Mulheres

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • Mulheres são de Vênus

    Mayra abre a porta de casa afobada. Sabia do compromisso importante que teriam para o jantar, mas acabou se atrasando.

    Ao entrar, escuta um barulho no quarto e relaxa — Solano ainda deve estar se arrumando. Subiu as escadas já avisando:
    — Só demoro cinco minutos, amor!
    — Cinco minutos mesmo? Grita, lá de cima, o marido. — Já estou de saída.

    GLFM (Guia de linguagem F/M)
    “Demoro 5 minutos” — A maioria das mulheres demora, em média, 40 minutos para se arrumar antes de sair de casa. Esta frase significa que, provavelmente, ainda nem escolheu que roupa vai vestir.
    “Já estou de saída” — A maioria dos homens reage com essa frase. Significa que, provavelmente, eles ainda nem entraram no banho.

    Mayra entra no banheiro e logo pede espaço, para colocar o que vai usar: 2 tipos diferentes de Xampu, secador de cabelo, escova circular, mousse modeladora, spray, base, blush, rímel… e assim vai espalhando seus mil e um pertences por cima da bandada reservada a Solano que, timidamente, havia colocado seus cinco objetos de uso pessoal: escova de dentes e creme dental, barbeador, loção, desodorante e uma escova de cabelo.
    — Amor, dá pra encostar suas coisinhas mais pra lá? Não está vendo que preciso de mais espaço?
    — Minha linda, precisa mesmo de tudo isso?
    Mayra se limita a dar um bufo silencioso. Ele ignora e continua fazendo a barba.

    GLFM (Guia de linguagem F/M)
    Duas regrinhas:
    A quantidade de objetos no banheiro é proporcional às necessidades de cada um e é inquestionável.
    As mulheres são mestres da linguagem não verbal — um bufo vale mais que mil palavras.
    Os homens nem sempre entendem esses sinais.

    Banho tomado, ela inicia o processo complexo de secagem do cabelo, enquanto aproveita para conversar com o marido sobre o grau de formalidade do jantar a que foram convidados e o que ele acha que ficaria melhor ela vestir. Não escuta nenhuma resposta, então insiste:
    — Solano, tá me escutando? Te fiz uma pergunta… (Aproveita para cuspir a pasta de dentes e mandar um oi pelo WhatsApp para a faxineira usando a mão livre.)
    — Oi? Amor, não vê que estou tentando dar o nó na gravata? Agora não dá!

    GLFM (Guia de linguagem F/M)
    Os homens só fazem uma coisa de cada vez. Sei que é difícil entender isso, mas é verdade.
    As mulheres fazem várias coisas ao mesmo tempo.

    Mayra volta ao tema do traje para o jantar. Três opções em cima da cama, Solano já sentado numa cadeira, com a perna tremelicando de impaciência. Ela havia selecionado versões parecidas, mas em tons que iam do branco ao creme.
    — Que sê acha? Entre essas cores, o que combina mais com o evento de hoje? Qual delas dá um ar mais sofisticado?
    — Solano: Cores? Mas os vestidos não são todos brancos? Talvez seja melhor usar um vermelho, já que quer ir mais chamativa.
    — Desistoooo! Você nem olhou direito, nem entendeu a pergunta, não está vendo que as cores são diferentes?

    GLFM (Guia de linguagem F/M)
    Há coisas que só as mulheres percebem.
    A diferença entre as cores branco, creme, bege e branco-pérola; ou entre tons rosa de batom.

    Finalmente prontos, Solano faz a pergunta fatal:
    — Vamos de carro ou chamamos um Uber?
    — Mayra: Você que sabe…
    — Então vamos de carro, é mais confortável.
    — DE UBER, criatura!

    GLFM (Guia de linguagem F/M)
    Além de erro de interpretação do “você que sabe”, faltou lembrar que a última palavra é sempre da mulher. Qualquer coisa que um homem disser ao final de uma discussão já é o início de outra.

    SALVE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER!!!

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