Passou o tempo de roubar amoras

  • Passou o tempo de roubar amoras

    “Passou o tempo de roubar amoras, mangas, goiabas e mexericas no quintal do vizinho”.
    Elias José, em “Cantigas de adolescer”

    Nunca fui de subir em árvore.

    Fui um menino tímido.

    Era ruim de bola e não subia na laje para soltar pipas.

    Mas teve um acontecimento que me deixou um gosto de aventura: foi quando, pela primeira vez, eu ouvi “I want to hold your hand”, dos Beatles.

    Eu não sabia quem eram os Beatles. Não sabia nadinha de nada de inglês. Mas, quando ouvia aquela música, não conseguia ficar parado, dava vontade de dançar, de cantar, de rir, de rodopiar pela sala.

    A música tocava no intervalo de um jogo de futebol, na hora da propaganda. Não me interessava o jogo, quem ganhava ou quem perdia, a bola rolando pouco me interessava. Eu queria a música, aquele trecho, que não era de tocar no rádio lá de casa.

    Mas aí veio um homem rabugento, acho que era amigo do meu tio, que estava com o controle remoto. Quando me viu, o danado, gostando tanto assim dos Beatles, fez pirraça e tratou de ver o jogo em outro canal. Não adiantou espernear, nem falar nada. Minha mãe viu meu desespero e me levou para passear no quintal.

    Doeu mais do que joelho ralado, mais do que se tivessem furado a bola de futebol, era pior do que repetir de ano. Depois daquilo, eu teria que esperar tocar no rádio.

    Hoje ouvi “I want to hold your hand”. A infância, há muitos anos, ficou para trás. Passou o tempo de roubar amoras, de jogar bola na rua, de ter medo do escuro, de chegar em casa com o corpo cheio de poeira. Mas se pensam que me dou por vencido, se enganam. O passaporte para minha época de menino é a velha canção dos Beatles. Viajo para lá quando quero e volto quando me dá na telha. Depois de muito viver e muito estudar, canto juntinho com os Beatles a música toda. De cor e salteado. Ninguém desliga o som, não preciso esperar o intervalo da televisão, nem preciso de controle para dançar e cantar. Chegou o tempo de ter um notebook e convém aproveitar.

    Hoje, ao ouvir “I want to hold your hand” sinto que minha infância volta, inteira, apagando tudo ao redor. Com a imaginação viajo para onde eu quiser. Por isso escolhi o ofício de escrever.

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