Poema #90: Alguns homens

  • Poema #90: Alguns homens

    Aqueles que esperam
    que todos durmam
    para então se revelarem
    no escuro do mundo
    agora despovoado
    de leis e de homens
    que foram fatigados
    pela batalha diária
    de se ganhar dinheiro
    e etcetera e coisa.
    Aqueles que se recolhem
    quando todos já acordados
    recomeçam o ciclo da vida
    subitamente interrompido
    para o ensaio da morte
    e que assim em movimento
    não percebem os sonhos
    espalhados na noite
    por gente incógnita
    que digere o mundo
    para o sustento possível
    de uma impossível unidade
    comum a todos os homens.
    Aqueles para quem só é viável
    o diálogo com os mortos
    cuja imobilidade revela a calma
    do que antes fora ânsia
    ou simples impulso de debate
    contra uma série de coisas
    que só se percebe neutras
    depois que se morre.
    Aqueles seres anônimos
    que constroem uma realidade
    paralela à admissível pelo dia
    e que não obstante
    substitui o espaço de tempo
    necessário ao aprimoramento dos homens
    até que se consiga
    a hipotética convergência da raça
    afinal reconciliados em espécie e sub.
    Aqueles que com seus hábitos
    são uma curiosidade para todos do circo
    e um enigma para si mesmos, palhaços
    sem plateia e sem palco nesta vida.

    O Acaso das Manhãs

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