O meu erro foi acreditar na ternura inerente dos outros da minha espécie. Deles nunca exigi a perfeição. Não pedi que fossem anjos imaculados, muito menos que tivessem asas que os elevassem para realidades divinas onde habitam os castos.
Que fossem apenas GENTE, moldados com GENTILEZA. Com todas as limitações de sua condição. Mulheres, homens, crianças, adultos, coloridos ou brancos, com suas santas imperfeições humanas, suas variadas personalidades, suas maravilhosas diversidades. Dotados de alma e coração.
Não pedi que, de sua razão, fosse feita vaidade a lhes colocar num pedestal, acima dos bichos e das matas com quem dividem esse sagrado solo sagrado, sobre o qual exercem sua existência. Mas também não imaginava que sua oculta natureza sombria e cruel os levasse a situá-los abaixo deles.
Acreditei que a educação os tornaria mais sábios e o conhecimento mais humanos. Que a experiência lhes servisse de guia e os séculos de infortúnios os ensinaria a evitar tragédias. Que sua jornada no planeta fosse coroada de sensatez, a chave do segredo da felicidade transmitida de pai para filho e de filho para neto.
Achei que passar a agrura de momentos difíceis, lutas e destruição, os fizesse refletir, reavaliar e evoluir. Uma espiral virtuosa de contínua elevação espiritual que os levasse aos píncaros da existência até que a Terra espelhasse o Céu.
Em minhas tolas ilações não haveria espaço para que o objeto de minhas conjecturas se dedicasse a aperfeiçoar os meios de sepultar seus irmãos e submetê-los à exploração e ao sofrimento.
Progressos inimagináveis me surpreenderam, rompendo as fronteiras do milagre. Em minhas elucubrações mais profundas, não ousaria imaginar que sua voz e sua imagem pudessem cruzar os oceanos. Achei que seria bem mais fácil estreitar laços com o vizinho do lado. Que louco!
Romperam o átomo e rasgaram o manto inatingível do universo. Parecia tão mais simples permitir o acesso de seus semelhantes a itens triviais como a água e o pão.
Hoje assisto abismado máquinas ser cultuadas como deuses. Delegaram a elas o ofício de pensar, já que pensar tornou-se uma atividade inútil e fútil. Assim como já haviam se tornado a empatia, a amizade, o perdão.
Parecia razoável supor que o desenvolvimento material resultaria em desenvolvimento moral. Que as sociedades mais opulentas seriam as mais justas, que a acumulação do conhecimento reduziria a intolerância e que o avanço científico constrangeria a barbárie.
Descobri decepcionado que as pessoas não apenas toleram os maus: elas os adoram, elegem-nos, transformam-nos em mitos. Os que pregam a violência e o ódio são louvados como heróis. O caráter e a compreensão tornaram-se debilidades a ser evitadas e quem os cultiva é tachado de tolo.
Também acreditei que a humanidade reverenciaria os mares, os rios, a terra, as florestas e tudo o mais que lhe foi presenteado. Era a lógica: cuidar da própria sobrevivência e da prole era o que deveria mais importar.
O meu grande erro foi acreditar que o ser humano, ao decifrar o mundo, aprenderia a melhorá-lo. Que enxergar a luz implicaria em fugir das sombras. Que compreender resultaria em mudar, que identificar o correto acarretaria em aplicá-lo.
Não quero continuar me iludindo. Não me peçam para recuperar a ingenuidade perdida, atropelada pelas decepções do caminho. Como errante nessa estrada, resta-me o consolo amargo de saber que, apesar de tudo, fui o que menos errei.