Poema #10: para algum lugar

  • Poema #10: para algum lugar

    há muito não via um
    trem.
    com o peito ofegante
    e os ombros dormentes,
    não por carregar latinhas e papelão
    o dia todo,
    mas algo invisível
    na corrente de seu pescoço
    pesava mais que mil cachorros.
    arfava, junto aos matos
    e entulhos, um bafo quente de boas-vindas.
    estava a menos de cinquenta passos da linha férrea.
    olhou pra cima.
    um céu sem estrelas, sem lua. outra noite sem filme.
    imagens granuladas
    invadiam sua míope memória em noites assim.
    abriu um Corote,
    sentou-se na varanda
    e uma estrela cadente 
    atravessou
    alguma história de criança.
    há muito não via um
    trem.

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