Poema #05: Cântico

  • Poema #05: Cântico

    “Ninguém me diga: vem por aqui.”
    Preciso traçar meus próprios caminhos,
    vencer os penhascos, aos tropeços,
    me lançar por trilhas inesperadas.
    Ser ovelha é uma pele que não me pertence.
    Prefiro ser cabra-montês,
    galgando penhascos tortuosos e solitários,
    onde o vento fresco assobia
    e a vista se alonga à procura de novas trilhas.

    Minha vida se desprendeu do varal,
    rodopiou pela vizinhança em turbilhão,
    como uma pipa multicolorida,
    a rabiola se retorcendo em busca de novos ventos.
    Por vezes, tombada ao chão,
    parecia perder o rumo.
    Mas outra ventania a arrebatava
    e ela se erguia em busca de novos voos.

    Uma onda invadiu minha praia,
    trazendo a espuma branca e efervescente da esperança.
    Batizou meu corpo com seu sal,
    me brindou com a sabedoria das marés:
    chegadas e partidas que deixam na areia
    os desenhos de sua passagem.

    Pois a hora do sim é um descuido do não.
    Não sei por onde vou.
    Não me pergunte.
    Meu caminho vai sendo traçado durante a jornada,
    sem mapa, sem bússola,
    guiado apenas por um pulsar
    que me faz mudar de rumo nas encruzilhadas da vida.

    Não sei para onde vou.
    Vou pela vida afora
    e me surpreendo a cada chegada.
    Me encanto, desfruto.
    Se desencanto?
    Sigo a marcha.
    Sem pressa,
    tocando os dias,
    em busca do pote de ouro no fim da estrada,
    que só meus olhos conseguirão reconhecer.

    Portanto…

    “Ninguém me diga: vem por aqui.”
    Pois uma certeza eu tenho:
    Sei que por aí não vou!

    *Texto inspirado no poema “Cântico Negro”, de José Régio.

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