligada na potência máxima, congelante no verão e insuportavelmente quente no inverno. Pensei em matá-la e chamar os bombeiros para a remoção do corpo, mas acho que o diretor de redação não trouxe a espingarda (ele já trouxe a arma uma vez ao escritório, dizendo que tinha ido caçar capivaras, e ninguém disse nada).

    Se eu fosse opinar, diria que é uma porca muito bem alimentada em alguma fazenda de milionário. A enorme barriga não deixa dúvida: está prenha e não deve demorar a dar à luz. Que isso não ocorra aqui no escritório, pelo amor de Deus!

    Move-se entre as mesas e as cadeiras conforme pode, considerando o seu tamanho e o espaço ocupado pelos móveis da sala. Vagueia sem rumo e, enquanto anda, mexe as orelhas como ventiladores e o rabinho minúsculo, desproporcional ao seu tamanho, como um fio de telefone antigo espetado na parte traseira do corpanzil. Parece um bicho calmo, que pensa devagar no que fazer, sem pressa ou ansiedade. Avança pelo espaço do escritório como se conhecesse o caminho, seus olhinhos examinando tudo ao redor com atenção.

    A turma toda do escritório agora só tem olhos para ela. Quem não olharia para uma porca passeando tranquilamente pelo carpete do escritório, com suas patas sujas de lama? A bicha, no entanto, parece não se importar com nada ao seu redor. Todos a observam, mas ninguém diz nada, incapazes de falar sobre esse acontecimento extraordinário. Miguel, um dos diretores de criação, abre a boca como se fosse dizer algo, mas tudo o que faz é arrotar. Deve estar na quinta cerveja, e ainda estamos no turno da manhã.

    É bastante curioso ver a porca na sala. Conseguiu interromper nosso trabalho, já que todos abandonamos as telas dos computadores e deixamos os celulares de lado para observá-la melhor. Nós, humanos, somos frágeis diante de acontecimentos que fogem à nossa compreensão e à lógica a que estamos acostumados.

    A porca, finalmente, decide sair pelo mesmo caminho por onde chegou. Usa seu peso para arrombar a porta de entrada e alcançar o saguão. Emite grunhidos, óinc-óinc, como se fizesse uma última tentativa de provocar alguém. Assim que cruza a soleira e desaparece, tudo volta ao que era antes.

    Se por alguns minutos todos pensávamos a mesma coisa sobre um bicho imenso que apareceu no escritório, agora só temos olhos para apreciar as vidas felizes que lotam as páginas do Facebook. Se por um segundo estávamos todos olhando para uma porca, agora prestamos atenção na sala do gerente de contabilidade, de onde saem gritos dele dizendo a outro colega para, por favor, tomar um banho porque ele está fedendo. Se por um momento cogitou-se falar do bicho gigantesco, agora estamos todos ocupados com nossas coisas, e ninguém se dignou a perguntar por que raios uma porca prenha entrou no escritório.

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