Dizem os entendidos que nossa percepção de tempo muda conforme nossa idade avança. Para eles, quanto mais velhos nos tornamos, mais rápido parece ter o tempo passado diante de nós. Nossas velhas e entediantes rotinas restringem nossos aprendizados, deixando pouca margem para que eventos marcantes sejam registrados como experiências enriquecedoras. Sem novidades a serem contabilizadas, nossos cérebros compactam o tempo vivido, sem tantos marcadores a serem lembrados. Assim, com o habitual desgaste a que somos submetidos dia após dia, não é de se admirar que sempre nos surpreendamos com os primeiros enfeites de Natal sendo dispostos pela cidade.
— Meu Deus, mais um ano que termina! Como passou rápido! — exclama Madalena, ao ver a árvore natalina de seu bairro sendo montada pelos funcionários da Prefeitura.
Uma forma de mitigar os efeitos nefastos e degenerantes dessa inglória luta contra o tempo é organizar a vida em torno de datas especiais. Se as contingências que se abatem sobre todos nós despertam dúvidas e receios, nada mais salutar do que fazermos planos e metas, de acordo com um calendário solar que divide o ano em doze meses. Madalena ignora que o tal calendário é chamado de gregoriano por ter sido promulgado pelo quinhentista Papa Gregório XIII, mas tem nessa convenção social o grande marco que organiza sua vida. Para ela, todo fim de ano é ornamentado não apenas com as tradicionais decorações de Natal, como também com as recorrentes promessas e metas para o ano vindouro.
Aprender a tocar violão, estudar espanhol, fazer academia, emagrecer. A cada fim de ano, novos itens são adicionados, mas velhos propósitos inalcançados sempre voltam a habitar sua dezembrina lista. Mais do que metas a serem atingidas, esses itens acabam se tornando meros sonhos longínquos e idealizados. Apesar disso, compõem eles uma espécie de seiva da qual Madalena se alimenta com o intuito de acreditar que o ano seguinte será um período de intensas realizações e conquistas. Não importa o quão arbitrário pode ser a divisão de uma vida em diferentes anos, cada qual formado por doze meses. Para ela, a esperança de que o futuro reserva-lhe alguma prosperidade supera qualquer ceticismo quanto ao poder de renovação de que uma boa virada de ano dispõe.
Desde muito jovem, Madalena é uma pessoa apegada a certas datas comemorativas. Para ela, entre tantos dias a serem comemorados, destaca-se, por seu simbolismo e sua capacidade de renovação, o Ano Novo. Madalena acredita, piamente, que os fogos de artifício da meia-noite do dia 1º de janeiro carregam em si a possibilidade de um recomeço para tudo aquilo em que falhamos nos doze meses precedentes. Se relato com admiração esse gosto de minha amiga Madalena, não o faço com o olhar mesquinho e desdenhoso de um inquisidor. Longe de mim a prepotência e a arrogância! Mas não posso deixar de notar que, a despeito de uma desgastada crença que se instalou em seus rituais de fim de ano, suas esperanças são, anualmente, renovadas com o mais vívido e honesto otimismo.
— Beto, sinto que o próximo ano vai ser diferente. Vai ser um ano de muitas conquistas para nós dois — confidencia uma empolgada Madalena para seu desesperançado amigo Roberto.
Sinceramente, desconheço o que pode incitar uma pessoa a acreditar que o Réveillon seja tão especial. Para além do galicismo de seu nome, talvez o diferencial esteja na comida, na bebida e nas roupas que não vemos durante todo o ano. Talvez sua distinção esteja, justamente, naquilo que não podemos mensurar por meios racionais e lógicos. Sem sombra de dúvidas, o que posso afirmar, no entanto, é que o vigor que essa data é capaz de injetar em pessoas como Madalena funciona como um bálsamo contra a brevidade de nossas vidas e a impertinência do tempo. Não conseguiria imaginar minha amiga, com todo o esplendor de sua jovialidade e de sua espiritualidade, sem as suas inofensivas listinhas de dezembro.
Não sei o que será de mim no próximo ano. Tampouco sei o que será de Madalena no ano que se avizinha. Mas creio ser essencial encontrar, assim como ela, uma espécie de antídoto contra a sensação de que o tempo tem sido implacável com meus sonhos mais antigos e pueris. Pois bem… Apesar da correria desenfreada, dezembro ainda nem começou e há tempo para aderir ao ritual “madaleniano”. Quem sabe não me torne, também eu, mais um adepto das listas com metas para o Ano Novo? Por que não?