Nossa Senhora da Imaculada Conceição

  • Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash)

    Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre os moradores de um prédio acerca da vizinha nova, que teria sido capa de uma revista voltada ao público adulto. Apesar de ser uma mulher discreta e gentil, as pessoas entram em frenesi em nome da moral e dos costumes. Não é uma característica estritamente brasileira, mas a cruzada conservadora resiste firme nessas terras no século XXI. Outra reflexão minha é que os autores de sua época precisavam ver o mundo lá fora para buscar seus temas. Isso mudou bastante. Agora, basta um pequeno gesto de dedo na tela de um aparelho para encontrar o assunto que está na boca do povo. Daí, apareceu para mim outra mulher que, ao contrário da suspeita desinibida, é uma santa. Literalmente. A mulher que todos comentam e que exigem uma atitude a respeito da vez é Nossa Senhora Aparecida.

    Escolhida como padroeira do Brasil, ela pode ter repensado se isso foi uma boa ideia. Nos últimos dias, as redes sociais se dividiram entre sua defesa como um símbolo de esperança e sua condenação como uma emissária das trevas. A fábrica da internet, como num sonho febril fordista, produziu conteúdo com velocidade quase impossível de acompanhar. Ainda assim, alguém deve ter consumido o suficiente a ponto de protocolar perante um tribunal (real, não virtual) sua proibição e conseguir. Como o show não pode acabar, pouco antes de me sentar para escrever esse texto, num domingo, essa decisão havia sido revertida por outro juiz. Sabe o vídeo do Porchat (não o de denúncias, o outro em que ele interpreta um jornalista exausto de tantas novidades)? Até esse texto ir ao ar, que é numa terça-feira, estou tão convicto de que haverá mais desenvolvimentos que dispensei o powerpoint (piada antiga, mas ainda válida). Diante de tanto estímulo de informações, resta-me uma interjeição de espanto ou admiração popular entre os brasileiros: “Nossa Senhora!…”

    Se dizem que Deus é brasileiro, concordo que uma atribuição similar pode ser posta para Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ou “Aparecida” para os íntimos. Sua associação com o povo brasileiro remete ao começo do século XVIII e mantém-se em voga desde então. Da fé e dos milagres aos chutes e xingamentos, a santa, fazendo jus ao nome, aparece com frequência quando pensamos em uma figura sacra, seguida por outros favoritos, como São Jorge ou Santo Expedito. Além do catolicismo, sua imagem representa um orixá, Oxum, que, como em sua forma original, define fertilidade e acolhimento. Também há uma canção muito conhecida dedicada a ela, e se você cresceu nos anos 90, como eu, com certeza já a ouviu num especial de natal televisivo. E atua com um nome diferente, porém similar, Compadecida, numa peça adaptada inúmeras vezes para palco, televisão e cinema, todas com sucesso. Aparecida é a padroeira do Brasil, e os brasileiros fazem questão de lembrar disso, seja numa maneira boa ou ruim. Se o papa é pop, assim é a Virgem Maria. Ela está entranhada na cerne da identidade brasileira. Logo, qualquer proposta de extirpá-la ou diminuí-la causaria um ruído alto e inevitável.

    ]O barulho foi tamanho que trouxe do oceano da memória uma entidade adormecida. No caso, a aliança entre membros da sociedade civil e religiosa num campo progressista. Chega a ser engraçado ter ateus e católicos num diálogo em comum para o respeito das diferenças e crenças, enquanto outro lado determina a imposição de sua perspectiva. Setores de um lado com histórico conservador defendendo liberdade democrática e soberania do país. Acho que isso não ocorria com tamanho peso político desde os anos 70. O outro agindo com a disposição retrógrada que foi o fator original que provocou a ruptura dentro do cristianismo, como a intolerância ao convívio entre linhas de pensamento diferentes à defesa aos jogos de azar (afinal, a venda de indulgências na Idade Média não seria uma espécie de aposta?). Seria o mistério da fé? O Brasil não é para amadores, mas especialistas em Teoria do Caos. Os criadores de memes não podem reclamar. Por isso, Nossa Senhora Aparecida assumiu a função de Padroeira da nação. Na maioria das vezes, é preciso uma mãe para pôr ordem na casa.

    NOTA: Circula nas redes sociais a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. A confusão pode estar relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que propunha alterar a denominação de Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. A campanha de Flávio atribui a disseminação do boato a adversários políticos, mas essa afirmação deve ser tratada como alegação da própria campanha, não como fato comprovado. Até o momento, não há evidência de que essa mudança faça parte do programa de governo do candidato.

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