pique-esconde

  • Dores do lar

    Só de pensar me constrange. Minha priminha vinha à minha casa para passar os finais de semana nas férias. Brincávamos muito, de pique-esconde, de pega-pega, de pião, de brincadeiras ditas de menino e de menina, sem nenhuma maldade. Nossa relação era de puro amor e afeição. Quando ela viajou para os Estados Unidos e passou quinze dias lá, morri de saudade, chorava, porque não tinha a sua presença – disso eu me lembro, a escutar músicas românticas que atiçavam a saudade, como A-ha e Michael Jackson. Tínhamos a mesma idade, com a diferença de menos de seis meses – nascemos em 1981. Estudávamos na mesma sala, e éramos verdadeiros irmãos. Numa das férias, como de praxe, Virgínia foi à minha casa para passar o final de semana. Meu pai era um bêbado desvairado. Minha mãe, uma pobre coitada submissa. O tal passou uma sexta e um sábado inteiros de bebedeiras. Chegou à casa, e isso eu presenciei, puxando a cachorrinha, de quatro patas no chão. Ainda gritando, querendo comida e a sua garrafa de whisky na mesa. Lá foi dona Lourdes atrás de arrumar o banquete do rei, e ai dela se deixasse meia-boca: era, com certeza, uma surra bem dada que levava. Ele continuou bebendo. Ele nunca fez um carinho em mim. Ele nunca cuidou de mim. Virgínia tinha medo, e eu a protegia. Ela, nos últimos tempos, relutava em ir à minha casa. Eu não podia ir à sua porque meu pai não deixava, que lugar de menino é perto de macho, e ele se intitulava o mais macho de todos. Não. Na verdade, ele avistava uma presa. Virgínia tinha dez anos na época. Era uma menina linda, animada, extrovertida, mas muito ressabiada. Nesse dia, a chamei para que dormisse comigo, na minha cama. Ela não quis, preferia ficar só. Tremia-se de medo, mas permaneceu assim, sem conseguir dormir – nem eu. Os gritos faziam com que o tremor aumentasse; ela estava em pânico. Fingi que estava dormindo. Às 2h30min, o canalha entrou no nosso quarto; sentou-se na beirada da cama dela e tentou alisar o seu corpo. Ela pulou e deu um grito. Todos em casa ficaram em alerta máximo. Eu seria capaz de matá-lo. O bêbado safado saliente saiu de mansinho, como se não tivesse acontecido nada. Mamãe sequer veio ao quarto para ver o que estava acontecendo, por medo. Ainda hoje, nas minhas análises, me questiono sobre a fraqueza de minha mãe, que não tinha sequer condições de se proteger. Resultado: nunca mais Virgínia, minha linda prima, veio à minha casa me visitar. Ela foi proibida de ter contato com a nossa família, mesmo após meu genitor nos haver abandonado. Tempos depois soube que ele foi preso por atentado ao pudor e importunação sexual. Velho safado. Que morra no inferno! Fez mal a mim e a minha mãe enquanto pôde. Escorado, pegava à força o dinheiro da minha mãe, professora do Estado, que já não é essas coisas todas, e ficava com boa parte dele. Eu teria condições de estudar num colégio particular, mas passei a estudar em um público porque não sobrava dinheiro para nada, além da alimentação básica. O que terá feito Virgínia (Nininha, como eu a chamava)? Foi embora para outro país? Perdemos inteiramente o contato, porque ela era da família do amaldiçoado do meu genitor. Não a esquecerei, por puro amor, um amor juvenil, puro, nada de fantasia sexual; ela era a minha melhor amiga. Ainda vou encontrá-la, antes do fim do mundo.

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