Durante a noite, eu havia escutado trovoadas. Imaginei uma grande luta no céu. As nuvens, o sol, a lua e as estrelas numa verdadeira batalha, disputando quem reinaria no novo dia que se aproximava. Um elegante duelo de Titãs.
Amanheceu. Para meu espanto, o sol havia perdido. As nuvens, um pouco arroxeadas, mostravam os sinais de que havia sido uma grande luta. Elas estavam carregadas de chuva, haviam dominado o dia e deixado meu amigo sol em total nocaute.
Nesse clima melancólico, sentado no meu apartamento, contemplando o céu com aquelas cores tristes, fiquei lembrando dos tempos áureos dos jornais impressos.
Não me recordo disso como um profissional da redação, mas como um mero e assíduo leitor.
A saudade do bom e velho jornal de papel. Poucos periódicos ainda se aventuram nesse universo.
Era um verdadeiro ritual. Quem era assinante aguardava em casa a chegada do jornaleiro. Este chegava cedinho, antes do amanhecer. Era possível tomar café da manhã e ler o jornal ao mesmo tempo. Era um luxo.
Para os leitores eventuais, o que restava era encontrar uma banca de revistas e comprar o jornal preferido, colocá-lo debaixo do braço e correr para o trabalho.
O cheiro da tinta tomava conta do ambiente. As mãos, em contato com o papel, adquiriam uma textura especial e os dedos ficavam manchados com uma pigmentação escura.
Surgiam as notícias mais importantes estampadas na capa e na contracapa.
Assuntos sobre política, guerras, futebol, acidentes e as tragédias espalhadas pelo mundo ocupavam esses espaços.
Alguns leitores liam o jornal quase por inteiro. Outros, somente as matérias de que mais gostavam. E havia aqueles que queriam ter assuntos e argumentos para os tórridos e infindáveis debates.
Eram tantas as informações que se podia agradar a todos os públicos.
Eu notava pessoas fazendo palavras cruzadas ou simplesmente as “cruzadinhas”.
Alguns ficavam horas debruçados sobre elas e, quando terminavam, tinham um ar de vitória.
Outros ficavam encantados lendo as histórias em quadrinhos, também conhecidas como “tirinhas”. Os personagens eram hilários e arrancavam gargalhadas dos leitores. Cada jornal tinha seu próprio elenco. Eu me recordo da Turma da Mônica, do Sofrenildo, do Capitão Cipó e do Peanuts.
Futebol e política eram os assuntos que mais geravam discussões. Por isso, era bom ficar por dentro do que estava acontecendo.
Falava-se das novas contratações, das trocas de técnicos e de quem estava próximo da zona de rebaixamento. Tudo era narrado nos mínimos detalhes.
Se o time do coração ganhasse, seus torcedores procuravam os adversários para fazer piadas. Se perdesse, fugiam dos perseguidores incautos. Alguns nem saíam de casa com medo de virar chacota. Era bom estar bem informado. O povo adorava.
Às vezes, cinco pessoas ou até mais se reuniam em algum banco de praça, discutindo as últimas notícias. Era muito divertido passar por perto e ouvir todo aquele falatório caloroso.
Quando o assunto era economia, era um horror. Inflação, subida dos combustíveis, desvalorização da moeda e aumento do dólar.
Alguns leitores passavam essas páginas e ficavam com os cabelos em pé. Aqueles que ainda tinham cabelo, é claro.
As páginas policiais estampavam a violência. Eram notícias sobre assaltos, assassinatos, crimes de toda a natureza e o acompanhamento dos principais julgamentos criminais.
O que eu realmente não gostava de ler era o obituário. Era como se estivéssemos sempre na expectativa de encontrar o nome de algum familiar, amigo, vizinho ou alguém próximo. Muita gente também concordava comigo e ficava longe dessa parte do jornal.
Mas, enfim, hoje temos tudo isso e até mais quando se fala em jornalismo. As notícias chegam em tempo real. Não precisamos esperar a próxima edição para ficarmos atualizados.
Mas nada me impede de sentir saudades das velhas páginas dos jornais impressos. Nostalgia jornalesca.
E você também sentiu um pouco da nostalgia jornalesca?