oficinas literárias

  • O último livro

    “A literatura não pode ser medida pela quantidade de pessoas que gostam do seu texto. Sua escrita deve refletir o que o seu coração gosta. É a honestidade que você tem consigo que deve prevalecer”. A frase, retirada de um artigo da crítica literária Zelda Diniz, era lema para novos autores.

    As oficinas literárias oferecidas por ela eram concorridas. Sua didática não poderia ser classificada como tradicional. Seu método de ensino costumava gerar controvérsias e, não raramente, atritos. Desde pequena, voraz leitora, Zelda sonhava se tornar uma escritora de sucesso. Formada em Letras, dominava vários idiomas e havia concluído Mestrado e Doutorado pela Universidade de Bristol, no Reino Unido. Mesmo tendo contato com clássicos da literatura, poesia e prosa, seu texto artificial e farto de academicismos não apresentava nada de inovador ou interessante. Um fiasco como romancista. Daí suas frustações e recalques que transferia para severas avaliações dos candidatos literários. Era incomum Zelda elogiar um texto. O normal eram as críticas ácidas e impiedosas. Quanto mais falava mal dos autores, mais respeitada no meio ficava.

    Zelda escrevia semanalmente para o jornal e algumas vezes para revistas especializadas de literatura. Editoras também contratavam seus serviços de análise de originais. Pouquíssimos escapavam de seu crivo rigoroso e de sua inerente má vontade, sobretudo os novatos. Sua palavra final sobre lançamentos era considerada. Os aspirantes a escritor a temiam e veneravam.

    Ela não contava a ninguém, mas trocaria, sem pensar, o êxito como crítica por um bestseller popular. Um livro de contos ou uma mísera coletânea poética de sucesso. O reconhecimento como autora, independente do aval de críticos iguais a ela. Sofria por não ter criatividade.

    Foi quando recebeu em casa um envelope contendo originais do que aparentava ser um romance. Dentro um envelope menor, uma carta explicando o motivo: “Me chamo Joel Santos, sou um ex-policial aposentado e meu sonho é poder publicar minha história. Sua opinião é importante para mim, é a primeira coisa que escrevo na vida. Agradeço sua atenção”.

    Zelda nem deu bola e guardou o envelope numa estante qualquer.

    Meses depois, arrumando suas coisas, deu de cara com o envelope. Não se lembrava como aquilo tinha parado ali. Começou a ler e não conseguiu parar. De uma tacada. Era brilhante, brutal, tinha estilo. Uma narrativa autêntica e com ritmo intenso. Quando terminou de ler, considerou procurar o autor. Depois, pensou melhor e resolveu esperar.

    Relendo, percebeu que havia palavras repetidas, algumas incoerências e excesso de palavrões. Ela poderia melhorar a escrita. Analisou, com carinho, possíveis ajustes no enredo. Na verdade, um simples copidesque.

    O romance do tal Joel tomou conta da sua cabeça. Ela não fazia outra coisa, debruçada sobre o texto, a interpor metáforas e subtextos. Incluiu passagens pessoais e explorou os desejos inconscientes dos personagens. Agora sim, na sua opinião, o romance estava completo.

    E o que fazer? Os originais eram do outro. Considerou propor uma parceria. Mas, afinal quem era esse Joel, ex-policial? Um pé-rapado que nunca se imaginou escritor. Melhor seria que permanecesse assim.

    Decidida, levou os originais a uma editora e assumiu a autoria.

    O livro tinha tudo para ser sucesso. Bastaria uma forte atuação do marketing. O nome da autora ajudava.

    Livro lançado, noite de autógrafos, entrevistas, resenhas favoráveis, tudo ia bem. Zelda sentia-se apaziguada com sua arte: crítica renomada e, agora, em vias de ser reconhecida como escritora. Sonho de criança.

    Durante a divulgação do novo livro, uma nota nos jornais comoveu o meio literário: “Famosa crítica foi encontrada morta, em seu carro, com três tiros, dois na perna esquerda e um na testa. Não se sabe ainda o motivo”.

    Com a notícia de sua morte, o livro de estreia de Zelda Diniz entrava na lista dos mais vendidos.

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