Milton Rezende no Crônicas Cariocas

  • Poema #91: Anos 70

    há muito que não a vejo
    calibro a saudade no peito
    alfa centauro, sorteio:
    não sei se te beijo
    ou se bebo.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #90: Alguns homens

    Aqueles que esperam
    que todos durmam
    para então se revelarem
    no escuro do mundo
    agora despovoado
    de leis e de homens
    que foram fatigados
    pela batalha diária
    de se ganhar dinheiro
    e etcetera e coisa.
    Aqueles que se recolhem
    quando todos já acordados
    recomeçam o ciclo da vida
    subitamente interrompido
    para o ensaio da morte
    e que assim em movimento
    não percebem os sonhos
    espalhados na noite
    por gente incógnita
    que digere o mundo
    para o sustento possível
    de uma impossível unidade
    comum a todos os homens.
    Aqueles para quem só é viável
    o diálogo com os mortos
    cuja imobilidade revela a calma
    do que antes fora ânsia
    ou simples impulso de debate
    contra uma série de coisas
    que só se percebe neutras
    depois que se morre.
    Aqueles seres anônimos
    que constroem uma realidade
    paralela à admissível pelo dia
    e que não obstante
    substitui o espaço de tempo
    necessário ao aprimoramento dos homens
    até que se consiga
    a hipotética convergência da raça
    afinal reconciliados em espécie e sub.
    Aqueles que com seus hábitos
    são uma curiosidade para todos do circo
    e um enigma para si mesmos, palhaços
    sem plateia e sem palco nesta vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #89: Alcunhas

    o poeta dos acasos
    o poeta das manhãs
    o poeta das areias
    o poeta da fragmentação
    o poeta das pedras
    o poeta dos inventários
    o poeta das sombras
    o poeta sentinela
    o poeta em fuga
    o poeta das ausências
    o poeta das escadas
    que deságuam
    dentro de si mesmo
    o poeta dos silêncios
    o poeta dos jardins
    o poeta das simultaneidades
    ele, às vezes, planta árvores.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #88: Adiamento

    Trago comigo meus poemas
    que ainda não foram escritos,
    simplesmente porque não se fizeram
    e nem se recolheram à sua impossibilidade.
    E vou deixando-os, portanto, para o dia
    seguinte, para a manhã seguinte, para
    a vida seguinte que não haverá.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #87: Acrobata

    um pessegueiro roxo
    braços em formas de garras
    dedos intumescidos
    pernas retesadas.

    quando estamos dormindo
    tudo parece fácil:
    pé fora da cama
    e acrobacia de quedas.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #84: A Solidão do Poema

    O poema
    necessita de um outro
    poema
    assim como o poeta
    necessita
    de uma con/vivência poética.
    Os versos
    não nascem do nada
    assim, exclusivamente,
    inspiração.
    A noite
    precede o sopro lírico
    e ambos se integram
    ao poema acabado.
    O poeta,
    este ser solitário,
    desce das montanhas
    de seus sonhos
    para recolher os fragmentos
    da realidade dos homens,
    e com eles constrói no poema
    uma unidade hipotética.

    O Acaso das Manhãs

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