Milton Rezende no Crônicas Cariocas

  • Poema #89: Alcunhas

    o poeta dos acasos
    o poeta das manhãs
    o poeta das areias
    o poeta da fragmentação
    o poeta das pedras
    o poeta dos inventários
    o poeta das sombras
    o poeta sentinela
    o poeta em fuga
    o poeta das ausências
    o poeta das escadas
    que deságuam
    dentro de si mesmo
    o poeta dos silêncios
    o poeta dos jardins
    o poeta das simultaneidades
    ele, às vezes, planta árvores.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #88: Adiamento

    Trago comigo meus poemas
    que ainda não foram escritos,
    simplesmente porque não se fizeram
    e nem se recolheram à sua impossibilidade.
    E vou deixando-os, portanto, para o dia
    seguinte, para a manhã seguinte, para
    a vida seguinte que não haverá.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #87: Acrobata

    um pessegueiro roxo
    braços em formas de garras
    dedos intumescidos
    pernas retesadas.

    quando estamos dormindo
    tudo parece fácil:
    pé fora da cama
    e acrobacia de quedas.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #84: A Solidão do Poema

    O poema
    necessita de um outro
    poema
    assim como o poeta
    necessita
    de uma con/vivência poética.
    Os versos
    não nascem do nada
    assim, exclusivamente,
    inspiração.
    A noite
    precede o sopro lírico
    e ambos se integram
    ao poema acabado.
    O poeta,
    este ser solitário,
    desce das montanhas
    de seus sonhos
    para recolher os fragmentos
    da realidade dos homens,
    e com eles constrói no poema
    uma unidade hipotética.

    O Acaso das Manhãs

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